Como escolher binóculos
 

Binóculos permitem observar o cometa Linear S4 que se está a aproximar, ver as crateras da Lua, descobrir estrelas duplas. Mas é preciso saber o que comprar

Chegou o Verão, com suas as noites quentes e estreladas. Os dias de lazer e os passeios nocturnos despertam invariavelmente a curiosidade pelo firmamento. É nesta altura que muitos pensam em comprar um telescópio e aprender a observar e reconhecer os astros. Mas a compra de um telescópio pode ser uma má opção. Muitos telescópios comprados num momento de euforia acabam por se juntar à arrecadação de objectos inúteis. O telescópio pode ser demasiado pesado e demasiado difícil de montar, pelo que muitos entusiasmos se podem frustrar com uma compra impensada. Antes de se abalançar nessa aventura, já pensou em comprar binóculos?

Binóculos são relativamente baratos, com 15 ou 20 contos já se pode comprar um instrumento razoável. São fáceis de transportar, cabem numa maleta e debaixo do assento de um carro. Podem ser utilizados para outros fins, tais como observar pormenores de paisagens, ver os navios ao longe ou observar a vida das aves e outras cenas da natureza. Melhor ainda: binóculos são um instrumento muito útil na exploração do céu, pelo que muitos amadores os continuam a usar, mesmo depois de adquirirem telescópios potentes.

A grande vantagem dos binóculos, para além da sua portabilidade, é o seu campo de visão, que é mais largo do que o de telescópios. Enquanto estes focam uma área do céu muito reduzida, binóculos podem observar um ângulo razoável, o que permite reconhecer na imagem o que anteriormente se viu a olho nu. Telescópios raramente permitem fazê-lo. Ao observar a Lua a olho nu, por exemplo, vê-se um disco com algumas manchas escuras. Ao passar para um telescópio, pode passar a ver-se apenas um pormenor de uma cratera lunar, pelo que é difícil fazer a transição entre o que se observa com o instrumento e o que se vê sem ele.

Ao escolher binóculos, há diversas especificações em que convém atentar. Os instrumentos são descritos por dois números, 7x50, por exemplo, indicando o primeiro a ampliação linear e o segundo o diâmetro das objectivas, a sua abertura. Ao contrário do que habitualmente se pensa, nem sempre uma maior ampliação é sinónimo de melhor qualidade. O que é realmente importante é a capacidade de captação de luz, que se mede pelo segundo número. Uma grande ampliação para uma abertura reduzida traduz-se em imagens difusas e pouco contrastadas. Os instrumentos mais pequenos, 7x30 ou ainda mais modestos, como os binóculos de teatro, podem ser úteis, mas não são os mais adequados, pois pouco aumentam a quantidade de luz recebida pelo observador. Os instrumentos muito maiores, tais como os 10x60, ou os binóculos gigantes, tipo 20x80, são excelentes para a observação astronómica, mas exigem tripés, pois são tão pesados e têm uma ampliação tão elevada que é praticamente impossível observar algo sem os ter solidamente apoiados.

Na generalidade, binóculos tipo 7x50 ou 10x50 são os mais aconselháveis. Estes últimos, no entanto, começam a ser difíceis de utilizar sem alguma espécie de apoio, pois a sua ampliação faz com que pequenas oscilações no suporte manual se traduzam em oscilações rápidas na visão, o que dificulta a observação astronómica. A não ser que pretenda utilizar um tripé, não é conveniente adquirir binóculos acima destas especificações. Como acabará por verificar, a comodidade de observação, sobretudo da observação prolongada, é um factor fundamental.

Ao escolher binóculos, deve-se atentar igualmente no seu alinhamento. Os dois tubos oculares que compõem o instrumento devem estar perfeitamente alinhados. No entanto, nem sempre é isso que acontece. Para os experimentar, coloque o instrumento num suporte estável, em cima de uma mesa, por exemplo. Olhe por um óculo e depois pelo outro. O que se encontra no centro de ambas as imagens deve ser exactamente o mesmo. Se não o for, procure outros binóculos, pois o desencontro das imagens acaba por se tornar incómodo e prejudica a concentração.

Há outros factores a ter em conta, nomeadamente o revestimento das lentes. Os melhores binóculos têm as faces das lentes tratadas («coated» ou «multi-coated»), de forma a assegurar que a reflexão é mínima e que a maior quantidade possível de luz atravessa o sistema óptico.

Foi com um óculo menos potente do que muitos binóculos comuns que Galileu descobriu os satélites de Júpiter, as crateras da Lua e as fases de Vénus. Com binóculos modernos, o leitor pode viver as mesmas descobertas; pode explorar ainda algumas estrelas duplas, vislumbrar a mancha de luz da galáxia Andrómeda e observar o cometa Linear S4, que agora se aproxima da Terra.

15/7/2000, texto de Nuno Crato