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João
Carlos de
Matos
Paiva |
Ensino
do equilíbrio químico: subtilezas e simulações computacionais dissertação
apresentada à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos
necessários à obtenção do grau de Doutor em Química, realizada sob
co-orientação científica do Doutor António Ferrer Correia, Professor
Catedrático do Departamento de Química da Universidade de Aveiro e do Doutor
Victor M. S. Gil, Professor Catedrático do Departamento de Química da
Universidade de Coimbra. |
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o júri presidente |
Prof.
Dr. Manuel João Matias Prof.
Dr. Victor Manuel Simões Gil professor
catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra Prof.
Dr. Carlos Manuel Baptista Fiolhais professor
catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra Prof.
Dra. Mariana da Piedade Alves Pereira professora
catedrática do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da Universidade
de Lisboa Prof.
Dr. António José Venâncio Ferrer Correia professor
catedrático da Universidade de Aveiro Prof.
Dr. José Joaquim Cristino Teixeira Dias professor
catedrático da Universidade de Aveiro Prof.
Dr. António Francisco Carrelhas Cachapuz professor
catedrático da Universidade de Aveiro Prof.
Dra. Maria da Graça de Ornelas Santana Marques professora
auxiliar da Universidade de Aveiro |
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agradecimentos |
Agradeço ao Prof. Doutor
António Ferrer Correia, por todo o apoio prestado desde a primeira hora, pelo
acolhimento e competência científica com que acompanhou este trabalho. Uma
palavra especialíssima de agradecimento é devida ao Prof. Doutor Victor Gil,
meu mestre no gosto e na entrega à causa do ensino da Química. A ele,
companheiro de viagem deste trabalho, o meu indizível reconhecimento. Merecem
uma palavra especial os membros do grupo de Computadores no Ensino das
Ciências do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra, pelo
apoio logístico, técnico e científico, particularmente nas pessoas do seu
responsável, Prof. Doutor Carlos Fiolhais, e do programador Eng. Ilídio
Martins. Uma
última referência de agradecimento ao Prof. Doutor José Manuel Canavarro, da
faculdade de Psicologia e Ciências de Educação da Universidade de Coimbra,
pelo apoio prestado nas pontes que este trabalho faz com a psicologia e as
ciências de educação. Para
além do reconhecimento da competência profissional das pessoas acima
referidas, destaco em todas as suas enormes qualidades humanas, cuja recordação
guardo com particular estima. As
palavras finais vão para a Jacinta, para o André, para o Afonso e para a Ana,
porque os seus sorrisos e a sua disponibilidade sempre conseguiram dissipar
os meus eventuais remorsos pelo tempo que, devido a este trabalho, lhes
subtraí. |
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resumo |
Apresenta-se
uma reflexão sobre as dificuldades no ensino e aprendizagem do tema
«equilíbrio químico», bem como um conjunto de propostas didácticas para
resolver alguns desses problemas. A maioria destas estratégias têm um
suporte computacional, sendo
concretizadas quer através de um programa de computador intitulado «Le
Châtelier», quer através de simulações on
line. São apresentados alguns estudos de impacto destas ferramentas junto
de professores e alunos, que revelam resultados animadores. |
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abstract |
This work consists of a
reflection on the difficulties felt in teaching and learning processes
concerning "Chemical
Equilibrium", as well as a set of didactic proposals to help in solving
some of those problems. Most of these strategies have a computational basis,
being implemented not only in the computer program "Le Châtelier",
but also in on line simulations. Some studies concerning the impact of these
tools on teachers and students, with good results, are also presented. |
Introdução............................................................................................................................ »»
1. Concepções
alternativas, analogias e computadores no ensino das ciências............. »»
1.1. Concepções alternativas
no ensino das ciências..................................................... »»
1.1.1. Breve história de
tendências................................................................................................................. »»
1.1.2. Fundamentação
epistemológica e psicológica do movimento das concepções alternativas...... »»
1.1.3. Características das
concepções alternativas...................................................................................... »»
1.1.4. Metacognição.......................................................................................................................................... »»
1.2. Analogias em ciência................................................................................................ »»
1.2.1. Vantagens e desvantagens
do uso de analogias............................................................................... »»
1.2.2. Modelos para a utilização
de analogias............................................................................................... »»
1.3. Dificuldades de
aprendizagem em ciências e computadores.................................. »»
1.3.1. Simulações
computacionais: o elixir do ensino ou talvez não.......................................................... »»
1.3.2. Enquadramento pedagógico
e oportunidade de simulações on‑line em Java: um novo
paradigma na utilização das tecnologias de informação e comunicação no ensino..................................................................... »»
2. Diagnóstico
sobre o ensino do equilíbrio químico e o princípio de Le Châtelier: algumas
pistas de superação........................................................................................................................ »»
2.1. Breve história do
princípio de Le Châtelier........................................................... »»
2.2. Percursos operacionais
para o ensino do equilíbrio químico.................................. »»
2.2.1. Estados de equilíbrio.............................................................................................................................. »»
2.2.2. Constantes de equilíbrio
e alterações ao estado de equilíbrio......................................................... »»
2.2.3. Interpretação dos valores
da constante de equilíbrio com base em conceitos fundamentais.... »»
2.3. Concepções alternativas
em equilíbrio químico...................................................... »»
2.3.1. Lista de concepções
alternativas em equilíbrio químico................................................................... »»
Entendimento
do conceito de equilíbrio químico e suas características.................................................... »»
Alteração
do estado de equilíbrio............................................................................................................. »»
O
uso (e abuso) do princípio de Le Châtelier........................................................................................... »»
Equilíbrios
múltiplos................................................................................................................................ »»
Sistemas
heterogéneos.............................................................................................................................. »»
Velocidade
das reacções e equilíbrio químico............................................................................................. »»
Constante
de equilíbrio e quociente de reacção........................................................................................ »»
2.3.2. Generalidades sobre
concepções alternativas em equilíbrio químico............................................. »»
2.3.3. Percepção dos professores
sobre a incidência nos alunos de algumas concepções alternativas em equilíbrio
químico »»
Descrição
do estudo................................................................................................................................. »»
Resultados
e conclusões........................................................................................................................... »»
2.4. Equilíbrio químico e
analogias................................................................................. »»
A.
Analogias mecânicas............................................................................................................................ »»
B.
Analogias envolvendo elementos vivos (pessoas ou animais)............................................................. »»
C.
Analogias em forma de jogo/desafio..................................................................................................... »»
D.
Outras analogias.................................................................................................................................. »»
Comentários
gerais................................................................................................................................... »»
2.5. Utilizações acríticas do
princípio de Le Châtelier................................................... »»
2.5.1. Enunciados............................................................................................................................................... »»
2.5.2. Variações de temperatura....................................................................................................................... »»
2.5.3. Adição de gases raros............................................................................................................................ »»
2.5.4. Efeitos contrários.................................................................................................................................... »»
2.5.5. Visões radicais do
princípio de Le Châtelier....................................................................................... »»
2.6. Outros aspectos
relacionados com o ensino do equilíbrio químico........................ »»
2.6.1. Equilíbrio químico e
cinética química................................................................................................... »»
Cinética
química e termodinâmica química: algumas relações e dificuldades............................................ »»
Pontos
de contacto entre velocidade e extensão das reacções químicas................................................... »»
2.6.2. Estado de divisão de um
reagente sólido e equilíbrio químico........................................................ »»
Abordagem
experimental.......................................................................................................................... »»
Abordagem
computacional....................................................................................................................... »»
2.6.3. Equilíbrio químico e
segunda lei da termodinâmica: interpretação de alterações ao estado de
equilíbrio por via termodinâmica........................................................................................................................................ »»
Probabilidade
e entropia........................................................................................................................... »»
Conceitos
termodinâmicos fundamentais e equilíbrio químico................................................................. »»
Entropia
e equilíbrio: um exemplo de aplicação..................................................................................... »»
2.6.4. Solubilidade de sais e
«balbúrdia corpuscular»............................................................................... »»
Primeiro
nível (qualitativo) de abordagem.............................................................................................. »»
Segundo
nível (semi-quantitativo) de abordagem................................................................................... »»
2.6.5. Alterações de
temperatura: Kc ou Kp, dois caminhos
aparentemente paradoxais?..................... »»
Questão.................................................................................................................................................. »»
Uma
primeira resposta com base no princípio de Le Châtelier.............................................................. »»
Exercício
para interpretação usando Kp e Kc......................................................................................... »»
Um
conflito............................................................................................................................................ »»
Resolução
do conflito............................................................................................................................. »»
A
importância dos estados padrão......................................................................................................... »»
2.6.6. Unidades na constante de
equilíbrio, sim ou não?.......................................................................... »»
A
favor da utilização de unidades na constante de equilíbrio................................................................. »»
A
favor da não utilização de unidades na constante de equilíbrio.......................................................... »»
Uma
estratégia de compromisso............................................................................................................. »»
3. Estratégias
para o ensino do equilíbrio químico e simulações computacionais......... »»
3.1. O programa de computador
“Le Châtelier”......................................................... »»
3.1.1. O programa “Le Châtelier
– versão 1.0”: virtudes e limitações...................................................... »»
3.1.2. O programa “Le Châtelier
– versão 2.0”............................................................................................. »»
Descrição
do programa “Le Châtelier 2.0”............................................................................................. »»
O
programa «por dentro» e algumas limitações..................................................................................... »»
3.2. Estudo do feed-back dos
professores sobre o programa Le Châtelier 2.0.......... »»
3.2.1. Resultados e conclusões..................................................................................................................... »»
3.3. Estudo sobre o uso do
programa «Le Châtelier»: questionário a alunos............ »»
3.3.1. Características da
amostra e metodologia......................................................................................... »»
3.3.2. Resultados e conclusões..................................................................................................................... »»
3.4. Sugestões de reformulação
do programa «Le Châtelier»..................................... »»
3.5. Simulações computacionais
on line........................................................................ »»
3.5.1. O “Molecularium”................................................................................................................................. »»
3.5.2. É melhor on line!................................................................................................................................... »»
3.6. Sistematização de
dificuldades no ensino-aprendizagem em equilíbrio químico e sugestões
metodológicas para o ensino do equilíbrio químico.............................................. »»
I
– Entendimento do fenómeno equilíbrio químico................................................................................. »»
II
– Quociente de reacção e constante de equilíbrio................................................................................ »»
III
– Equilíbrio químico e velocidade das reacções................................................................................. »»
IV
– Alterações ao estado de equilíbrio.................................................................................................. »»
V
– Outras dificuldades.......................................................................................................................... »»
4. Conclusões.................................................................................................................... »»
5. Apêndices...................................................................................................................... »»
5.1. O ensino do equilíbrio
químico nos curricula portugueses................................... »»
5.2. Textos de ajuda no programa “Le Châtelier”...................................................... »»
5.3. Inquérito aos professores
sobre concepções alternativas em equilíbrio químico e o programa “Le Châtelier”............................................................................................................... »»
5.4. Questionário para
avaliação do programa de computador “Le Châtelier”.......... »»
5.5. Roteiros de exploração do
programa «Le Châtelier»........................................... »»
a)
Alunos universitários................................................................................................................................. »»
b)
Alunos de iniciação ao equilíbrio químico (versão simplificada em língua
inglesa)........................ »»
5.6. Algoritmos para o cálculo
sucessivo de entropias na reacção química genérica: A (g) + 3
B (g) D 2 C (g), por variação de volume............................................................... »»
5.7. Lista de recursos e
programas constantes do CD-ROM que acompanha a tese e respectiva localização no
disco................................................................................................ »»
6. Bibliografia................................................................................................................... »»
I
– Equilíbrio químico e conteúdos relacionados......................................................... »»
II
– Computadores / Ensino.......................................................................................... »»
III
– Educação: Teorias, estudos e metodologias........................................................ »»
IV
– Outras.................................................................................................................... »»
O tema do «equilíbrio químico» (EQ) é de importância
central no domínio da Química e não raramente sede de dificuldades no processo
de ensino e aprendizagem. Como se mostrará, o ensino do equilíbrio químico está
repleto de questões controversas, umas mais evidentes e outras mais subtis.
Muito se tem escrito sobre as variadas facetas deste problema mas parece faltar
alguma sistematização e clareza de diagnóstico. Por outro lado, importa
avolumar o conjunto de abordagens didácticas para contornar as situações mais
delicadas.
O objectivo desta tese é sistematizar um diagnóstico sobre
a problemática do ensino do equilíbrio químico e apresentar um conjunto de
propostas pedagógicas para resolver alguns dos problemas inventariados.
O presente trabalho inicia-se com um capítulo introdutório
que é constituído por um elenco de ideias resultantes de uma pesquisa
bibliográfica. Este capítulo faz referência ao movimento das concepções
alternativas (MCA), a analogias e à utilização de computadores no ensino das
ciências.
No segundo capítulo faz-se o levantamento dos vários
problemas inerentes ao ensino do equilíbrio químico. Este diagnóstico é
acompanhado, por vezes, de pistas com vista a resolver as dificuldades
identificadas. Embora haja uma relação de bastante cumplicidade entre os
diferentes assuntos, abordamos esta temática em cinco níveis: contexto
histórico (2.1), percursos operacionais no ensino do equilíbrio químico (2.2),
concepções alternativas em equilíbrio químico (2.3), analogias em equilíbrio
químico (2.4), utilização acrítica do princípio de Le Châtelier (2.5) e outros
aspectos no ensino do equilíbrio químico (2.6). Enquanto a secção 2.2 se centra
explicitamente na perspectiva do aluno, as restantes secções reflectem,
essencialmente, as perspectivas dos professores e dos investigadores em relação
ao problema.
No terceiro capítulo apresentam-se as estratégias de
natureza computacional que foram desenvolvidas e testadas mediante o «ponto de
situação» no ensino do equilíbrio químico. Algumas destas sugestões de
metodologia, bem entendido, já foram merecendo alguns «aperitivos» de resposta,
quando da sua verificação em quadro de diagnóstico, apresentado no capítulo
anterior.
Particular atenção merece o programa de computador «Le
Châtelier» (3.1), onde muitas das dificuldades dos alunos podem encontrar um
caminho de superação. Para além da apresentação do programa e das suas
potencialidades, são apresentados estudos, um junto dos professores (3.2) e
outro baseado num questionário a alunos utilizadores do programa de computador
(3.3). O ponto 3.4 estabelece um conjunto de propostas de reformulação do software com base nos estudos de impacto
levados a cabo. Seguidamente apresentam-se mais algumas simulações
desenvolvidas (3.5), algumas das quais on
line.
Finalmente, a secção 3.6 sistematiza de forma esquemática
um conjunto de problemas de aprendizagem inerentes ao ensino do equilíbrio
químico, bem como sugestões metodológicas e referências bibliográficas
associadas a esses problemas.
Acompanha este trabalho um CD-ROM que contém a própria tese
digitalizada em formato hipertexto. Um clique em alguns dos autores citados
(quando sublinhados) fornece o próprio conteúdo ou acessos a uma consulta on line. Igualmente disponíveis na
versão digital em CD-ROM da tese estão programas de computador e páginas de Internet com acesso local ou remoto,
chamadas no meio do texto. O apêndice 5.7 apresenta a lista de todos estes materiais
digitalizados. A tese está disponível on line em
http://nautilus.fis.uc.pt/~jcpaiva/td.
Sempre me admirei com o facto
dos professores de ciências (…) não compreenderem que não se compreende. Poucos
são os que aprofundaram a psicologia do erro, da ignorância, da irreflexão.
GASTON
BACHELARD
Não é
fácil descrever de forma resumida um movimento com tão vasta incidência no
domínio do ensino das ciências como o movimento das concepções alternativas
(MCA). Com efeito, trata-se de uma tendência cujo início poderemos localizar
nos inícios da década de 70 e a propósito da qual já se produziram milhares de
artigos (PFUNDT 1994).
Na base
do MCA está, essencialmente, uma enorme atenção aos conceitos prévios dos
alunos transportados pela sua história pessoal diferenciada, na base dos quais
(por troca ou captura) se sedimentarão os conhecimentos científicos ensinados.
Quanto à
real implementação deste movimento no «terreno» do ensino das ciências, os
efeitos não são muito notórios. As mais recentes reformas curriculares
portuguesas tiveram em conta os princípios deste movimento mas a enorme
resistência à mudança de todos os sistemas físicos e humanos, de que o ensino
das ciências é apenas um caso particular, retardam a incorporação dos ideais
associados ao movimento. Não é só a «inércia do sistema pedagógico» que
justifica a intensidade dos resíduos tradicionais: o próprio MCA tem contornos
intrínsecos que o limitam e que desenvolveremos na secção 2.3.
Iremos
pois fazer um retrato necessariamente simplificado do MCA, evidenciando apenas
as suas características fundamentais (SANTOS 1990).
Nos anos 60, principalmente nos Estados
Unidos da América, deu-se a primeira verdadeira reforma no ensino das ciências
desde o início do século, até então solidário com uma filosofia de escola
tradicional, que era magistralmente impositiva. O paradigma vigente era o da
aprendizagem por transmissão (APT).
Ideias como a aprendizagem da estrutura
do assunto (AEA) e aprendizagem por descoberta (APD) devidas a BRUNER (1966)
começaram a inflamar as tendências pedagógicas do ensino das ciências. A
aprendizagem centrada nos conteúdos começou a dar lugar a uma aprendizagem
centrada nos processos (realçando-se a importância dos trabalhos
experimentais). Uma marca muito própria desta reforma, ainda hoje essencial, é
a aprendizagem por objectivos (APO).
Logo nos anos 80 surgiram as primeiras
críticas às reformas, particularmente no que toca à APD e à ênfase exagerada no
trabalho de laboratório acompanhado de uma imitação ingénua do método científico.
A pretensão de uma avaliação excessivamente objectiva e a centralidade nos
resultados mais do que nos processos justificaram a oposição à APO.
A incidência na estrutura do
conhecimento e o desleixo da estrutura mental de quem aprende geraram, portanto,
uma nova crise no ensino das ciências e abriram portas a um novo paradigma que
convergiu no MCA. Embora este movimento tenha tido os seus primeiros passos – e
as suas primeiras raízes de fundamentação epistemológica e psicológica –
bastante mais cedo, a sua estruturação definitiva pode localizar-se no final
dos anos 80.
Na base
de muitos problemas da educação em ciências está a questão das representações.
As representações são sínteses mentais de informação que uma pessoa constrói, a
partir do que ela foi (passado), do que ela é (presente) e do que ela quer ser
(futuro). Ora a ciência pode ser vista como uma representação do mundo pelo
homem. É habitual indicar, no contexto das representações científicas, a
«ciência do cientista», a «ciência do professor», a «ciência do aluno» e a
«ciência da criança». Percebe-se, pois, a necessidade da filosofia das ciências
(epistemologia) fundamentar a educação das ciências.
O MCA
assenta numa epistemologia racionalista. São importantes nesta perspectiva
racionalista os nomes de BACHELARD (1951), POPPER (1959), KUHN (1962) e LAKATOS
(1984), entre outros. A filosofia racionalista opõe-se ao empirismo. Não é
natural nem imediata, designando-se, por vezes, como tardia. Numa perspectiva
racionalista, os factos científicos não são dados mas construídos e a
teorização precede a própria observação em ciência. É facilmente perceptível a
forte influência desta corrente epistemológica no MCA.
Os precursores
psicológicos do MCA são AUSUBEL (1963) e PIAGET (1976). As suas teses são
cognitivistas e opõem-se à psicologia behaviorista. As ideias destes autores
têm grande intimidade com MCA no que toca, nomeadamente, à importância dos
substractos pré-existentes na criança a quem se ensina ciências (Ausubel) e à
personalidade própria da criança (Piaget).
Piaget
foi revolucionário no entendimento psicológico da criança e influenciou toda a
pedagogia contemporânea, incluindo em particular o ensino das ciências. Para
ele, resultamos não só de processos de imitação mas da interacção com
estruturas próprias que nos tornam originais. Importa destacar as crenças, o
realismo, o animismo e a causalidade infantis, que este autor estudou
particularmente, e que são atendidos na estruturação do MCA.
Ausubel,
por seu turno, aponta as representações dos alunos como estruturas de
acolhimento dos conceitos científicos. Refere a necessidade de «ancoragem» dos
novos conhecimentos nos pré-existentes e daí a necessidade de o professor ter
alguma ideia prévia sobre as condições de partida do aluno (pontos de
“ancoragem”). A aprendizagem, segundo Ausubel, é feita por assimilação
cognitiva e pressupõe a integração do que é novo no quadro de estruturas
conceptuais anteriores. O MCA é bastante influenciado por este autor no que
toca, nomeadamente, à imprescindibilidade da detecção prévia dos conceitos
alternativos dos alunos.
As concepções alternativas (CA)
distinguem-se dos conceitos científicos. Tanto assim é que os autores mais
conservadores ou mais indiferentes à pedagogia do erro lhes chamam «forma
elegante de designar as asneiras dos alunos». A linguagem subjacente às CA é
imprecisa e a criança (entenda-se a criança, o jovem ou até o adulto) que as
veicula não raciocina profundamente, em geral, sobre as reais consequências
delas. Ao contrário do conceito científico, a CA não tende para a abstracção
matemática (pelo contrário, é «coisificante»), sendo essencialmente figurativa,
não estruturada e pessoal.
É muito importante, igualmente, não
confundir CA com erro de cálculo ou lapso de memória, que nada têm de esforço
teorizante (CACHAPUZ, 1995).
Os esquemas inerentes às CA têm uma
certa coerência interna, embora a sua consistência seja bastante débil. A
maioria das investigações revela, porém, uma enorme resistência à mudança e,
por isso, uma tarefa do professor difícil mas motivadora no que toca à troca de
conceitos (alternativos por científicos) por parte do aluno. Tem-se vindo a
verificar que, mesmo depois de pedagogias bem elaboradas e conscientes das CA,
estas perduram teimosamente nos alunos que foram sujeitos a um ensino formal
das ciências.
Merece uma referência o paralelismo com
os sucessivos modelos históricos que muitas vezes estão evidenciados nas CA. O
próprio Piaget enfatizou os pontos de contacto das perspectivas evolucionistas
filogenética e ontogenética.
A mudança conceptual é uma questão desde
sempre levantada pelas ciências epistemológicas e pedagógicas. Como na história
colectiva, também o aluno fará a sua própria «mudança de paradigma» num sentido
do progresso.
Esta mudança está em oposição às
correntes clássicas de aquisição conceptual, baseadas nas teorias psicológicas
behavioristas e no empirismo clássico.
Popper chama à aquisição conceptual a
teoria do «balde mental»: o aluno é visto como uma receptáculo de informação
massificada.
Na mudança conceptual, por outro lado, a
inclusão, agora integrativa, dos conceitos científicos está relacionada
interactivamente com as CA. As teorias racionalistas/construtivistas estão na
base desta forma de aprendizagem. Torna-se fundamental partir daquilo que o
aluno sabe e promover a mudança conceptual, contando com o papel activo do
aluno. Esta mudança, porém, pode operar-se de dois modos diversos: captura e
troca conceptuais. O primeiro modo assenta numa teoria racionalista continuista
(Ausubel) e aponta para o prolongamento daquilo que já é familiar no aluno. O
modo de captura conceptual centra-se nos aspectos conciliáveis entre as CA e os
conceitos científicos e torna-se muito difícil quando estes dois tipos de
conceitos estão muito distantes.
O modelo de troca conceptual tem uma
base racionalista/descontinuista (Bachelard) e privilegia um conflito cognitivo
que leva ao rompimento total com o património familiar das CA. Para que haja
uma efectiva troca conceptual, integrativa e racional, deve existir por parte
do aluno uma clara insatisfação em relação às concepções pré-existentes. A nova
concepção, por seu turno, deve ser inteligível, plausível e proveitosa.
Na
secção 2.3 voltaremos a este assunto quando sistematizarmos as
CA em EQ.
O termo metacognição foi usado pela
primeira vez por FLAVELL (1976), em grande correlação com aprendizagens
auto-reguladas. A etimologia da palavra ajuda a compreender o seu significado: meta = «para além de». O esforço em
causa consiste na tentativa de o sujeito perceber o que está por detrás de cada
concepção (seja ela alternativa ou cientifica). Estes estudos são polarizados
na reflexão sobre o modo como o aluno processa a informação (VALENTE, 1992). O
estudo das estruturas metacognitivas dos alunos não é monopólio do MCA. Muitos
trabalhos têm sido realizados no sentido de apurar as causas verdadeiras (e
mais profundas) de determinada dificuldade. Concretizando estratégias de
auto-reflexão dos alunos podem desenvolver-se capacidades, por exemplo, ao
nível da resolução de problemas (CRUZ, 1989). Este objectivo é bastante legítimo,
até porque muito do insucesso real dos alunos no domínio das ciências advém de
uma falta de reflexão de alunos e professores sobre a própria forma de
estruturar o conhecimento. Por outro lado, convém referir que a análise e a
objectivação de estudos nesta área é difícil. O programa de computador «Le
Châtelier», que adiante discutiremos, regista e mostra o percurso do aluno à
medida que este o explora, o que, de forma indirecta, pode apoiar estratégias
metacognitivas.
A
definição instituída para a palavra analogia é a seguinte: «(do grego analogia) relação de conformidade, de
semelhança entre as coisas, seja na ordem física, na ordem intelectual ou na
ordem moral» (MACHADO, 1989). A raiz da palavra é ana (assim como aqui, ali) + logia
(leitura). Uma analogia tratar-se-ia, neste sentido etimológico, de uma leitura
paralela. Aplicada esta definição ao domínio do ensino das ciências trata-se de
usar um caminho paralelo, com pontes de semelhança, entre um determinado
conceito científico que se pretende transmitir e um quadro cognitivo real,
quotidiano, simples e pré-existente no universo do aluno.
O uso de
analogias no ensino das ciências parece ter um lugar incontestável pelas
vantagens que pode apresentar na promoção de aprendizagens significativas.
Dizemos «pode apresentar» porque, uma vez utilizadas mal, exagerada ou
acriticamente, as analogias poderão constituir entrave ao conhecimento
científico correcto.
Kepler
usou uma analogia entre a sua descrição revolucionária dos movimentos celestes
e o funcionamento de um relógio. Mas já Aristóteles tinha escrito em «Retórica
III» que «o meio termo entre o ininteligível e o lugar comum é o que mais
produz conhecimento». Podemos, porém, usar esta mesma apologia aristotélica do
uso de analogias para chamar a atenção para os perigos do seu mau uso. Sabemos
como Aristóteles se serviu das sensações aparentes (que suportam o conhecimento
comum) para produzir ideias que, radicadas nos sentidos, não reproduziam a
verdade ininteligível, tantas vezes «escondida» na aparência. Há, pois, que ter
alguns cuidados: o conhecimento científico, que cada vez mais se reclama como
um conhecimento que pretende estar acessível a grande número de pessoas, não
deixa, para o ser, de possuir uma linguagem e uma estrutura que lhe são
próprias e que não coincidem com a linguagem e a sensibilidade comuns (muitas
vezes até se lhe opõem).
São
inúmeros os estudos sobre a eficácia pedagógica da utilização de analogias. A
maioria destes trabalhos conclui que as analogias promovem uma ajuda inequívoca
na memória e na compreensão dos fenómenos (HALPERN, HANSAN e REIFER, 1990),
diminuindo a propensão para a existência de concepções alternativas (HARRISON e
TREAGUST, 1994) e proporcionando um verdadeiro conhecimento científico a partir
do património pré-existente no aluno (GLYNN, YEANY e
BRITTON, 1991). Alguns estudos (por exemplo, HIDEO,
1997) enfatizam que o uso de analogias é vantajoso para promover a troca
conceptual, assunto de que falámos no capítulo anterior.
Trabalhos
há em que a conclusão principal é a necessidade de uma boa preparação
específica dos professores no domínio das analogias (TREAGUST [et al.], 1992) para que a sua aplicação
gere os frutos pretendidos. Com efeito, muitos dos maus resultados parecem ter
origem numa utilização pouco estruturada de mecanismos analógicos, cujo balanço
de aplicação nos alunos se torna negativo. ZOOK e VESTA (1991) realizaram um
estudo com dois grupos de alunos, um dos quais foi sujeito a uma determinada
instrução científica usando analogias. Estes autores concluíram que esse mesmo
grupo apresentava depois mais concepções alternativas do que o grupo para o
qual não se usou qualquer analogia, fruto da valorização de informação
irrelevante associada ao quadro análogo. Não se podem generalizar os resultados
destes investigadores, até porque o problema pode ter residido numa má
metodologia ou inoportunidade da analogia, mas servem estas conclusões para nos
alertar face aos impactos negativos que as analogias para ensinar ciências
podem ter. Todas as analogias acarretam riscos e, para muitos autores, há um
conjunto muito pequeno de analogias seguras (AUSUBEL, 1963).
Uma
variável importante na utilização pedagógica de analogias é a distância entre o
conceito que se pretende transmitir e o quadro de referência análogo. HALPERN e
RIEFER (1990) realizaram um estudo envolvendo, para além de um grupo de
controlo não sujeito a qualquer analogia, três grupos de alunos que usaram três
metodologias analógicas distintas, de distância em relação ao conceito-alvo
progressivamente maior. Curiosamente, concluíram que o grupo que usou um
esquema análogo com linguagem muito perto do conceito‑alvo não apresentava quaisquer
diferenças significativas quando comparado com o grupo de controlo que não usou
analogias. Já o grupo que usou uma linguagem mais distante do conceito‑alvo (e mais perto do universo cognitivo
do aluno) era o que mais benefícios reais apresentava. Este estudo evidencia,
assim, que (para conseguir ser verdadeiramente eficaz) uma analogia deve
inscrever-se num domínio distante do conceito a transmitir.
No
sentido de optimizar a utilização de analogias no ensino das ciências GLYNN, YEANY
e BRITTON (1991) propuseram uma metodologia específica que permite aos
professores e aos autores de textos educativos em ciências estruturar melhor o
uso de analogias. Esta metodologia previne algumas das eventuais consequências
negativas da aplicação de analogias e envolve os seis passos seguintes:
1- Introdução
do conceito‑alvo (que se pretende transmitir).
2- Apresentação
do conceito análogo (que fará paralelo com o conceito‑alvo).
3- Identificação
das pontes relevantes entre o conceito‑alvo e o conceito análogo.
4- Estabelecimento
de um mapa de semelhanças.
5- Indicação
dos «pontos fracos» da analogia.
6- Esboço
de conclusões.
Na
secção 2.4 faremos a aplicação exaustiva desta
metodologia a uma analogia em EQ.
Logo no
terceiro ponto, dos seis acima apresentados, é importante chamar a atenção dos
alunos para as dissemelhanças entre contextos de ambos os lados (conceito‑alvo e conceito análogo), ganhando algum
terreno para o estabelecimento do (importante) ponto cinco. A própria
verificação de items em que a analogia não se aplica pode promover uma
aprendizagem mais significativa do conceito‑alvo. A maioria dos maus usos de
analogias têm a ver com uma má escolha do conceito análogo, com uma falta de
clareza na exploração com os alunos ou com uma ausência de filtragem da
analogia (ponto 5).
HARRISON
e TREAGUST (1994) sugerem uma metodologia equivalente de três passos apenas e
que, para uso quotidiano na actividade de um professor de ciências, se pode
tornar mais prática. Esta metodologia inclui: (i) assegurar que professor e
alunos visualizam congruentemente o conceito análogo, (ii) desenvolver os
atributos partilháveis entre o conceito‑alvo e o conceito análogo e, finalmente,
(iii) identificar os atributos não partilháveis, isto é, as não funcionalidades
da analogia.
A
ligação entre estas analogias e as simulações no computador é enorme. Em ambos
os casos recorre-se a modelos representativos usando mecanismos de
«visualização» (que podem estar simplesmente associados a palavras ou ideias ou
serem mais concretos) capazes de fazer a ponte entre o conceito a transmitir e
o património cognitivo de quem o recebe. As primeiras usam mais a linguagem e a
imaginação, as segundas têm lugar no ecrã do computador. Ambas, porém, têm as
suas limitações.
A «sociedade da informação» impôs-se
como um paradigma sociológico. A própria noção de conhecimento e de saber
sofreu uma metamorfose, com uma maior centralidade na gestão, organização e
capacidade de síntese, face ao enorme manancial de informação disponível, do
que na sua aquisição ou memorização (SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO, 1997). A escola
não ficou indiferente aos desafios colocados pela «nova máquina» e tem-se
adaptado (o possível, digamos) às novas vias que se abrem com o uso do
computador. Parece inquestionável que o computador pode fazer face a muitas das
dificuldades emergentes no processo de ensino e aprendizagem das ciências. De
entre as várias formas de utilização no ensino das tecnologias de informação e
comunicação, abreviadamente TIC (AWBREY 1996), salientamos uma que merece
especial atenção neste trabalho: as simulações computacionais. As simulações
computacionais no ensino representam, ao fim e ao cabo, «experiências» computacionais
que geram representações da realidade difíceis de visualizar sem o recurso ao
computador (PAIVA, 1994) e
(MARUCCI, 1995).
Esta faceta das TIC no ensino (que
existe para além de outras utilizações como «tutoriais», apoio a laboratório,
etc.) interessa-nos particularmente, pelo que desenvolvemos um conjunto
significativo de simulações para utilização no processo de ensino e
aprendizagem do EQ. Verificaremos que estas representações no computador
permitem visualizar e manipular fenómenos relacionados com o EQ que solidificam
aprendizagens nesse domínio.
O entusiasmo que colocamos no uso de TIC
no ensino das ciências, em geral, e nas simulações computacionais, em
particular, não deve ser entendido como um privilégio absoluto dado a esta
estratégia. Convém balizar os proveitos dos «novos ventos tecnológicos» com uma
moderação antes de mais realista. Como o título desta secção sugere, os computadores
não são, com toda a certeza, o elixir dos problemas que existem no sistema
educativo.
Longe vão os tempos em que se chegou a
pensar que a introdução das TIC na escola seria a panaceia de alguns problemas
pedagógicos. Ao (natural) entusiasmo e visão ultra-optimista dos percursores
iniciais do computador na escola, sucede-se o justo equilíbrio, às vezes até
acompanhado de alguma desilusão (OPPENHEIMER, 1997).
Uma reflexão sobre o ensino das ciências
em Portugal, em particular, pode levar-nos, inclusive, a uma certa
secundarização das TIC. Instituiu-se um certo facilitismo no sistema, fruto, em
parte, dum ensino obrigatório e de massas que, de resto, nos deve orgulhar. O
desaparecimento desse facilitismo, que começa a ser desejado por muitos agentes
de ensino e pela sociedade em geral, é urgente e, admitamos, ele não será
centralizado no computador. A chave para o reequilíbrio do nosso ensino está,
talvez, numa inspiração bem mais clássica, focada em conceitos como exigência,
rigor, trabalho e disciplina. Neste sentido, não é especificamente pelo uso dos
computadores (embora sem os desprezar) que
estará a pedra angular para a requalificação do nosso ensino.
Não
adiantará muito escrever sobre as evidentes vantagens da Internet na vida dos cidadãos em geral e na vida da escola em
especial (TRENTIN, 1996 e PAIVA, 1997). Não desenvolveremos aqui os desafios
colocados pela «rede das redes», disponibilizadora de infindável informação e
manancial comunicativo extraordinário, no que toca ao conhecimento e ao ensino
(FIGUEIREDO, 1996). Centremo-nos nas portas que se abrem
às simulações computacionais on line no
domínio do ensino.
Quando
os objectivos das simulações não perfilham qualquer estratégia comercial mas
antes se inscrevem num serviço à comunidade de professores e alunos, como
acontece no nosso caso, a Internet é
o receptáculo óptimo para a informação a partilhar. As vantagens são óbvias:
consultas e interacções possíveis constante e remotamente, actualizações mais
fáceis, interacção mais eficaz com os utilizadores. Podemos mesmo alvitrar que,
evoluindo em capacidade tecnológica os canais de comunicação e o software adequado, tem sentido, num
futuro breve, prescindir de todo dos suportes off line.
De
acordo com a ideia acima referida e usufruindo de novas linguagens de
programação, as simulações que fomos construindo ao longo dos anos sofreram uma
evolução tal que, hoje, apostamos claramente apenas nas produções on line.
As
primeiras experiências computacionais que realizámos, por volta de 1987, foram
escritas em linguagem BASIC, quer para
apresentar jogos educativos em Química (como o «Jogo das Substâncias»), quer
para algumas simulações simples, como a reprodução no computador de uma nuvem
electrónica. Algum grau de sofisticação se conseguiu com esta linguagem mas a
primeira versão do programa “Le Châtelier 1.0 (1993)” e a “Tabela Periódica” já
foram programadas em C++ e Visual
Basic, respectivamente. O suporte em disquete foi dando lugar ao CD-ROM,
tendo o programa “Tabela Periódica Multimédia” já sido veiculado neste suporte.
A linguagem de programação mudou para Delphi,
tendo sido programada com essa linguagem a aplicação “Le Châtelier 2.0”, a que
faremos referência pormenorizada na secção 3.1. Os desafios actuais, contudo, fazem polarizar boa
parte do nosso esforço no universal protocolo html (acrónimo de hyper text
multi language), estando já disponíveis nesse formato os recursos do
programa “Tabela Periódica on line”. Por outro lado, as animações
feitas em suporte Java são, de
momento, o instrumento por excelência nos nossos trabalhos simulacionais para o
ensino.
Os
interfaces de comunicação associados aos produtos on line têm uma natureza mais modular e uma estética mais modesta
mas, se se realizar o sonho dos visionários da Internet como uma «auto-estrada da informação», hoje ainda uma
miragem, os produtos multimédia que vemos hoje off line poderão estar disponíveis na rede. Alguns dos exemplos de
simulação que apresentaremos adiante foram programados na linguagem Java, tendo‑se revelado bastante prometedores. A
nível das simulações moleculares, a Internet
oferece enormes potencialidades: é, inequivocamente, o «lugar» futuro das
simulações (MOLNER, 1999). A título de exemplo, observe-se a
ilustração simples que realizámos para observar o aumento de temperatura no
vapor de água, ao nível molecular (Fig.1.1).
Fig.1.1‑ Simulações moleculares feitas em Java representando moléculas numa
amostra de água gasosa a temperatura variável.
A
convicção da relevância pedagógica da Internet
levou-nos a disponibilizar aí os programas desenhados para correr off line (como o programa «Le Châtelier»
que descreveremos adiante), de modo a que possam ser livremente capturados e
utilizados.
Um dos aspectos mais curiosos do
princípio de Le Châtelier é o duvidoso protagonismo que é conferido ao seu
«padrinho», Le Châtelier.
Henri Louis Le Châtelier, químico
francês, nasceu em Paris em 1850 e faleceu em 1936 (Fig.1.2).

Fig.1.2 – Henri Louis Le Châtelier
De entre os livros que publicou
destacam-se "Ciência e Indústria" (1925) e "Método em Ciências
Experimentais" (1936). Foi professor, tendo sido nomeado inspector geral
de minas em 1907 (BIBLIOGRAPHY, 1937).
No ano de 1884 Le Châtelier publica a
primeira formulação do seu princípio:
«Tout
sytème en equilibre chimique stable soumis à l’influence d’une cause extérieure
qui tend à faire varier soit sa température, soit sa condensation (pression,
concentration, nombre de molecules dans l’unité de volume) dans sa totalité ou
seulement dans quelques-unes de ses parties, ne peut éprouver que des
modifications intérieures, qui, si elles se produisaient seules, amènenerai en
un changement de témperature ou de condensation de sign contraire à celui
resultant de la cause extérieure» (LE CHÂTELELIER, 1884).
Le Châtelier explicita que o enunciado
acima tem uma génese experimental, parcialmente inspirada na teoria geral de
Lippmann que, por sua vez, se baseia na lei da indução de Lenz. Percebemos
assim melhor a ideia insistente de noções como «contrariar», «reagir»,
«opor-se». Para alguns autores (TREPTOW, 1980) existem, associados a este
enunciado, resquícios aristotélicos da ideia de uma Natureza que resiste às
infracções contra as suas normas.
Le Châtelier agradece explicitamente a
van’t Hoff a inspiração recebida dos trabalhos deste químico sobre o princípio
do equilíbrio móvel (efeitos de temperatura). Para alguns autores, como GOLD e
GOLD (1985), a formulação de Le Châtelier pouco avançou em relação à essencial
lei de van’t Hoff, tendo a história deturpado o protagonismo de Le Châtelier,
que mais devia ser conhecido por outros trabalhos importantes em Química do que
por este princípio. Nos estudos de Le Châtelier foram determinantes as
solicitações dos industriais metalúrgicos ingleses que queriam melhorar o
rendimento da produção de ferro a partir da redução do óxido de ferro, tendo
ele, nesse campo, conseguido avanços importantes. Outros autores vão mais além
e dizem mesmo que este princípio não foi formulado por Le Châtelier mas que ele
apenas o divulgou. Mais correctamente devia designar-se por princípio de van’t
Hoff, já que os méritos das conclusões são deste cientista, que, ao que parece,
não se incomodou muito com a «apropriação» de Le Châtelier (LAIDLER, 1995).
Em 1888 Le Châtelier reformulou o
princípio, simplificando ainda a linguagem, mas sem avançar significativamente
do ponto de vista conceptual. Ele próprio rotulou o seu princípio de «très simple». O princípio é muitas vezes
referido na literatura como princípio de Le Châtelier-Braun. O contributo
fornecido posteriormente por este segundo autor (BRAUN, 1988) parece, contudo,
não subtrair ao enunciado as principais fraquezas da sua formulação. Esta
excessiva simplificação, com raízes históricas, deixou de fora muitos casos
particulares e fez de um traço geral de «comportamento químico», dubiamente
enunciado, um princípio quase com força de lei. Este parto, algo indefinido, do
princípio de Le Châtelier motiva e explica muitos dos actuais problemas no
ensino e aprendizagem do EQ, que estão relacionados com o mau uso desse
princípio (ver secção 2.5).
O ensino do EQ nem sempre foi orientado
da mesma forma existindo, ainda hoje, vários entendimentos sobre o melhor
caminho didáctico a seguir.
Adoptamos a linha de abordagem que
parece mais consensual, e que se encontra reflectida nos princípios
curriculares para o ensino da Química, nos ensino básico e secundário no nosso
país. No apêndice 5.1 encontra-se a distribuição dos conteúdos sobre EQ (ou
relacionados) nos curricula, nos
diferentes níveis de escolaridade.
Parece-nos vantajosa uma clarificação
deste rumo pedagógico, que adiante expomos em três níveis progressivos de
tratamento: estados de equilíbrio, constantes de equilíbrio e interpretação
fundamentada. Não devemos esquecer, contudo, os pré-requisitos para ensinar EQ
(«até onde» vão as reacções químicas) e que precedem os três estádios a
abordar: a familiarização com a noção de «quanto» em Química e com a noção de rapidez das reacções, e,
assim, o entrosamento com conceitos como: mole, concentrações, equação dos
gases e pressões parciais, equações químicas e cálculos estequiométricos,
reacções exotérmicas e endotérmicas e velocidades de reacções (a níveis
qualitativo e semi-quantitativo).
Nos pré-requisitos há algumas lacunas
que se verificam, desde logo, ao nível da interpretação molecular das reacções
químicas ou de noções relativamente simples como concentração (PEREIRA, 1981).
Estas debilidades prévias podem comprometer muitas noções relacionadas com EQ,
devendo os professores estar atentos a esse facto.
Vejamos então, esquematicamente, os três
estádios de abordagem para o ensino do EQ.
Os fundamentos do EQ podem ser
colocados, de uma maneira qualitativa, como se segue:
1.
Existência de reacções inversas:
A + B ® C + D e C + D ® A + B
(2.1)
onde A, B, C e D representam espécies químicas
genéricas.
2.
Necessidade de distinguir sistemas fechados, abertos e isolados.
3.
As reacções podem não ser completas: podem terminar (EQ) sem que se tenha
esgotado pelo menos um reagente.
4.
Interpretação do fenómeno do EQ (e equilíbrio de fases) e a sua natureza
dinâmica: igual velocidade microscópica para as reacções directa e inversa em
sistemas não abertos
A + B