Translação

Observando com atenção do mesmo lugar (podemos usar o relógio de Sol  construído na experiência anterior), verificamos que o Sol nem sempre nasce no mesmo sítio do horizonte e nem sempre se põe no mesmo sítio. Então onde  fica a direcção do Oriente num certo lugar? De facto, o Sol só nasce exactamente a Oriente e só se põe exactamente a Ocidente nos dias 21 de Março e 23 de Setembro (os equinócios de que já falámos). Mas, qualquer que seja o dia do ano, passado um ano (cerca de 365 dias), o Sol volta a nascer no mesmo sítio.

Por outro lado, observando ao longo do ano também do mesmo lugar mas de noite, verificamos que o aspecto do céu à mesma hora da noite não  é o mesmo todos os meses. Mas tudo se repete de ano a ano. Vemos o céu nocturno diferente todos os meses, porque a Terra se está a mover no espaço e “fica virada” para zonas diferentes do céu à medida que os meses passam (por exemplo, o céu visto de Portugal não é o mesmo em Janeiro e em Agosto, figura 1.13).

O tempo que a Terra demora a dar uma volta completa em volta do Sol não é exactamente de 365 dias, mas sim 365 dias e 6 horas, pelo que, de quatro em quatro anos, existe um ano com um dia a mais no calendário, sempre o último de Fevereiro. Esses anos são chamados bissextos

Figura 1.12 - Cartas celestes mostrando o céu de Janeiro e o céu de Agosto, vistos de Portugal. O aspecto do céu nesses dois meses é diferente em virtude do movimento de translação da Terra.

Tanto os diferentes lugares onde nasce e se põe o Sol como o diferente aspecto do céu durante os vários meses do ano são explicados pelo movimento de translação da Terra em torno do Sol.

Dizemos que o período de translação da Terra é um ano, o tempo formado por 365 dias e 6 horas. Um jovem de catorze anos já deu, portanto, 14 voltas em torno do Sol. A órbita da Terra  em volta do Sol é aproximadamente circular, como dissemos. O raio da órbita da Terra mede 150 milhões de quilómetros:

150 000 000 km = 150 x 106 km = 1,5 x 108 km = 1,5 x 1011 m.

Esta distância é muito grande comparada quer com o raio do Sol (RSol = 700 000 km  = 7,0 x 105 km = 7,0 x 108 m) quer com o raio da Terra (RTerra = 6 400 km = 6,4 x 103 km = 6,4 x 106 m). Dá muito jeito utilizar potências de dez  para indicar grandes distâncias, porque poupamos zeros. Uma potência de dez constitui o que se chama uma ordem de grandeza.   Dizemos que  a distância Terra-Sol é duas  ordens de grandeza superior ao raio do Sol (para calcular a diferença das duas ordens de grandeza, subtraímos as potências de dez, depois de arredondar a segunda para cima: 11-9 = 2). Por sua vez,  o raio do Sol é duas  ordens de  grandeza superior ao raio da Terra.

Por outro lado,  sabemos que os vários meses do ano têm um clima diferente. As quatro estações do ano (Primavera, Verão, Outono e Inverno) caracterizam-se por  tempos meteorológicos bem distintos (falamos de tempo meteorológico para o distinguir do tempo dos relógios). No hemisfério Norte, a  Primavera começa a 21 de Março, o Verão a 21 de Junho,  o Outono a 23 de Setembro e o Inverno a 21 de Dezembro, pelo que as estações dividem o ano em quatro partes aproximadamente iguais (figura 1.13).

Figura 1.13 - Translação da Terra, com a indicação das quatro estações do ano.

No Verão, está mais quente e no Inverno mais frio. Mas o Verão e o Inverno ocorrem em épocas diferentes do ano no  hemisfério Norte e no hemisfério Sul. No hemisfério Norte, o Verão vai de 21 de Junho a 23 de Setembro e o Inverno de 21 de Dezembro a 21 de Março. Mas, no hemisfério Sul, o Verão vai  de 21 de Dezembro a 21 de Março e o Inverno de  21 de Junho a 23 de Setembro.    Tal facto  explica-se também pelo movimento de translação da Terra. Contudo,  ao contrário do que muita gente julga, o tempo quente no Verão no hemisfério Norte não se deve ao menor afastamento da Terra em relação ao Sol  nem o tempo frio no Inverno no mesmo hemisfério se deve ao  maior afastamento da Terra em relação ao Sol! Como já afirmámos, a órbita terrestre é quase circular, pelo que  a Terra está sempre praticamente à mesma distância do Sol.  Acontece que o eixo de rotação da Terra está inclinado  do ângulo  de 23º em relação ao plano da órbita  da Terra (lembramos que foi assim que o colocámos na experiência 1.1).  Assim, no Verão do hemisfério Norte, este hemisfério está mais inclinado para o  Sol (e o hemisfério Sul está menos inclinado para o Sol). No Verão, a luz do Sol  incide mais frontalmente  sobre o hemisfério Norte (figura 1.14).

Figura 1.14 - Planeta Terra com o eixo inclinado. Inclinação dos raios solares sobre o hemisfério Norte no Verão. No Verão, há um dia de seis meses no pólo Norte.

Devido à inclinação do eixo de rotação da Terra, durante a Primavera e  Verão no hemisfério Norte, é sempre dia no pólo Norte e é sempre noite no pólo Sul (figura 1.14). Do mesmo modo, durante o Outono e Inverno no hemisfério Norte, é  sempre dia no pólo Sul e é sempre noite no pólo Norte. A duração dos dias e das noites varia, portanto,  à medida que nos afastamos do equador, para Norte ou para Sul.

Resumindo: Os diferentes lugares onde  nasce e se põe o Sol ao longo do ano, o diferente aspecto do céu nocturno, a sucessão das estações do ano e a diferente duração dos dias e das noites num certo lugar da Terra são, todos eles,  explicados pelo movimento de translação da Terra.