O signo de Aquário
 

Ganimedes era filho do rei Trós e da rainha Calírroe. Era um príncipe da família real de Tróia. Conta-se que era o mais belo dos mortais, tão belo que os próprios deuses o admiravam. No Olimpo, havia quem dissesse que o jovem era tão perfeito que parecia um deus.

Zeus, curioso, decidiu vê-lo com os seus próprios olhos. Um dia, desceu até Tróia e misturou-se com os mortais. Foi encontrar Ganimedes entre os nobres da cidade e ficou surpreso com a sua beleza. O jovem príncipe teria então 18 anos recém-feitos, e estava sempre cercado de raparigas jovens que disputavam os seus favores.

De volta ao Olimpo, Zeus falou com sua esposa Hera e descreveu-lhe o jovem. «É tão belo como Apolo», dizia Zeus, referindo-se ao deus da música e da poesia, que tinha inspirado inúmeros amores, a deusas e a mortais. Apolo era tão belo, conta-se, que apenas a bela Cassandra se lhe tinha recusado.

Tinham sido uns amores violentos, de que ainda se falava pelo Olimpo. Apolo tudo fizera para conquistar a jovem, mas esta sempre se lhe negara. Finalmente, sabendo que o maior desejo de Cassandra era adivinhar o futuro, Apolo prometera ensinar-lhe as artes da adivinhação. Em troca, Cassandra prometera-lhe o seu coração. Apolo cumpriu a sua parte do acordo e Cassandra tornou-se numa grande profetisa. Mas a jovem não cumpriu a sua e recusou-se ao apaixonado Apolo. Depois de ensinada, Cassandra não podia ser desensinada, pelo que Apolo vingou-se cruelmente: lançou uma maldição sobre a nova profetisa fazendo com que nunca ninguém nela acreditasse. Cassandra viu-se condenada a prever o futuro mas a não ser acreditada nas suas profecias. De pouco ou nada lhe serviu tornar-se adivinha, pois ninguém levava a sério as suas previsões. A história ainda hoje é lembrada no Olimpo. Ainda hoje se exclama «Que Cassandra!», quando se fala num desacreditado profeta da desgraça.

«Mais belo do que Apolo é impossível!» exclamou Hera quando Zeus lhe descreveu o jovem Ganimedes. Mas a deusa não estava contente, pois sabia que Zeus lhe era infiel com jovens de ambos os sexos, pois no Olimpo poucas vezes se faziam distinções. A descrença da ciumenta Hera apenas incitava Zeus, pelo que este decidiu raptar o jovem e transportá-lo para o Olimpo.

Um dia, Zeus assumiu a forma de uma águia gigantesca e desceu sobre Tróia. Vendo o jovem, sozinho, passear-se pelos campos, raptou-o, agarrando-o com as garras da ave de rapina e regressou rapidamente ao Olimpo. Todos os deuses ficaram surpresos e agradecidos a Zeus. Ganimedes merecia tornar-se um imortal e viver no Olimpo. Só Hera se sentiu despeitada.

Zeus e os outros deuses estavam tão contentes com o novo habitante do Olimpo que decidiram dar-lhe um lugar de destaque. Ganimedes foi nomeado o escanção do Olimpo, aquele que estava destinado a servir as bebidas aos deuses. Daí em diante, era Ganimedes que tinha a honra de transportar os jarros do néctar que os deuses bebiam, e era o jovem que distribuía o néctar divino pelos copos de ouro do Olimpo. Só Hera não estava contente. Para mais, era a sua filha Hebe, a divindade da juventude, que até aí tinha tido a honra de ser escanção dos deuses. Hera sentia-se humilhada, mas nada podia fazer contra a vontade de todos os outros.

Ganimedes estava satisfeito por estar no Olimpo, contente com tanta riqueza, tanta beleza e tanto poder. Mas estava igualmente preocupado por saber que o pai sentia a sua falta. O velho rei estava inconsolável, não sabia onde se encontrava o filho e suspeitava que o tinha perdido para sempre. O chefe dos deuses encarregou então Hermes, o deus mensageiro, de o consolar e de lhe levar vários presentes. Hermes deslocou-se a Tróia, voando com as suas sandálias aladas e conversou longamente com o rei Trós. Explicou-lhe que Ganimedes se tinha tornado imortal e que viria revê-lo, logo que tivesse terminado a sua educação no Olimpo. Deu-lhe os presentes de Zeus, que muito agradaram ao rei Trós. Eram presentes magníficos: uma cepa de ouro forjada pelo próprio Hefesto, o deus do fogo e da metalurgia, e um par de cavalos mágicos alados, capazes de voar sobre a terra e o mar. O rei Trós ficou satisfeito, mas só ficaria realmente feliz quando revisse o filho. Zeus transportou então Ganimedes para os céus, para que o pai o pudesse ver todas as noites. Ainda hoje, nas noites límpidas de Verão, o jovem escanção aparece no céu a brilhar, entre as estrelas de Aquário, o décimo primeiro signo do Zodíaco.

29/1/2000, texto de Nuno Crato