2.2. A influência do desenvolvimento científico europeu nos estudos científicos em Portugal no século XVII

2.2.1.   Os contemporâneos de Galileu

2.2.2.   O contributo de Cristóvão Borri para o desenvolvimento dos estudos científicos nos Colégios das Artes e de Santo Antão

2.2.3.   Professores que mais se notabilizaram no ensino das ciências físicomatemáticas nos Colégios das Artes e de Santo Antão, e na Universidade de Coimbra, no período pós-galileano

2.2.4.   Repercussões do desenvolvimento científico europeu do século XVII nos cursos de Filosofia de Baltasar do Amaral, Baltasar Teles, Francisco Soares Lusitano e de António Cordeiro

 

2.2.        A influência do desenvolvimento científico europeu nos estudos científicos em Portugal no século XVII

2.2.1.      Os contemporâneos de Galileu

O desenvolvimento científico que se observou na Europa desde o início do século XVII começou a ter, muito cedo, os seus reflexos no ensino da Filosofia e das ciências físico-matemáticas em Portugal. O facto do matemático e astrónomo alemão Cristóvão Clávio (Bamberg, 1538 — Roma, 6.2.1612) ter feito os seus estudos em Coimbra, no Colégio das Artes, não deixou de ser um acontecimento significativo na história da cultura portuguesa. O seu prestígio foi sempre reconhecido entre os jesuítas portugueses e utilizavam-no como referência nas suas lições. Clávio entrou para a Companhia de Jesus, em Roma, durante o mês de Fevereiro de 1555 e em Outubro veio para Portugal. No Colégio das Artes, estudou Humanidades e Retórica, Grego, Filosofia e também Astronomia. Foi nesta época que os jesuítas ensinavam nas suas aulas a Esfera de Sacro Bosco, que foi o livro clássico de iniciação astronómica adoptado nas escolas durante mais de 400 anos. Tratavase de uma obra elementar, com pouco mais de 100 páginas, na qual se encontravam reunidas as teorias de Ptolomeu. Esta terá sido a segunda obra de Astronomia a ser impressa (Ferrara 1472), e teve mais de uma centena de edições em diferentes línguas. Na língua portuguesa publicaramse três versões deste livro: em dois manuais náuticos usados pelos navegadores portugueses, o Regimento de Munique (1509?) e o Regimento de Évora (1517), e a de Pedro Nunes no seu Tratado da Sphera (1537). Para além destas edições, refirase o comentário que sobre ela fez André de Avelar, na sua obra Sphæra utriusque; tabella ad sphærae hujus mundi faciliorem, publicado em Coimbra no ano de 1593. Também André de Melo redigiu um comentário num manuscrito de 1587 1588, intitulado Explanationes in sphæram Joannis de Sacrobosco, anno Salutis 1587. [1] Em 1570 Clávio publicou um comentário ao Tractatus de Sphaera, do matemático e astrónomo inglês. Nos seus comentários intitulados In Sphaeram Joannis de Sacro Bosco Commentarius, referiase a Copérnico como sendo um hábil e cuidadoso observador das estrelas, o mais sábio e distinto renovador da Astronomia que era digno de admiração dos astrónomos. Apesar de Clávio usar numerosas vezes as observações de Copérnico, os seus métodos de cálculo e tábuas, rejeitou, no entanto, a teoria geocêntrica, classificandoa como insustentável. Na Opera Mathematica, publicada em 1611 1612, mais particularmente nos Comentários à Esfera, (Opera Mathem., III, In Sphaeram, p. 295), Cristóvão Clávio referiuse a um eclipse total do Sol que observou em Coimbra no mês de Agosto de 1560. Após concluir os seus estudos em Coimbra, Clávio principiou em Roma, em 1561, os seus estudos teológicos, e antes de os concluir iniciouse no ensino das ciências fìsico‑matemáticas, consagrando desde então toda a sua actividade a estas ciências, e durante 45 anos ensinou no Colégio Romano. Clávio morreu em 1612.

Exerceu a docência e publicou importantes obras durante a sua habitual estadia em Roma. Vários registos de correspondências científicas, tais como a colecção de Mersenne de doze volumes têm muitas referências a respeito de Clávio. Matemáticos como Kepler, Descartes, e Leibniz reconheceram-no como uma fonte da sua inspiração. Foi considerado um matemático e um astrónomo ilustre; um dos sábios mais notáveis que se interessou pelos problemas científicos mais sensíveis da sua época. A razão da significativa importância dada a este matemático e astrónomo jesuíta reside no seu ensino e trabalhos publicados, nas suas inovações matemáticas, na reforma do calendário e particularmente nas suas contribuições para o desenvolvimento da Astronomia durante um dos períodos mais críticos na História da Ciência a época de Galileu.

Muito poucos livros de Matemática e de Ciência foram publicados no século que seguiu à impressão da Bíblia de Gutenberg em 1455. O jesuítas, entretanto, compreenderam a importância da palavra impressa e nos séculos seguintes produziram uma quantidade considerável de livros. Há registos de 631 autores Jesuítas de livros de Geometria; e muitos destes matemáticos foram autores de mais de um livro. Boscovich, por exemplo, escreveu 151 livros e tratados. Um dos autores mais produtivos foi Clávio com dezanove publicações, das quais se destacam o Euclid elementorum (Roma 1589), Geometrica practica (Roma 1604) e Opera mathematica (Roma 1611) que foram objecto de várias edições e mantiveram-se como importantes referências bibliográficas até muito tempo após a supressão da Companhia de Jesus em 1773.

Clávio teve uma influência determinante para o desenvolvimento da Matemática, sendo considerado por alguns historiadores como um dos professores mais influentes da renascença. A sua obra Euclidis elementorum contem todos os livros conhecidos de Euclides e apresenta uma colecção vasta de comentários e esclarecimentos. Não se tratava de uma simples tradução de Euclides, mas uma avaliação crítica dos seus axiomas, e anotou a ausência de um axioma que garante a existência de um quarto proporcional para três valores dados. O carácter inovador da sua obra científica teve um digno seguidor, o jesuíta Girolamo Saccheri, que é considerado como um dos fundadores da geometria não-euclideana. Clávio foi um dos primeiros a utilizar o método da prova que deriva de uma proposição supondo o contrário da proposição a ser provada.

O seu tratado intitulado Euclidis foi considerado um texto modelo e aperfeiçoado que exerceu uma influência profunda na Ciência do seu tempo. Cantor e Kaestner consideraram-no como referência fundamental na História da Matemática. O rigor do desenvolvimento da Geometria euclideana foi devido em grande parte à maneira meticulosa como Clávio comentou a obra de Euclides. O trabalho de Clávio transformou-se num compêndio padrão durante todo o século XVII e os seus livros de Aritmética, Geometria, Álgebra, Harmónicos e Astronomia foram usados em todas as escolas europeias dos jesuítas, tal como em muitas outras escolas. Este facto tornou-o num dos mais influentes mestres de Matemática da Europa católica, bem como em muitas escolas de países da Europa protestante.

Viria a tornarse notável pelos trabalhos realizados na reforma do calendário, e após a promulgação de Gregório XIII pela Bula Inter gravissimas, de 24.2.1582 defendeu-o das críticas de Moestlin, Scalinger e Vieta. Clávio correspondeuse com muitos dos maiores cientistas do seu tempo. Entre as cartas que lhe escreveram, e que se guardam no Arquivo da Universidade Gregoriana (Códs 529 e 530), há uma que foi escrita de Lisboa por Francisco Sanches e outra de Cristóvão Grienberger, o qual ensinou no Colégio de Santo Antão nos anos de 1601 e 1602, depois de ter ensinado no Colégio das Artes, em Coimbra. Cristóvão Clávio costumava enviar as suas obras para Portugal, ao seu antigo mestre Pedro da Fonseca (ProençaaNova, antiga Cortiçada, 1528 — Lisboa, 4.11.1599), e a Francisco da Costa (Pinhel, 1567 — Lisboa, 16.12.1604), professor na Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão. Nesta Aula ensinaram João Delgado (Lagos, c. 1553 — Coimbra, 30.9.1612), Cristóvão Grienberger e João Paulo Lembo. Teria sido através do terceiro volume da Opera Mathematica, editada em Mogúncia no ano de 1611, que nas escolas portuguesas se fizeram as primeiras alusões a Galileu, de quem Clávio era amigo. [2] Nesta obra tecia comentários ao Sidereus Nuncius, onde enumerava concisamente as recentes descobertas de Galileu, e deixava expressa a sua opinião de que se fossem exactas, deveriam ser adoptadas pelos astrónomos na maneira de construir a esfera, por forma que tivessem uma explicação coerente. Em 1592 — 1593 Cristóvão Clávio foi convidado por Pedro da Fonseca e pelo governo português para regressar a Portugal, com o objectivo de completar a Geografia Universal de João de Barros, para que pudesse ser impressa, convite que recusou alegando falta de saúde, e talvez também porque não lhe teria agradado a ideia de abandonar os seus próprios projectos para dar continuidade a outro que lhe era alheio. Cristóvão Clávio era um conhecedor profundo da obra de Pedro Nunes, embora não seja certo que tenha sido seu discípulo. Pelo prestígio que Clávio viria a atingir, constituiu sempre uma referência para as gerações vindouras de professores em Portugal, sendo disto exemplo Cristóvão Borri, o Pe. João Delgado, etc. tornandose num dos mais importantes inspiradores directos de alguns cursos professados em Santo Antão e no Colégio das Artes.

No início do século XVII deve assinalar-se a influência de André de Avelar no ensino das matérias científicas em Coimbra. No ano de 1592 iniciou o ensino da Matemática, após um período de quase trinta anos, desde que em 1563 Pedro Nunes deixara de exercer a docência. Em 21 de Novembro de 1591 o Reitor da Universidade estabeleceu um prazo de 30 dias para a publicitação da vacatura, e foram afixados edictos em vários locais, entre os quais Salamanca, Alcalá e em Lisboa. André de Avelar apresentouse na pousada reitoral como opositor à cadeira. O prestígio que tinha adquirido após a publicação, em Lisboa, no ano de 1585, da obra Chronographia ou reportorio dos tempos: o mais copioso que até agora sahio a luz. Conforme a nova reformação do Santo Padre Gregorio XIII no ano de 1582, teria contribuído para que fosse qualificado pelo conselho académico como um dos maiores homens que em Portugal havia nas ciências físico-matemáticas. [3] O Reportório dos tempos foi uma obra que granjeou algum sucesso, a avaliar pelas várias reimpressões que dela se fizeram até 1612. [4] Nesta obra André de Avelar manifestavase favorável à opinião da imobilidade da Terra, afirmando que este facto provavase com muitas demonstrações, ainda que houvessem muitos varões mui doutos que teriam afirmado moverse a Terra como foi Pitágoras e mais recentemente Copérnico, o qual afirmara estar o Sol no meio do Mundo quieto e fixo, e a Terra ser a que se movia. Acrescentava que ainda que este doutíssimo astrónomo tivesse suposto a mobilidade da Terra por suas demonstrações, não seria crível que se entendesse ser assim verdade, senão que teria dado à Terra aqueles movimentos para melhor conseguir seu intento, como também o fez Ptolomeu pondo uma vez excêntricos e outra concêntricos com epiciclos, e de qualquer maneira concluíra o que queria, que era saber as aparências dos planetas. [5] Logo após o início do exercício da docência em Coimbra, André de Avelar solicitou uma actualização bibliográfica e de material didáctico, que considerava indispensável para a boa qualidade do ensino. Foi assim que a 11 de Maio de 1593, a Meza da Fazenda da Universidade autorizou uma verba de 2700 réis para o pagamento de um astrolábio de madeira, um mapa mundi colorido, e a 11 de Fevereiro 1595, foi concedida a quantia de 3400 réis para outro mapa.

Luís de Albuquerque fez notar que não se pode deixar de reconhecer que o ensino em Portugal, no século XVII, exemplificado com os casos do ensino da Matemática em Coimbra, bem como do ensino em geral praticado no Colégio de Santo Antão, tivesse um carácter mais «especulativo» — como então se afirmava — do que uma abordagem das matérias que tornassem o conhecimento mais prático. André de Avelar terá constituído, talvez, o primeiro exemplo de preocupação para que se utilizasse uma metodologia didáctica onde se valorizava o ensino prático. No entanto, o facto de não se encontrarem alusões ao ensino prático nas postilas das lições de Aula de Esfera do Colégio de Santo Antão, bem como a falta de referências quanto a existência de material didáctico necessário para que se pusesse em prática esse tipo de ensino, não permite afirmar, com segurança, que de todo não fosse uma preocupação, pelo menos de alguns dos seus mestres. Com efeito, nem todos os professores de Santo Antão se isentaram de fazer referências descritivas de alguns instrumentos náuticos, embora alguns textos das suas lições deixassem transparecer que se ocupava muito tempo, por vezes inglório, a conceberse e fazer construir instrumentos de utilidade polivalente. Um exemplo de ensino assente numa metodologia experimental, em Coimbra, viria a ser o do Pe. João König (ou dos Reis), a partir de 1681.

Após vinte anos de magistério, André de Avelar jubilouse por carta régia de 28 de Setembro de 1612, e dois meses depois foi reconduzido por mais quatro anos. [6] Fez parte do grupo dos professores universitários, cristãos novos, que, de 1616 a 1626, foram submetidos a processo inquisitorial. De André de Avelar conhecemse os escritos Discurso Astronomico & Astrologico do cometa que apareceo por novembro de 1618 em Coimbra. / Pello Me. Andre de Auellar lente jubilado em mathematiqua. [7] ; «JHS/In theoricas Septem / Planet. Pvrbachii et Oct.ae shae eiusdem / Apostillæ In alma Conim / bricesi Accad.a /Chatedræ Ma = /thematicæ Meritiss.o Professore / Conimbricæ. [8] ; Sphoeræ utriusque. Tabella, ad sphaeræ hujus mundi faciliorem enucleationem, Coimbra, 1593; Tratado do uso da esfera, [9] 1593; Lectiones Mathematicæ, Conimbricæ, [10] 1595, bem como um manuscrito relativo ao cometa de 1607. [11] J. Pereira Osório refere também, de André de Avelar, a Apostillæ, seu expositio in theorias septem planetarum, et octavæ Purbachii, e ainda um manuscrito [12] de 1595, onde este analisava o sistema heliocêntrico, rejeitandoo, mas, no entanto, louvando Copérnico pelo seu esforço para salvar as aparências celestes com subtilissimas demonstrações e observações exactas. [13]

Enquanto André de Avelar se notabilizou em Coimbra, alguns jesuítas seus contemporâneos exerceram a docência no Colégio de Santo Antão, Nas áreas científicas destacaram-se os seguintes professores:

·               Pe. Francisco da Costa, que entre 1595 a cerca de 1602 ensinou Astrologia, Geografia, (cuja matéria de ensino era a Geografia terrestre), Hidrografia, (onde se estudava Geografia descritiva dos mares e cartas), Arte de Navegar e Cosmografia;

·               Pe. João Delgado que ensinou Cosmografia, Teórica dos Planetas e Astrologia, provavelmente entre 1600 e 1612; Às suas lições deu o título geral de Curso das Ciências Matemáticas, as quais se conservam em três códices. O primeiro, ditado em 1594 — 1595, que continha a Astronomia como parte mais importante. [14] O segundo, ditado em 1596, encontrase em Londres no National Maritime Museum, para onde entrou em 1953, e continha o Tratado da Hidrografia em oito capítulos, e a Arte de Navegar. O terceiro encontrase também em Londres, no British Museum (Egerton 2063) e compreendia diversos tratados, um dos quais datado de 1602. [15] João Delgado entrou para a Companhia de Jesus por volta do ano de 1574, e estudou Matemática e Teologia em Roma, tendo regressado a Portugal na primavera de 1584, com destino ao Brasil. Em Roma João Delgado teria conhecido e estudado Matemática sob a orientação de Cristóvão Clávio. Depois do seu regresso a Portugal não chegou a concretizarse a sua ida para o Brasil, dedicandose então ao ensino das ciências matemáticas no Colégio de Jesus, entre 1586 e 1589, e no Colégio de Santo Antão nos períodos de 1590 a 1594, 1596 a 1597 e de 1605 a 1608. Do seu ensino ficaram as Explanationes in sphaeram Joannis de Sacrobosco. [16] Sobre este manuscrito, J. Pereira Gomes fez notar que apesar do nome do autor não se encontrar legível, esta postila foi ditada em Coimbra no ano de 1587. Neste ano não havia professor de Matemática na Universidade de Coimbra, de onde se poderá concluir ser correcta a atribuição deste documento a João Delgado. Para além deste manuscrito, João Delgado deixou também a Astrologia Prática, [17] e a Esfera do Mundo. [18]

·               Pe. Crisóstomo Gallo que entre 1619 e 1627 encarregouse do ensino de Cosmografia e Geografia, cujas lições do ano de 1625 foram reunidas no Tratado sobre a esfera material, celeste e natural. [19]

·               Francisco da Costa que entrou para a Companhia de Jesus em 1583, e até ao ano de 1588 estudou Latim, Grego e Matemática em Coimbra, e no ano de 1596 concluiu o curso de Filosofia na Universidade de Évora. No Colégio de Santo Antão foi substituto de Matemática, Latim e Filosofia até 1594, e professor da Aula de Esfera nos anos de 1594 — 1596, 1598 — 1600 e 1602 — 1604, tendo sucedido na primeira vez a João Delgado, na segunda a António Leitão e na terceira a Cristóvão Grienberger.

2.2.2.      O contributo de Cristóvão Borri para o desenvolvimento dos estudos científicos nos Colégios das Artes e de Santo Antão      

Entre os contemporâneos de Galileu, alguns dos jesuítas que se dedicaram ao ensino da Filosofia e das ciências físico‑matemáticas, no Colégio das Artes de Santo Antão, foram particularmente notáveis pelas inovações que trouxeram ao ensino em Portugal. Cristóvão Borri (Milão, 1583 — Roma, 24.5.1632) foi um astrónomo que viveu na Companhia de Jesus desde 1601 a 1631, e teve uma grande influência no movimento científico português de século XVII. Com efeito, depois de ensinar ciências matemáticas nos Colégios de Mondovi e de Milão, onde ensinou Matemática no Colégio de Brera, passou por Lisboa, onde embarcou em 1615 para o Extremo Oriente. [20] Ainda jovem, Borri já mostrara a sua simpatia pela corrente antiptolomaica, mostrando uma paixão ardente pelas ideias nascentes. Por isso mesmo teria sido alvo de denúncia a sua precipitação extremista. [21] No período entre 1581 — 1615, na própria Companhia, viviase um surto de investigação nos diversos ramos do saber, em relação ao qual Borri mostrara a sua admiração. Os intuitos renovadores que caracterizaram os estudos de Astronomia comprovam-se pelo facto do Pe. Biancano, ou Biancani, então professor de Matemática no Colégio de Parma, e o seu colega Pe. Raviccia, ou Ravizza, leitor de Filosofia, surgirem entre os admiradores das novas correntes de pensamento. As actividades desenvolvidas por Cristóvão Clávio e Cristóvão Grienberger, são bem representativas do envolvimento dos jesuítas na emergência dos novos paradigmas científicos. Desde 28 de Novembro de 1610, passavam noites em claro a perscrutar os céus para observar os satélites de Júpiter e contraprovar as demais descobertas de Galileu, que saíram plenamente confirmadas. A sessão solene, celebrada em honra do grande astrónomo durante a Primavera de 1611 na própria sala dos actos desse centro de ensino, iria manifestar à Cúria toda a admiração dos mais sábios matemáticos jesuítas para com Galileu. [22] Como consequência da sua arrebatada paixão pelas ideias inovadoras, e pelo facto do geral Acquaviva ter recebido da Santa Sé advertências particulares no sentido de haver contenção no surto inovador que por todo o lado se ia verificando, Cristóvão Borri foi mandado penitenciar publicamente e retirado da cátedra que lhe havia sido confiada. Domingos Maurício transcreveu uma passagem dos comentários que Borri viria a fazer, onde, numa atitude profética, afirmava que “Suportei tudo, com a devida paciência e humildade. Só disse que o tempo mostraria a grande razão que eu tinha nas minhas opiniões e que em breve tal doutrina seria universalmente abraçada e seguida, tanto pelos matemáticos, em razão das novas observações, como pelos filósofos, para varrer o cisco supérfluo de entidades inúteis, e ainda pelos teólogos, a fim de conciliarem a Sagrada Escritura e os Santos Padres”. [23] Teria sido como consequência desta amarga experiência que Borri, numa passagem breve por Lisboa, rumou para o Oriente em companhia do Pe. João Vreman, onde missionou na Cochinchina entre 1617 e 1622, regressando então a Lisboa, depois de se notabilizar no Oriente como insigne matemático. Durante a sua estadia em Goa, por solicitação de Pietro della Valle, Borri escreveu um pequeno tratado intitulado De Nova mundi constitutione juxta systema Tichonis Brahe aliorumque recentiorum mathematicorum, o qual viria a ser traduzido, em 1624, ainda em Goa, de Latim para Persa. A sua acção foi muito importante para a difusão da Astronomia nova através da Pérsia, Arábia e Arménia. No ano de 1631 este tratado foi traduzido para Italiano, pelo mesmo Valle. Estas traduções encontramse em dois códices da Biblioteca Apostólica do Vaticano, as quais teriam merecido a atenção do cardeal Angelo Mai, no seu Scriptorum Veterum Nova Collectio. [24] Dos estudos que realizou no Oriente, Borri escreveu o livro intitulado Relatione della nuova Missione delli PP. della Compagnia di Giesu al regno della Concicina, cuja importância levou a que fosse traduzido e divulgado na Europa em seis línguas: Alemão, Francês, Holandês, Inglês e Latim. Após o seu regresso a Portugal ensinou Matemática nas aulas de Coimbra e de Lisboa. No ano de 1626, Borri encontravase em Coimbra, onde fez algumas observações astronómicas, utilizando para o efeito o telescópio e outros instrumentos de D. André de Almada. Segundo refere Joaquim de Carvalho, teria sido, porventura, a partir da descrição de Tycho Brahe na Astronomia instauratæ mechanica, (1602), que D. André de Almada, lente de Teologia e Reitor da Universidade de 1638 a 1640, fizera construir um quadrante, com o qual repetira, juntamente com alguns amigos, observações feitas por aquele astrónomo. Utilizando o telescópio, na noite do sexto dia da Lua nova de Julho de 1627, foi observado o aspecto da Lua, do qual se fez uma gravura, que muito provavelmente terá sido o mais antigo documento gráfico de uma observação astronómica feita em Portugal. [25] Nesta época, Borri deu uma série de lições sobre Matemática e Astronomia, cujo texto foi escrito por Inácio Nunes, que em 1626  — 1627 era finalista de Artes. [26] Em Coimbra, terá atingido a sua maturidade científica e aí obteve todo o apoio para o exercício da sua actividade docente e de investigação. Conforme ele mesmo escreveu numa carta ao Pe. Vitelleschi, ao dirigirse a todos os professores das ciências maiores do Colégio das Artes, tanto de Filosofia como de Teologia e Sagrada Escritura, obteve como resultado não só daremse por convencidos, mas prestaremse a apoiálo cada um com o seu voto de aprovação, por tal forma que quase todos diziam uno ore não se poder já para o futuro defender a teoria da dureza e incorruptibilidade dos céus. Esses votos foram recolhidos e mandados para Roma pelo prefeito dos estudos do mesmo Colégio. [27] Posteriormente, no ano de 1628, ditou na Aula da Esfera de Lisboa, os tratados de Astronomia e Arte de Navegar. No ano de 1631 foi impressa em Lisboa a Collecta astronomica ex doctrina P. Christophori Borri... S.J. — De tribus caelis, aereo, sydereo, empyreo. No ano de 1624 já teria redigido o tratado De coelorum tenuitate ac motu planetarum in aura aetherea. [28] Relacionados com as sua lições são conhecidos também alguns manuscritos, como sejam De Astrologia Universa, anno 1612; [29] Arte de Navegar, Nova Astronomia, Arte da Memoria; [30] Nova Astronomia, Tratado da Arte de Navegar, Experiência que se mandarão fazer para a navegação de Leste a Oeste. [31] Refirase ainda o Regimento que o Pe. C.B. dá aos pilotos das naus da Índia para fazerem a experiência sobre a invenção de navegar de leste ao oeste. [32] Na Collecta astronomica este professor jesuíta do Colégio das Artes e do Colégio de Santo Antão manifestavase contra os defensores do modelo ptolomaico e defendia, entre outras, a teoria da fluidez dos céus, a qual discutira com os mestres de Coimbra e Lisboa, comprovandoa com a observação dos astros. Os seus escritos teriam contribuído para a difusão destas ideias, não tendo sido, no entanto, o primeiro a fazêlo em Portugal. Foi o próprio Borri a admitir que o jesuíta Manuel Dias (Alpalhão 1585 — Cocho, Maranga, 13.11.1620) já tinha publicado em 1619 um folheto a respeito dos cometas observados em 1618, intitulado Tratado contra os que julgam que os cometas são sublunares e elementares. Foi através da Collecta astronomica, publicada a partir de escritos anteriores a 1631, e das suas lições que Borri lançou em Portugal a primeira reforma científica, deixando bem vincada, com alguma ironia, a sua intenção de eliminar as teorias peripatéticas. [33] Para Borri os céus seriam corruptíveis, facto comprovado que destruía o fundamento de Aristóteles, e consequentemente deveria ruir fatalmente toda a argumentação da incorruptibilidade peripatética. Para se comprovar a fragilidade deste argumento aristotélico e para alimentar a grande revolução que se generalizava nos espíritos dos matemáticos, assumiu um papel relevante a descoberta do telescópio. Devido à importância que Borri atribuía a este instrumento, não fez esperar muito para que dele desse uma larga notícia. Teria sido através de Borri que, pela primeira vez, se fez uma pormenorizada descrição histórica e bibliográfica sobre o telescópio em Portugal. Entre a bibliografia referida por Borri encontramse: Dioptrices e Paralipomena ad Vitellionem de Kepler; Oculum, de Cristóvão Scheiner; De cometa, de João Cysat. Para a descrição que apresentou, utilizou como referência principal o livro Mechanices, de Tycho Brahe.

Na opinião de Borri, uma autoridade que deveria ser tida em consideração era Cristóvão Clávio, que para além de ser ex nostris Patribus, era também muito considerado em Portugal, por ter estudado em Coimbra, e o qual, apesar de ter sido acérrimo defensor da hipótese ptolomaica, teria, no entanto, mudado de opinião após observações feitas em 1610, com o recurso ao telescópio, declarandoo publicamente quando em 1611 reeditou a sua Sphera. [34] Joaquim de Carvalho defendeu que teria sido Cristóvão Borri o primeiro a divulgar em Portugal as revelações astronómicas de Galileu, relegando, no entanto, o seu nome para um plano secundário. Com efeito, Borri apenas teria citado uma Epistola ad Marcum Welserum. Joaquim de Carvalho concluiu que Borri teria lido a Istoria e Dimonstrazioni intorno alle macchie solari e loro accidenti comprese in tre lettere scrite all’ ilustrissimo signor Marco Velseri Linceo dumviro d’Augusta consigliero di sua Maesta Cesarea, que Galileu deu ao prelo em 1613, e foi mais longe na interpretação dos factos, afirmando que Borri também conhecia o Sidereus Nuncius, publicado em 1610, ou pelo menos o deveria ter tido presente quando redigiu a De nouis apparentiis, qaue nostris temporibus obseruatæ sunt, uma vez que transcreveu alguns dos períodos da obra de Galileu, relativos ao cálculo da altura das montanhas da Lua. Neste documento fez uma descrição das as observações que realizou em Coimbra, no ano de 1627, sem que, no entanto, fizesse qualquer referência à obra de Galileu.

O Sidereus Nuncius foi a obra que de uma forma definitiva questionou e colocou em causa a solidez e a coerência da ciência tradicional. Também em Portugal esta polémica teve profundos reflexos nas disputas escolares, pelas suas implicações antiaristotélicas. Com efeito, a descoberta das manchas solares, a discussão gerada a respeito da matéria, forma, lugar, movimento e duração das manchas, eram evidências que trouxeram dificuldades à arreigada concepção aristotélica de que a substância celeste era incorruptível. Com isto começou, também em Portugal, a esboroarse a fundamentação da Cosmologia e da Física tradicional. As consequências que a nova Astronomia tiveram em Portugal, através das lições e dos escritos de Borri, começaram pela corruptibilidade do céu e pelo movimento da Terra. Se por um lado este jesuíta aceitava a primeira, repudiava, no entanto, a segunda. [35]

A. Banha de Andrade, que estudou pormenorizadamente a sua obra, reduziu as doutrinas de Borri a duas categorias, as quais designou por princípios da razão e princípios da experiência. [36] Entre os princípios da razão considerava necessário, em primeiro lugar, não confundir Filosofia e Matemática. Se por um lado a Matemática nada afirmava sem demonstrações, por outro a Filosofia, frequentemente, ensinava conjecturas e meras probabilidades. Por este motivo, Borri era de opinião que a Matemática, sempre e em toda a parte, ensinava com certezas, enquanto a Filosofia, na maioria dos casos, apenas propunha conjecturas. Na Astronomia, por sua vez, os princípios provavamse pela experiência, deduzindose posteriormente as outras conclusões. O professor jesuíta do Colégio das Artes defendia que se seguisse o modelo de Tycho Brahe, já que os seus instrumentos eram na época os mais exactos e os maiores, considerandoos mais exactos que os utilizados por Copérnico, apesar de considerar que os instrumentos utilizados por este astrónomo na observação dos movimentos celestes eram muito perfeitos. Este facto constituía, segundo a sua opinião, uma garantia para que o sistema tychonico pudesse ser preferencialmente seguido. Exceptuando a argumentação relacionada como o movimento da Terra, Borri considerava que os sistemas de Copérnico e de Tycho Brahe em pouco divergiam entre si, uma vez que, afinal, um e outro consideravam o Sol como o centro dos demais movimentos planetários. Borri deixava aberto o caminho para o progresso científico e admitia a aceitação de novos modelos para o Universo ao afirmar que se aparecessem instrumentos melhores que os de Tycho Brahe deveriam preferirse as observações que com eles se fizessem. Tal como muitos outros astrónomos que ensinaram nas escolas portuguesas durante o século XVII, também ele considerava que não existiam argumentos físicos ou matemáticos que implicassem uma aceitação ou impugnação definitiva de qualquer dos dois sistemas do mundo. Apenas os argumentos teológicos favoreciam a aceitação dois modelos geocêntricos como mais prováveis. Deste modo, adoptava o modelo de Tycho Brahe, uma vez que o de Copérnico tinha sido recentemente impugnado pelos decretos romanos de 5 de Março de 1616. [37] Apesar de não o admitir como definitivamente provado, Borri não deixou de manifestar o seu reconhecimento pelas vantagens deste sistema.

No que respeita aos princípios da experiência, Borri argumentava que Tycho Brahe demonstrou que o cometa do ano de 1577, que apareceu na região celeste subindo cada vez mais e passando acima do Sol, e não na região sublunar. Todos os astrónomos que se correspondiam com Tycho, afirmaram que esse cometa não deveria figurar entre os meteoros sublunares. Também recordava o facto de que a nova estrela de 1572 surgiu por cima de Saturno, no céu das estrelas, pondo de parte a possibilidade de ter aparecido na região elementar, ou no céu dos planetas. Outro argumento utilizado por Borri era o facto de Marte umas vezes se encontrar acima, outras abaixo do Sol. Fez várias observações deste planeta, entre as quais a mais notável foi a observação feita em Coimbra, em 21 de Novembro de 1627. Também fez observações dos cometas de 1618, um dos quais observou na Cochinchina, juntamente com o Pe João Vreman, e que foi também observado pelo Pe Manuel Dias, em Cochim. Outro cometa aparecido no mesmo ano, foi examinado por João Baptista Cysat, do qual Borri dava igualmente notícia. Outros argumentos experimentais utilizados por Borri nas suas lições foram os aparecimentos de novas estrelas no ano de 1600, uma na constelação de Cassiopeia, outra, in pectore Cigni, tendo, sobre esta, Kepler publicado um tratado. Uma terceira estrela tinha sido registada no signo serpentário, em 1604. Para além destas evidências experimentais, Borri dava também destaque a outras, tais como os corpos nebulosos observados ao redor do Sol, cujas primeiras observações foram realizadas por Christopher Scheiner, os quais também foram objecto de observação do próprio Borri. Constituía também motivo da sua argumentação as mais recentes observações de Vénus, Júpiter e de Saturno.

A. Banha de Andrade identificou ao longo do texto da Collecta astronomica ex doctrina P. Christophori Borri, um conjunto de conclusões apresentadas por Borri, umas classificadas como certas e outras como prováveis. [38] Entre as conclusões que o jesuíta indicava como certas, e fundamentadas na experiência, contavamse as seguintes:

·                Digam os peripatéticos o que disserem, o cometa que ele mesmo e o P. Vreman observaram, era um corpo celeste, que pairava muito acima da Lua (pág. 116). Só para não porem de parte a solidez dos céus, como aliás muitos confessam, é que os astrónomos e filósofos colocavam Marte acima do Sol. Davam, pois, mais crédito à opinião antiga, do que a seus próprios olhos e às experiências (pág. 97). Se vale o peso da antiguidade, muitos antigos antes de Cristo, que antepunham a verdade à autoridade antiga, sustentavam a sentença hodierna (pág. 119), a saber, que os cometas andam na região dos planetas (pág. 371).

·                Consequentemente, já todos os astrónomos rejeitam a concepção de Aristóteles e dos Peripatéticos, acerca da matéria dos cometas, até hoje unanimemente aceita — substâncias atraídas da terra pelo Sol e depois inflamadas (pág. 119).

·                Não existem céus alguns sobre o das estrelas; nem o primeiro móvel que se dizia arrastar consigo os orbes inferiores, no espaço de 24 horas, do nascente para o poente; nem o céu cristalino, a que atribuíam movimento de trepidação, nem os dois céus que, em lugar daquele, os modernos propõem (pág. 223).

·                São três os céus. O aéreo não é mais que o nosso ar, ocupando o espaço que se estende da Terra até ao ponto a que chegam os vapores e exalações terrestres — a chamada terceira região do ar. O sidéreo consideramo‑lo esse éter mais puro e limpo, que vai desta última região até à parte suprema das estrelas (pág. 258). Quanto à natureza, figura e qualidades do empíreo não se conhecem razões físicas nem demonstrações matemáticas que no‑las possam patentear (pág. 267).

·                Há um só céu dos planetas, que é fluido (pág. 164). E, senão, os adversários que expliquem a descida e subida de Marte (pág. 165).

·                Não só o céu, mas também os astros são corruptíveis (pág. 326).

·                O fogo elementar não mora no côncavo da Lua, pelo simples motivo de já não existir côncavo da Lua... Se o elemento do fogo existe, o seu lugar natural tem de passar a ser por cima da terceira região do ar. Ele, porém, duvida seriamente que aí se encontre esfera ou elemento algum de fogo (pág. 311).

·                A Lua e os demais astros não são, como se cria — por nada haver, em contrário — perfeitamente esféricos (pág. 337).

·                Vê‑se, pelo telescópio, que a via‑láctea não passa de um aglomerado de inúmeras estrelas (pág. 236).

Entre as conclusões prováveis, Borri pronunciavase a favor da opinião de S. Tomás, admitindo uma origem angelical para a causa propulsora dos astros. Advertia, no entanto, que as virtudes ocultas não podiam ser provadas com instrumentos matemáticos. Sendo assim, admitia que se recorresse à presença dos espíritos angélicos, para que os movimentos dos astros fossem regulados nos seus percursos. Quanto à sua constituição, considerava que os astros não eram compostos dos elementos aristotélicos, mas apenas de matéria prima e forma substancial (pág. 339). Borri advertia que embora não houvesse qualquer evidência experimental, admitia como provável a corruptibilidade dos astros, em contraposição com a incorruptibilidade aristotélica.

No princípio do ano de 1628, Cristóvão Borri transferiuse para Lisboa, onde, no Colégio de Santo Antão, viria a dar continuidade à sua actividade docente, ensinando na Aula de Náutica, dando uma importância especial à Astronomia. Paralelamente à sua actividade docente, Borri prestou, por vezes, assistência técnica ao Conselho Real. Teria sido, conforme concluiu Domingos Maurício, durante a sua estadia em Lisboa que Borri admitiu publicar algumas das suas obras, atendendo ao prestígio que o seu ensino e as suas observações astronómicas tinham atingido. A sua primeira preocupação foi para a Nova Astronomia, tendo optado pela língua portuguesa para a concretização do projecto. A Collecta Astronomica já estaria parcialmente preparada desde 1623, a qual incluía o pequeno tratado De Nova Mundi Constitutione, cuja redacção final seria de 1627. Segundo refere Domingos Maurício, o texto final foi impresso em 1629, tendo os preliminares, aprovações, dedicatória ao Conde de Sortelha e índice copioso com numeração independente do mesmo texto ficado concluídos apenas em 1631. [39] Luís Albuquerque fez notar que nem sempre os professores de Santo Antão podiam definir com liberdade a estrutura da cadeira que regiam, embora os pontos de vista que adoptavam nas lições fossem da sua absoluta responsabilidade. O Pe. Cristóvão Borri foi intensamente criticado por sustentar nas suas lições que os cometas eram corpos celestes e não sublunares, ideia que implicava a não aceitação da incorruptibilidade dos céus. O condicionalismo a que os professores deste Colégio estariam submetidos pode ser testemunhada pela declaração que abertamente fez o Pe Luís Gonzaga (Lisboa, 1666 — ibid., 12.3.1747), que ensinou nesta escola entre 1700 e 1710, na advertência inicial à sua Esfera Astronomica, ao escrever que a obediência que me entregou o presente magistério, me determinou também a matéria proposta com preceyto tanto mais apertado e obrigatorio, quanto mais superior. [40] As dificuldades de Borri para a publicação da sua obra impressa teriam começado como consequência de uma divergência com o Pe. Sebastião do Couto, um grande colaborador do curso conimbricense, o qual defendera na sua Lógica que a Matemática não se tratava de uma ciência, tendo, por isso, sido contraditado por Borri. [41]

2.2.3.      Professores que mais se notabilizaram no ensino das ciências físicomatemáticas nos Colégios das Artes e de Santo Antão, e na Universidade de Coimbra, no período pósgalileano

Foi ainda na primeira metade do século XVII que Inácio Sttaford (Staffordshire, 1599 — Lisboa, 11.2.1642) adquiriu alguma notoriedade em Portugal, decorrente do prestígio das suas lições e da importância dos seus trabalhos escritos.  No ano de 1619 fez-se jesuíta em Villagarcia, Espanha, e no Verão de 1624, sendo já sacerdote, veio para a Casa Professa de S. Roque, [42] com a finalidade de trabalhar com a colónia inglesa de Lisboa. Após aperfeiçoar os seus conhecimentos em Matemática, regeu a Aula da Esfera no Colégio de Santo Antão entre os anos de 1630 e 1638. Após uma estadia no Brasil, que se prolongou até 1641, Inácio Stafford viria a falecer em S. Roque, deixando um espólio científico valioso, constituído por livros, manuscritos e instrumentos científicos, os quais teriam ficado para o Colégio de Santo Antão. Inácio Stafford deixou da sua autoria algumas obras impressas e outras manuscritas, das quais merecem referência: Assertiones caelestes, (Lisboa no ano de 1632), Elementos mathematicos, em Castelhano, (Lisboa, no ano de 1634), onde punha em destaque a Matemática, como sendo o mais «precioso esmalte da Filosofia», sendo indispensável para a Óptica, a Catóptrica, a Dióptrica, Iconografia, Geodesia, Astronomia, Geografia, Hidrografia, Hidráulica, Estática e até Medicina e Teologia. [43] Em 1636 publicou em Lisboa, em Português, a obra intitulada Theoremas mathematicos. Entre os trabalhos de sua autoria fazem parte os manuscritos: Elementos Astronomicos e geograficos, [44] (em Castelhano); La Trigonometria; [45] Los usos del pantometra (sacados del arithmetica del Pe. I.S.) [46] e ainda um conjunto de várias obras de Matemática, como sejam Arithmetica, Dimension de figuras planas e solidas, La optica, Apologia contra certo autor tocante a los rumbos nauticos, Compendio de problemas astronomicos geographicos y hydrographicos, La architectura militar, Tratado da natureza e uso dos paralaxes e Tratado da milícia. [47] Ainda ao Pe. Inácio Stafford foi atribuída a autoria de um Tratado da Fábrica e Usos do Globo Geográfico, [48] datado de 1633, no qual se encontrava desenvolvido o tema Da Fábrica e Uso dos Globos Astronomicos, Cosmográficos e Celestes, o qual foi, muito provavelmente, «lido» nas suas lições em Santo Antão. [49]

Foi durante a sua estadia em Lisboa, entre 1642 e 1646, de onde seguiu para o Oriente que Henrique Buseu (ou Uwens) ensinou na Aula de Esfera do Colégio de Santo Antão, cujas lições se encontram transcritas numa postila intitulada Tratado de Estática pello P.M. Henrique Buseo da Companhia de Jesus, na Real Academia da Mathematica do Collegio de Sto Antaõ. Em Lxa Ano 1645, [50] o qual bem pode ser considerado um Compêndio de Física, distribuído por 211 folhas de texto. [51] Este tratado dividiase em cinco partes: Centrobárica, Mecânica, Aerostática, Hidrostática e Pirostática, sendo cada capítulo bem ilustrado, tendo na totalidade cerca de 250 sugestivas figuras. A. Banha de Andrade incluiu este tratado, pela natureza dos assuntos nele inseridos, como bem representativo do movimento científico moderno em Portugal, de meados do século XVII. Constitui, com certeza, um valioso documento que comprova a existência de alguma actividade pedagógica no domínio do ensino da Física Experimental. A sua importância assume maior destaque se atendermos ao facto de Buseu ter sido contemporâneo de Torricelli.

Ainda no percurso renovador do ensino no Colégio de Santo Antão, surgiu João Riston, que ensinou no período compreendido entre os anos de 1652 e 1654. Nas suas lições fazia referência não só às obras dos antigos, mas também a Regiomontano, Copérnico, Tycho Brahe, Longberg, Kepler, etc. Através das notas escolares do seu Curso Matemático, [52] que teriam sido redigidas pelo seu discípulo João Saraiva de Vitória, ficouse a saber que Riston rejeitava o sistema de Ptolomeu, expondo longamente o sistema de Copérnico, e tal como afirmou Domingos Maurício, discutiao cientificamente com elevação, para seguir, no entanto, o de Tycho Brahe. [53]

A importância e a qualidade do ensino praticado nas escolas de Santo Antão, bem como Évora e Elvas, pode ser evidenciada pelo facto de nelas terem recebido formação os melhores cosmógrafos, engenheiros militares e navegantes portugueses do século XVII. Uma significativa lista de nomes, embora não completa, foi elaborada por Francisco Rodrigues. [54] Com efeito, o ensino das matérias relacionadas com a navegação foi um dos aspectos mais marcantes em Portugal. Ao longo do século XVII foram publicadas diversas obras de Astronomia, com carácter didáctico. [55] Entre estas obras encontramse a Collecta astronomica ex doctrina, de Cristóvão Borri (1631), a Astronomia moderna, de F. Mello Torres, editada em Lisboa no ano de 1637. Uma referência importante é também a Sphæra artificial e natural [56] e o Tratado sobre a Teórica dos Planetas, do Pe. Simão Fallónio, que entre cerca de 1635 e 1652 ensinou Astronomia, Agrimensura, Astrologia e Cosmografia, no Colégio de Santo Antão, e que viria a ser nomeado, por D. João IV, «Engenheiromor do reino». Também o Pe. Simão Fallónio, nas suas lições fazia referência à teoria de Copérnico, descrevendoa sumariamente, e rejeitandoa como teoria definitivamente comprovada, para aceitar como verdadeira a hipótese tychonica, a qual salvava as novas aparências, ou seja, através do sistema proposto por Tycho Brahe explicavamse as fases de Mercúrio e de Vénus, bem como se justificavam as variações das distâncias dos planetas à Terra. Luís de Albuquerque, no pormenorizado estudo que realizou sobre a «Aula de Esfera do Colégio de Santo Antão» salientou o facto do Pe. Simão Fallónio ter sido pioneiro nesta escola ao introduzir nas suas lições temas relacionados com a Física dos sólidos, como por exemplo a Centrometria, que tratava, entre outros assuntos, da determinação de centros de gravidade e de figura. [57]

O Tratado de navegação e pratica speculativa, da autoria de Luís Serrão Pimentel, foi publicado em Coimbra 1669, e ainda deste autor foi editado postumamente, em 1681, a Arte Prática de Navegar e Regimento de Pilotos. Luís Serrão Pimentel foi confirmado no cargo de cosmógrafomor por alvará de 13.7.1647, o qual já exercia desde que substituíra A. Mariz Carneiro, e desde 1663 acumulou com esse cargo o de engenheiromor, tendo falecido em 1678. Outro autor, Manuel Pimentel, publicou no ano de 1699, em Lisboa, a Arte prática de navegar. [58] O Pe. António Carvalho da Costa foi autor da Via astronomica, cuja primeira parte foi editada em Lisboa no ano de 1676, tendo sido a segunda parte igualmente editada em Lisboa, no ano seguinte. Este geógrafo e astrónomo publicou de 1678 um Tratado compendioso da fábrica e uso dos relógios de sol. Do mesmo autor foram também publicados em Lisboa, no ano de 1683, a Astronomia methodica distribuida em 3 tratados, e o Compêndio Geográfico, no ano de 1684.

Foi no período compreendido entre 1678 e 1680 que o Pe. António Thomas, natural de Namur, ensinou no curso de Matemática do Colégio das Artes, destinado aos candidatos da missão da China. Domingos Maurício considerou as lições do seu curso, impressas em Douai, em 1685, como um modelo perfeito de literatura escolar científica em Portugal, deste período. [59] Estas lições foram publicadas sob o título Sinopsis Mathematica, e para além das matemáticas elementares, desenvolvia também noções fundamentais de Geografia, Cosmografia e Astronomia, caracterizadas pela clareza e abundância de dados experimentais. No que respeita aos sistemas celestes, o Pe. António Thomas expunha, com algum pormenor o de Copérnico, afirmandose também ele um seguidor do sistema tychonico. Não deixou, no entanto, de fazer notar que se por um lado as observações astronómicas se mostravam em concordância com este sistema, não deixavam de o estar também em relação ao sistema coperniciano. Justificava a sua preferência por Tycho Brahe afirmando que pelos argumentos matemáticos a divergência estabelecida se tornava improfícua, uma vez que não só Copérnico, supondo o Sol imóvel no centro do firmamento, satisfazia a todas as observações dos astros, mas também em relação ao modelo de Tycho Brahe se verificava o mesmo. Para reforçar a sua opinião, António Thomas fazia lembrar que também Galileu o teria admitido nos seus Diálogos. Considerando o sistema de Ptolomeu manifestamente erróneo, e o de Copérnico mostrandose em contradição com muitas passagens da Escritura, seria isto motivo bastante para que a sua opção recaísse pela hipótese de Tycho Brahe. Foi durante a sua estadia em Coimbra, que o Pe. António Thomas efectuou observações sobre o eclipse da Lua ocorrido a 29 de Outubro de 1678, as quais foram enviadas ao Pe. de Fontenay, professor de Matemática no Colégio de Clermont, tendo sido publicado um artigo, em Fevereiro de 1679, no Journal des Savants. [60]

Refirase que em Coimbra, depois de André de Avelar, ensinaram Matemática na Universidade, Fr. Pedro de Menezes 1623 — 1650 (ou mesmo depois desse ano), Fr. António Pimenta, o qual teria ensinado num curso extraordinário entre 1642 e 1652, Fr. João Torriani, que teria iniciado as suas lições em 1653, mas que em 1654 teria ficado sem alunos. Relacionados com o ensino desta disciplina surgiram também os nomes de Fr. Jorge (João?) Andrade e Gaspar Meri. [61] No entanto, o ensino da Matemática na Universidade de Coimbra viria a receber novo e significativo impulso, só a partir de 1682, sob a influência de João König (dos Reis) (Solothurn, Suiça, 1639 — Lisboa, 14.11.1691). [62] Este professor, ingressou na Companhia de Jesus a 28.9.1657, e depois de concluir os seus estudos superiores em Ingolstadt, ensinou Latim nos Colégios de Constança e Dilinga, Lógica nos de Rotemburgo e Munique, Ética e Matemática nos de Dilinga e Friburgo de Brisgóvia, tendo também passado por Lucerna. Publicados em Friburgo de Brisgóvia, conhecemse as seguintes obras de João König: Instituto geografica elementaris, sive modus intelligendi et conficiendi mappas, do ano de 1675 e Vestigia mathematica, sive tyrocinium cosmographico geometrico astronomico cometographicum, publicado em 1679. No arquivo romano da Companhia de Jesus encontramse cartas de João König, que compreendem o período entre 1669 e 1681. [63]

No ano de 1681, D. Pedro II solicitou ao geral dos jesuítas um professor de Matemática para ensinar na Universidade de Coimbra. Foi em consequência desta diligência que João König se dirigiu para Coimbra. Desde 1669 que este jesuíta vinha solicitando que fosse enviado em missão para o Oriente. Com a sua vinda para Portugal tinha a esperança de melhor poder concretizar o seu desejo. Chegou a Portugal em Dezembro de 1681, e em 31 de Janeiro do ano seguinte tomou posse da cátedra de Matemática. A actividade docente de João König dos Reis em Coimbra não se prolongou para além do ano de 1685.  Por intervenção régia suspendeu a sua actividade docente, para realizar um mapa geral de todo o reino. Durante o seu magistério procurou reunir na sua cátedra aquilo que em seu entender seria a melhor bibliografia e material didáctico. A experiência pedagógica e conhecimento científico que adquirira ao longo da sua carreira, tendo passado por diversas escolas europeias, colocavamno numa boa situação para concretizar um projecto de ensino actualizado. Assim, sob a sua orientação foram encomendados para a Universidade um conjunto de livros e de instrumentos, que podem ser conhecidos através de documentação identificada e publicada por M. Lopes d’Almeida. [64] Com efeito, existem no Arquivo da Universidade de Coimbra dois documentos relativos à aquisição dos instrumentos e da sua entrega a João König: um contrato de entrega redigido em 9 de Novembro de 1683, [65] e outro de 4 de Julho de 1684, [66] pelo qual a Universidade se dispunha a proceder à entrega dos livros e instrumentos. Era a seguinte a relação de instrumentos e livros requisitados:

1.     instrumentos:

·                «dous globos, hum terrestre e outro celleste, nóvos, com seus pés de pao, torneados, com suas colunas do mesmo pao, em redondo, retorcidos, ambos preparados, com demonstradores, e Agulhas de marear, cada hum, com sua cappa de Carneyra vermelha, forradas de baeta branca, fina»

·                «Hum Ocolo feyto de papellaõ, pintado de vermelho, por fóra, e dourado, com cinco Canudos, e seus engastes, nos cabos, de pao Santo»

·                «Outro Ocolo, tambem de papellaõ, pintado de verde, por fóra, e tambem dourado, com quatro Canudos, e seus engastes, nos cabos, de pao Santo»

·                «Huma pedra de Sevar, armada, com seus engastes de lataõ, e huma argolla, em cima, do mesmo, e das duas ilhargas, de cima pera bayxo, duas chapinhas de Asso»

·                «Hum Espelho, concavo, redondo, engastado em pao, de largura de hum palmo, e tem hum circolo, ao redor do vidro, pintado de vermelho»

·                «Huma Agulha de marear, grande, engastada em pao, em quadrado, de trez quartos de palmo, pera cada banda»

·                «Outra Agulha, de marear, mays piquena, quadrada, engastada em pao, de meyo palmo, por cada banda»

·                «Hum Estojo com dous compassos, e duas tabolletas de Marfim, com algumas pessas pertencentes aos ditos compassos, cuberto de lixa preta, por fóra, o qual tem dentro em si, ao todo, dez pessas»

·                «quatro laminas de Cobre, lizas, quadradas, groças, da grandeza de palmo, e pollegada, por cada banda»

2.     livros:

·                «Trez tomos, grandes, do Padre Claudio Francisco Milliet, de Chales, encadernados em pasta, preta, com os titulos dourados, pelo lombo, e com Lavores dourados de cima a bayxo, os quaes se intitulaõ Mundus, Seu Cursus Mathematicus»

·                «Outro livro, do mesmo módo, do Padre Gaspar Escoto, intitullado Cursus Mathematicus»

·                «Outro livro, do mesmo módo, do Padre Joaõ Baptista Ricciolo, que se intitula Astronomia Reformata»

·                «E outro livro, de quarto, que se intitula Itinerarium Extaticum, do Padre Atanasio Quircheri».

2.2.4.      Repercussões do desenvolvimento científico europeu do século XVII nos cursos de Filosofia de Baltasar do Amaral, Baltasar Teles, Francisco Soares Lusitano e de António Cordeiro

As influências renovadoras no ensino em Portugal, através da introdução progressiva de novos paradigmas científicos, começaram também a ser notadas nas aulas de Filosofia, em Coimbra, Braga, Évora e Lisboa, como o demonstram os cursos de Baltasar do Amaral [67] (natural de Cunha Baixa, Mangualde, 1583), Baltasar Teles (Lisboa, 11.1.1596 — ibid., 21.4.1675), Francisco Soares Lusitano (Torres Vedras, 1605 — Jerumenha, 19.1.1659), António Cordeiro (Angra, 1640 — Lisboa, 2.2.1722), etc. Tal como foi assinalo por A. Banha de Andrade, imediatamente após a divulgação das sensacionais descobertas astronómicas que Galileu anunciou no Sidereus Nuncius, também em Portugal os novos conceitos e modelos da ciência emergente começaram a ser ensinados nas Aulas de Filosofia. A. Banha de Andrade, [68] referindose aos cursos de Baltazar Teles, Soares Lusitano e António Cordeiro, escreveu que nas suas lições analisavam-se as novas ideias, estavam em manifesta oposição relativamente às concepções aristotélicas. Nas aulas do Colégio das Artes e de Santo Antão, ou na Universidade de Évora ensinava-se que: a matéria celeste tem a mesma natureza que a da Terra; como o céu, também os astros são corruptíveis; admite‑se o aparecimento de estrelas novas e sustenta‑se que os cometas não são elementares e sublunares; os astros não são movidos por anjos. Todos os elementos são pesados, e não buscam por natureza os seus lugares; a gravidade é simplesmente uma força intrínseca; os astros também é por uma força intrínseca que se movem (Teles); o centro do mundo não é nada(!) e, portanto, não pode apetecer as partes da Terra(!) (Teles). Se uns corpos descem e outros sobem, isso é devido à diversidade de peso: provém exclusivamente da diferente resistência do meio, porque de si tendem igualmente para o centro (Cordeiro). Não há fogo elementar entre a terceira região do ar e o côncavo da Lua; o Sol não é sólido: está em ebulição (Soares), salvo no centro que é bastante sólido, segundo os recentes matemáticos (Cordeiro); tem manchas e é dotado, não só de movimento de translação mas também de rotação (Teles).

Baltazar do Amaral, que estudou Teologia em Coimbra, curso que concluiu em 1614, e aí entrou para a Companhia de Jesus, já revelara algumas influências modernas nas suas lições. Com efeito, no curso de Filosofia que ditou em Lisboa (1615 — 1618), e no primeiro ano de outro curso no Colégio das Artes, já apelava para o testemunho dos matemáticos, ideia que viria a ser reforçada por Baltazar Teles, ao defender que a eles se deveria dar maior crédito em matéria de ciências, e ao aceitar as teorias novas fundamentadas nas descobertas do seu tempo. [69] Por sua vez, a actividade pedagógica de Soares Lusitano caracterizou-se por uma renovação no ensino de temas de natureza científica,, demonstrando nas suas lições e nos documentos que deixou escritos o conhecimento de um grande número de obras dos modernos matemáticos, astrónomos e médicos. [70] Com efeito, Soares Lusitano defendia que « a razão deduzida da experiência se devia retorquir contra o próprio Aristóteles», pois era pela experiência dos matemáticos do seu tempo que constava que os corpos celestes sofriam modificações. [71] Se a negação da incorruptibilidade celeste se ia generalizando nas lições de Astronomia e Filosofia, o mesmo não se verificava no que dizia respeito ao peso dos elementos. Teria sido a partir de Baltazar Teles, que primeiro o admitira entre os jesuítas portugueses, que as opiniões sobre o peso e a leveza se dividiram durante um século, até que viesse a prevalecer a teoria de que todos os elementos eram pesados. J. Pereira Gomes comentou que, contudo os partidários da leveza não negavam as experiências; explicavam que, sendo o pretendido peso do ar tão insignificante, bem se podia ele atribuir aos corpúsculos que enchem a atmosfera. [72] A atitude dos filósofos da Companhia de Jesus era de prudência, mas não se mostravam irredutíveis quando os resultados do facto experimental fossem indiscutíveis.

Baltazar Teles, que foi filósofo, teólogo e historiador, entrou no noviciado de Coimbra, a 24.3.1610, ensinou Gramática e Retórica durante 8 anos, um curso de Filosofia e dois de Teologia, em Braga, Coimbra, Évora e Lisboa. Foi também reitor do seminário irlandês de S. Patrício e do Colégio de Santo Antão, prepósito da Casa de São Roque e provincial da Província Portuguesa. Como filósofo, Baltazar Teles compôs em Lisboa, no ano de 1642, a Summa Universæ Philosophiæ. Tratavase de um manual escolar que teve três edições em 10 anos e foi adoptado como livro de texto no Brasil. [73] Nesta obra o autor revelava um conhecimento notável dos físicos, matemáticos e astrónomos contemporâneos, quer de Portugal, quer do resto da Europa.

Por sua vez, Francisco Soares Lusitano estudou, em Coimbra, Humanidades e Retórica (1621 — 1623), Filosofia (1623 — 1627) e Teologia (1631 — 1635). Este professor jesuíta deu um contributo significativo para o desenvolvimento do ensino em Portugal. Durante três décadas passou pelas escolas mais importantes, desempenhando cargos de prestígio. Depois da conclusão dos seus estudos, ensinou Latim em Lisboa (1627 — 1631), Filosofia no Colégio das Artes (1636 — 1640), Teologia no Colégio de Jesus (1640 — 1654) e na Universidade de Évora (1654 — 1658). No ano de 1651 Francisco Soares publicou o Cursus philosophicus in quatuor tomos distributus, obra que viria a ser reeditada em Évora em 1668 — 1669 e 1701 — 1703. Na Universidade de Évora doutorouse a 6.6.1655 e foi reitor desde Junho ou Julho de 1658.

Baseandose num estudo pormenorizado que fez do conteúdo do Cursus philosophicus, J. Pereira Gomes colocou em destaque a atitude independente e de actualização científica de Soares Lusitano. Com efeito, este professor jesuíta ensinava aos seus alunos que perante os novos conhecimentos nem desprezava as coisas antigas, quando verdadeiras, nem abraçava as recentes, quando falsas. Soares Lusitano escreveu que «Agradamme as coisas verdadeiras, porque verdadeiras; desagradamme as falsas, porque falsas. Pois não me arrasta a beleza da novidade, ou o peso da antiguidade, mas a verdade das coisas». [74] Mostravase criterioso na análise e discussão que fazia antes de adoptar ou rejeitar uma opinião. Nem sempre terá feito a opção correcta relativamente aos modelos científicos que adoptava como mais prováveis ou verdadeiros. Ao contrário de Baltazar Teles, negava que o ar fosse pesado, facto que era aceite por este ao afirmar que também o ar e o fogo eram pesados. Os motivos que Soares Lusitano apresentava para negar que o ar fosse pesado eram de ordem experimental. Dizerse que o ar era pesado seria ir contra a experiência. Como o fez notar J. Pereira Gomes, este erro provinha, não de se repudiarem as experiências, mas de serem deficientes, como deficientes eram ainda as que fundamentavam a opinião contrária. Soares Lusitano também se opôs à hipótese do movimento de rotação da Terra. Sobre esta opinião J. Pereira Gomes escreveu: [75] Ia contra o parecer de astrónomos notáveis? Sem dúvida. Mas tinha outros a seu favor, entre eles o célebre Tycho‑Brahe, para quem a Terra descansava, imóvel, no centro do mundo, girando à volta a Lua, o Sol e as estrelas. Ao lado destes casos, outros há em que indiscutivelmente acerta em não admitir opiniões alheias. Foi apoiandose nas «admiráveis» observações que os modernos matemáticos publicaram sobre o Sol que Soares Lusitano afirmava tratarse não de um corpo sólido, mas sim fluido e líquido. Os modernos matemáticos que serviam de referência a Soares Lusitano foram: Copérnico, Tycho, Cysat, Borri, Galileu, Biancani, Kepler, Kircker, Campanella, entre muitos outros. Segundo a opinião deste professor jesuíta,  deveria darse todo o crédito aos óptimos matemáticos contemporâneos, naquelas coisas em que se revelaram diligentíssimos investigadores. Os resultados da experimentação constituíam um argumento muito forte. Também em Portugal se verificou alguma actividade neste domínio, e este facto não deixou de merecer a devida referência nas suas lições e nos seus trabalhos escritos. Afirmava, por exemplo, que: Simão Mário diz que, por meio do helioscópio, isto é, por meio do tubo óptico solar, viu o corpo do Sol a ferver como oiro lique‑feito numa fornalha. [76] Não faltavam testemunhos directos de pessoas que em Portugal se dedicavam às investigações astronómicas. Um deles foi Francisco Rodrigues Cassão, sobre quem Soares Lusitano fez um comentário elogioso: «Assegurou‑me Francisco Rodrigues Cassão, insigne matemático nesta Universidade de Coimbra, que o mesmo observara ele por meio do seu helioscópio, o qual tem 24 palmos de comprimento, dizendo que vira toda a circunferência do Sol a borbulhar, do mesmo modo que borbulha a água fervendo numa panela, debaixo da qual se ateou uma grande fogueira. São, na verdade, novas estas coisas e até agora nunca ouvidas, mas depois da invenção do helioscópio se não podem negar, pois se vêem e examinam com os próprios olhos». [77]

O açoriano António Cordeiro transferiu-se para o Continente no Verão de 1656. A 12.6.1657 entrou para a Companhia de Jesus. No Colégio das Artes estudou Retórica entre 1659 e 1660, e Filosofia até Março de 1664. Até ao final desse ano lectivo ensinou a 9ª classe de Latim, no mesmo Colégio. Seguiramse quatro anos nos Açores, onde se dedicou ao ensino. Posteriormente regressou a Coimbra onde estudou Teologia (1668 — 1672), tendo neste período recebido o grau de mestre em Artes. Entre 1673 e 1676 passou pelo Colégio de Santo Antão, onde foi substituto de Letras Humanas e provavelmente também de Filosofia. Voltando para Coimbra em 1676, seguiuse um período de vinte anos de ensino, tendo começado por leccionar um curso de Artes. As suas lições estiveram na origem de uma grande polémica em consequência das  ideias que defendia sobre a teoria do conhecimento e do hilemorfismo. Esta era a doutrina aristotélicoescolástica, segundo a qual os corpos resultam de dois princípios distintos e complementares: a matéria, princípio indeterminado de que as coisas são feitas, e a forma, princípio determinante da essência particular a cada ser. Influenciado principalmente pelas obras de Honorato Fabri, apresentava as ideias deste autor nas suas lições, motivo pelo qual teria sido fortemente combatido nas aulas por alguns mestres, como João Serrano (1675 — 1679) e José Múrcia (1678 — 1682). Esta divergência de opiniões trazidas para as aulas do Colégio das Artes provocou grande alvoroço entre os cerca de 200 estudantes que as frequentavam. Os opositores de António Cordeiro recorreram ao provincial e ao geral, e as suas proposições chegaram a ser examinadas em Roma pelos revisores gerais. Quatro delas foram reprovadas. Apesar da reprovação, António Cordeiro viria a publicálas mais tarde, em 1714, no Cursus Philosophicus Conimbricensis, embora em 18 de Março de 1713 fosse obrigado a retractarse de três numa folha anexa, respeitantes à definição de substância. A passagem de António Cordeiro por Coimbra permitiulhe contactar com uma série verdadeiramente notável de obras que já tinham sido utilizadas por Soares Lusitano. Para além de um numeroso conjunto de obras que ao longo do século se reuniram nas bibliotecas de Coimbra, António Cordeiro também teve conhecimento das obras mais recentes de Riccioli ( 1671), Maignan ( 1676), Fabri ( 1688), Cassati ( 1707). Entre as muitas referências apresentadas nos documentos que deixou escrito, merecem destaque as que fez sobre as ideias de Kepler, Galileu, Descartes, Gassendi, etc. [78] Na primavera de 1696 António Cordeiro foi retirado do ensino como consequência da polémica desencadeada em torno das suas opiniões. Foi enviado para Braga, e depois, entre 1699 e o Verão de 1707 esteve no Porto. O geral M.A. Tamburini autorizou que fossem impressos os seus escritos. António Cordeiro foi para Lisboa, onde exerceu os cargos de mestre de Casos em S. Roque e lente de prima no seminário dos Irlandeses.

Sobre a natureza da luz, António Cordeiro afirmava que em relação à definição formal não havia dúvida de que a luz era aquilo que tornava os objectos claros e manifestos; e isto constando pelos sentidos e pela experiência não precisava de outra prova de razão. Para ele, a dúvida estaria no conhecimento de qual seria, na realidade, a natureza da luz. António Cordeiro comentava que a luz criada quando Deus disse: faça‑se a luz, não era mais do que um elemento corpóreo e substancial do fogo. Toda e qualquer luz, quer a sua origem fosse do Sol, ou tivesse origem no fogo, não se tratava mais do que um eflúvio substancial, corpóreo e perene do próprio fogo elementar ou solar. Por conseguinte, a luz não deveria ser considerada uma qualidade física entitativa, nem sequer um acidente, como o pretendiam as concepções aristotélicas, mas sim uma substância corpórea do fogo. Esta opinião tinha a prova da experiência, uma vez que os raios de luz aqueciam, queimavam, iluminavam, etc., como se verificava através do espelho ustório. Esses raios, mesmo quando dispersos, não deixavam de ser fogo. J. Pereira Gomes escreveu o seguinte sobre as opiniões de António Cordeiro a respeito da natureza da luz: [79] Pulveriza as objecções. Diz um adversário da corporeidade da luz: «Nenhum corpo pode naturalmente passar dum lugar para outro, nem do sol para a terra, num instante. Ora a luz faz isto. Logo a luz não é um corpo» (2305)... Mais adiante J. Pereira Gomes comentou: Ora, afirmar no século XVII que a luz percorre o espaço no tempo, é pôr‑se ao ritmo da ciência moderna. E foi precisamente o que fez o Jesuíta português. É que «a vista não pode testemunhar o momento em que se dá a luz na natureza, mas só aquele em que ela é ferida ou modificada; pois se, entre a vista e a luz nascente, mediar um obstáculo durante a primeira hora, e for tirado na segunda, só então julgará o vidente que nasce a luz, quando ela havia já nascido há uma hora». António Cordeiro também comentava outra dificuldade colocada pelos opositores da natureza corpórea da luz: ... se a luz gasta tempo a chegar do sol à terra, jamais nós vemos o sol onde está. Para responder a esta dificuldade António Cordeiro recorriase da experiência, fazendo notar que quando movemos um tição circularmente, com um movimento veloz, julgamos que a brasa se encontra num determinado instante simultaneamente em cada um dos pontos dessa circunferência. Apontava como razão do engano a conservação das imagens nos olhos durante um certo tempo. J. Pereira Gomes identificou ainda a seguinte conclusão expressa por António Cordeiro no Cursus Philosophicus Conimbricensis: «... a luz, tomada Física e entitativamente, não é mais do que pequeníssimas partículas de fogo lançadas do próprio fogo ou do sol ou dum astro aceso...» e continuava «... as ditas partículas de fogo trazem sempre consigo não só alguma matéria especial de fogo, mas ainda duas qualidades do mesmo, distintas entre si, a saber, o calor e outra que pode dizer‑se a luz formal ou a forma da luz, ou o constitutivo e distinto formal da luz, e comummente se supõe e diz, embora com pouca propriedade, que é a luz». Referindose à natureza das cores, considerava duas opiniões na sua análise:

1ª) aquela segundo a qual as cores eram verdadeiras e deveriam ser consideradas como umas qualidades acidentais distintas da luz e de todos os outros acidentes;

2ª) a opinião segundo a qual as cores eram aparentes e indistintas da luz.

António Cordeiro esclarecia que, conforme a segunda opinião, a cor não era qualquer qualidade que pudesse ser adequadamente considerada distinta da luz. A cor não era uma qualidade permanente e real. De acordo com esta ideia, a cor era a luz modificada de um determinado modo, ou obscurada pela constituição permanente e intrínseca do objecto. Deste modo, a cor transeunte e aparente era a luz modificada de um modo específico, ou obscurada pela reflexão da própria luz. [80]

Em relação ao processo das sensações e sua natureza, e influenciado pelo sistema filosófico de Descartes, António Cordeiro aceitava que toda a acção dos objectos externos consistia em provocar um movimento nas extremidades dos nervos que se encontram nos diversos órgãos dos sentidos, e que os ligavam directamente com o cérebro. Esse movimento era transmitido ao cérebro, estimulando a glândula pineal, e fazendo com que a alma tivesse a correspondente sensação. As sensações visuais não eram causadas por outra coisa que não fosse acção dos próprios raios de luz emanados do objecto e que se dirigiam para a vista. As sensações auditivas seriam causadas pela acção do ar atirado contra os ouvidos, em movimentos trémulos e ondulatórios. Por sua vez, as sensações odoríferas resultavam das emanações, ou evaporações substanciais do corpo odorante, enquanto as gustativas estavam associadas à impressão, afecção ou informação gustativa. O sabor era proveniente da acção das partículas do corpo saboroso que afectavam o órgão gustativo. Para António Cordeiro as espécies impressas que estavam na origem das sensações eram tenuissima corpuscula, ou eflúvios substanciais corpóreos. Com efeito, concebia a luz como uma substância material, ou partículas pequeníssimas que eram continuamente emanadas da fonte luminosa. A luz, portanto, não era outra coisa senão o resultado de um eflúvio de fogo elementar ou solar, de natureza substancial corpóreo. deste modo, a luz era a substância corpórea do fogo, ou um fluxo contínuo de fogo, constituída por átomos finíssimos e inúmeros corpúsculos puríssimos e raríssimos. Para explicar a passagem da luz através dos corpos diáfanos admitia que as partículas ígneas de luz atravessavam os poros que compunham a matéria, estando estes cheios dum ar subtilíssimo. A origem da cor estaria na natureza intrínseca dos corpos onde se dava a reflexão ou refracção da luz. As diferentes cores eram interpretadas como um resultado dos diversos modos com que um corpo recebia os raios luminosos e os reenviava para os olhos.



[1] Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra — ms. 1184.

[2] CARVALHO, Joaquim de Galileu e a cultura portuguesa sua contemporânea. Coimbra. 1944. p. 10.

[3] ALMEIDA, Manuel Lopes de Apontamentos para a Biografia de André de Avelar, Professor de Matemática na Universidade. Coimbra. 1966. p. 8.

[4] Tiago de Oliveira, no seu artigo As matemáticas em Portugal — História do Desenvolvimento da Ciência em Portugal. Academia das Ciências de Lisboa. Lisboa. Abril de 1985. p. 82. referiuse às reedições de 1590, 1593, 1594, 1602.

[5] AVELAR, André de Chronographia ou Reportorio dos tempos. 1602. p. 47 48.

[6] Manuel Lopes de Almeida, nos Apontamentos para a Biografia de André de Avelar, Professor de Matemática na Universidade transcreveu alguns documentos importantes existentes no Arquivo da Universidade de Coimbra, referentes a André de Avelar.

[7] Biblioteca da Ajuda ms. 46. VIII. 16, fls. 1v 7v.

[8] Biblioteca do Escorial Cod. &IV19.

[9] Biblioteca Municipal do Porto ms. 249.

[10] Biblioteca Nacional de Lisboa F.G., Cód. 1894.

[11] Biblioteca da Ajuda ms. 51. V. 11, fls. 107 e seg.

[12] Biblioteca Municipal do Porto ms. 669.

[13] OSÓRIO, J. Pereira Sobre a História e desenvolvimento da Astronomia. História do Desenvolvimento da Ciência em Portugal.  Lisboa : Academia das Ciências de Lisboa. Abril de 1985. p. 120.

[14] Biblioteca da Ajuda 46.VIII.!8.

[15] GOMES, J. Pereira Verbo Enciclopédia LusoBrasileira de Cultura. Vol. 6. Col. 141.

[16] Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra ms. 1184.

[17] Biblioteca Nacional de Lisboa F.G. 2130 e 6353, e Biblioteca Nacional de Madrid ms. 8931.

[18] Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa ms. 491 V, e Biblioteca Pública Municipal do Porto ms. 664.

[19] Biblioteca Nacional Cód. F.G. 1869.

[20] MAURÍCIO, Domingos Vicissitudes da obra do Pe. Cristóvão Borri. Anais da Academia Portuguesa da Historia. Vol. 3. II série. Lisboa. MCMLI. p. 120.

[21] Domingos Maurício referiuse a uma cópia manuscrita de um memorial de Borri, dirigida ao Pe. Múcio Vitelleschi, geral desde 1615 1645, existente nos Armários dos Jesuítas do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (tomo XIX, fols. 314 e segs.), intitulado Al molto Re. Pre. Generale.Christoforo Borri sopra il libro che ho composto per stampare delli tre Cieli.

[22] MAURÍCIO, Domingos Vicissitudes da obra do Pe. Cristóvão Borri. Anais da Academia Portuguesa da Historia. Vol. 3. II série. Lisboa. MCMLI. p. 121.

[23] MAURÍCIO, Domingos ibidem. p. 121.

[24] Sobre este assunto Domingos Maurício remetenos para o Card.e Angelo Mai, Scriptorum Veterum Nova Collectio, Roma, 1825 1838, Vol. IV, nº IX.

[25] CARVALHO, Joaquim de Galileu e a cultura portuguesa. Biblos. Vol. XIX. 1943. p. 407.

[26] Tractatus aliquot de Mathematica Discipline : Biblioteca Nacional de Lisboa F.G. 2378.

[27] MAURÍCIO, Domingos Vicissitudes da obra do Pe. Cristóvão Borri. Anais da Academia Portuguesa da Historia. Vol. 3. II série. Lisboa. MCMLI. p. 121.

[28] CARVALHO, Joaquim de Galileu e a cultura portuguesa. Biblos. Vol. XIX. 1943. p. 466.

[29] Biblioteca Nacional de Roma ms. ges. 587.

[30] Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra ms. 44.

[31] Biblioteca Pública da Universidade de Évora cód. CXXVI/117.

[32] Este manuscrito encontravase na Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa e de lá teria desaparecido.

[33] ANDRADE, A. Banha de Antes de Vernei nascer ... Brotéria. Vol. XL. 1945. p. 369 379.

[34] ANDRADE, A. Banha de Antes de Vernei nascer ... Brotéria. Vol. XL. 1945. p. 372 373.

[35] CARVALHO, Joaquim de Galileu e a cultura portuguesa. Biblos. Vol. XIX. 1943. p. 408 409.

[36] ANDRADE, A. Banha de Antes de Vernei nascer ... Brotéria. Vol. XL. 1945. p. 374 375.

[37] MAURÍCIO, Domingos Os Jesuítas e o ensino das Matemáticas em Portugal. Brotéria. Vol. XX. 1935. p. 189.

[38] ANDRADE, A. Banha de Antes de Vernei nascer... Brotéria. Vol. XL. 1945. p. 376 377.

[39] Foi através da leitura do documento autobiográfico de Borri, Al molto Re. Pre. Generale. Christoforo Borri sopra il libro che ho composto per stampare delli tre Cieli., que Domingos Maurício encontrou a justificação para o atraso com que a obra de Borri se tornasse pública após a sua impressão, a qual apresentou no artigo Vicissitudes da obra do Pe. Cristóvão Borri. Anais da Academia Portuguesa da Historia. Vol. 3. II série. Lisboa. MCMLI. p. 119 150.

[40] ALBUQUERQUE, Luís de A “Aula de Esfera” do Colégio de Santo Antão no Século XVII. Junta de Investigações do Ultramar. 1972. p. 11.

[41] MAURÍCIO, Domingos Vicissitudes da obra do Pe. Cristóvão Borri. Anais da Academia Portuguesa da Historia. Vol. 3. II série. Lisboa. MCMLI. p. 136 e ss.

[42] Biblioteca Nacional de Lisboa fg. 4254, f. 114.

[43] ANDRADE, A. Banha de O movimento científico moderno e a filosofia antes de Vernei. Brotéria. Vol. XXXIX. Fasc. 1. Julho. 1944. p. 72 82.

[44] Biblioteca da Ajuda ms 49.II.80, e Biblioteca Nacional de Lisboa fg. 4256.

[45] Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa ms. 392 V.

[46] Biblioteca Nacional de Lisboa F.G. 1864.

[47] Biblioteca Nacional de Lisboa Pombal. 240.

[48] Biblioteca Nacional de Lisboa F.G. 1868.

[49] ALBUQUERQUE, Luís de A “Aula de Esfera” do Colégio de Santo Antão no Século XVII. Junta de Investigações do Ultramar. 1972. p. 17.

[50] Biblioteca Nacional de Lisboa F.G. 4333.

[51] GOMES, J. Pereira Perante novos sistemas e novas descobertas. Brotéria. Vol. XXXVIII. 1944. p. 390 393.

[52] Biblioteca Nacional de Lisboa Pombalina. cod. 54.

[53] MAURÍCIO, Domingos Os Jesuítas e o ensino das Matemáticas em Portugal. Brotéria. Vol. XX. 1935. p. 189 205.

[54] RODRIGUES, Francisco Formação Intelectual do Jesuíta. p. 435 e ss.

[55] OSÓRIO, J. Pereira Sobre a História e desenvolvimento da Astronomia. História do Desenvolvimento da Ciência em Portugal. Lisboa : Academia das Ciências de Lisboa. Abril de 1985. p. 121.

[56] Biblioteca Nacional Cód. F.G. 2258.

[57] ALBUQUERQUE, Luís de A “Aula de Esfera” do Colégio de Santo Antão no Século XVII. Junta de Investigações do Ultramar. 1972. p. 18.

[58] OSÓRIO, J. Pereira Sobre a História e desenvolvimento da Astronomia. História do Desenvolvimento da Ciência em Portugal. Lisboa : Academia das Ciências de Lisboa. Abril de 1985. p. 121.

[59] MAURÍCIO, Domingos Os Jesuítas e o ensino das Matemáticas em Portugal. Brotéria. Vol. XX. 1935. p. 196 197.

[60] ANDRADE, A. Banha de Alguns aspectos da nossa cultura antes de Vernei. Brotéria. Vol. XXXIX. Outubro de 1944. Fasc. 4. p. 259.

[61] OLIVEIRA, J. Tiago de As matemáticas em Portugal. História do Desenvolvimento da Ciência em Portugal. Lisboa : Academia das Ciências de Lisboa. Abril de 1985. p. 106 107.

[62] D’ALMEIDA, M. Lopes Uma nota sobre o Pe. João König (dos Reis) professor de Matemática na Universidade. Revista da Faculdade de Ciências. Vol. XIV. Coimbra. 1945. p.123 135.

[63] Arq. Rom. S.J. F. Ges. 754. n.os 58, 79, 85, 86, 88, 113, 141, 222, 228.

[64] D’ALMEIDA, M. Lopes Uma nota sobre o Pe. João König (dos Reis) professor de Matemática na Universidade. Revista da Faculdade de Ciências. Vol. XIV. Coimbra. 1945. p. 123 135.

[65] Arquivo da Universidade de Coimbra Escrit. da Un. 1676. Tom. XXVII. Liv. 1.2.3., fls. 61 v.o  62 v.o do Liv. 3.

[66] Arquivo da Universidade de Coimbra Escrit. da Un. 1684. Tom. XXVIII. Liv. 1.2.3., fls. 17 18 do Liv. 1.

[67] João Soares de Brito (Teatrum, letra B., nº 2), D. Francisco Manuel (carta I da Centúria Quarta) e Barbosa Machado (I, 433) atribuíram um compêndio de filosofia natural a Baltasar de Amaral, o qual teria sido publicado sob um suposto pseudónimo Luís Dias Franco, do qual o original com o nome próprio do autor se encontrava guardado na Casa Professa de S. Roque. J. Pereira Gomes apresenta uma interpretação dos factos, onde admite não corresponder à verdade a atribuição da autoria desta obra a Baltasar de Amaral, mas sim a um Luís Dias Franco, o qual teria sido aluno de Luís Brandão, no Colégio de Santo Antão. (Verbo Enciclopédia LusoBrasileira de Cultura na palavra Franco, Luís Dias, Vol. 8). Era um compêndio editado por Pedro Craesbeeck em 1618, intitulado Doctrina Philosophica, o qual continha os tratados da física, céu e mundo, geração e corrupção, meteoros, alma, parvos naturais, alma separada, ética ao qual apenas lhe faltava a lógica e a metafísica para ser uma síntese, ou manual de toda a filosofia.

[68] ANDRADE, A. Banha de O movimento científico moderno e a filosofia antes de Vernei. Brotéria. Julho 1944. Vol. XXXIX. Fasc. 1. p. 75.

[69] GOMES, J. Pereira Novos sistemas e novas descobertas. Brotéria. Vol. XXXVIII. 1944. p. 387.

[70] GOMES, J. Pereira Crise de cultura no século XVII? Brotéria. Vol. XXXIII. 1941. p. 284 301.

[71] GOMES, J. Pereira Novos sistemas e novas descobertas. Brotéria. Vol. XXXVIII. 1944. p. 387.

[72] GOMES, J. Pereira ibidem. p. 388.

[73] Na Biblioteca Pública de Braga (ms. 318) existe uma postilha da Summa Universae Philosophiae, que foi copiada por António Camelo, em 1630 1631, apontando opiniões de Baltasar Teles no curso desse ano, em Coimbra, muito diferentes das edições impressas.

[74] GOMES, J. Pereira Crise de cultura no século XVII?. Brotéria. Vol. XXXIII. 1941. p. 296 297.

[75] GOMES, J. Pereira ibidem. p. 297.

[76] GOMES, J. Pereira ibidem. p. 298.

[77] GOMES, J. Pereira ibidem. p. 298.

[78] J. Pereira Gomes no seu estudo sobre as “Doutrinas físicobiológicas de António Cordeiro sobre os sentidos”, feito com base noCursus Philosophicus Conimbricensis”, identificou várias passagens onde António Cordeiro fazia referência a Kepler, Galileu, Descartes e Gassendi. Na segunda parte do curso podem verse estas referências nos n.os 1779, 2297, 2301, 2401, 3249, 3334, 3375, 3470, 3472, e na terceira parte no n.os 655 e 661. (GOMES, J. Pereira Doutrinas físicobiológicas de António Cordeiro sobre os sentidos. Brotéria. Vol. XXXVI. Fasc. 3. Março. 1943. p. 294).

[79] GOMES, J. Pereira Doutrinas físicobiológicas de António Cordeiro sobre os sentidos. Brotéria. Vol. XXXVI. Fasc. 3. Março. 1943. p. 297.

[80] GOMES, J. Pereira Doutrinas físicobiológicas de António Cordeiro sobre os sentidos. Brotéria. Vol. XXXVI. Fasc. 3. Março. 1943. p. 298.