O signo de Capricórnio
 

Ao princípio, diz-se, existia apenas o Nada. Foi do Nada que apareceu a Mãe-Terra e foi da Terra que apareceu o Céu. O Céu e a Terra uniram-se, tiveram filhos e filhas chamados titãs e titânides. Dois deles, o titã Crono e a titânide Reia, haveriam de se tornar marido e mulher e gerar muitos descendentes.

Crono haveria de se tornar-se o senhor do Universo. Durante alguns tempos, reinaria pacificamente sobre a Terra e o Céu, mas rapidamente começaria a abusar do seu poder. Crono sabia que as outras divindades estavam descontentes e, tal como todos os tiranos, procurava asfixiar aqueles que alguma vez pudessem vir a fazer-lhe frente.

O céu da constelação de Capricórnio, que corresponde ao décimo signo do Zodíaco

O titã via inimigos em todo o lado. Um oráculo tinha-lhe dito que um dos seus filhos o haveria de destronar, pelo que começou a comê-los um a um. Sempre que Reia dava à luz um novo descendente, Crono engolia-o, inteiro, sem hesitar. Reia não estava contente, pois nenhuma mãe gosta de ver os seus filhos desaparecer nas goelas de um titã. Um dia, quando estava prestes a dar à luz mais um filho, pensou num estratagema. Retirou-se para as montanhas e, quando o bebé saiu do seu ventre, escondeu-o numa gruta. Escolheu um pedregulho do tamanho do recém-nascido, que embrulhou nas fraldas e mantas. Quando regressou, Crono exigiu-lhe o filho e a titânide deu-lhe o pedregulho embrulhado. Crono engoliu-o sem hesitar e foi dormir uma sesta, sossegado, sem imaginar que o seu novo filho estava a salvo. Nos dias seguintes, Reia voltou várias vezes às montanhas, em segredo, para cuidar do filho. Deu-lhe o nome de Zeus e ensinou-lhe os segredos do mundo. Em poucos dias, Zeus tinha-se tornado num belo rapaz. Estava pronto a cumprir o seu destino.

Reia concebeu um plano. Preparou uma poção tão poderosa que mesmo um titã bruto como Crono não conseguiria digerir. Misturou a poção com mel selvagem de que Crono muito gostava e preparou-a para o marido. Guloso, Crono engoliu de uma vez toda a poção. Pouco depois, estava a contorcer-se com dores e começou a vomitar. Um a um, os seus filhos saíram do seu estômago, já crescidos, e fugiram, juntando-se a Zeus nas montanhas. Aí elegeram Zeus para seu chefe e aí assentaram arraiais, preparando-se para combater Crono.

A guerra dos deuses com o titã Crono durou mais de dez anos e foi uma guerra muito violenta. Zeus tinha o poder de dominar os relâmpagos celestes e atacava Cronos com os raios do céu. Mas Cronos tinha uma força gigantesca e aliados muito poderosos.

Um dos aliados de Cronos era o gigante Tífon, um ser temível, maior do que todas as montanhas e tão alto que a sua cabeça chegava às estrelas. Quando estendia os braços, tocava com uma mão no Oriente e com a outra no Ocidente. Nas pontas dos dedos nasciam-lhe cabeças de dragão. Das suas pernas nasciam serpentes venenosas.

Quando Tífon aparecia, Zeus e os seus irmãos fugiam, sem saber como combater o gigante. Um dia, fugiram para tão longe que chegaram ao Egipto. Tífon continuava a persegui-los e os deuses não sabiam onde se poderiam esconder. Estavam já perto do rio Nilo quando viram de novo a sombra de Tífon aproximar-se. «Depressa, disfarcem-se de animais», disse Zeus, «para ele não nos descobrir». Os deuses e os seus acompanhantes assim o fizeram. Zeus disfarçou-se de carneiro, pensando que nunca poderia ser encontrado debaixo de um disfarce tão inofensivo. Hera, que tinha entretanto desposado o chefe dos deuses, tomou a forma de vaca. Afrodite, a deusa do amor e da beleza, e o seu filho Eros mergulharam no rio e transformaram-se em peixes. Hermes, o deus mensageiro, tomou a forma de um pássaro, enquanto Ares, deus da guerra, se disfarçou de javali.

Pã, o deus dos pastores e dos rebanhos, a quem os romanos chamavam Fauno, encontrava-se no grupo de Zeus e seus irmãos. Pã era um deus curioso. Tinha uma barba muito espessa, que lhe cobria quase toda a cara. De entre os cabelos, nasciam-lhe dois cornos retorcidos. As penas tinham a forma de patas de bode e os pés eram cascos fendidos. Era muito ágil e gostava de se passear pelos bosques, de onde observava as ninfas banharem-se nos riachos. Mas Pã era muito indeciso, nunca sabia tomar uma decisão atempada. Viajava com os deuses mas, em tempo de guerra, podia ser um empecilho.

Quando Tífon se aproximou, já todos os outros deuses se tinham disfarçado de animais e ainda Pã não sabia o que fazer. Tinha as pernas mergulhadas no rio e o tronco de fora e hesitava: «Mergulho e tomo a forma de peixe, tal como Afrodite? Ou saio de água e transformo-me em cabra, que é um animal mais ágil e veloz?»

Estava Pã ainda nestes pensamentos quando viu a sombra de Tífon aproximar-se. Sem conseguir decidir-se, transformou o seu tronco em cabra e as suas pernas num rabo de peixe: ficou transformado num peixe-cabra.

Os anos passaram e os deuses conseguiram vencer Crono e os seus monstros. Crono foi desterrado para uma ilha isolada, onde ainda hoje reina como deus do tempo e da velhice. Tífon foi enterrado na Sicília, por debaixo do monte Etna. De onde volta e meia tenta ainda libertar-se; mas em vão. A montanha treme e do seu topo sai lava, que é o fogo do hálito do monstro, mas Tífon continua preso.

Na segurança do Olimpo e com os seus inimigos derrotados, os deuses ainda hoje se divertem quando se lembram do seu amigo transformado em peixe-cabra. Para todos se recordarem da estranha forma de Pã, Zeus transportou o peixe-cabra para o Céu, onde reluz na constelação Capricórnio, o décimo signo do Zodíaco.

8/1/2000, texto de Nuno Crato