|
Fez agora 30 anos que o homem foi à Lua pela primeira vez. Numa noite quente de Julho, parecidíssima com uma das noites de Julho último, chegaram aos nossos televisores imagens a preto e branco da Lua em directo. Houve logo quem se apercebesse da importância do momento (foi, talvez, o acontecimento do século). Houve também quem duvidasse, pensando que na televisão tudo pode ser montado. Como disse um comerciante português de carnes, numa linguagem bem
terra-a-terra e que ilustra o nosso atraso da época: "A Lua? Que me interessa a
mim a Lua se eu não posso vender carne fora do meu concelho?"
Mas há uma geração - a dos jovens actuais, entendendo-se por jovens as pessoas com menos de 35 anos - que perdeu a ida à Lua. Estavam a dormir ou nem sequer tinham nascido. Apanharam a história da Lua, já algo requentada e sem a emoção do directo, servida nos "enlatados" da NASA na televisão ou, numa hipótese algo optimista, em textos nos
livros, escolares ou de divulgação, que convidavam à aventura da ciência. Esta é a geração do intervalo na exploração espacial. Mas não houve a bem dizer "buraco". Os jovens e os menos jovens viram a estação espacial russa
"Mir", agora a cair. Viram recentemente a estação espacial "Freedom" começar a erguer-se nos céus. Viram o telescópio espacial "Hubble" ser reparado e tirar fotografias espantosas de tudo quanto é sítio. Viram os vaivéns espaciais a ir e a vir do Centro Kennedy. Viram as sondas enviadas
a planetas longínquos, como as "Voyager" e a "Galileo", ou a planetas próximos, como a recente
"Mars Pathfinder", que pousou em Marte com o pequeno carro-robõ. Viram tudo isso e não foi pouco, mas perderam a Lua... Alegrem-se, porém: a geração mais nova perdeu a Lua mas vai ganhar Marte. Marte é, será das crianças e dos jovens de hoje.
Marte é a próxima fronteira. Como disse o pioneiro russo da exploração espacial Tsiokolvsky: "A Terra é o berço da humanidade, mas ninguém fica eternamente no berço'. Havemos de ir a Marte no próximo século, provavelmente lá para o ano 2020, passados 50 anos depois da Lua. Não é tecnologicamente impossível, sendo só questão de concretizar para isso um grande projecto internacional. A humanidade, para sair do berço,
só tem de querer, organizar um plano e, claro, pagar a grande viagem. A paisagem de Marte está lá, virgem como estava o Everest antes de Edmund Hillary, e alguém quererá ser o primeiro. Faz parte da natureza humana, quase se pode dizer está no património genético, não se contentar com o conhecido e não se saciar do desconhecido. Porque é que se foi à Lua? Porque John Kennedy, decerto impulsionado pela guerra
fria mas levado também pela ideia de ultrapassagem das fronteiras, lançou o desafio e disse que para lá se tinha de ir rapidamente e em força. Por que é que não se
vai a Marte amanhã? Porque ainda ninguém, com o mesmo discernimento, vontade e poder, disse que lá se devia ir. Por que é que se irá depois de amanhã a Marte?
Porque o que é possível e desejável se faz, ou, melhor, acaba inexoravelmente por se fazer.
Conhece-se, porém, quem não só não queira ir (está no seu direito) como também não queira que se vá (aqui, vale a pena
contra-argumentar). O nosso comerciante, certamente, não quererá saber. Esperamos, pelo menos, que tenha obtido entretanto autorização para vender carnes na União Europeia.
Mas, por estranho que pareça, o nosso prémio Nobel da
literatura, José Saramago, achou por bem, desprezar a viagem marciana,
afirmando - a citação é
de
cor - que era infelizmente
|

mais
fácil enviar um engenho a Marte do que chegar ao homem na Terra.
A pergunta até parece, à primeira vista, boa: Se há tantos problemas na
Terra, porque há-de o homem arranjar sarilhos em Marte?
A visão de Saramago, embora descontando a metáfora a que têm direito todos os artistas, é tão sustentável ou insustentável como a do comerciante.
Competem as duas em tacanhez. Primeiro: não é garantido que os problemas na Terra se resolvam mais facilmente ignorando o espaço, afinal aqui tão perto de nós. Segundo: É precisamente por haver problemas na Terra que a ciência e a sua filha legítima, a tecnologia, devem prosseguir, ultrapassando sucessivas fronteiras. A falta de ciência nunca resolveu problema nenhum. Pelo contrário, a ciência pode, os exemplos abundam, ajudar a resolver muitos problemas da humanidade, incluindo a fome, a doença e a miséria. Não é obrigatório que os resolva, pois a actividade humana não se esgota na ciência. Há a política, a economia, as artes e as letras, a religião, etc., mas nenhuma destas se podem dar ao luxo de querer passar sem a ciência, sem o saber construído pela curiosidade humana.
Lembremo-nos que a ida à Lua foi um enorme empreendimento humano: Para que Armstrong e Aldrin
alunassem, trabalharam directamente mais de 200 000 pessoas; mostrou-se que se podia concretizar um grande projecto. De resto, resolveu-se uma
miríade de problemas específicos: foi um feito com consequências fantásticas na engenharia e na medicina. Mas
resolveu-se, sobretudo, um problema central: ir "lã", sair pela primeira vez do nosso berço planetário. Também se avançou na economia e na política, na arte e na religião. A humanidade não é a mesma desde que dois dos seus exemplares foram à lua. A humanidade não
voltará a ser a mesma quando os seus representantes pisarem as areias de Marte (a ida a Marte será, talvez, o maior acontecimento do século XXI).
Claro que na ida a Marte há questões ideológicas. Por exemplo, provavelmente o primeiro explorador será
norte-americano. Curioso é que não conste que Saramago se tenha pronunciado sobre a empresa espacial quando os russos disputavam com os norte-americanos a primazia no espaço e até a ganhavam. Nem sequer quando o primeiro engenho, um artefacto soviético, feio e forte
(com a foice e o martelo), caiu em 1971 desamparado no solo marciano, jazendo hoje debaixo de um monte de areia, onde poderá um dia vir a ser desenterrado por arqueólogos. Sim, foram os soviéticos os primeiros a chegar, ainda que com um objecto, ao planeta vermelho.
Daqui até ao ano 2020 vários voos dos EUA, da Rússia, da Europa e do Japão terão Marte por meta. Todos os dois anos há uma 'janela de oportunidade", onde se pode fazer o 'tiro" astronómico correcto. Logo que o programa principal da estação espacial
internacional se esgote, missões robotizadas explorarão Marte, antes do homem, trazendo até à Terra a terra de Marte (as imagens das sondas 'Viking'
mostraram-nos que a superfície de Marte não é assim tão diferente de um deserto terrestre).
Depois de resolvidos problemas de reciclagem de recursos, de
produção de
combustível e de resistência do
|
organismo (a
viagem, para Marte, com a tecnologia actual, durará mais de um ano, para lá, e outro tanto para cá, mas a tecnologia está sempre a evoluir), será finalmente a vez de uma expedição tripulada.
Portugal entrará para a ESA, agência espacial europeia, em 2000 e poderá participar na aventura. Não se
percebe por que é que o Ministério da Ciência e Tecnologia esperou quatro longos anos para concretizar o óbvio: que devíamos também ser
europeus no espaço. Assim, não será o filho mas tão só o neto do magarefe que poderá ser astronauta.
Marte é um planeta mítico. Não sendo o mais próximo de nós, é o mais parecido com o nosso. É o sitio onde pode ter existido vida no passado (as notícias sobre organismos vivos num meteorito oriundo de Marte e caído na Antárctica eram um pouco exageradas), é o sítio onde astrónomos pouco sofisticados julgaram ver um sistema de canais
fruto de uma civilização planetária, é o sitio de onde Orson Wells imaginou vir os invasores. Mas é também o planeta do futuro: aquele onde haverá vida, quanto mais não seja levada da Terra, aquele cuja paisagem pode ser 'terraformada', isto é, tomada semelhante à nossa, possibilitando as primeiras colónias humanas no espaço. Marte é o único planeta dos sistema solar, além do nosso, que
poderá ser habitado.
É bom que os jovens saibam que é possível ir a Marte, que os muito jovens poderão mesmo um dia lá ir. Os manuais escolares de ciência podem não ser suficientemente apelativos. Os programas televisivos sobre ciência podem não ser assíduos. Mas podem-se organizar
projectos para acompanhar as idas a Marte, usando nomeadamente os 'media' e as
hodiemas redes de comunicações. Se a chamada Secretaria de Estado da Educação e Inovação se lembrasse algum dia de inovar alguma coisa, acarinharia projectos
sobre Marte, os planetas, as estrelas, etc, alimentando a imaginação ávida dos jovens. Bastante pior que não ter meios para fazer é não ter ideias sobre o que fazer. Falar no espaço, seguir e projectar viagens espaciais é pôr em agitação os jovens neurónios. Não compreender isso é ter neurónios envelhecidos pela inacção.
A longo, muito longo prazo, a presença humana em Marte terá uma utilidade evidente. Resolverá pelo menos em parte, o problema da sobrepopulação do nosso planeta-berço, o problema da escassez de recursos naturais e o problema da
degradação do meio ambiente. Talvez até, se houver (lagarto, lagarto!) uma catástrofe na Terra,
Marte seja o sítio onde o património da vida vai continuar a sua prodigiosa história evolucionária. Os descendentes remotos do nosso
comerciante de carnes irão um dia vender costeletas, ou o equivalente sintético delas, em solo
marciano.
Enquanto a Saramago, esperamos que continue a diatribar contra a exploração do espaço pois são precisos
"velhos do Restelo" para haver epopeia. Mas esperemos também que reconheça uma utilidade bem prosaica para Marte:
Marte, ao fim e ao cabo, é uma fonte inspiradora de agradáveis páginas de Iiteratura, de Edgar Rice Burroughs a Arthur Clark. Por exemplo, Ray Bradbury
é o autor de "Crónicas Marcianas". A prosa de Bradbury termina, eloquentemente:
"Os marcianos somos nós". Quando lá chegarmos, claro.
|