Guerra Junqueiro - Finis Patriae

À Mocidade das Escolas


Introdução

Por isso a descendência de Nun'Álvares, um herói e um santo, foi uma sucessão de intrigantes mesquinhos, de maus doidos, ou de egoístas vulgares. A grande herança do herói esmagou os seus descendentes.

(O. Martins - História de Portugal)

Contámos a guerra; é mister contar agora as comoções internas e a política internacional da Restauração, que sacrificou Portugal aos interesses dinásticos.

(O. Martins - História de Portugal)

Já estava assinado o tratado com a Holanda (21 de Junho). Se o francês escarnecia de nós, o holandês, que até então nos roubava como um inimigo, ia agora espoliar-nos como bom amigo; e, em nome de uma promessa falz de socorro, o rei vendia o melhor do nosso reino. Como inimigo da Espanha, a Holanda era nossa aliada; mas nosso inimigo ao mesmo tempo, no Ultramar. O governo português queria decerto reivindicar o muito que a Holanda pilhara durante os sessenta anos anteriores; porám a Holanda pôs como condição, sine qua non, a conservação do status quo. D. João IV comprou o auxílio, vendendo o império ultramarino, sancionando os roubos de sessenta anos. Não era a primeira vez, nem seria a última, que os dinastas, substituindo-se à nação, a vendiam para se conservarem a si.

(O. Martins - História de Portugal)

D. João IV ficou burlado; mas Angola e o Brasil, abandonados, vendidos, souberam defender-se a si próprios.

(O. Martins - História de Portugal)

Não duvidara alienar o Ultramar, e subscrever a todas as exigências humilhantes da França e da Inglaterra, para nos dar a nós a honra de o termos como rei. Arriscar tudo, incluindo a própria cabeça (não era a jóia de maior preço), parecia-lhe excessivo. Já que o destino assim o mandava, perdesse-se o reino, mas ao menos salvasse-se o rei.

(O. Martins - História de Portugal)

Da longa campanha diplomática da Restauração, através de todos os incidentes, holandeses e franceses, resultava este facto, que ficou pesado por dois séculos sobre o novo Portugal: o protectorado inglês. Protectorado sempre se traduziu, na língua real da história, por exploração: é um eufemismo diplomático.

(O. Martins - História de Portugal)

Nesta guerra de equilíbrio, em que D. Pedro II lançara o reino; nesta guerra, em que nenhum interesse nacional se pleitava; vê-se bem o império das novas ideias, a que a monarquia obedecia já, no princípio do XVIII século. Formara-se, como sistema, o absolutismo; e D. Pedro II desde 1674 não convocara mais as cortes nacionais, instituição que outrora representava a nação, como um corpo, perante o rei, um chefe. Pode dizer-se que depois de 1668, quando se fez a paz com a Espanha, as cortes portuguesas não tiveram mais intervenção no governo. Em 1674 o rei convocou-as, mas dissolveu-as logo, por elas quererem fiscalizar as despesas públicas. D. João V fingiu, iludiu, sem negar; mas D. José I afirmou, de um modo positivo e terminante, que o poder é uma alta e independente soberania, que o rei recebe imediatamente de Deus; pela qual manda, quer e decreta os seus vassalos, de ciência certa e poder absoluto.

(O. Martins - História de Portugal)

O acaso, pai sem virtudes deste filho pródigo chamado o Portugal brigantino, concedeu a um tonto o uso de armas perigosas, abriu-lhe de par em par as portas dos arsenais; e D. João V, enfatuado, corrompeu e gastou, pervertendo-se também a si e delapidando toda a riqueza da nação. Tal foi o rei; e o povo, pastoreado pelos jesuítas, beato e devasso, arreava-se agora de pompas, para assistir, como convinha, à festa solene do desbarato dos rendimentos do Brasil.

(O. Martins - História de Portugal)

O inglês sentava-se com ele à mesa e aplaudia os desperdícios; porque todo o ouro do Brasil passava apenas por Portugal, indo fundear a Inglaterra, em pagamento da farinha e dos géneros fabris, com que ela nos alimentava e vestia. A indústria portuguesa constava de óperas e devoções.

(O. Martins - História de Portugal)

Que era, de que valio o reino, perante a real casa? Quem era o miserável povo, diante do bragança magnífico?

(O. Martins - História de Portugal)

Tal era o Portugal-Bragança, restaurado, ao que se disse. Para consolidar uma dinastia, cedeu-se o Oriente aos holandeses; e, se não se perdeu o Brasil, foi porque ele próprio soube defender-se. Depois enfeudou-se o reino aos ingleses; e, por cima de tudo isto, aceitava-se o santo e a senha dos jesuítas. Quando o Brasil começou a render, D. João V começou a reinar e a gastar. Devorou-se o que ainda restava em Portugal, devorou-se tudo o que veio da América. Portugal importava, por Lisboa, 4000 contos de pão cada ano.

E uma série de doidos, de maus, ou de idiotas, levados pelo braço dos negociantes jesuítas e ingleses, pupiloss de uns, prebostes de outros, disseram-se reis de um reino que era uma sombra, animada por um único sonho: o sebastianismo.

D. Maria I endoideceu de todo; e na cena portuguesa levantou-se a espessa figura do príncipe regente, com o seu olhar vago, na imóvel contemplação da régia ociosidade; bocejando em permanência, a assistir, com as mãos nos bolsos, indiferente e passivo, ao definitivo desabar ruidoso do carcomido edifício da bnação.

(O. Martins - História de Portugal)

Essa situação ruinosa, e que veio, em menos de dois séculos, a arruinar de todo a nação, para conservar uma dinastia de procuradores de interesses estrangeiros; essa situação definiu-se, no princípio do século actual, de um modo que forçou o monarca a fugir, demitindo-se, e a nação a protestar, insurreccionando-se.

(O. Martins - História de Portugal)

Quando o príncipe regente se soube perdido, e ameaçado com uma viagem de meses, tão incómoda, até ao Brasil, mandou que o rojassem de rastos aos pés do terrível déspota, pedindo perdão, e oferecendo tudo para ganhar o seu sossego. Estava pelo que quisessem; e até dava o seu primogénito para marido da filha do sargento Junot.

(O. Martins - História de Portugal)

Uma semana apenas, depois de chegar, o príncipe regente, aconselhado pelo seu protector, abriu os portos do Brasil ao cmércio de todas as nações amigas: eufemismo de boa economia que queria dizer, - à Inglaterra. Ainda assim não lhe bastava isso, a ela que na Europa tanto se esforçava para conservar o morgado braganção. Exigia a paga, e obteve os tratados de 1810 (19 de Fevereiro). Mais uma vez a dinastia vendia o reino, como Esaú a primogenitura; mais uma vez, e depois de tantas, o bragança, para conservar o trono, sacrificava o reino.

(O. Martins - História de Portugal)

Neste derradeiro representante do sangue brigantinoapareciam vivos todos os caracteres da raça. Era necessário que, ao extinguir-se, a árvore desse o mais bem acabado fruto. Egoísta e mole como D. João IV, tinha as inclinações fradescas de D. João V, a esperteza soez e baixa de D. Pedro II, e o plebeísmo de Afonso VI, sem ser inteiramente idiota, como fora o infeliz encarcerado de Sintra.

(O. Martins - História de Portugal)

Representante quase póstumo de uma dinastia, epitáfio vivo dos braganças, sombra espessa de uma série de reis doidos ou ineptamente maus, D. João IV, já velho, pesadão, sujo, gorduroso, feio e obeso, com o olhar morto, a face caída e tostada, o beiço pendente, curvado sobre os joelhos inchados, baloiçado como um fardo, entre as almofadas de veludo dos velhos e doirados coches de D. João V, e seguido por um magro esquadrão de cavalaria, era, para os que assim o viram, sobre as ruas mal calçadas de Lisboa, uma aparição burlesca.

E, se, porventura, as misteriosas leis da vida têm um papel na história, força é reconhecer que no sangue dos braganças não vingou a semente da nobre raça de Nun'Álvares: viu-se em todos eles a descendência do crasso sangue alentejano da filha do Bardabão.

(O. Martins - História de Portugal)

Ó pobre Portugal, mandado por todos, ludíbrio das gentes, triste nação já saqueada do que possuías no Oriente para "ganhares" a dinastia brigantina e agora ameaçada de perderes a África para conservares os teus reis "liberais" e forasteiros!

Eles que não tinhas nas veias sangue português, não coravam de vender a nação...

(O. Martins - História de Portugal)

O Imperador, no concelho de 17 de Novembro, comunicou a sua resolução sobre os pareceres dos ministros, declarando que, tendo já há muito previsto o embaraço em que se achavam por falta de meios pecuniários, de munições, a quase impossibilidade de as receber e a dificuldade, atentas as pequenas forças e a alta de tranportes, de poder tornar-se a ofensiva, estava de acordo com o ministério em que se deviam tentar todos os meios de pôr termo à guerra civil atroz e ruinosa; e que, tendo reflectido no parecer dos ministros, decidia que o marquês de Palmela saísse no outro dia para Inglaterra munido de plenos poderes:

    1.º Para expor aos governos de Inglaterra e França, juntos ou separados, que o imediato reconhecimento do governo da rainha, segundo a Carta Constitucional e na forma dos tratados de Inglaterra, nos ajudava a triunfar;

    2.º Não podendo conseguir o reconhecimento pronto, única coisa que nos poderia salvar chegando ao Porto em 30 dias, cedendo para o obter a baía de Lourenço Marques ou quaisquer outras colónias asiáticas ou das africanas da costa oriental, então deveria solicitar do governo inglês ou de ambos para intervirem dentro do mesmo prazo e imporem aos dois partidos a imediata suspensão de armas, para que os dois governos ou as cinco grandes potências arranjassem os negócios de Portugal.

(Félix Pereira de Magalhães - Apontamentos para a História Diplomática em Portugal)



Ultimatum de 11 de Janeiro de 1890.
Decretos dictatoriais de 29 de Março de 1890.
Tratado de 20 de Agosto de 1890.
Modus Vivendi de 19 de Novembro de 1890

Se é verdade ser o povo que faz os governos, não é menos verdade que a fraqueza dos príncipes e ministros, entibia as energias dos povos. Éramos a mesma gente quando, levados pela mão de Pombal, contínhamos em respeito essa própia Inglaterra que, umas dezenas de anos depois, nos dava Beresford como procônsul.

(O. Martins)


Finis Patriae

*

É negra a terra, é negra a noite, é negro o luar.
Na escuridão, ouvi! há sombras a falar:

I
Falam Choupanas de Camponeses:

Pulula a infância na pobreza!...
    Campos maninhos!...
E os berços cheios... Que tristeza!
Como é que Deus seca a devesa,
    Fazendo os ninhos?!

Vento, porque é que nos arrasas
    Num turbilhão?!
Na exerga fria tremem asas,
No lar extinto faltam brasas,
Nas arcas negras não há pão!

O gado é morto, a seara é morta,
    Morta a alegria.
O sol requeima, a geada corta...
Anda um fantasma à nossa porta
    De noite e dia...

Cadela tísica, sem dentes,
    Vesgo animal,
A fome d'olhos reluzentes
Uiva, chorando como os doentes
    Num hospital...

Dobram os sinos, dobram os sinos...
    Luto agoireiro!...
Enterram os mortos e meninos...
Dobram os sinos, dobram os sinos...
    Canta o coveiro!

Canta o coveiro e canta o cura...
    Canto funéreo!
Pobres! dormi na sepultura,
Que a vossa cama é menos dura
    No cemitério!

Dormi, dormi!... sono d'arminho,
    Reparador!
O catre é bom: tábuas de pinho...
Não precisais lençóis de linho,
    Nem cobertor!...

Dormi, ó mortos de cansaço,
Dormi, dormi na cama nova!
Os astros choram no espaço...
Bendita a enchada,mais o braço
Que ao cavador abriu a cova!

Olhai, olhai, vão em manadas
    Os emigrantes...
Uivos de dó pelas estradas,
Junto dos cais, nas amuradas
    Das naus distantes...

Velhinhas, noivas e crianças,
    Senhor! Senhor!
Ao voar das últimas espr'anças
Crispam as mãos, mordendo as tranças,
    Loucas de dor!

Lá vão levados, vão levados,
    Pelo mar alto...
Adeus, ó noites nos eirados...
Adeus, ó beijos perfumados,
Beijos d'Agosto à luz do luar!...

Adeus, divinos horizontes,
Inda a cantar nos olhos seus!
Adeus, manhãs doirando os montes!
Erva do campo, água das fontes,
    Pr'a sempre adeus!

Lá vão levados, mar sem fundo,
Longe das noivas e dos pais!...
Terras, Jesus! nos fins do mundo...
Voltarão? Quando, mar profundo?
    Jamais! jamais!

Morreu a vinha, não dá uvas...
É morto o velho camponês...
Pedras levadas pelas chuvas...
Tecto a cair... Órfãs e viúvas,
    Luto e nudez!

II
Falam Pocilgas de Operários:

Crianças rotas, sem abrigo...
A exerga é pobre e a roupa é leve...
Quarto sem luz, mesa sem trigo...
Quem é que bate no meu postigo?
    - A Neve!

A usura rouba a luz e o ar
E o negro pão que a gente come...
Inverno vil... Parou o tear...
Quem vez sentar-se no meu lar?
    - A Fome!

Lume apagado e o berço em pranto
Na terra húmida, Senhor!
A mãe sem leite... o pai a um canto...
Quem vem além,torva de espanto?
    - A Dor!

Álcool! Veneno que conforta,
Monstro satânico e sublime!...
Beber! beber.. e a mágoa é morta!...
Quem é que espreita à nossa porta?
    - O Crime!

Doze anos já, e seminua!
A mãe, que é dela?... O pai no ofício...
Corpo em botão d'aurora e lua!...
Quem canta além naquela rua?
    - O Vício!

A fome e o frio, a dor e a usura,
O vício e o crime... ignóbil sorte!
Ó vida negra! Ó vida dura!...
Deus! quem consola a Desventura?
    - A Morte!

III
Falam Casebres de Pescadores:

Mar pavoroso, mar tenebroso,
    Profundo mar!
Fúrias eternas, fúrias eternas...
Nas ondas negras há cavernas
Com monstros verdes a ulular...

Mar soluçante, mar trovejante,
    Nocturno mar!
Ventos e frios, ventos e frios...
Nas ondas torvas há navios
Com marinheiros a cantar...

Mar de tormenta, mar que rebenta,
    Convulso mar!
Noites inteiras, noites inteiras...
Nas praias tristes há lareiras
Com mães e noivas a rezar...

Mar vagabundo, mar furibundo,
    Soturno mar!
Ais e tumultos, ais e tumultos...
Nas ondas roucas andam vultos
De marinheiros a boiar...

Mar infinito, mar infinito,
    Maldito mar!
Noite procelas, noite e procelas...
Entre lençóis, restos de velas,
Há orfãozinhos a chorar!...

IV
Falam os Hospitais:

Tossi, tossi, pulmões desfeitos,
Em vielas lôbrgas sem ar!
Nos dormitórios faltam leitos...
Tossi, pulmões, nos largos peitos,
Tossi, que a Morte quer jantar!

Morrei de fome, no abandono,
Mendigos trôpegos, senis...
E invejai, não o rei no trono,
Mas os cães grandes que têm dono
E as feras más que têm covis!...

Loucos, d'olhar torvo d'assombros,
Brandindo em fúrias um bordão,
Farrapos trágicos nos ombros,
Por pinheirais, por entre escombros,
Uivai, uivai na escuridão!...

Lepras e cancros dissolventes,
Apodrecei nos tremedais...
Apodrecei, rangendo os dentes,
Medronhos monstros pestilentes,
Latrinas d'almas imortais!

E que essas almas, negra herança!
Se reproduzam com ardor
Em milhões d'almas de criança,
Rios demorte e de vingança,
Torrentes fúnebres de dor!

Rios de sangue miserando,
Maldito sangue de Caim,
Eternamente blasfemando,
E ao mar de vida derivando
Sempre! sem fim! sem fim! sem fim!...

V
Falam as Escolas em Ruínas:

A alma da infância é um passarinho;
Gorjeia o ninho e a escola chora:
Ma infância cai a noite; e o ninho
Tem sobre as plúmulas d'arminho
    A aurora.

A alma da infância é flor mimosa;
A escola é triste e a flor vermelha:
Na escola paira a c'ruja odiosa,
E sobre o cálice da rosa
    A abelha.

Tu fazes, Pátria, as almas cegas,
Pendendo a infância num covil.
Avesnão cantam nas adegas;
Se a infância é flor, porque lhe negas
    Abril?!

VI
Falam as Cadeias:

Somos a estufa tenebrosa
Onde esbraceja, nocturnal,
A verde, a negra, a sanguinosa
Flor epiléptica do Mal...

Vegetações, como serpentes,
Estorcem no ar os galhosnus,
Florindo em úlceras ardentes,
Em cancros ruins a esvurmar pus!

E sobre os cálices funestos,
Vampirizando um rico extracto,
Zumbem cantáridas d'incestos,
Larvas de estupro e assassinato!

E a flor trágica pulula
Na surda-muda escuridão,
Fartando a infâmia da sua gula
No horror da nossa podridão.

Somos o esgoto onde se encana
Para o inferno tumular
Toda a estrumeira da alma humana,
Lixo de Deus a fermentar.

Aqui se ajunta e se comprime
Lodo que dá, bem destilado,
Hiper-vitríolo de crime
Raivosamente sublimado.

Piedade é flor que aqui não medra;
Não acha abrigo a que se acoite.
Transpira ódio a nossa pedra,
Goteja sangue a nossa noite.

E é noite aqui a toda hora,
Noite que apaga toda a luz,
Quer venha a rir do olhar da aurora,
Quer a chorar do de Jesus!

Nestes covis onde ela escarra,
A Lei, violando a natureza,
Da unha adunca extrai a garra,
Da mão sinistra faz a presa.

O diabo aqui nesta geena
Se ocupa, rindo, a transformar
Um cão vadio numa hiena
E um gato bravo num jaguar.

Aperfeiçoa o monstro humano,
Retrocedendo-o ao seu covil:
Faz do bimano o quadrumano
E do quadrúpede o reptil.

E enfim, depois de o ter a rastos,
Para girar o ciclo todo,
Do verme, que olha ainda os astros,
Faz a abjecção suprema: - Lodo!

VII
Falam Condenados:

Faminto, nu, sem mãe, sem leito,
    Roubei um pão.
Quem vai alémde farda e de grã-ruz ao peito?
    - Um ladrão!

Todos os crimes da Desgraça
    Em mim reúno.
Quem vai além tirado a parelhas de raça?
    - Um gatuno!

Pela miséria crapulosa,
    Eu fui traído.
Que explêndidopalácio em festa! Quem o goza?
    - Um bandido!

Viola, seduz, furta, assassina,
    Milhão, És rei!
Que prostituta está cantando àquela esquina?
    - A Lei!

VIII
Falam as Fortalezas Desmanteladas:

Eram de rocha viva as ameias crestadas,
Para gigantes e condores!
Hoje das pedras mutiladas
Fazem cascalho nas estradas
    Os britadores.

Varreu-nos a metralha os baluartes escuros,
Tombando fria a nossos pés!
Ei-lo o Bretão d'olhos perjuros:
Como é que arrasa os nossos muros?
    A pontapés.

Eram de bronze eterno, eram d'aço impoluto
Almas d'heróis, línguas d'espadas!
Ei-lo o inimigo fero e bruto:
Como é que escala o meu reduto?
    Às gargalhadas.

Cantaram sobre nós, montante, adaga a lança
    Trinta epopeias!
Ei-lo o inimigo, ei-lo que avança:
Vai metralhar-nos, que nos lança?
    Merda às mãos cheias!

IX
Falam os Monumentos Arrasados:

Clautros, abóbadas, arcadas,
Muros batidos do tufão,
Campas partidas e violadas,
Crânios de reis, poeiras d'ossadas,
    Tudo no chão!

No chão rosáceas e cruzeiros,
Grimpas, zimbórios, campanis...
Em tumbas negras de mosteiros,
Ondem dormiram cavaleiros,
Santas e heróis, dormem reptis!

Montões de estátuas em pedaços,
Torres, castelos, catedrais,
Templos sem Deus, cruzes sem braços,
São estreitados por abraços
    De matagais!

A alma das pedras sacrossantas,
Chorando à noite, faz horror!...
Quem é que escuta as vozes santas?
Os homens não... talvez as plantas
Sintam melhor aquela dor!...

Talvez os ninhos e as verduras,
Talvez as águas mais os ventos
Ouçam melhor que as criaturas
As vozes trágicas, escuras,
    Dos monumentos!...

Torres outrora olhando os astros,
Flechas sem fim, oh, raiva, oh dó!
Mármores, bronzes, alabastros,
Grandeza e glória... tudo a rastos,
Tudo aos bocados, tudo em pó!

E ó Deus, ó Deus de tanta ruína,
De tanta dor calcada aos pés,
Numa entrudada libertina,
Faz seus palácios a Rapina,
Faz o Impudor os seus chalets!

X
Falam Estátuas d'Heróis:

Ó raça triste, ó raça espúria
De miseráveis sem valor!
Sob o azorrague e sob a injúria,
É de comédia a vossa fúria,
É de entremez a vossa dor!

Vergonha ignóbil! O que importa
Contra um Leopardo a indignação,
Se consentis que à vossa porta
A Liberdade seja morta,
Estrangulada por um cão?!

Que admira enfim que uma pantera
De garras dáço e olhar sombrio
Coma, num bom jantar de fera,
Um povo podre, que tolera
Os dentes maus dum cão vadio?!

Pois esse povo agonizante,
Quando revive para a história,
E vai, frenético e radiante,
Saudar a estátua do gigante
Cantor da sua eterna glória,

Deita a fugir, (como é fictícia
Vossa bravura, homens venais!)
Vendo um corcunda, que imundícia!
E um rei d'espadas (de polícia)
Com quatro esbirros, nada mais!...

E ousais falar, bocas impuras,
Em glória, em honra, em pátria, em Deus!
E ousais erguer das sepulturas
Nossas hercúleas armaduras,
Chatins! chatins! pigmeus! pigmeus!

Deixai dormir nossas espadas
Na eterna e trágica viuvez!
Pois são de ferro e são pesadas
Em mãos de escravos, costumadas
- Metal mais nobre! - ao oiro inglês!...

Onde a grandeza, onde a pujança
Do Lusitano, ao medo alheio?
Que resta enfim da nossa herança?
Porcos da vara de Bragança,
Grunhi nos túmulos!... dizei-o!

Dizei, poltões, dizei, cevados,
Que resta enfim da nossa glória?
Que é da altivez? - Jogou-se aos dados...
Que é do estandarte? - Ei-lo em bocados...
Que é da nação? - Morreu na história!

Do imenso império extraordinário
Só aos ladrões ficou defeso
O espaço triste e necessário
Onde o Bretão erga um Calvário
E cuspa, rindo, o seu desprezo!

E o povo? Inerte. E o rei? À caça.
Quem é que impera? O Deus Milhão...
Ah! Como é bom em tumba escassa,
Longe do Sol que vê tal raça,
Dormir, dormir na escuridão!...

Mas nem no túmulo cativos,
Dormimos bem!... Repouso atroz!...
Porque, ante os lances aflitivos,
Nós afinal somos os vivos,
E os mortos pútridos sois vós!

Sois vós os mortos ambulantes,
Tristes autómatos de pé,
Articulando por instantes,
Ocas palavras vacilantes,
Gritos sem dor, juras sem fé!

Lobos, abutres, corvos, hienas,
Panteras, linces e chacais,
Monstros vorazes de gangrenas,
Lúculos ímpios das obscenas
Larvadas carnes sepulcrais;

Vinde em tropel, em chusma, em bando,
Vinde às centenas e aos milhões,
Para o banquete miserando
Dum povo morto, fermentando
Numa estrumeira d'abjecções!

Monturo d'almas!... Excrementos
De tal baixeja e vilania,
Que nos esgotos mais nojentos
Fariam volvos truculentos
Ânsias de peste e d'agonia!

Não há latrina que suporte
Tão baixo e cínico jantar!
Seu cheiro pútrido é tão forte,
Que a campa, estômago da Morte,
Era capaz de o vomitar!

Vede lá, pois, corvos funéreos,
Que orgia opípara de rei!
Goelas sinistras de Tibérios,
Roucos glutões de cemitérios,
Comei! comei! comei! comei!

O garfo e a faca, o dente e a presa,
Cravai, cravai nesse festim!
Comei, limpai de todo a mesa!
Que nem suspeita d'impureza
Dessas carcaças reste enfim!

E em vez da raça digerida
Por ventre podres d'urubus,
Que dê a terra erva homicida,
Com mais nobreza para a vida,
Com mais direito ao ar e à luz!

E, por padrões assinalados
De tantas glórias imortais,
Bassta que o ferro dos arados
Encontre um dia entre os silvados
Blocos dos nossos pedestais!

XI
Uma Voz na Treva:

    Já Deus, coveiro de colossos,
    Ó Portugal, ó maldição!,
Dia e noite martela a tumba onde os teus ossos
Na cripta do silêncio eterno dormirão!

    Com fúria doida, ó vento, escarvas
    Na poeira triste.... Em vão, em vão!
Tudo é morto! Na terra há unicamente larvas,
E a luz que fosforeja ainda é podridão!

    Mas que castelo sobranceiro
    Ao mar profundo erguendo estão?...
É reduto d'heróis, que em transe derradeiro
Querem bater-se com as feras bravas?

O Castelo

- Não!

Uma Voz na Treva

    Mas que trombeta, ó noite funda,
    Clangora rouca o seu portão?
É a alma da Pátria a bradar moribunda,
Num arquejo de dor e de vingança?

O Castelo

- Não!

Uma Voz na Treva

Quem és pois, quem és pois, sinistra fortaleza,
Que te ergues a cantar nesta desolação!

O Castelo

Noite! deixa cantar quem 'stá bebendo à mesa...
Silêncio! Viva el-rei!... Sou a torre do Outão!

*

Calou-se tudo. A terra é nova... o céu é vulcânico...
E a alma, pálida, à luz verde-negra do luar,
Pressente, na mudez cavernosa do pânico,
Que a boca dos trovões profundos vai falar...

XII
À Mocidade das Escolas

Por terra, a túnica em pedaços,
Agonizando a Pátria está.
Ó Mocidade, oiço os teus passos!...
Beija-a na fronte, ergue-a nos braços,
    Não morrerá!

Com sete lanças os traidores
A trespassaram, vede lá!...
Ó Mocidade!... unge-lhe as dores,
Beija-a nas mãos, cobre-a de flores,
    Não morrerá!

Turba de escravos libertina
Nem ouve os gritos que ela dá...
Ó Mocidade, ó louca heroína,
Pega na espada, arma a clavina,
    Não morrerá!

Já desfalece, já descora,
Já balbucia... é morta já...
Não! Mocidade, sem demora!
Dá-lhe o teu sangue ébrio d'aurora,
    Não morrerá!

Rasga o teu peito sem cautela,
Dá-lhe o teu sangue todo, vá!
Ó Mocidade heróica e bela,
Morre a cantar!... morre... porque ela
    Reviverá!

8 de Dezembro de 1890.

O Caçador Simão

A Fialho d'Almeida

Jaz el-rei entrevado e moribundo
Na fortaleza lôbrega e silente...
Corta a mudez sinistra o mar profundo...
Chora a rainha desgrenhadamente...

    Papagaio real, diz-me, quem passa?
    - É o príncipe Simão que vai à caça.

Os sinos dobram pelo rei finado...
Morte tremenda, pavoroso horror!...
Sai das almas atónitas um brado,
Um brado imenso d'amargura e dor...

    Papagaio real, diz-me, quem passa?
    - É o príncipe Simão que vai à caça.

Cospe o estrangeiro afrontas assassinas
Sobre o rosto da Pátria a agonizar...
Rugem nos corações fúrias leoninas,
Erguem-se as mãos crispadas para o ar!...

    Papagaio real, diz-me, quem passa?
    - É o príncipe Simão que vai à caça.

A Pátria é morta! a Liberdade é morta!
Noite negra sem astros, sem faróis!
Ri o estrangeiro odioso à nossa porta,
Guarda a Infâmia os sepulcros dos Heróis!

    Papagaio real, diz-me, quem passa?
    - É o príncipe Simão que vai à caça.

Tiros ao longe numa luta acesa!
Rola indomitamente a multidão...
Tocam clarins de guerra a Marselhesa...
Desaba um trono em súbita explosão!...

    Papagaio real, diz-me, quem passa?
    - É alguém, é alguém que foi à caça.
        Do caçador Simão!...

Viana do Castelo, 8 de Abril de 1890.

À Inglaterra

(Fragmento)

Ó cínica Inglaterra, ó bêbeda impudente,
Que tens levado, tu, ao negro e à escravidão?
Chitas e hipocrisia, evangelho e aguardente,
Repartindo por todo o escuro continente
A mortalha de Cristo em tangas d'algodão.

Vendes o amor ao metro e a caridade às jardas,
E trocas o teu Deus a borracha e marfim,
Reduzindo-lhe o lenho a c'ronhas d'espingardas,
Convertendo-lhe o sangue em pólvora e bombardass,
Transformando-lhe o sangue em aguarrás e em gim!

Teus apóstolos vão, prostituta devassa,
Com o fim de levar os negros para o céu,
Desde o Zaire ao Zambebe e desde o Cabo ao Niassa,
Baptizando a Impiedade em Jordões de cachaça,
Mostrando-lhe o teu Deus na tua hóstia - o guinéu!

A honra para ti é inútil bugiganga.
O teu pudor é como um Matabel sem tanga,
Monstruoso ladrão, bárbaro traficante;
Compras a alma ao negro a genebra e a missanga,
Vendendo-lhe a tua bíblia e queixais de elefante.

A tua bíblia! o teu Cristo!... A tua bíblia é uma agenda
Em que a virtude heróica a cifras se reduz.
E o teu Cristo londrino é um Deus de compra e venda,
Deus que ressuscitou para abrir uma tenda
De cortiça, carvão, álcool e panos crus!

Pela estrada da história, ó milhafre daninho,
Vai um povo seguindo o seu norte polar,
E tu és o ladrão que lhe sais ao caminho,
Com a manha do lobo e a coragem do vinho,
A roubar-lhe os aneis para o deixar passar!

Quando espreitas o fraco apontas a clavina,
Quando avistas o forte envergas a libré...
A tua mão ora pede esmola ora assassina...
Teu orgulho, covarde, é, meu Bayard d'esquina,
Como um tigre de rastro e um capacho de pé!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Quando já se desenha em arco d'aliança
A porta triunfal do século que vem,
Por onde dez nações marchando atrás da França,
Palmas na mão, cantando um cântico d'espr'ança
Hão-de entrar numa nova, ideal Jerusalém;

Quando rompe a alvorada azul do grande dia,
E de longe um clarim frenético nos chama...
Quando, ao ver no horizonte o esplendor da aleluia,
O colosso de ferro e d'oiro, a Tirania,
Já começa a baquear sobre os seus pés de lama;

Quando Paris entoa uma epopeia homérica
Com o timbre imortal da sua hercúlea voz;
Quando, numa rajada explêndida e quimérica,
O ciclone de luz que deu volta à América
Vai co'as asas de fogo a perpassar por nós;

Quando da pátria enfim o coração fremente
Palpitava num sonho encantador de glória,
À face do universo inteiro, de repente,
    Brutalissimamente
Em plena Europa, em pleno dia, em plena História,

Qual se fora de noite e em matagal bem denso,
Estrangula-se a um povo heróico o seu porvir,
Rouba-se uma nação como se rouba um lenço,
E vê a luz do Sol este atentado imenso,
E fica o monstro impune! e o bandoleiro a rir!

E não estala um ai de dor em cada peito!
E não submerge o monstro a cólera do mar!
E a terra continua em seu giro perfeito!...
Ó quimera, ó tristeza, ó Justiça, ó Direito!...
Providência! onde estás?... que te quero insultar!!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Hão-de um dia as nações, como hienas dementes,
Teu império rasgar em feroz convulsão...
E no torvo halali, dando saltos ardentes,
Com a baba da raiva esfervendo entre os dentes,
A bramir, levará cada qual o seu quinhão!

E tu ficarás só na tua ilha normanda
Com teus barões feudais e teus mendigos nus:
Devorará teu peito um cancro aceso, a Irlanda,
E a tua carne hás-de vê-la, ó meretriz nefanda,
Lodo amassado em sangue, oiro amassado em pus!

E assim como brutais monstros de pesadelo
No soturno porão de uma nau sem ninguém,
Entre nuvens de fogo e temporais de gelo,
De bombordo a estibordo a rolar num novelo,
Desabando e rugindo, aos montões, num vaivém,

Se estrangulam febris, roucos, dilacerantes,
As pupilas a arder em brasas infernais,
Panteras contra leões, ursos contra elefantes,
Cobras em redemoinho a silvar dardejantes,
Búfalos escornando os tigres e os chacais;

Assim vós, assim vós, duma raça assassina,
Sobre essa nau de pedra onde o mar vai bater,
Vos estrangulareis numa carnificina
De que só ficará, sob a densa neblina,
Num pântano de sangue uma Gomorra a arder!

Milhões, milhões, milhões de bocas esfaimadas
Hão-de dilacerar-te o corpo com furor,
E a pedra a dinamite e a carne a punhaladas
Hão-de tombar no mesmo escombro ensanguentadas,
Em baques de hecatombe e blasfémias de dor!...

Hão-de os lords rolar em postas no Tamisa!
Há-de o corpo de um rei dar um banquete a um cão!
Teu solo há-de tremer como uma pitonisa,
E a canalha sem lei, sem Deus e sem camisa
Abrirá teu bandulho infecto, ó Deus Milhão!

Bancos, docas, prisões, arsenais, monumentos,
Tudo rebentará em cacos pelo ar!...
E ao soturno fragor de teus finais lamentos
Responderão - ladrando! as cóleras dis ventos!
Responderão - cuspindo! os vagalhões do mar!

Fevereiro de 1890