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João Carlos de Matos Paiva, Janeiro de 1997
Escola Secundária de Penacova
Portugal
E-mai jcpaiva@cygnus.ci.uc.pt
Sumário:
0. Resumo
1. Introdução
2. Breve história da Internet
3. Principais características e serviços
da Internet
4. A internet na educação
5. Pistas para a formação de professores
6. Bibliografia
Começaremos por fazer uma descrição simples da rede das redes a que vulgarmente se chama Internet, evidenciando as suas potencialidades.Far-se-ão algumas reflexões sobre o impacto desta rede informática mundial na educação. A importância da formação de professores neste domínio é referida no último capítulo.
Implicitamente o leitor é convidado a entrar neste mundo e, se possível, trocar o papel por um terminal de computador ligado à rede (http://nautilus.fis.uc.pt/~jcpaiva/artigos/intedu1.htm) , onde muitas portas, com um simples clique, lhe podem ser abertas de imediato...
A Internet tem vindo a impor-se nos nossos dias como uma rede mundial de informação e comunicação de alcance imprevisível. As potencialidades que a rede oferece situam-se ao nível das mais diversas actividades, desde simples gestos quotidianos até procedimentos de âmbito científico-académico.O ensino não poderia deixar de ser influenciado por estes novos recursos que se abrem à sociedade em geral e que certamente potenciarão o ensino, em particular. Comunicar mais e melhor, sem desfocar a imprescindibilidade do elemento humano, peça vital da própria comunicação, só pode ser bom para o ensino. Como em tudo o resto, regista-se uma ou outra indevida utilização: pode-se distorcer para negativo aquilo que é potencialmene um bem...
A Internet, embora longe da forma que hoje toma, remonta ao início dos anos 60, nos Estados Unidos da América. A primeira experiência de redes de informação surgiu associada aos serviços de defesa norte-americanos. Na hipótese de uma catástofre nuclear, pretendiam estes serviços militares dispor de um suporte de comunicação sem hierarquias, capaz de funcionar de uma maneira não localizada (em círculos não obrigatoriamente concêntricos). A primeira rede deste género chamava-se ARPANET (ver 4 )Vários computadores localizados em pontos distantes dos EUA foram então ligados entre si, criando suportes de permuta de informação à distância.
Ficou assim criado o protótipo do que viria a chamar-se Internet. Logo depois dos militares, foram as universidades a usar mais este tipo de redes, tendo como objectivo essencial a permuta de mensagens (correio electrónico) na comunidade científica, estendida agora a vários lugares do mundo. Desde logo se alargaram progressivamente estes suportes de comunicação para efeitos de discussão de ideias aos níveis científico, ideológico, religioso, humorístico, etc.
O crescimento prodigioso exponencial da Internet deu-se nos anos 80, com a abertura da rede a computadores e sub-redes independentes. Em 1987 a Internet é aberta ao público, primeiramente nos EUA e nalguns países europeus, mas depois e muito rapidamente no mundo inteiro.
Calcula-se que hoje cerca de 8 milhões de computadores estejam ligados na Internet e mais de 30 milhões de pessoas usem directamente os serviços associados. Trata-se, indiscutivelmente, de um suporte informático do «planeta global»!(ver 8 )
3. PRINCIPAIS CARACTERÍTICAS E SERVIÇOS DA INTERNET
A Internet é assim uma «megarede» de computadores que comunicam entre si, de forma horizontal, sem uma hierarquia vertical (esta hierarquia,ou admissão menos livre, existe contudo, em determinados forums de discussão ou para o acesso a fontes de informação sujeitas a admissão - ou pagamento prévio).Uma expressão chave no acesso à Internet é o acrónimo TCP/IP. Estas iniciais significam Transfer Control Protocol / Internet Protocol e expressam os protocolos padronizados que permitem a livre ligação de computadores (e respectivos utilizadores) na rede. Mediante a instalação deste «protocolo», máquinas com características variadas podem interagir.
Em instituições de tipo universitário e afins, a ligação à rede é permanente. Mas o acesso à rede pode ser esporádico recorrendo a uma vulgar linha telefónica, utilizada pontualmente. É este o acesso típico das pessoas singulares, desde que possuidoras de um modem, que liga o computador à rede através da linha telefónica (existem ainda as chamadas linhas Rdis, com uma velocidade de transporte de informação bem mais eficaz, mas mais dispendiosas).
Para fácil manipulação e troca de informação desenvolveram-se programas de computador de simples manuseamento: buscar, trocar e fornecer informção faz-se hoje tal como mera «conversa». De entre este software destacamos os programas Netscape e Explorer, este da Microsoft, para as plataformas Machintosh e IMB-PC compatíveis.
De entre os diversos serviços da Internet, destacamos:
a- World Wide Web (WWW)
Este serviço integra todo um conjunto de informação digital. Trata-se duma associação de texto, imagem, som e vídeo, (combinações de zeros e uns) disponível a qualquer momento e disposta num formato que vulgarmente se designa por hipermédia. Este documento hipermédia não tem de ser original. É de referir que a permuta de informação vídeo é um processo ainda muito lento, excepção feita à transmissão por linhas rdis. É curioso que os visionários da Internet da década de 80 - aludindo às auto-estradas de informação - pensavam que ia ser hoje possível transmitir informação a uma velocidade muito superior à que de facto se verifica, mais lenta do que foi previsto, não só por questões de natureza técnica como principalmente económica (os mesmos cabos ópticos, por exemplo, que alimentam a televisão por cabo, podem tecnicamente ser suporte para o acesso à Internet. Mas não o são).
Os documentos hipermédia são tipicamente de agradável e amigável manuseamento. Um simples clique com o rato numa expressão sublinhada ou num pequeno ícone, transportará o utilizador para outras fontes de informação ou mesmo para outros locais (vulgo sites) da rede. Os computadores servidores de informação designam-se por URL (Uniform Resource Locator) e estão espalhados por todo o mundo.
Na WWW haverá hoje milhões e milhões de documentos hipermédia, quantidades inimagináveis de informação. Para seleccionar/procurar informação há inúmeros programas de procura dos quais destacamos e aconselhamos "AltaVista"(à escala internacional) e SAPO - Servidor de Apontadores portugueses (à escala nacional). Neste tipo de ferramentas há a possibilidade de uma procura por palavras-chave.
Os serviços referidos seguidamente são todos eles, de alguma forma, casos particulares da WWW, na medida em que os modernos browsers para o uso da WWW também os permitem.
b- EmailO serviço de correio electrónico (E-mail) esteve na base das primeiras experiências relacionadas com a Internet (ver Cap 2 ).
O E-mail permite a troca de mensagens escritas mas também de ficheiros que podem incluir figuras, sons, vídeo, etc.
Esta forma de comunicação que se tem vindo a vulgarizar apresenta inúmeras vantagens em relação a outras vias mais tradicionais: é mais rápido (praticamente em tempo real - se o receptor estiver ligado e não muito longe), é de gestão amigável no tocante às mensagens recbidas e enviadas (o programa Eudora é disto um exemplo), podem-se pré-preparar as mensagens antes da ligação estabelecida (muito útil para quem trabalha em casa e tem de pagar impulsos telefónicos), é possível permutar com rapidez e eficiência grandes quantidades de informação (em ficheiros), pode-se enviar a mesma mensagem a múltiplos receptores, sem qualquer acréscimo de dispêndio de tempo, um receptor pode ler as suas mensagens em qualquer local do mundo, desde esteja ligado à Internet.
De entre as principais desvantagens deste serviço evidenciamos a falta de sigilo, que muito dificilmente se pode garantir de modo absoluto, apesar do sistema de «passwords». Também é de referir a grande lentidão com que ficheiros «pesados», com figuras, som ou imagens em movimento, se enviam e recebem, actualmente.
c- NEWSEste serviço é também conhecido por Usenet. Trata-se de um conjunto diversificado e organizado de forums de discussão.
Os forums estão organizados por assuntos e podem ter um moderador que filtra as colaborações e as torna públicas aqueles que entende. Em muitos casos há direito de admissão para aceder a um determinado grupo de discussão. Poderá também exigir-se um pagamento para participar, o que acontece também noutros serviços da Internet (para aceder a certas páginas de informação ou recolher determinados programas).
Esta discussão, obviamente, é realizada à distância. Pode ser feita em tempo real (IRC - Internet Relay Chatting) e incluir até conferências electrónicas em que os espectadores batem palmas ou assobiam no computador...
Destaque especial merecem neste contexto as «mailing lists». Informações periódicas actualizadas sobre determinado assunto podem ser electronicamente enviadas aos participantes pré-inscritos e cujos enderços estejam incluidos nessa lista.
d- FTPEste protocolo permite a troca optimizada de ficheiros através da rede. O significado de FTP é «File Transfer Protocol».
Os diversos servidores podem admitir um visitante anónimo que pode livremente explorar e eventualmente capturar (fazer o download) software. Mas é frequente que exista uma password para restringir o acesso aos servidores.
Merece particular destaque o serviço Archie, que permite a procura de software disponível por FTP na rede. O Archie permite uma busca de ficheiros por assuntos e é permanentemente actualizado.
e- TelnetEste serviço funciona como uma chamada telefónica, mas para um servidor de rede em qualquer parte do mundo. Estabelecido esse contacto é possível manipular a máquina conectada como se se lá estivesse desde que existe a competente autorização. Isto permite a um utilizador num dado país, por exemplo, usar computadores em qualquer outro país.
A comunicação é um dos aspectos fundamentais da vida quotidiana. É também ponto de passagem obrigatório nas relações pedagógicas.As novas tecnologias de comunicação têm evoluído extraordinariamente nos últimos anos. Comunicar hoje, podemos dizer, é mais fácil, mais versátil, mais rápido e mais eficaz do que nunca. O ensino não pode, pois, ficar indiferente às portas que são abertas por essas tecnologias de comunicação e informação.
Algumas posturas mais cépticas colocam sérias reticências às aplicações das novas tecnologias em áreas marcadas pelas relações humanas, como o ensino. Respondendo-lhes, há que frisar que o computador é uma máquina que não substitui o homem. É antes uma ferramenta que pode ajudar o homem a dedicar-se mais ao homem. Com um pouco mais de ironia, poderíamos citar Faramarz Amiri, autor de vários artigos sobre a aplicação de novas tecnologias para o ensino, que diz "Computers may never replace (...) teachers but teachers who are «computer - literate» may replace those who are not" («O computador não substitui o professor mas um professor que use o computador pode substituir outro que não o use…»).
É oportuno referir, neste contexto, algumas das qualidades/valores que poderão advir do uso das novas tecnologias de informação e comunicação nas escolas:i- Espírito de partilha.
As home pages são um exemplo da partilha de informação que é possível levar a cabo na rede. Muitas páginas pessoais, como é a do autor deste documento - João Carlos Paiva - constituem-se como forma de pôr em comum trabalhos, informações e endereços de URL's capazes de ajudar outras pessoas, principalmente da mesma área de interesses.
ii- Espírito de colaboração.
Muitos trabalhos são hoje possíveis graças à Internet, em particular ao Email. Pessoas a dezenas de milhar de quilómetros de distância podem executar em comum e paralelamente os mais variados trabalhos. Destaca-se, neste contexto, o chamado trabalho colaborativo, em que grupos de pessoas - em tempo real ou assincronicamente - discutem e constroem algo em comum (ver, por exemplo, Trabalho colaborativo).
iii- Solidariedade.
Sem comentários, sugerimos uma pesquisa aos sites AMNISTIA INTERNACIONAL (secção venezuelana) e 12 de Novembro de 1996 - 5 anos depois do massacre de Santa Cruz.
iv- Conhecimento actual de «mundos no nosso mundo».
Numa lista sempre caricaturalmente pequena e subjectiva sugerimos uma visita a Portugal Cultural, Museu do Louvre, Tudo sobre Química no mundo, Universidades portuguesas, e Escola Secundária na Austrália
v- Acesso a mais, melhor e mais bem organizada informação.
Também sem comentários, veja, entre outros: CP_INFORMAÇÕES, CUSCO da ViaTecla (tudo que se pode ver na Internet em Portugal) e YAHOO.
vi- Ganho de tempo.
Navegue um pouco na rede e faça o seguinte exercício: «quanto tempo demoraria a recolher e/ou fornecer a mesma informação se não fosse esta rede?».
Como não podia deixar de ser, são enormes as implicações e os usufrutos da Internet no mundo da educação.
O alheamento da comunidade escolar face a este fenómeno dos nossos dias pode vincar algum desajuste já latente entre a escola formal e o mundo real.
É oportuno referir que a Internet (tal como o software educacional em geral) não constitui a panaceia para os problemas do sistema educativo. Por si só, será uma autêntica peneira a sombrear o sol de facilitismo que se instaurou no sistema educativo. Este facilitismo, que tem degradado e mediocratizado a aprendizagem, só se contorna, em nossa opinião, com rigor, trabalho, disciplina, empenho e exigência. A Internet pode constituir-se como uma mais valia no contexto da motivação dos alunos e no incremento da qualidade do que se ensina e do modo como se ensina. As pessoas, que podem animar este colorido de informação (que hoje não é «folclórico» mas verdadeiramente enriquecedor), os professores - entenda-se - jamais serão prescindíveis, com os seus talentos, a sua competência e o seu entusiasmo.
Será sempre incompleta a lista de tarefas a potenciar ou criar com recuros à Internet:
- Participação em foruns de discussão com escolas e instituições de todo o mundo. Pode servir disciplinas como História, Geografia, Matemática, Desenho, Música, Ciências,... Ficará alguma área disciplinar de fora? (ver BBS RIA - Excelente base de informação e discussão- AVEIRO, por exemplo)
- Potenciação do trabalho do aluno em casa, se este disposer de meios técnicos para tal, sem que isto signifique a desvirtuação da importância do espaço escola (ver 9 .).
- Recepção de informação actualizada sobre determinado assunto em mailing lists específicos.
- Acesso a bibliotecas de todo o Mundo com pesquisas on line. (ver Biblioteca da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, por exemplo).
- Aulas interactivas com as novidades mais «frescas» sobre determinado assunto (esta utilização exigiria uma forma de projecção de imagem - data display ou placa vídeo em computador com respectivo vídeo).
- Acesso fácil a recursos educativos de grande variedade e interesse. (destacamos ReadCiências ). ReadCiências é uma base de dados de recursos educativos para o ensino das ciências.
- Disponibilidade da mais variada e profunda informação (texto, imagem, som) para trabalhos de professores e alunos. (A título de exemplo: Imagens de Físicos)
- Correspondência (E-mail) interna e externa sem limites.
- Submeter artigos para publicação em revistas de forma electrónica (Journal of Chemical Education, no caso da Química, por exemplo)
- Cada professor pode ter a sua página pessoal (como já é vulgar nas instituições universitárias - ver Jaime Silva, por exemplo, que contém uma quantidade enorme de informação na área do ensino da matemática) e facilitar o contacto com alunos que colocam dúvidas, tiram dúvidas, obtêm sumários e testes, etc.
- Ter mais e melhor acesso a concursos que possam beneficiar a escola (ver Missão para a Sociedade de Informação, por exemplo).
- Adquirir mais rapidamente certos produtos via Internet (exequível com cartão de crédito). Em Pasco, por exemplo, é possível obter informações e adquirir materiais de laboratório para o ensino/aprendizagem das ciências.
- Saber mais rápida e eficazmente resultados de exames ou colocação de professores (ver Concursos de Pessoal Docente do Ministério da Educação, por exemplo).
- Tornar acessível e assim divulgar a Escola, os trabalhos e as pessoas que nela trabalham (veja-se, por exmplo Miami Beach High School, a «home page» de uma escola secundária norte americana).
A formação dos professores neste âmbito deve ser eminentemente prática, isto é, apoiada em gestos pragmáticos e em sub-projectos de interesse pessoal dos próprios. É a pretexto destas actividades que são apreendidos o manuseamento de ferramentas informáticas, as funções operacionais e o desenvolvimento de estratégias de organização de informação e pesquisa.
EXEMPLOS DE TAREFAS / IDEIAS
NOTA: Como já foi referido, todas as tarefas deverão ser exploráveis num contexto dos interesses pessoais dos formandos.
A ordem dos exemplos referidos não é determinante.
1- A "Internet", o passado, o presente e o futuro da comunicação electrónica.
2- Autoestradas de informação: a Internet na perspectiva do utilizador: serviços, software (utilitários de acesso) e comandos.
3- Hipóteses (muitas) de usar a Internet na escola (dentro e fora da sala de aula).
4- «Visitas» : Centro de Documentação 25 de Abril ( Centro de Documentação 25 de Abril ); Museu do Louvre (Museu do Louvre); Universidades estrangeiras (Sheffield University, por exemplo); museus em Singapura( Singapore Science Center ); exposições na Austrália( Wollogong Planetarium ); ReadCiências (Recursos Educativos); compras com cartão de crédito (Music shop , por exemplo), etc.
5- Intercâmbios em grupos de discussão (página Timor, por exemplo) e conferências electrónicas.
6- Roteiros de exploração da Internet para alunos.
7- E-mail na escola: mensagens para todo o mundo. Comunicar mais e melhor, «lá fora» e «cá dentro».
8- Criação e edição de páginas electrónicas de divulgação e discussão nas escolas.
9- Como organizar endereços. Importância da escolha de objectivos e filtragem de informação.
10- Navegar… mas com um rumo.
11- Usos e abusos da Internet no ensino.
Nota prévia: Há muita informação na Internet e esta bilbiografia será sempre incompleta. Conscientes destas limitações, apresentamos um conjunto necessariamente curto de referências, optando exclusivamente por artigos com edição electrónica (acessíveis por um simples clique nos caracteres sublinhados).