O signo dos Peixes
 

Conta a lenda que não havia pior inimigo dos deuses que o gigante Tífon. Eram tempos difíceis. Zeus lançava raios contra o pai Crono, a divindade primitiva que tinha gerado os deuses do Olimpo. Crono lançava os gigantes contra Zeus e seus irmãos. E não havia gigante mais poderoso e temido do que Tífon.

Era um gigante maior que qualquer das montanhas que existiam sobre a Terra. Dizia-se que era tão alto que a sua cabeça chegava às estrelas. E que os seus braços eram tão compridos que, quando os estendia, tocava com uma mão no Ocidente e com outra no Oriente. As pontas dos dedos eram cabeças de dragão e os pelos das pernas serpentes venenosas. Só mesmo a fúria de Zeus, que atacava os gigantes e os titãs com os raios celestes, permitia equilibrar a luta. Enquanto Tífon não fosse derrotado, o tirano Crono haveria de continuar a rir-se dos deuses. A guerra durou muitos anos. Hoje, depois de Zeus ter enterrado Tífon por debaixo do monte Etna e desterrado Crono para uma ilha longínqua, os deuses podem rir-se das batalhas antigas. Na altura, tiveram muitas vezes de bater em retirada. Numa dessas vezes, os deuses refugiaram-se no Egipto, pensando estar assim longe da fúria dos monstros. Mas Tífon, como era alto, viu-os atravessar o Mediterrâneo em direcção ao norte de África.

Disfarçados de peixes, Afrodite e Eros escaparam à fúria do gigante Tifon. Estão hoje imortalizados no céu, no último signo do Zodíaco

Atravessou também o mar e procurou-os nas montanhas do Atlas. Foi depois para leste e começou a procurá-los junto à costa, já perto do Nilo. Os deuses estavam nas margens do grande rio e decidiram disfarçar-se de animais, para não serem reconhecidos. O mais atarantado de todos foi Pã. Hesitando entre disfarçar-se de cabra e tomar a forma de peixe, acabou por estar ainda meio mergulhado no rio quando Tífon chegou. Teve de se disfarçar metade em peixe metade em cabra. Ficou conhecido como o peixe-cabra, da constelação Capricórnio.

Afrodite, a deusa do amor e da beleza a quem os romanos chamaram Vénus, foi mais rápida. Mal percebeu que o monstro se aproximava mergulhou no rio e tomou a forma de um belo peixe. Seu filho Eros, o deus do erotismo a que os romanos chamaram Cupido, seguiu-lhe os passos. Disfarçou-se também de peixe e os dois nadaram tranquilos nas águas do Nilo. Tão contentes ficaram com o seu estratagema que se passearam longamente pelas águas, sem temer os crocodilos e outros perigos. Comparados com Tífon, os crocodilos eram pacíficos cordeiros.

Os anos passaram. Depois de derrotados os seus inimigos, Afrodite e Eros parecem outros. Sem temer os gigantes, gostam de se divertir e causar complicações nas vidas amorosas dos deuses e dos mortais. Afrodite está mais bela do que nunca e é impossível resistir-lhe. Eros conserva o seu aspecto de menino, mas por detrás da sua aparência inocente esconde-se um deus malicioso.

Arranjou um arco com que dispara as setas. São setas mágicas. Não ferem mas causam males de amor. Conta-se que não há deus nem mortal que não fique perdidamente apaixonado quando atingido por uma dessas setas. Com a sua malícia, Cupido tem causado muitos problemas. Héracles, Apolo e o próprio Zeus sabem-no bem. Mas há momentos em que os deuses gostam de se relembrar das suas aventuras. Recordam-se dos belos peixes em que Afrodite e Eros se transformaram e têm saudades dos tempos em que esses dois não lhes criavam problemas. Num dia de maior bonomia, Zeus desenhou no céu a figura dos dois peixes, para que todos se lembrassem dos tempos em que estavam unidos. Mãe e filho aparecem à noite no céu, entre as estrelas de Peixes, o último signo do Zodíaco.

8/1/2000, texto de Nuno Crato