"Dormi as noites perfumadas do Oriente,
cheias de luar e de saudades…"
Albino Forjaz de Sampaio
Dois anos depois, impressionado com o colorido das minhas narrativas, o Eng.º. Armando, meu bom amigo, pede-me para descermos o Minho para ver como era. Eu concordo imediatamente mas faço-lhe ver a necessidade de lhe ministrar primeiro um treino básico em águas calmas a fim de ganhar "calo" e aprender as remadas fundamentais. Falo-lhe em Castelo de Bode como a albufeira ideal para o efeito, sem contudo adiantar datas. Por esta época o meu amigo era um jovem recém-licenciado pelo Instituto Superior Técnico e namorava a FOFINHA - uma bonita e esbelta moça por quem ele estava "in love". Atendendo a esta circunstância, achei que não era de levar lá muito a sério o pedido do meu amigo, ao ponto de considerar as suas palavras simples conversa fiada. Pouco tempo depois os factos vêm provar que eu estava redondamente enganado. Recebo uma carta dele a sugerir-me um fim de semana em Castelo de Bode para o seu tirocínio em canoagem. Até pasmei! Já refeito da surpresa escrevo-lhe então a minha resposta nos seguintes termos:
Hortas, 17 de Julho de 1991
Como estava combinado o meu amigo aparece em minha casa na data aprazada. Para minha surpresa trazia com ele um pão caseiro ainda quente e parece-me que um frango se a memória não me falha. Rejubilei de alegria com a sua vinda. Sem perda de tempo tirei o meu velho toyota da garagem e apressámo-nos a amarrar as canoas no tejadilho da viatura. No porta-bagagens meti uma tenda de campismo, dois sacos-camas, coletes salva-vidas e mais alguma tralha de que já não me lembro. Assim equipados rumámos para Castelo do Bode. Passámos por Fátima, Vila Nova de Ourém e Tomar. Mais alguns quilómetros e eis-nos na barragem propriamente dita. O panorama que dali se avista é realmente maravilhoso. Já uma vez lá filmei um pôr-do-Sol que não vos digo nada!
Prosseguindo viagem, um pouco mais adiante encontramos um cruzamento onde uma placa nos assinala o caminho para Martinchel. Virando à esquerda enveredamos por essa estrada e seguimos em frente alguns quilómetros à espera de alguma placa que nos orientasse para o nosso destino. Mas nada. A certa altura, um pouco por acaso, decidi cortar à esquerda e meter-me pelo pinhal adentro por um caminho em péssimo estado. Andámos perdidos algum tempo até que depois de muitas voltas, acabámos por descobrir o caminho certo. Já perto da albufeira passamos por Cabeça Gorda, uma terriola perdida na serra e em deplorável estado de desertificação e abandono. Tirando algumas opulentas moradias de emigrantes o resto era miséria e ruínas. A degradação do casario, o silêncio sepulcral das ruas desertas e mais não sei o quê deram-me a estranha sensação de estar a atravessar uma aldeia fantasma, onde o tempo parece ter parado. À saída do lugarejo, um caminho alcatroado serpenteia por entre o pinhal em direcção à albufeira, que já se descortina aos nossos olhos numa ampla e magnificente panorâmica. À vista da água azul e cintilante uma grande alegria nos invade. Para mim aquilo era o paraíso. Desço a estrada com o pé no travão não fosse haver algum despiste - o que seria morte pela certa, atendendo ao acidentado do terreno. Chegados à beira da água deparamos à nossa frente com uma airosa península arborizada ligada ao pinhal por um estreito corredor de terra, formando uma espécie de istmo. "Magnífico lugar para passar um fim de semana!" - pensei. Sem mais hesitações atravessamos o "istmo" e avançamos pelo terreno íngreme e pedregoso com a mudança engatada em primeira e com o carro a rugir na máxima potência até que se imobilizou a meio da encosta.
Ao fim de algumas evoluções na água azul achei que era chegado o momento de conduzir o meu pupilo para a sua primeira expedição, em vez de andarmos por ali feitos palermas às voltas sem um objectivo determinado. Não muito longe havia uma reentrância, uma espécie de "fiord" de margens alcantiladas. Apontei para lá com o dedo e incitei o "mon ami" a remar para lá. Avançamos lentamente por entre as margens abruptas admirando as eminências de xisto, o que conferiam ao lugar um aspecto algo selvagem.
À medida que avançávamos pelo impressivo "canyon" este ia-se tornando cada vez mais estreito como se ameaçasse cair-nos em cima em qualquer momento. Pouco depois começamos a ouvir o ruído característico da água a correr por entre as pedras. Percebemos que estamos a chegar "ao fundo do túnel". Empoleirados no alto dum rochedo alguns pescadores de fim de semana estão de cana na mão à espera de que alguma truta cometa a asneira de morder o anzol. Estão tão ensimesmados na sua faina que parecem não dar pela nossa presença.
Como já era do meu conhecimento o "canyon" termina ali, precisamente no local onde desagua um riacho. Depois de abarcar com olhar tudo o que havia para ver disse ao meu amigo para darmos meia volta e regressar ao "mar alto". Assim que deixamos o "desfiladeiro" digo ao Eng.º Armando que se dirija desta vez para um pequeno "ilhéu" cujo lombo escalvado aflora a pouco mais duma centena de metros. À minha frente o "mon ami" rema com visível entusiasmo evidenciando já um certo à vontade. Atingido o ilhéu desembarca com a euforia dum conquistador como se tivesse acabado de descobrir um novo mundo. É uma sensação porreira chegar assim pela primeira vez a um naco de terra no "alto mar". O seu rosto esfuziante de alegria parece sugerir uma grande felicidade. De facto não era para menos. Com efeito estava um lindo dia de sol e com um céu vibrantemente azul e sem nuvens. Sem perda de tempo o Armando tenta desenvencilhar-se do colete salva-vidas a fim de poder dar uns mergulhos na água convidativa. Como responsável pela sua segurança imediatamente me oponho ao seu desígnio tentando persuadi-lo do perigo. Ele como bom pupilo acata o meu conselho sem resmungar. Toma banho sim, mas de colete. "GOOD BOY!" - tomara eu que os meus alunos tivessem a mesma educação! Era um descanso. Depois de mais algumas voltas em redor decidimos regressar à tenda. O Sol já rondava o horizonte e a fome começava a apertar. Estendemos uma toalha no restolho e, sem mais cerimónia, amandamo-nos ao pão caseiro da tia Inácia que foi um vê se te avias. Soube-nos a mel, colhudo. Não há dúvida de que o exercício físico e o ar do campo estimulam o apetite. Comemos que nos fartámos. Já saciados e com a pança cheia por ali ficamos a conversar até que chegasse a hora da deita. Falamos de tudo um pouco, mas sobretudo de ciência. Eu havia levado comigo um livro de autores russos que o "mon ami" me oferecera pouco tempo antes. Tratava-se do "CURSO DE ASTRONOMIA" - um livro muito elucidativo cujas páginas passei em revista à cata dum capítulo interessante que pudesse servir de pretexto a uma boa conversa. Acabei por me deter no capítulo que falava nos diversos tipos de telescópios. Discutimos fórmulas, limites de resolução, montagens equatoriais, montagens altazimutais, newtonianos, cassegrainianos, fenómenos de difracção, eu sei lá que mais!
Quando se fez noite escura e depois de termos contemplado as estrelas com as suas constelações, achamos que estava na altura de recolher à tenda e dormir. O "mon ami" mal se deitou no seu saco-cama adormeceu quase de imediato. Estava amassado de todo. Eu também me estendi no meu saco mas quanto a dormir... está-te quieto! No interior da tenda o mofo não desaparecera de todo apesar do sol e do arejamento. Tivemos que gramá-lo até ao fim. O meu pupilo - como previdente que é - antes de se deitar pusera repelente de insectos nas partes mais expostas da pele a fim de escapar à praga das melgas e outros alados adventícios. Que pena não ter trazido no seu arsenal um anti-mofo também...
Ao fim de mais de uma hora de insónia lá acabo também por adormecer. Contudo, por volta das duas ou três da madrugada, acordo em sobressalto por causa dum barulho de carros nas proximidades. Saio do saco, abro a tenda e espreito. Avisto ao fundo da estrada as luzes de três ou quatro veículos que àquelas horas mortas tinham um aspecto muito sinistro. A juntar a tudo isto havia ainda um rumor de vozes o que tornava o cenário ainda mais ameaçador. "E SE FOSSEM CRIMINOSOS?" - pensei. Estávamos bem arranjados, ali sozinhos naquele ermo sem que ninguém nos pudesse valer...
Fico que tempos a perscrutar a escuridão em estado de alerta máximo sempre à espera do pior. O meu pupilo, entretanto, dorme profundamente sem de nada se aperceber. Parece um Frei João Sem Cuidados a dormir na paz dos anjos. E eu ali cheiinho de medo, com uma pôssara! " E SE OS GAJOS RESOLVEM ATACAR?" Como é que podíamos fazer frente àqueles maganões, indefesos como estávamos? Fugir também não resolvia nada uma vez que o "corredor" - a única saída - estava ocupado pelo "inimigo". A não ser por ali a fuga era completamente impossível, dado estarmos cercados pelo abismo. Ainda se eu ao menos tivesse trazido a minha walter 6.35 sempre havia a possibilidade de vender cara a pele. Assim ... valha-nos nossa Senhora... A certa altura as luzes apagam-se. A escuridão é completa. As vozes deixam de se ouvir. O que estarão os tipos a tramar? Macacos me mordam se isto não parece um "thriller" daqueles do piorio! O tempo passa lento e viscoso num "suspense" dos diabos mas... nada acontece. Talvez os gajos não nos tenham visto ainda - maluco para com os meus botões. Então porque carga de água apagaram as luzes? E este silêncio sepulcral? Hum... QUERES APOSTAR QUE SÃO "POMBINHOS IN LOVE" QUE ESTÃO PARA ALI A ACASALAR? Antes fossem... antes fossem... pois nesse caso estávamos safos. Esta simples suspeita tem em mim um efeito sedativo. Tal hipótese representava um raio de luz no abismo escuro dos meus medos. O silêncio durou cerca duma hora. De súbito ouço o roncar dos motores, as luzes acendem-se e, para meu grande alívio, constato que os gajos se vão embora. GRAÇAS A DEUS! Graças a Deus que eram só "pombinhos" a acasalar, doutro modo estávamos feitos. Se o Sherlock ali estivesse connosco dir-lhe-ia na minha aflição:
Mal o "mon ami" se meteu dentro do novo kayak, este começou logo a oscilar num prenúncio de "naufrágio", o que o fez desistir da sua "teoria". Era evidente que eu estava ali para lhe facilitar a vida e não para o aldrabar ou causar-lhe dificuldades. Dei-lhe o que tinha de melhor como mandam as regras da boa etiqueta ou da boa hospitalidade. Era verdade sim senhor que a minha canoa era mais esguia, mas em contrapartida tinha o inconveniente de ser muito mais pesada o que anulava desde logo qualquer potencial vantagem.
O "slalom", pelo contrário, para além da maior estabilidade, era feito de fibra muito leve e resistente, o que o tornava ideal para a descida dos rápidos e com especial capacidade para aguentar o impacto dos rochedos. Eu preferia-o de longe, tanto que foi nele que eu desci a maioria dos rios portugueses. Estava particularmente concebido para "apanhar porrada" como, aliás, já pudera verificar em vários "raids", especialmente na descida do Zêzere e do Minho. Após um curto descanso retomamos a viagem com o meu amigo visivelmente contrafeito, pois a sua obsessão era regressar à base. Sentia que não tinha estrutura física para aquilo, não porque fosse um pau de virar tripas, mas porque não estava habituado a uma vida tão espartana e tão muscularmente exigente, prontos! As suas potencialidades situavam-se mais na área do intelecto, no marranço indigesto dos livros técnicos e na aridez dos formulários matemáticos do que na performance dos bíceps.
Prevendo a sua desistência a curto prazo eu incitava-o a prosseguir em frente acenando-lhe com a miragem de radiosas vistas paisagísticas. Sem este engodo era mais do que certo que iria desistir o que não era lá muito do meu agrado. Não que eu não conhecesse já aquelas paragens, mas porque o dia estava magnífico e apetecia-me desentorpecer os músculos e aspirar a brisa fresca do vale. Mais adiante nova paragem. Encostamos na margem esquerda, numa reentrância acolhedora onde os raios do sol incidindo sobre a água, nos permitem vislumbrar o fundo rochoso num perímetro bastante restrito, claro. Achamos que é o sítio ideal para tomar uma banhoca. Tanto eu como o meu amigo desfrutamos com alegria dos mergulhos e do prazer da natação. No auge da canícula aquilo vinha mesmo a calhar. Era ouro sobre azul como se costuma dizer. Novamente o Armando me fala em voltar. Que já era tarde e que além de cansado estava a ficar cheio de fome. Teimosamente insisto para que continuemos mais um pouco pois a ilha do Lombo não devia estar longe. Fazendo das tripas coração, o "mon ami" continua a remar cada vez mais contrariado. Via-se nitidamente que estava a fazer um grande frete. Finalmente, para seu grande alívio, anuncio-lhe a famigerada ilha que avistamos a menos de meia milha. Avançamos até à sua extremidade sul, altura em que eu proponho que a circum-naveguemos para melhor a podermos apreciar. Mas o "mon ami" é que já não está pelos ajustes. Está demasiado cansado para um "raid", ainda que pequeno. Insiste veementemente no regresso. Atendendo ao seu estado físico vejo-me obrigado a concordar. Lanço um último olhar à formosa ilha, onde alveja uma estalagem rodeada de pitoresco arvoredo, e dou meia volta. O meu companheiro faz o mesmo.
Regresso um pouco triste por não ter completado o "raid" previsto, mas pensando bem talvez fosse melhor assim. O meu amigo estava derreado de todo e a sua grande preocupação era que lhe faltassem as forças a meio e desse barraca. É que há mar e mar, há ir e voltar. Ao fim de mais ou menos duas horas de navegação avistamos a península onde temos a tenda. Estávamos a chegar à base, ao "lar, doce lar". Para falar com franqueza eu sentia-me demasiado folgado para ter de acabar assim de repente com o passeio. Sentia um excesso de adrenalina no sangue que me excitava os nervos e me predispunha para a acção. Enquanto não "queimasse" os restos dessa estranha substância hemostática não poderia ter sossego e paz de espírito.
O esforço muscular intenso era a única forma de aliviar os nervos acumulados por anos e anos a aturar garotos ( e os respectivos pais). Toda a minha agressividade interior ansiava por libertar-se sob o risco de rebentar comigo de vez. Era como se uma mola me estivesse permanentemente a comprimir a alma. Sentia uma necessidade imperiosa de me libertar das tensões e dos recalques duma vida profissional invulgarmente stressizante, de fugir aos efeitos deletérios de mais de duas décadas a ensinar putos e a ter de suportar-lhes o barulho, a gritaria e, às vezes, a má criação. Isto para não falar nas idiossincrasias de certos papás e mamãs para quem os filhos têm invariavelmente razão, ainda que os filhos sejam reconhecidamente uns palermas ou mais brutos que uma porta. Se os filhos aprendem dizem: "o meu filho é muito esperto!"; se não aprendem a culpa (está-se mesmo a ver) é do malandro do professor que é um incompetente. Houve uma vez um retornado de Angola que numa reunião de pais me atirou à cara com esse terrível adjectivo. O impacto emocional duma ofensa tão grave e displicente fez com que eu desse imediatamente por encerrada a reunião. Seguiu-se um enorme burburinho e confusão mas eu já não ouvia nada. O meu espírito, abatido pelo opróbrio duma acusação tão vil e injusta, vogava no vazio e no mais completo alheamento. O homem, com o seu bigode negro de pontas afiadas, tinha um aspecto odioso e feroz. Lá o levaram para fora da escola, com o sacana a resistir, manifestando o desejo de me agredir como se a ofensa de que foi autor não constituísse já por si suficiente agravo. Fui para casa curtir o desgosto e a pensar na canção do padre Fanhais que a certa altura diz: "porquê, Senhor, entre irmãos há homens que metem medo..."
Chegado a casa noite escura, fui direitinho à cama afogar a minha tristeza debaixo dos cobertores. Nem comi, filhas. Na manhã do dia seguinte tive de fazer um esforço sobre-humano para me levantar e arranjar coragem para ir para a escola. Com o coração trespassado pela dor e pela humilhação lá fui cumprir o meu dever de mestre-escola como se nada tivesse acontecido. A minha alma estava em chaga, a sangrar, mas o bom senso dizia-me que tinha de ir em frente, não havia outra saída. Ao princípio ainda pensei levar o caso para o tribunal mas depois pensando melhor achei que isso era agudizar ainda mais o meu sofrimento, para já não falar do calhandrismo das comadres que não deixariam de achar no história um apetitoso "pitéu". Era óbvio que não estava disposto a ser pasto da má língua e a ser objecto de intrigas venenosas de gente sádica e sem escrúpulos que encontra na desgraça alheia a suprema felicidade. Era o mesmo que entregar-me às feras.
Para compreenderdes melhor o meu estado de espírito, imaginai, ó filhas, (isto é um supor) que um malandro vos encontrava num sítio solitário e vos ia ao remendo preto que tendes ao fundo da barriga. Consumada a violação qual de vós teria coragem de vir para a praça pública a gritar aos quatro ventos: "AQUI D´EL REI QUE ME ARRANCARAM OS TRÊS! AQUI D´EL REI QUE ME ARRANCARAM OS TRÊS?"
Nove em cada dez calar-se-iam bem caladinhas e fingiriam para toda a gente que estava tudo bem como se nada se tivesse passado na realidade. O receio de enfrentar o opróbrio e a desonra seriam mais fortes do que o desejo de fazer justiça. (Por causa destas e doutras quantos bandalhos não ficam a rir-se sem que ninguém lhes vá ao fole…). Por vezes o silêncio passa por ser a melhor táctica, apesar dos traumas, do sofrimento moral e dos recalques. Isto não significa de modo nenhum que eu faça a apologia do silêncio como resposta aos atentados à honra e ao bom nome. Tal atitude só servirá para encorajar o crime com todo o seu infindável cortejo de actos ignominiosos. Muitos canalhas, mais conhecedores da psicologia humana do que muitos sonham, já contam de antemão com a passividade das vítimas antes de perpetrarem os seus actos ignóbeis. Um simples olhar à vítima é tudo quanto precisam para fazerem o seu juízo. Se esta é do género tímido ou do tipo calado então está entregue à bicharada. Trata-se dum óptimo alvo, dum excelente candidato a bode expiatório, onde toda a escória vai querer "molhar a sopa" à primeira oportunidade. É talvez cruel da minha parte dizer isto mas as coisas são como são e não como nós queremos que fossem. Como em tudo na vida são sempre os mais fracos que pagam as favas e sofrem na pele as prepotências dos mais fortes porque, já dizia o La Fontaine, "la raison du plus fort est toujours la meilleur".
Estando sujeitos como na realidade estão às constantes agressões e vexames dos chamados "extrovertidos" (que regra geral não têm papas na língua quando se trata de ofender os outros), não é de admirar que uma vez por outra não haja um "caladinho" que, farto de ser bombo da festa, se erga contra o jugo do algoz, numa explosão de fúria, quase sempre de trágicas consequências. Quando o "processo de incubação" descamba em fúria vingadora as pessoas ficam normalmente muito perplexas, remetendo a explicação do fenómeno para o domínio da psicopatologia. Depois lá aparece o psiquiatra, o psicólogo, o sociólogo e não sei quem mais a tentar explicar ao Zé Povinho o "substrato" do crime. As mais das vezes a conversa não passa de blá blá blá balofo, de intelectualizações pretensamente científicas, mas que no fundo não passam quase sempre de sonante retórica para inglês ver. O povo na sua sabedoria ancestral costuma dizer que "Deus nos livre de cão que não ladra e de homem que não fala". Penso que há alguma verdade neste prolóquio. Contudo, estou convencido que nem sempre corresponde à realidade. Compreende-se porquê. Se um extrovertido comete o crime mais hediondo ninguém parece estranhar. Todos os dias isso acontece por esse mundo de Cristo. Mas se o criminoso é um tipo introvertido e de poucas falas então o choque será sem dúvida muito maior porque ninguém espera que um pobre diabo, sem eira nem beira, tenha o arrojo de cometer um acto de tamanha violência. Um comportamento tão inesperado torna-se muito mais chocante e tenebroso aos olhos da opinião pública. Todavia, quantas vezes o acto violento não representa "o abrir das comportas" a uma pressão psicológica longa e tantas vezes intolerável, originada quase sempre por alfinetadas diárias, escárnios, ditos chistosos em que muitos extrovertidos são mestres consumados? Pois é... mas no fim os caladinhos é que são os maus da fita. É caso para se dizer que uns comem os figos e a outros rebenta-lhes a boca. Tanto os extrovertidos como os seus antónimos podem constituir bombas potencialmente perigosas quando sujeitos a situações de grande tensão, a única diferença está em que os últimos funcionam ao retardador, enquanto que os primeiros explodem logo. Em qualquer dos casos os estilhaços podem causar grandes estragos e grandes desgraças. Existe o estereótipo de que o introvertido é mais socialmente perigoso do que o seu homólogo, mas isso é um erro crasso, filhas. Visitai uma prisão ou consultai as estatísticas criminais. Por cada caladinho que comete um crime quantos e quantos "caga-larachas" não há para inscrever no quadro de honra da infâmia e da ignomínia.
Estive na tropa três anos onde fui obrigado a coexistir com filhos de muita mãe, alguns deles extremamente sádicos, mas em verdade vos digo que das muitas injúrias que lá tive de gramar, nem uma houve que se devesse a um tímido ou introvertido. As setas envenenadas partiam sempre dos ditos sociáveis e psicologicamente descontraídos. Era contra estes últimos que tinha de me precaver e não contra os outros que, coitados, o que queriam era que os deixassem na sua paz.
No decurso da minha vida profissional jamais tive o mínimo problema com os colegas de carácter mais reservado ou menos expansivo. O mesmo não poderei dizer dos "caga-larachas", daqueles que com um único sorriso eram capazes de conquistar para o seu partido toda uma população inteira. Desses ou dessas eu sempre tive um medo supersticioso. Era deste último estrato que saía sempre a pequena intriga, o dardo envenenado, algumas vezes a calúnia capaz de demolir num repente toda uma reputação construída por anos e anos de trabalho esforçado e honesto.
O povo, e os comerciantes em particular, mesmo sem nunca terem aberto um livro de psicologia sabem que é verdade o que eu estou a dizer. A prova está na forma diferente como se relacionam com os clientes. Se estes são saídos das cascas, bem falantes e sem papas na língua - alto lá! - é preciso tratá-los com cuidado e sobretudo não os enganar, vendendo-lhes gato por lebre, senão com a desenvoltura e o círculo de amigos que têm, são muito bem capazes de deitar o negócio abaixo, ao propalarem aos quatro ventos que fulano é um cigano ou um ladrão. Se, pelo contrário, o cliente é um pobre diabo, ou um Zé Ninguém sem eira nem beira (e ainda por cima tímido), então está lixado pela certa. Se houver na loja algum mono difícil de despachar ou porque tem defeito de fabrico, ou simplesmente porque ultrapassou o prazo de validade, então é certo que já se sabe de antemão quem vai ser o otário. É cruel e horrível que as coisas se passem assim, que sejam os psíquica e socialmente mais vulneráveis, as vítimas preferenciais dos vendilhões sem escrúpulos. Quando era puto comprei certa vez numa feira do Fundão, um pífaro de lata. Quando esfuziante de alegria o levei aos beiços para tocar verifiquei com grande espanto meu que por mais que soprasse o resultado era sempre o mesmo. O diacho do pífaro nem tugia nem mugia. Apressei-me imediatamente a voltar à barraca do feirante a fim de mo trocar por outro, alegando o seu não funcionamento. Está bem, está... O infame do vendilhão rapidamente se desenvencilhou de mim dizendo-me em tom malcriado: "COMO É QUE EU POSSO TROCÁ-LO SE JÁ O METESTE NA BOCA?" Triste e desconsolado não tive outro remédio senão engolir em seco e ir-me embora cabisbaixo. Desde então para cá tem sido um fartar vilanagem! Só me saem duques com uma pôssara! É por estas e por outras, filhas, que eu sou contra todas as formas de opressão, incluindo o colonialismo.
A propaganda "goebbelista" do regime de Salazar espalhava aos quatro ventos que Portugal era uma nação multirracial baseada na igualdade dos direitos dos cidadãos. Uma ova! Toda a gente sabe que sempre houve portugueses de primeira, portugueses de segunda e... portugueses de terceira! como as carruagens da CP, dos comboios do antigamente. A mentalidade da classe dirigente era, é e continuará a ser sempre uma mentalidade "ferroviária" assente na estratificação social. Que não haja dúvidas a este respeito. Mesmo os filhos do povo uma vez alçados ao cume do poder rapidamente esquecem as suas origens e tratam os pobres abaixo de cão. Foi o que aconteceu com o Salazar, que era filho do "Manholas", um simples feitor dum fidalgo de província; foi o que aconteceu com o Mussolini, filho dum ferreiro e duma professora primária; foi o que aconteceu com Hitler e com tantos outros de origens mais que modestas.
Águas Varela, coronel aposentado do exército, conta que viu um dia em Moçambique uma condessa, proprietária de não sei quantas roças de café, chamar o criado preto para lhe dizer o seguinte: "TOMA LÁ ESTAS CUECAS, ESTÃO ROTAS E O SR. CONDE JÁ NÃO AS QUER" Direis que foi um acto de caridade cristã da bondosa senhora... o que vós não sabeis, filhas, é que esta bruxa, quando chegou ao fim do mês não teve vergonha de descontar oitenta escudos no salário do desgraçado trabalhador! Foi em quanto ela avaliou o preço das cuecas do marido. Conta ainda o mesmo Águas Varela que um dia um seu criado preto lhe pediu para comprar uma bicicleta. É que em Moçambique havia dois preços: um para os brancos e outro para os pretos. Estes últimos, coitados, não tinham direito a quaisquer descontos; tinham que pagar os artigos com língua de palmo, apesar da miséria em que viviam por via de regra. Otelo Saraiva de Carvalho, no seu livro "ALVORADA EM ABRIL", fala da indignação que se apoderou duma senhora branca quando ao entrar num "machimbombo" encontrou um lugar da frente ocupado por um preto! É que em Moçambique, os pretos só tinham autorização para se sentarem no banco traseiro dos transportes públicos, o chamado "BANCO DOS PALERMAS"... (e ainda dizem que não havia racismo nas nossas ex-colónias). Cada vez que um comerciante "me enfia o garruço" sinto-me espezinhado como um preto, e a minha fúria não é tanto pelo dinheiro que me sacaram a mais, mas antes porque fizeram de mim um palerma ou um otário. Havia colonos em Angola que escravizavam o preto da forma mais ignóbil. Por exemplo se um preto não enchesse dois sacos de café ao fim do dia já sabia que levava com o chicote do patrão. Otelo conta que certa vez um preto "arreganhou a tarracha" à sua mãe lá na fazenda. Esta não tem mais nada, espeta-lhe com "uma guia de marcha" para se apresentar ao marido, no Posto Administrativo de que era chefe. Depois de muitos quilómetros de marcha penosa através da mata o desgraçado, em vez de fugir, lá se apresentou ao Patrão, seu senhor. Posto ao corrente do que se tinha passado, o pai do Otelo, não lhas perdoou: agarrou numa palmatória e deu-lhe com ela nas mãos até se cansar. Quando o preto regressou à fazenda trazia as mãos num bolo! Outros brancos, na ânsia do enriquecimento fácil, pegavam em camiões e iam ter com os sobas ou chefes de posto; depois a troco dumas garrafas de vinho e de outras ninharias, o soba enchia-lhes o camião de pretos para irem trabalhar como escravos para as roças do café, onde eram tratados abaixo de cão. Se por qualquer motivo o soba não arranjava os trabalhadores exigidos estava tramado. Davam-lhe entre 50 a 200 palmatoadas até ficar com as mãos num bolo.
É por estas e por outras, filhas, que eu não posso com os ex-colonos nem com quem continua a defender o colonialismo, porque para mim colonialismo é sinónimo de opressão e escravatura, digam lá o que disserem. Se nós tivemos cá os espanhóis e não descansámos enquanto não corremos com eles, com que legitimidade é que nós ocupámos África durante cinco séculos? A mentalidade dos saudosistas de África é tão enviesada e incoerente que muitas vezes nem se dão conta das contradições em que incorrem. Chamaram turras aos pretos porque se bateram pela independência das colónias, mas se lhes falam dos conspiradores de 1640 que puseram os espanhóis de cá para fora, são muito bem capazes de dizer que foram uns heróis, uns grandes patriotas. Onde é que está a lógica? E saber eu que o colonialismo teve a bênção da igreja portuguesa; que existem católicos, apostólicos, romanos, a considerar uma desgraça a nossa saída de África...
Ao contrário do que muita boa gente supõe não são os psicólogos encartados da nossa praça os que mais sabem de psicologia humana. Quanto a mim a primazia pertence aos comerciantes - os vendilhões do Templo da era moderna. Conhecem todos os truques, todas as manhas para ludibriarem a vítima e conseguirem o que mais cobiçam nela: o dinheiro! Tudo é lícito, tudo é permitido, conquanto consigam dar satisfação aos seus desejos ilimitados de ganância. O que para os demais é roubar, para eles é simplesmente negócio. Muitos têm-se na conta de excelentes gestores, de hábeis "MONEY-MAKERS", quando no fundo não passam de reles escroques. Não é pois de admirar que Jesus Cristo tenha dito um dia que "é mais fácil um camelo entrar pelo cu duma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus". Pudera! Com tanta vigarice que anda por aí à solta...
A mentalidade da maior parte dos comerciantes é tão podre e asquerosa que quase sempre tratam os clientes de acordo com o juízo preconcebido que fazem deles numa primeira e rápida apreciação. Se são de "casca fina" tratam-nos com delicadeza, consideração e subserviência, mas se os desgraçados calham a ter o azar de serem classificados como "casca grossa" então estão à pega. É quase certo que vão ser recebidos com desprezo, quando não com arrogância e superioridade, como se fosse um grande favor atendê-los ou conceder-lhes um pouco de atenção.
A casuística é infinita pelo que seria de todo impensável trazer para aqui todos os episódios que são do meu conhecimento. Isso daria para uma obra de grande tomo, para um verdadeiro tratado de psicopatologia social. Não posso, contudo, deixar de trazer para aqui um caso que pelo seu carácter pode muito bem constituir um paradigma de todos os demais. Certa vez um "chauffeur" duma empresa de rações entrou num restaurante para almoçar. A princípio tudo bem. A sopa não tinha nada que se lhe apontasse e até se podia dizer que estava decentemente servida. O pior foi quando veio o segundo, quando chegou a altura de rilhar o bife. Estava duro como um corno! Aí o homenzinho foi aos arames, sentindo o facto como uma grande afronta à sua condição de trabalhador e proletário. E disse:
A dona do restaurante intimidada pela indignação do que julgava ser um pobre diabo não teve outro remédio senão ir à cozinha satisfazer-lhe a exigência. Só então o homem sossegou. Agora imaginai, ó filhas, que o "chauffeur" era uma pessoa tímida (assim como eu), lá acabava por comer e calar, enquanto o diabo da mulher se sentiria feliz por não ter de dar "a sola de sapateiro" ao cão. É o que vos digo, filhas, o mundo está podre. Para acabar de vez com a iniquidade no mundo só um grande dilúvio! Doutro modo isto já não tem tafulho.
A minha sogra que Deus tem, costumava dizer às filhas para nunca se deixarem fazer pouco, para nunca se agacharem aos demais porque, frisava ela, "ONDE ACHAREM MOLE, CARREGAM!" É isso mesmo, sem tirar nem pôr. De facto é a certeza da impunidade que faz com que muitos sacanas se atrevam a injuriar ou a agredir o semelhante. Uma ocasião ia o Dr. Mário Soares acompanhado da sua comitiva por entre um mar de gente. Nisto um bandalho, quando o apanhou a jeito, manda-lhe um "piropo" daqueles de "arrasa quarteirão", pensando lá na sua que ele se iria ficar como um boi capado. O então Presidente da República, normalmente tido como tolerante e bonacheirão, ao sentir a peçonha vira-se para trás num repente, chega-se ao pé do bandalho e...
O homenzinho, ao ouvir tal, por pouco não fazia chi-chi nos calções! Perdeu logo o pio, catacho. AH GRANDE BOCHECHAS, ASSIM É QUE É!
O pior é que eu não sou o Bochechas, nem tenho gorilas para me guardarem as costas em caso de aperto. Não posso pois dar-me ao luxo de bravatas heróicas senão ainda algum filho da puta acaba por me alimpar o sebo mais cedo ou mais tarde. Se de cada vez que me provocam ou ofendem eu perdesse a tramontana, cedendo à tentação de retaliar de acordo com o "olho por olho e dente por dente", o mais certo era eu já estar a fazer tijolo há muito tempo. Já algum cabrão me tinha morto. Já pois. Na tropa cheguei por duas vezes a estar na mira duma G3. Se os gajos ( a quem eu não fiz mal algum, juro-o!) adregam a carregar no gatilho lá ia eu desta para melhor.
Há pessoas - diz Alexis Carrell - que pelo modo de ser têm a estranha propriedade de cristalizarem à sua volta os ódios do meio envolvente, mesmo quando tudo fazem para levar uma vida pacata e normal. A minha experiência da vida diz-me que são os introvertidos e os tímidos as vítimas preferenciais das tais "cristalizações", porquanto é neste estrato que se encontram os mais fragilizados psicologicamente e, por isso mesmo, incapazes de responder à letra às agressões exteriores. E se porventura já cansados de recalques e ruminações contínuas decidem acabar com o martírio fazendo frente ao agressor quase sempre a história acaba mal. Das duas uma: ou saem ridicularizados do confronto ( porque não possuem a lata e o à vontade do adversário ) ou acabam a ser agredidos fisica ou psicologicamente, pelo menos. Daí que muitas vezes a única saída resida numa atitude mais extrema e fundamentalista, tentando dirimir os seus diferendos com uma caçadeira, uma pistola, um facalhão ou outra coisa qualquer. Depois há quem lhes chame monstros, quando os verdadeiros monstros são aqueles que passaram a vida a dar-lhes cabo dos nervos, quantas vezes de forma sádica e cruel. Para ilustrar a verdade do que acabo de dizer eis um maravilhoso texto de Bernardo Santareno, extraído do seu livro "NOS MARES DO FIM DO MUNDO":
"Foi no Granja, um velho lugre de três mastros, ao que me dizem já desaparecido. O Albino "algarvio" era o bobo do veleiro: não havia ninguém na companha, desde os moços de convés até aos oficiais da ponte, que não gostasse de "molhar a sopa".
Impressionante este texto. É um testemunho eloquente do que é este mundo cão. Na minha opinião acho que o Albino fez bem em acabar com o cagar ao Ricoca e ao Mazorro. E vós, filhas? Se o pobre do Albino tivesse a "retórica" duma velha regateira que certa vez conheci na sala de espera dum consultório médico, em Leiria... não teria acabado da forma tão trágica como acabou. Havia no referido consultório uma empregada antipática que tratava os mais humildes com sobranceria e mau humor. E como se isso não bastasse tinha ainda outro grande defeito: era ladra! Fiquei a conhecer-lhe o vedonho no dia em que, depois de aviado pelo dentista, lhe pergunto quanto é que tinha a pagar. Topando-me do alto a baixo a megera devia ter achado lá para si que eu era algum palerma e vai daí pede-me oitocentos paus (o que era muito para a época). Se estivesse a lidar com ciganos é claro que estaria de pé atrás e não embarcava assim à primeira, mas tratando-se dum consultório médico... Feito parolo puxei duma nota de mil escudos e entreguei-lha esperando receber duzentos escudos de troco. Acontece, porém, que de repente me lembrei de dizer-lhe que me passasse um recibo por causa da ADSE. Qual não é o meu espanto, ó filhas, quando verifico que o recibo tinha escarrapachada a quantia de quatrocentos escudos apenas! Quer-se dizer, se eu não mando passar o recibo a filha do diabo sacava-me mais 100% sobre o valor total da consulta, imposto da minha estupidez acrescentada, que faz com que eu tenda a acreditar na honestidade das pessoas em geral. Ao princípio, quando me deu os 600$00 de troco, ainda pensei que a tipa se tivesse enganado, mas uma olhadela ao recibo rapidamente dissipou todas as minhas dúvidas. QUATROCENTOS ESCUDOS era o que lá estava escrito preto no branco. Dias depois volto ao consultório para prosseguir o tratamento. Estava na sala de espera quando de súbito vejo a empregada do consultório a mandar vir com uma velha regateira com ares de quem vende peixe na praça. Pensei para comigo: "Não sabes com quem te metes! Ou muito me engano ou vais saber como elas mordem..." Meu dito, meu feito. A escaramuça verbal começou por uma troca mútua de galhardetes. Pouco depois a empregada estava já a perder terreno e a avaliar pelo rumo da conversa tudo indicava que não demoraria muito a ficar K.O. Vendo que estava a perder as vazas a empregada começou a crescer para a velhota pensando que a intimidava. E atirou-lhe em tom de ameaça:
O que eu me fartei de rir, filhas. Senti-me vingado. Fiquei a pensar que há coisas que não se aprendem nos bancos das escolas e que, contudo, desempenham um papel fundamental na vida de todos os dias. A velhota podia não saber uma letra, nem saber quem foi o primeiro rei de Portugal, mas em contrapartida tinha outros saberes pelos quais eu "daria metade do meu reino". Com os ditos saberes eu poderia arrumar duma penada com todos os RICOCAS E MAZORROS que poluem este mundo cão. Se o malogrado Albino, de que nos fala o Bernardo Santareno, possuísse a lata da velha e a sua capacidade de argumentação, certamente que não teria qualquer dificuldade em desembaraçar-se dos seus verdugos e não se veria na necessidade de usar a "choupa" para lhes acabar com o cagar. O mal é que tal dom não está na nossa mão, nem depende de nós. Se fosse qualquer coisa que se aprendesse nos livros, como se aprende sei lá... inglês, matemática, música... não perdia nem mais um segundo e ia já tirar o respectivo curso, na certeza de que com ele eliminava mais de 50% dos meus fornicoques.
Também o dentista não se lavava em água de rosas. Para me tratar um dente incisivo levou que tempos. Ao fim de n sessões a minha mulher interveio, comentando: " EIA! ESTÁ A FICAR CARO O RAIO DO DENTE! JÁ VAI EM MAIS DE QUATRO CONTOS..." Quatro contos naquele tempo era dinheiro! Por isso vede lá a manhosice do dentista, filhas. Andava-me a sugar como uma carraça, o sacana, como aqueles empreiteiros que retardam ao máximo a execução duma obra para fazerem render o peixe. O mundo está cheio deles! Deus vos livre de caírdes um dia nas garras de tais vampiros porque chupar-vos-ão até ao tutano, podeis crer. Parecem "chupa-cabras"! O dentista quando viu que a minha mulher tinha dado por "ela", (e porque tinha má consciência) ripostou: "DEIXE LÁ, QUE A PRÓXIMA CONSULTA SERÁ GRÁTIS". Foi quando ele assim falou que me apercebi pela primeira vez que estava a ser levado e que tinha na minha frente não um profissional de saúde, mas uma sanguessuga da pior espécie. De facto na consulta que se seguiu, o gajo lá acabou por terminar a "empreitada", porque era claro que já não tinha nada a ganhar. Um dia em conversa com colegas chamei atenção para o facto do referido dentista me ter feito sofrer dores lancinantes.
Neste momento em que rememoro coisas do passado, chega-me dos confins da memória a imagem odiosa do atarracado tenente Martins - um sacana do piorio, um tipo brutal e autoritário que tive a infelicidade de conhecer no extinto Regimento de Infantaria de Castelo Branco (RICB). Gritou-me um dia em altos berros:
Hoje esta frase dá-me vontade de rir mas há coisa de 25 anos outro galo cantava. De facto a dita surgiu na sequência duma participação que eu fizera contra um cabo perdido de bêbedo (e com cadastro ainda por cima) que em certa altura tivera o desplante de me faltar ao respeito. Entre outras coisas dissera que era capaz de me chamar merda à frente do comandante. "Ai ele é isso! Então espera aí que já te fodo!" - pensei para comigo e para com Deus. Meu dito, meu feito. Participei do gajo. Quando apresentava a participação na Secção de Justiça como mandam os trâmites legais, eis que o irascível tenente em vez de dar seguimento ao referido documento como lho impunham os deveres da função, desata de dar rédea solta aos seus maus fígados brindando-me com a apóstrofe supra. Também não me fiquei, colhudo! Saí do gabinete do iracundo Oficial de Justiça, (do qual acabara de ser expulso como um cão) e tratei imediatamente de ir imediatamente à Biblioteca do Regimento na ânsia de descobrir no Regulamento de Disciplina Militar (RDM) ou no Código de Justiça Militar (CJM) algum artigo ou alínea com que pudesse fodê-lo. O meu objectivo era aduzir matéria de acusação por obstrução à justiça e por injúria. Em menos duma hora de consultas não tardei em pescar uma meia dúzia de artigos e parágrafos únicos, com potencial suficiente para lhe ir ao fole. Assim equipado dirijo-me à Secretaria de Comando, onde aliás trabalhava, e amando-me à máquina de escrever como gato a bofe, dactilografando em folha azul de 25 linhas uma queixa formal contra o gajo. Finda a tarefa, apresso-me a ir à Secção de Justiça e...
Para ele um subordinado só pelo facto de o ser era já um ser inferior, do qual o superior hierárquico poderia dispor a seu belo prazer, legitimado como estava pelo peso das dragonas. Não lhe passava pela cabeça que o subordinado pudesse ser mais inteligente do que ele e pudesse até contrapor uma maior cultura de espírito. Esta maneira de pensar, muito corrente nos meios castrenses, tem gerado sabe-se lá quantas injustiças e arbitrariedades. Ora eu queria inverter o processo, demonstrar que nem sempre "la raison du plus fort est toujours la meilleur" - como dizia o La Fontaine. Ao tomar conhecimento da minha queixa o tipo tentou logo intimidar-me com o seu pavarrótico vozeirão mas eu estava demasiado furioso para me deixar impressionar. A minha indignação era demasiado grande para ceder fosse a que pressão fosse. Além disso havia ainda a possibilidade do seu vozeirão não passar dum "bluff", dum meio de tentar subjugar-me duma forma um tanto ou quanto simiesca. De qualquer dos modos demonstrou ser mau psicólogo porque por detrás da minha aparência frágil e insegura, escondia-se uma grande "fome e sede de Justiça", uma enorme vontade de lhe ir ao fole, filhas.
Vendo que permanecia inamovível na minha decisão, tentou primeiro a ameaça, depois a chantagem, mas eu permanecia inabalável. Quando topou que eu era osso ruim de roer e que não conseguia os seus propósitos, optou por me gritar numa voz de quem acaba de comer uma data de pichas ao pequeno almoço:
A revelação de que ia participar de mim nem me aqueceu, nem arrefeceu, nem mesmo quando brutalmente me exigiu a minha identificação porque lá diz o ditado que "quem não deve não teme". Via-se que era em represália de eu ter anotado num papel as identificações dele, dum furriel e um sargento que ali prestavam serviço e que eu arrolara como testemunhas do processo. Em desespero de causa e vendo que eu não estava ali para jogar a feijões, lançou no ar uma última ameaça:
Pedi licença para me retirar e voltei à Secretaria de Comando a fim de ditar a Ordem de Serviço ao 1º. cabo que ali trabalhava sob as minhas ordens. Estava tão abalado com os acontecimentos que decidi reduzir ao mínimo a papelada a publicar no órgão oficioso da Unidade. Estava nisto quando, menos duma hora depois, o tenente aparece de orelha murcha à entrada da porta. "Que estará ele a tramar desta vez?" - lembro-me de ter pensado para os meus botões. Começou com uma grande conversa a dizer que era amigo de toda a gente, blá, blá, blá... terminando por me pedir que desistisse da queixa. É claro que não fui na conversa. Tinha sofrido demasiado para me deixar agora comover por lágrimas de crocodilo. Mantive por isso a minha recusa, que era ao fim e ao cabo a recusa de alguém muito ferido na sua dignidade de ser humano. Não podia pois "amnistiar" um sacana cujo vedonho eu já conhecia de ginjeira e cuja velhacaria era tanta que só não me tramaria se de todo não pudesse.
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O Furriel André era para mim um indivíduo impulsivo e mau como as cobras, com traços epileptóides na sua personalidade Quando se encolerizava metia medo. Não podia pois cometer nenhum erro, caso contrário arriscava-me a ser retalhado com alguma "naifa" que o gajo era um bocado maluco e tinha coisas de doido. Mas a sorte estava do meu lado. Calhou as camaratas estarem desertas por os respectivos "locatários" terem ido para a Senhora de Mércules divertir-se. Não perdi tempo. Como uma sombra penetrei no covil do lobo, meti-lhe as botas cagadas de lama entre os lençóis e ... ala que se faz tarde! Afastei-me do "lugar do crime" a fim de não levantar suspeitas. Oh ninas! Se vós vísseis a cena terrível que ele fez quando descobriu a tramóia. "Inté" parecia o diabo, Nosso Senhor me perdoe. Desatou em altos berros a dizer que fazia, que acontecia...e eu caladinho que nem um rato, filhas. Se o gajo sonhasse que era eu matava-me imediatamente.
A seguir foi para o bar, sempre num chinfrim dos diabos, ameaçando em berros demenciais que ia trazer uma faca de matar porcos e que havia de sangrar bem sangrado o autor da patifaria. Os amigos bem tentavam acalmá-lo, mas qual quê! O seu ódio extravasou numa fúria tal que tiveram que o agarrar a fim de opôr um dique à sua sanha destruidora. Mesmo assim foi muito difícil contê-lo (e olhem que eram vários homens a segurá-lo, hein!). Por aqui já podeis fazer uma ideia da força do "bicho"! Debatendo-se numa fúria sem nome lá o arrastaram para um maple comprido, com o gajo a espumar da boca e com os olhos a esbugalhar de ódio, ao mesmo tempo que proferia as mais terríveis ameaças. Parecia, Nosso Senhor me perdoe, um porco em dia de "matação". O 1º cabo Moiteiro, um veterano que desde que regressara da Índia nunca mais regulara do juízo, ao ver aquilo achou que o André estava possuído do demónio ou dalgum espírito maligno, pelo que também ajudou a agarrar o "porco". Ao fim de muito esbracejar e de alguns coices o tipo lá acabou por amainar dos nervos, mas olhem que levou tempo! Comentando o incidente uns diziam que era possessão demoníaca, outros que era um espírito, outros que eram só nervos... mas cá para mim o que o tipo teve foi um ataque epileptiforme, desencadeado por um temperamento vulcânico e indomável.
Para além dos atributos de que já falei havia ainda um outro: o sadismo. Só um espírito sádico e mau seria capaz de desmanchar a cama dum colega de forma repetida e continuada, num ciclo sem fim. Direis que tudo aquilo não passava de simples brincadeiras de caserna. Estais enganadas, filhas. O filho da polícia estava mas é apostado em dar comigo em doido, porque lá diz o povo: "Para graça uma vez basta!" Para o meu verdugo não bastava uma, nem duas, nem três..., porque para ele "outros valores mais altos se alevantavam". Entre os seus valores mais altos estava o desejo sinistro de dar-me cabo dos nervos, o desejo maquiavélico em atirar comigo para Rilhafoles. Ao verem-me agastado com as "brincadeiras" alguns camaradas diziam-me que "cagasse naquilo", que estava a dar demasiada importância ao caso, que eu não tinha suficiente "fair-play", blá, blá, blá.... Pois não! Quem é que poderia ter? Então vocês não viram a reacção do meu verdugo quando viu as botas cagadas entre os lençóis? Vejam lá se ele se riu, ou se achou alguma graça? Desenganai-vos, filhas. "Fair-play uma ova! Ninguém tem "fair-play" quando pressente que alguém lhe está a pôr a pata em cima! Nem os temperamentos mais fleumáticos, porque lá diz o Zé: "tudo o que é demais chateia!" E eu para vos dizer a verdade já estava a ficar chateado para além de todo o limite, de modo que a minha "brincadeira" em relação ao meu algoz teve para mim um sabor muito especial. O que comprova a justeza do provérbio chinês: "A vingança é melhor que o mel".
Se um dia - isto é um supôr - tiver de comparecer em Juízo perante Deus e este me perguntar:
Mal ouvi o toque de alarme ( o primeiro em três anos de tropa) corri para a minha camarata onde rapidamente me desembaracei do fato civil. Sem perda de ritmo fardei-me, peguei na G3 e toca a correr para o arame farpado, pronto a defender o quartel de algum eventual ataque. Fui dos primeiros a chegar. A razão estava em que eu em vez de ir para a formatura da companhia (como parece mandar o regulamento) fui directamente para "as trincheiras" por minha conta e risco. Passado pouco tempo um novo toque avisava-nos que tinha cessado o estado de alarme e, tal como todos os outros, voltei à caserna para me voltar a vestir à civil e poder sair dali daquela merda. É então que chega uma ordenança do capitão Mateus a comunicar-me para comparecer imediatamente no seu gabinete. "Já pus a pata na poça!" - pensei. Logo que me avistou falou para mim como se tivesse o rei na barriga. Disse alto e bom som, na presença da soldadesca (para a humilhação ser maior), que ia participar de mim e que me ia arrancar as divisas. (Antes os três, filhas, antes os três, agora as divisas, nunca! - que era delas que me vinha o cacau e as alcavalas que tão bem me sabiam ao fim do mês...).
A todas as perguntas que achou por bem fazer-me, a todas respondi com verdade e sem evasivas. Admiti que estava à civil antes do Toque de Ordem, que não tinha comparecido na formatura da minha companhia por desconhecimento do Regulamento e, que por tais faltas estava disposto a sofrer as devidas consequências. Depois desta cena dramática a primeira coisa que eu fiz foi perguntar a mim próprio se o sacana não teria também telhados de vidro… Se conseguisse descobrir algo que o pudesse foder à luz do Regulamento de Disciplina Militar tinha uma chance de fazer descambar o processo em águas de bacalhau, e assim safar-me da embrulhada em que estava metido. Eu conhecia bem o capitão, sabia que ele era suficientemente cagarola, para ao primeiro aperto entrar em pânico e desistir da participação. O problema estava em saber como apertá-lo, em saber como pisar-lhe os calos. Armei em Sherlock Holmes e pus-me a investigar o "bicho". Lembrei-me que ainda não havia muito tempo tinha havido um incidente nocturno no quartel, que na emergência me havia deslocado ao gabinete do Oficial de Dia, indo encontrar o gajo na cama a dormir como um paxá, quando segundo o RDM devia estar de vigília para o que desse e viesse. E sabeis vós, filhas, quem era o oficial que eu apanhei a dormir naquela conturbada noite? Precisamente o mesmo oficial que tão zelosamente prometeu que me ia arrancar... as divisas! Com este dado nas unhas, eu só tinha que arranjar agora suporte documental que desse credibilidade à minha acusação. Precisava por isso desesperadamente de saber em que dia é que o gajo estivera de Oficial de Dia, a fim de poder fundamentar em dados concretos a queixa que pensava elaborar. Assim, no dia seguinte, logo que entrei ao serviço, dirijo-me à Secção de Pessoal da unidade e peço ao cabo que me traga o dossier com as ordens de serviço mais recentes. Lá estava o gajo, tal como eu previa. Tomei as minhas notas com um sorriso nos beiços, pensando no pobre capitão: "Quando tiveres conhecimento do que te espera até te vais cagar todo! Vou-te arranjar um "caldinho" que nem sabes de que terra és...). Com esta "bomba" em meu poder eu tinha já lenha mais que suficiente para o queimar, mas eu não quis ficar por aqui. Continuei as minhas investigações e dentro em pouco consegui aduzir quatro acusações graves, apoiadas em factos e documentos a que tive acesso. Antes de redigir uma acusação formal contra o pobre diabo, eu achei que devia dar-lhe conhecimento do que o esperava. Pego numa folha A4 com as quatro acusações, dirijo-me acto contínuo à secretaria da companhia e digo ao capitão:
Sem mais, peço licença para me retirar, bato a pala e saio consciente de que o tinha no papo. Meu dito, meu feito. Nessa mesma tarde, ao cruzar-se comigo num corredor, o gajo pede-me para que desistisse da queixa.
Ao contrário do tenente, o capitão não me ofendera por aí além, apenas viera a terreiro para se pôr em bico dos pés e para defender um velho camarada por razões de natureza corporativa - o que é prática corrente entre os "chicos", nome por que são conhecidos os militares do quadro permanente. Em relação aos restantes processos mantive-me inflexível. O coronel, comandante do regimento, viu-se assim na obrigação de nomear, de acordo com o RDM, um oficial de averiguações para investigar o que se tinha passado. Coube a missão ao capitão Ramos, o oficial mais neura e verborreico que alguma vez conheci. À parte o seu carácter obsessivo-compulsivo (que o tornava num grande chato), era uma jóia de pessoa, afável no trato e bem educado. Uma noite no seu gabinete de Oficial de Dia juntou à volta da sua secretária todos os graduados responsáveis pela segurança do quartel, nos quais eu me incluía. Fez-nos uma prédica imensa, detendo-se em pormenores ínfimos, verdadeiramente liliputianos, próprios de quem não regula bem do caco. "SE DURANTE A RONDA VIREM UMA TOUPEIRA MATEM-NA!" - dizia a despropósito. Via-se que estava apanhado. Provavelmente as suas comissões no ultramar eram a causa mais directa do seu desarranjo mental. Os "turras" pelos vistos haviam-lhe dado volta ao miolo e deviam estar com certeza na origem da sua estrutura neurótica de personalidade.
No desempenho das suas funções de oficial de averiguações fui ouvido por mais que uma vez pelo cap. Ramos. A sua postura foi sempre duma grande correcção. Também os outros arguidos no processo foram ouvidos por sua vez. Entretanto o 1º. cabo Guedes, de quem eu participara, foi malhar com o coiro na prisão. Não me perguntem porquê, mas parece que o tipo era useiro e vezeiro a meter-se em grandes alhadas. Quanto ao sacana do tenente, a quem eu esperava ir ao fole, acabou por sair incólume, porque eu, entretanto, saio da tropa. Deste modo o processo teve de ser arquivado por ausência do queixoso. Resumindo e concluindo: ACABOU TUDO EM ÁGUAS DE BACALHAU!
Não desejava terminar este longo parênteses sem acrescentar algo que reputo de grande significado. A despeito dos ódios e das perseguições a que malignamente estive sujeito nos meus três anos de tropa, tal não me impediu, ó filhas, que saísse de lá de cabeça direita e com a caderneta militar mais limpa do que o leito duma virgem antes de perder os três…
Mais atrás falei do desembaraço social da velha regateira que, num abrir e fechar de olhos, arrumou com a arrogância da empregada do dentista. Como contraponto eu não passo sem vos descrever "à vol d'oiseau" uma cena a que uma vez assisti no café do Sr. Garcia, na Aldeia de Joanes - era eu então um garoto. Um pobre diabo acabara de levar nas trombas não sei bem por que razão. Talvez coisas de vinho! Em desespero de causa pediu ao dono do café que chamasse a GNR do Fundão. O taberneiro fez-lhe a vontade. Estabelecido o contacto, o pobre diabo tomou o auscultador. Quando do lado de lá alguém lhe perguntou o que acontecera, o infeliz atrapalhou-se e disse numa voz soluçante e cheia de mágoa:
Relativamente ao meu problema com o Bigodaças - o retornado das ex-colónias que certa vez me insultou em plena reunião de pais - lembro-me que ainda lhe escrevi uma carta a intimá-lo a pedir-me desculpa que senão levava o caso para tribunal... Isso sim! O sacana fez orelhas moucas e nem tugiu nem mugiu. Posto isto achei que devia dar-lhe o devido desconto e pôr uma pedra no assunto. Não estava para me "borrar" mais - passe a expressão. Em consequência deste desagradável incidente decidi nunca mais fazer reuniões de pais, não estava para me expor publicamente a mais enxovalhos de qualquer cu cagado.
Durante muitos anos cumpri religiosamente a minha determinação, salvo duas ou três vezes em que fui obrigado a quebrar o "protocolo" por inerência de funções directivas. Nos mais das vezes decidi levar a sério a advertência do tenente Martins ( por quem ainda hoje nutro um ódio de estimação) e que nunca mais me esqueceu: "SE VOCÊ ENTRAR NUMA CASERNA DE SOLDADOS E ESTES COMEÇAREM AOS PEIDOS, DE QUEM É QUE É A CULPA?" Eis aqui um tema digno duma longa reflexão filosófica! Cá por mim já decidi: tão cedo não volto a pôr os pés numa "caserna" ... nem que me matem! Porquê? Por causa dos "peidos", filhas...
Mas a história do Bigodaças não termina aqui. Lá na empresa de transportes onde trabalhava - ele era motorista de autocarros - parece que arranjou por lá um trinta e um, devido ao seu feitio agressivo e quezilento, que o vinho agravava sobremaneira. Ou porque fosse despedido ou por outro motivo qualquer, o certo é que o sacana se viu obrigado a desarvorar da Nazaré para não sei onde, parece que para Torres Novas. BOA VIAGEM! - apeteceu-me exclamar quando tive conhecimento da feliz notícia. Até respirei de alívio, filhas.
Corre o inexorável tempo. Muitos anos depois um crime torna-se notícia de primeira página. Não sei se em Vila Real se em Bragança um empresário perde a vida numa explosão, ao abrir uma encomenda armadilhada. A Judiciária entra em campo e inicia as investigações. A vítima não é mais do que o proprietário duma empresa de transportes de passageiros - a empresa Cabanelas. Após difíceis e demoradas investigações a Judite descobre o autor do atentado. Não sei quanto tempo depois começa o julgamento. À saída do tribunal o povo em fúria clama por justiça, os jornalistas acotovelam-se para baterem chapas ao facínora. Quando as câmaras focam a tromba do bandido qual não é o meu espanto quando reconheço o Bigodaças - precisamente a besta que há uns anos ia dando comigo em doido!
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Tinha o rosto pálido e a vista turvada pelo cansaço. Por momentos cheguei a recear que me desmaiasse ali mesmo, o que seria até certo ponto perigoso, para já não falar da enorme carga de trabalhos que tal evento não deixaria de implicar. Com alguma frustração lá me vi obrigado a regressar à tenda, porque acima de tudo estava a saúde e a segurança do meu companheiro. Fiz-lhe escolta até chegar a terra firme. Vendo-o a salvo aproveitei para gastar os últimos cartuchos, circundando a península num "raid" hipercinético, na afã de queimar o excesso de adrenalina que me envenenava o sangue.
O esgotamento físico tinha a estranha propriedade de extinguir em mim as erupções do espírito. Actuava como um forte sedativo, sendo a minha forma "sui generis" de me libertar das neuras e das tensões intra-psíquicas. Napoleão aliviava os nervos escaqueirando vasos e jarrões a pontapé; Mussolini, o ditador que com a sua grande ambição acabou por arrastar o povo italiano para o caos, aliviava o stress a rachar lenha; o cap. Almeida Santos, o anti-salazarista cuja tragédia viria a inspirar a "Balada da Praia dos Cães", aliviava-se a mocar com a amante; outros aliviam-se a levar no fole... Acabado o "raid", vejo o "mon ami" junto à tenda, estendido no restolho e completamente arrebentado, se assim se pode dizer. Tinha dado o litro, coitado. Após um curto descanso decidimos levantar a tenda, amarrar as canoas no tejadilho do carro e arrancar dali, à procura do primeiro restaurante a jeito, pois a fome começava a causar estragos, principalmente no meu companheiro, menos habituado do que eu aos rigores duma vida espartana. Nessa época eu subscrevia inteiramente a máxima nietzchiana que proclama: Bendito o que nos enrijece! Actualmente outro galo canta.
Um pouco antes de chegarmos a Tomar encontramos à borda da estrada um restaurante a jeito. Entramos, sentamo-nos a uma mesa e toca de começar a mandar vir... Tanto eu como o "mon ami" estávamos com uma fome desgraçada, pelo que aproveitámos a oportunidade para encher bem a mula, tirando vingança do tempo em que estivéramos com a barriga a dar horas. Comemos e bebemos que nem uns alarves. Acabado o opíparo repasto, o Armando faz menção de puxar da bolsa. Aí eu interrompo-o e digo. "Alto lá, quem paga sou eu? Tu hoje estás por minha conta..."
No regresso a casa lembro-me de que falámos de coisas científicas, na datação radioactiva através do carbono 14, no Einstein, na teoria dos grupos de Galois, eu sei lá... Em determinado momento da viagem tive de me calar. O "mon ami" deixara de responder às minhas interpelações. Ao olhar para o lado verifico que vinha a dormir. O sono vencera-o. Estava K.O., coitado. Terminada a instrução em Castelo do Bode, chegara, finalmente, o grande dia. O Minho estava à nossa espera. Quando o Eng.º Armando aparece em minha casa para zarparmos para o Norte não vinha só. Trazia com ele a sua "girlfriend" - uma bela jovem de olhos azuis, de corpo esbelto e com um certo ar de adolescente. Era de facto um belo exemplar da raça lusa que além de muito feminina e atraente possuía ainda a "mais valia" de ser muito meiga e afectuosa, (desdizendo assim o velho rifão que diz que "mulheres, mulas e podoas poucas são as que saem boas"). Era a "Fofinha", por quem ele estava completamente "in love".
A presença duma beleza (para mim tão perturbadora) provocou em mim uma certa retracção psicológica de carácter defensivo que eu me esforcei por manter sempre ao longo de toda a viagem, tendo em linha de conta de que não podia nem devia deixar-me "ionizar" fosse em que circunstância fosse. Afinal ela era a namorada do meu amigo, o que lhe conferia desde logo todas as imunidades e todo o respeito, claro.
Quer-se dizer, intocável. Mesmo no plano da fantasia. Amarradas as canoas no tejadilho do carro e acondicionada toda a trouxa, demos início à viagem. Dentro do popó segue também a minha Ana e a minha mulher que, à última da hora, decidem acompanhar-nos. Chegamos a Monção ao cair da tarde, em cujo parque de campismo montamos as nossas tendas. O facto do parque estar situado à beira-rio era para nós ouro sobre azul.
Na manhã seguinte depois dum pequeno-almoço mais que frugal, agarramos nas canoas e dirigimo-nos para a borda de água, a fim de darmos início à aventura. Examino a força da corrente e, face à pouca experiência do meu amigo, aconselho-o a embarcar um pouco mais abaixo onde a água era mais calma. Ele assim faz. Antes de nos amandarmos rio abaixo, olhamos para trás num aceno de despedida. A Fofinha estava um tanto ou quanto macambúzia, triste por ver partir o seu bem amado, receosa de que algum mal lhe pudesse acontecer. A minha mulher, pelo contrário, exibia uma tranquilidade absoluta. Sabia que eu era useiro e vezeiro nestas andanças e que aquilo para mim não passava dum simples passeio fluvial. Tinha razão. Com efeito era já a terceira vez que fazia aquele percurso o que para mim era mais que tranquilizador. Tudo tinha um ar de "déjà vu" o que, por paradoxal que pareça, não retirava à viagem o mínimo de interesse e colorido. Descer um rio como o Minho é sempre uma aventura que vale a pena. Uns quilómetros a jusante de Salvatierra del Miño encontramos duas "muchachas" em apuros. Encontravam-se numa pequena ínsua a meio do rio há não sei quanto tempo, sem coragem para demandarem as margens devido à corrente forte gerada por uma súbita subida de caudal. Estavam ali aprisionadas, cheias de ansiedade, enquanto os maridos na margem espanhola aguardavam o abaixamento do nível das águas para as poderem resgatar do cativeiro. Naquele momento não se atreviam. Mal as duas "náufragas" nos avistaram, imediatamente começaram a fazer-nos sinal de que precisavam de ajuda. Nós, como bons cavalheiros, apressámo-nos a corresponder ao apelo. Desembarcámos na referida ínsua e chegamos à fala com as espanholitas a quem oferecemos o nossos préstimos. Achamos que a forma mais segura de as livrar do perigo, é despojarmo-nos dos nossos coletes salva-vidas e emprestá-los a elas até que atinjam a segurança da terra firme. Meu dito, meu feito. Nós próprios as ajudamos a envergar os ditos coletes, puxando um atilho daqui, outro dali, até que estivesse tudo nos "conformes". Quando lhes dissemos que agora já podiam ir a nado para a outra banda elas não acreditaram. Mostravam-se receosas e não queriam de modo nenhum aventurar-se. Neste interim pergunto-lhes se lhes posso tirar uma foto para recordação, mas elas não vão na conversa.
Compreendo o delicado da situação. Era óbvio que os "nuestros hermanos" não iriam gostar de ver as mulheres a ser fotografadas por desconhecidos, mais a mais sabendo as poucas vergonhas que vão por esse mundo fora. Ele até há por aí quem faça macumba a partir duma simples foto...
Aceito com "fair play" a recusa e insisto em que podem meter-se à água sem medo, informando-as para maior tranquilidade, que os ditos coletes estão preparados para suportar até 80 kg de peso. Nem assim...
Digo-lhes que isso é perigoso e que nem valia a pena tentar. Vendo que elas continuavam hesitantes e cheias de medo tenho a ideia de lhes dizer para nadarem ao lado das canoas enquanto nós as escoltamos até à margem. Aceitam, finalmente. A operação decorreu sem incidentes e tal como eu previa. Em perfeita segurança. Mal acabam de se sentir a salvo começam a soltar exclamações de alegria. Estavam radiantes de contentamento. Restituem-nos os coletes exteriorizando por palavras e por gestos a sua grande gratidão. Os maridos participam do agradecimento.
Apesar do nosso espanhol macarrónico elas entenderam-nos muito bem. Prosseguimos viagem com elas a acenarem-nos com as mãos num último adeus.
À medida que vamos indo rio abaixo vamos tirando fotos a espaços regulares.
Passamos à Lapela, e continuamos de meandro em meandro num cenário de encantamento. Ao fim de muito remar chegamos a Tuy e logo a seguir a Valença. Aos pés de Tuy o rio regurgitava de espanholitas (já comedouras), manobrando com jovialidade os seus coloridos kayaks. Detemo-nos por um momento a admirá-las na sua graça tão inocente e tão juvenil. "ARRIBA ESPAÑA!" - apeteceu-me exclamar ao ver tão belos espécimes do sexo fraco(?)... Vêm-me à memória as palavras de Mantegazza que na sua "Fisiologia da Mulher" diz mais ou menos isto: "A mulher tem direito a 20 anos de adoração, depois a 20 anos de complacência e, finalmente, a 20 anos de piedade., altura em que sobrevem aquilo a que ele chama o "naufrágio das formas". Estas lindas "muchachas" estão naquela fase de maturação que precede de perto o zénite estético, o cume do esplendor.
Debaixo da ponte internacional que liga Valença a Tuy, o "mon ami" pede-me para fazermos uma pausa e descansar um pouco. Sentamo-nos à beira-rio e aproveitamos para comer algumas bolachas e um pouco de chocolate. Tudo sua propriedade porque eu usualmente nunca trago nada para manducar com medo de cair à água e apanhar uma congestão. Após um curto intervalo retomamos a descida já um pouco mais reconfortados "com os sacramentos da santa madre Bolacha". Parece que não mas o chocolate e mais as bolachas fizeram-nos um jeito do caraças. Deu ao menos para enganar a barriga, o que já não foi mau de todo. Navegamos agora em águas calmas onde já é possível sentir-se o efeito das marés oceânicas. Remamos lado a lado a curta distância um do outro a fim de podermos tagarelar enquanto puxamos pelos bofes. Mais uma vez o meu amigo começa a revelar indícios de cansaço. A certa altura começa a esbordalar:
Compreendo-lhe a revolta e aceito-a com "fair-play". Compreendo que isto não é vida para ele. Vê-se que vai a fazer um grande esforço e que teme ir-se abaixo. Receia não ter forças para chegar a Vila Nova de Cerveira, onde a estas horas já devem estar à espera as nossas caras-metades, de acordo com o combinado. Por vezes meto conversa com ele mas a resposta é o silêncio. Não me passa cartão. Nem sequer me ouve tão absorvido vai na sua labuta e tão ansioso está em chegar ao pé da sua amada sem o opróbrio duma desistência, por falta de tesão muscular. É preciso, antes de tudo, salvar as aparências. É preciso mostrar à "girlfriend" que é um homem e não um frango, o que seria o cúmulo da vergonha e da indignidade.
À medida que nos aproximamos do objectivo noto-lhe na expressão um cada vez maior encarniçamento, um dar tudo por tudo, como se chegar primeiro fosse para ele uma questão de vida ou de morte. Só então compreendo que vinha a querer competir comigo. Isso faz com que eu por uns momentos "entre em altos estudos" para saber qual a melhor atitude a tomar. Devo aceitar o desafio e dar guita aos bíceps, ou devo deixar-me ficar para trás dando-lhe a primazia de ser o primeiro a cortar a meta? Debato-me neste dilema durante uns minutos até que, finalmente, tomo a resolução de o deixar "vencer". A Fofinha iria gostar de ver o seu amor a chegar em primeiro lugar envolvido numa auréola de vitória. Por outro lado, eu também não estava para ver o meu amigo derrotado e humilhado numa situação tão delicada. Sob a pena de ser cruel não lhe podia negar a caridade duma "vitória". É verdade que ninguém gosta de perder (nem que seja a feijões), mas naquela circunstância tão especial achei que era meu dever "perder" e mandar o orgulho para o diabo. O que acabei por fazer sem o menor problema e sem quaisquer complexos. A amizade valia bem o sacrifício.
Quando pouco tempo depois dobramos a última curva e avistamos o cais, eu deliberadamente começo a deixar-me ficar para trás. O "mon ami", que ignora o que me vai na alma, faz das tripas coração para ser o primeiro a chegar, o que acaba por conseguir, claro está, com o meu beneplácito. À medida que nos aproximamos, verificamos, contudo, que não há ninguém à nossa espera. O "mon ami" deve estar pior do que estragado. Tanto esforço, tanta luta para... nada! A sua amada não estava lá para o vitoriar e cantar-lhe a hossana.
A minha canoa atinge a margem junto a um tapete de relva bastante acolhedor. Desembarco. As minhas pernas, devido à imobilização prolongada, vacilam, fazendo-me cambalear por um momento. Olho em volta na esperança de avistar o toyota, mas... nada. Sento-me ao pé do meu companheiro e interrogamo-nos sobre o que podia ter acontecido. Será que se tenham despistado no caminho? Começamos a ficar preocupados. O Armando deita-se ao comprido completamente arrebentado. Como se isso não bastasse há ainda a fome negra a tornar mais digno de lástima o seu estado de prostração física. Em vista disso, digo-lhe que se deixe estar ali a descansar, enquanto eu vou à vila arranjar alguma coisa para enganar a fome. Entretanto podia ser que elas viessem. Dirijo-me ao centro da povoação à cata dum snack a jeito, mas não o encontro. Decido então meter por uma rua esconsa que, segundo creio, deve ir desembocar à TASCA DO CAIS. No caminho passo em frente dum bando de rapazes e raparigas que, naquele momento, se encontram sentados em cima dum muro, a curtir. Eu vinha num verdadeiro estado de lástima. Magro, de barba mal semeada, a tremelicar de frio dentro dum colete e duns calções molhados... devia estar bonito, devia! Não é pois de estranhar que o bando se tivesse metido comigo.
Já não me recordo do que disseram. Mas que não foi coisa boa, não... As "bocas" atingiram-me como dardos envenenados. Que mal é que eu tinha feito a Deus para aqueles filhos duma vaca, me estarem a chatear? (Quem vai, vai, quem está, está!) Senti-me desprezível e amachucado, filhas. Apeteceu-me morrer. Levava comigo a minha walter 6.35 pelo que se eu quisesse podia fazê-los correr à minha frente. Bastava dar um tiro para o ar para ver aquela chusma de "valentes" em debandada, mas eu estava demasiado preocupado com a minha mulher e mais a Fofinha, para estar para ali a meter-me em cowboyadas. Por outro lado não estava para perder tempo com a ralé. Deixei-os ladrar à vontade. O importante era que a caravana passasse sem problemas, o resto era conversa. Neste transe, chega-me dos confins da memória a seguinte quadra que me lembro de ter lido um dia num livro muito velhinho e de que já nem sei o nome:
Tenho corrido mil terras
Nem a propósito. Como estes pobres versos me reconfortaram! Prossegui, pois, o meu caminho ao mesmo tempo que interiormente os mandava à bardamerda. Chego finalmente à tasca do Cais. Uma vez lá dentro encosto-me ao balcão e peço dois hamburgers, um para eu comer "in loco" e o outro para dar ao "mon ami" que se encontrava à beira-rio esgalgadinho de fome, filho da minha alma! Entretanto para não estar para ali a engolir em seco mandei vir também um galão ou um garoto, já não me lembro bem. O pior é quando o taberneiro me apresenta a "dolorosa". Quase mil escudos com uma pôssara (vá lá roubar para uma estrada!). Ainda me apeteceu contestar o preço, mas problemas já eu tinha demais. Paguei e não bufei, prontos. Quando regresso ao cais, apresso-me a dar o hamburger ao meu amigo, o qual estava amarelo como um defunto, coitado. Neste interim, o toyota chega com a minha mulher, a Anita e a Fofinha a bordo. Que alívio! Ficamos assim a saber que já ali tinham estado à nossa espera há mais de não sei quantas horas, mas que, entretanto, tendo estranhado a nossa demora, resolveram voltar atrás, até à ponte internacional de Valença, na esperança de nos avistarem. Esclarecido o motivo do desencontro, eu faço menção de me meter na canoa para continuar a viagem até Caminha. ´Vendo isso, o "mon ami" diz: "Peço muita desculpa, mas eu não posso continuar!" Ao mesmo tempo que diz isto mostra a razão da sua desistência. Na zona dos rins, um pouco acima das nalgas, tinha um "cabulo" que parecia um pão de trinta réis! (Bem, como um pão de trinta réis não seria, digamos que teria para aí o tamanho duma ameixa). Tinha um aspecto escuro e feio; parecia, nosso Senhor me perdoe, uma nascida ruim...
A Purificação, irmã do "mon ami", havia-lhe confeccionado uma linda almofada para ele não danificar o rabo e adjacências, afinal foi pior a emenda que o soneto. Se ele não tivesse posto nada, é quase certo que não estaria com um cabulo daquele tamanho. Em atenção ao seu estado "físico-químico" não tive outro remédio senão concordar com a decisão do Eng.º. Armando. Prosseguir naquele estado era aventureirismo e uma grande insensatez. Voltamos pois a Monção sem ter cumprido o nosso objectivo inicial que era o de descer o rio até à foz. No dia seguinte, mal levantamos as tendas fomos direitos à albufeira da Caniçada, via Arcos de Valdevez, Ponte da Barca e Amares. Não chegamos a ir a Braga se bem me recordo. Um pouco para lá de Valdosende descobrimos à nossa direita um local muito pitoresco e de aspecto muito acolhedor.
Páro o carro na berma da estrada e saio para dar uma espreitadela. O que vejo deixa-me maluco. A paisagem é duma beleza sem igual. À minha frente um belíssimo trecho da albufeira surge aos meus olhos, tendo por moldura o verdejante arvoredo. A magnificência das ramagens espelha-se na superfície levemente ondula como que num delírio de autocontemplação narcísica, como se a própria Natureza tivesse consciência da sua deslumbrante beleza. Próximo da margem direita do Cávado pode ver-se uma espécie de península de vegetação luxuriante, por cima da qual assomam os telhados duma aldeia campesina muito curiosa. Do lado de lá erguem-se belas encostas de pinheiros que embelezam e perfumam o cenário de agradáveis fragrâncias. Em último plano, para além das vertentes de pinheiral, erguem-se lá mais atrás as cumeadas do Gerês, recortando-se em perfis angulosos de encontro a um céu cor de cinza. Uma tão grande beleza pictórica impressiona-me fortemente. A minha alma de panteísta vibra de emoção, filhas. Aquilo para mim é um templo vivo, um espaço sacro onde o meu misticismo subitamente desperta e onde me parece ver o dedo do Criador. Logo a seguir à berma da estrada há um pequeno talude, ao fundo do qual avisto um relvado magnífico, todo plano, e com algumas tendas de campismo. O sítio é tão idílico e acolhedor que logo me seduz. É certo que já está ocupado por uma comunidade de jovens "hippies", mas isso é o menos. Com um pouco de boa vontade facilmente se arranja espaço para mais duas tendas (ou mais que fossem). Convido os meus companheiros de viagem a darem uma opinião. Todos são unânimes em afirmar que o lugar é bonito para passar ali uns dias de férias.
Em vista disso decidimos acampar ali imediatamente. Para além da aprazabilidade do lugar havia ainda a "mais valia" de termos à borda da estrada uma fonte de água fresca, isto para já não falar dum café-mercearia a escassas dezenas de metros, o que era para nós ouro sobre azul. Bem perto havia ainda um improvisado parque de campismo que se encontrava à cunha. Encontrava-se numa encosta em socalcos e com vistas maravilhosas para a albufeira. Ainda chegamos a ponderar a hipótese de acamparmos lá, mas a perspectiva de termos que alombar com os kayaks às costas sempre que quiséssemos fazer um "raid" acabou por determinar a nossa opção. Os rapazes e raparigas, dos quais íamos ser vizinhos, tinham um aspecto estranho. Os cabelos compridos e desgrenhados, o vestuário exótico, os maneirismos um tanto ou quanto excêntricos, o linguajar absolutamente informal, as ecolalias de expressão e mais não sei o quê, fazem-me lembrar as comunidades hippies dos anos sessenta. O facto de ter avistado no acampamento duas violas, vem reforçar ainda mais a minha primeira impressão. "VAMOS TER SERENATA" - penso. Sentados a meio do talude estavam dois ou três "avis raras" de olhar alucinado com os olhos fixos na Fofinha. Nem tugiam nem mugiam. Estavam simplesmente calados. (Estariam a tramar alguma, ou estariam apenas a sonhar?)
Enquanto montávamos as tendas, o Armando chega-se ao pé de mim e diz em voz baixa.
O "mon ami" não parece convencido. Alvitra que o melhor é sair dali quanto antes e ir para outro lado qualquer. Para acabar de vez com os seus fornicoques decido valer-me dos meus conhecimentos de psicopatologia e de recorrer à terapia de choque:
(Cá para mim pensei que se estávamos a ser observados isso não tinha nada de mal nem de transcendente. Com a Fofinha entre a maralha quem é que não olharia? Só se fosse paneleiro, com uma pôssara!).
Montadas as tendas a primeira coisa que faço é agarrar no meu "Down River" e dar umas voltas na água convidativa. Impulsionada por músculos pujantes de força, o kayak descrevia círculos de espuma em boa velocidade, perante os olhares atónitos dos mirones. Presenciando o "show" o "mon ami" comenta.
Interrompi a minha exibição para lhe tirar as teimas. Recomendei-lhe, contudo, que tivesse cuidado porque um movimento em falso e era o "viranço". Não que tal evento fosse uma tragédia em si mesma, mas que era desagradável e chato, era. Uma vez no kayak, o Armando tenta fazer "render o peixe", mas ao aperceber-se da instabilidade da embarcação acaba por limitar o seu "show" a umas voltas banais após o que desiste. O receio dum viranço não lhe permite maximizar a força músculomotriz, facto que explica até certo ponto o seu modesto desempenho. Volto pois à minha exibição, rejubilando de prazer naquele jogo com a água. Entretenho-me a fazer evoluções um tanto ou quanto caprichosas, levantando atrás de mim girândolas de espuma. Impressionada, talvez, pela facilidade com que eu manobrava o kayak, a Fofinha pede-me para dar uma volta. Caio das nuvens de espanto. Também não era para menos. A minha mulher, por exemplo, nunca teve coragem para se meter dentro duma canoa apesar dos meus incentivos e da minha disponibilidade para a guiar nos primeiros passos. Como é que um "ai não me toques", aparentemente tão frágil, arranjara de súbito coragem? MISTÉRIOS INSONDÁVEIS DA ALMA HUMANA... A verdade - quer acreditem quer não - é que, pouco depois, estava numa canoa a remar sob as minhas instruções. Estava cheia de medo, é certo, mas isso não a impediu de fazer a experiência e de dar uma voltinha. Para a primeira vez até nem se portou nada mal, não senhor. A coragem subitamente revelada fez com que a Fofinha subisse mais um degrau no meu conceito.
Entretanto chega a noite. Os hippies acendem uma grande fogueira próximo das nossas tendas e sentam-se em círculo a tagarelar, em animado convívio. A princípio a conversa parece primar pela banalidade, mas à medida que as horas avançam as palavras vão ganhando um carácter cada vez mais extravagante. O líder do grupo fala pelos cotovelos, exibindo uma grande facilidade de expressão. O seu discurso é coerente, vivido e revelador duma grande maturidade.
- O meu avô era natural de Macedo dos Cavaleiros. Praticamente nunca saiu de lá. Lá nasceu, lá viveu e lá morreu. Nunca conheceu outros horizontes, coitado. Era um gajo pacato e extremamente humilde, estais a ver... um tipo completamente tapado, quase bronco. A malta dos dias de hoje tem uma mentalidade mais aberta, uma nova visão do mundo, uma forma mais descomplexada de encarar a vida, estais a ver... por exemplo o divórcio, o amor livre, o sexo em grupo (que a malta tanto gosta de curtir) eram coisas impensáveis naquele tempo. Os únicos divertimentos da época resumiam-se a bailaricos de aldeia, por alturas das festas e romarias ou então por ocasião das descamisadas, vindimas e coisas assim...
Os outros, menos loquazes, ouviam o monólogo do chefe com respeito e sem se atreverem a interrompê-lo. Via-se que lhe guardavam os dia santos apesar do ambiente de camaradagem e da ausência de formalismo no modo como comunicavam entre si. Aquilo era meu para aqui, meu para acolá, meu para a esquerda, meu para a direita, eu sei lá... era meu para todo o lado. Aquela forma "sui generis" de se exprimirem era para mim motivo de grande risota. Via-se que eram uma cópia um tanto ou quanto rasca dos hippies anglo-saxónicos dos anos sessenta, os quais tentavam imitar na linguagem, nos cabelos compridos, no exotismo do vestuário, nas excentricidades, nos maneirismos e até na filosofia. Isto, claro, para já não falar da "erva" e correlativos. Sim, porque um hippie sem erva é como um jardim sem flores.
- Anda por aí muita malta, meu, que só porque fuma erva e usa fatiota à maneira já pensam que são verdadeiros hippies o que é uma grande trampa. Para se ser hippie é preciso muito mais do que isso, meu. É preciso uma filosofia! O pó e o " look" não bastam...
Os outros concordavam cem por cento com o Mestre. Nem uma voz se ergueu para rebater uma só palavra sua. Todos embandeiravam em arco com as opiniões do guru. O unanimismo era total se assim se pode dizer. Não há dúvida de que a estranha criatura exercia sobre os demais um enorme ascendente, uma autoridade indiscutível, um magnetismo centrípeto que o tornavam no epicentro das atenções. Tinha carisma. Pode-se dizer, não sem propriedade, que era o "Führer" do grupo a quem todos os outros se curvavam respeitosamente. Salvaguardadas as devidas proporções eu diria que tinha ali à minha frente uma espécie de "Charles Manson" à portuguesa - principalmente no que toca ao carisma e à influência hipnótica. Tinha um discurso tão fluente e sedutor que até eu já estava a ficar encantado com o seu landum. A chama alaranjada da fogueira destacava-se na noite escura, conferindo aos hippies um aspecto algo irreal e fantasmagórico. Os seus rostos tinham um não sei quê de espectral, de mortos-vivos. A certa altura puxam de duas violas e começam a executar alguns arpejos em jeito de quem se prepara para um show. Pouco depois estavam todos - rapazes e raparigas - a cantar qualquer coisa parecida com uma balada ou lá o que era. Eu ouvia-os encantado, feliz por ter a oportunidade de presenciar algo de tão inédito. Era sumamente agradável ouvir os acordes das violas na noite escura e cheia de estrelas no céu.
"QUE MARAVILHOSA CONFRATERNIZAÇÃO! - pensei. Todos ali reunidos como irmãos em Cristo, à volta da fogueira e a cantar em uníssono... fantástico! Nunca tinha visto nada igual. Deve ser uma experiência baril. A noite ia já bastante avançada quando as violas se calaram. Às cantorias sucedeu-se a conversa. Ouvi-os falar de música rock, cinema e por aí fora. Pelo teor dos diálogos rapidamente me apercebi de que os tipos não tinham os pés bem assentes na terra. Pairavam nas estratosferas do sonho e do maravilhoso, num divórcio completo com a realidade. Falavam num tom sereno , cada vez mais intimista. Via-se que eram criaturas desajustadas e em conflito com a sociedade e com tudo o que ela representa. O timbre das suas vozes ressumava mágoa e ressentimento. Outras vezes delicadeza, afecto e ternura. Eu estava banzado de espanto. Era bom demais para ser verdade. A vida em sociedade, tal como eu a conheço, não costuma ser assim. O que impera por aí é a brutalidade, a ganância, a hipocrisia, a soberba, a intriga, a calúnia, a ignomínia, a maledicência, a inveja, o ódio... eu sei lá. A cordialidade, a sinceridade nos afectos, a amizade, o amor, etc., é coisa cada vez mais rara.
Falavam com uma doçura que tocava as raias da afectação. Por tudo e por nada pediam desculpa uns aos outros. Incrível! Como se receassem magoar-se por uma ou outra palavra menos reflectida. Deduzi daí que os tipos deviam sofrer duma susceptibilidade mórbida, duma hipersensibilidade muito próxima da loucura. Tudo isto me intrigava. Para quê tantas desculpas a despropósito de tudo e de nada? Será que havia no grupo temperamentos vulcânicos que à mais pequena ninharia entravam logo em erupção? Talvez. A ser assim todas as cautelas eram poucas (deixemo-nos cá de grelos). Um tanto ou quanto sherlockianamente chego à conclusão de que tenho de me pôr a pau com aqueles estranhos vizinhos. Hum... não me cheira! Serão perigosos drogados? Tudo indica que sim. As estereotipias de expressão, os maneirismos, o uso e o abuso do meu nos diálogos, as fatiotas aberrantes, a alucinação dos olhares, etc. eram indícios mais do que suficientes para fundamentar as minhas suspeitas. Devia já passar da meia-noite quando um dos do grupo disse:
Pouco depois um charuto de haxixe passava de boca em boca. Parecia uma assembleia de peles vermelhas e de rostos pálidos a fumarem o cachimbo da paz, depois duma guerra impiedosa. Quando a pedrada começou a surtir efeito o resultado viu-se. Num abrir e fechar de olhos as conversas começam a descambar para a incoerência e para o descontrolo nervoso. Os risos eram de loucos, metiam medo, colhudo. Começam a dizer mal de tudo e de todos: da sociedade, do sistema de ensino, da família, do governo, de tudo.
Enquanto assim cochichamos, a minha mulher envolve um maço de notas num saco de plástico e enterra-o debaixo da tenda, deixando na carteira dois ou três míseros contos apenas.
A minha mulher acha que tenho razão e, em vez dos dois ou três, deixa dez contos para os abutres. Quanto à menina tenta escondê-la com cobertores... Tomadas estas medidas, dirijo-me de gatas para a saída Mais uma vez a minha mulher se opõe. Manieta-me com os braços a chorar e, em tom suplicante, pede-me que não a abandone. Tenho de usar a força para me libertar. Uma vez solto, corro o fecho da tenda e espreito. Os drogados continuavam à volta da fogueira em conciliábulo, maquinando sabe Deus o quê..
Saio da tenda completamente aterrorizado.
Deviam ser perto das seis horas quando a noite começou a clarear. Os drogados continuavam à volta das fogueiras sem arredarem pé. Achei que se eles não tinham atacado pelo escuro, não era agora que o iriam fazer. Decido então remar para a costa e ir à tenda para ver como estava a mulher e a filha. Quando lá chego, tenho a surpresa de ver o Mandinho à entrada da minha tenda, de sentinela, se assim se pode dizer. Nessa altura, a minha mulher já estava um pouco menos apreensiva, embora não completamente tranquilizada. Peço-lhe que me arranje algo para pôr debaixo do colete, pois encontrava-me todo arrepiado e cheio de frio. Estava nisto quando vejo sair debaixo dum cobertor um vulto. Nem imaginam o meu espanto quando vi que se tratava da... Fofinha! Pressentindo a perigo, viera procurar refúgio na nossa tenda, julgando que estaria aí mais em segurança.
Lembrei-me então da ambulância e do tubo de escape. Pois é, fora isso que a Ana tomara por tiros. E, verdade seja dita, havia fundamento para a confusão, porque os "disparos" do maldito tubo pareciam mesmo vir de arma de fogo! Depois de ter esclarecido tudo, regresso ao "largo", aos círculos e às elipses... Farto de fazer sempre as mesmas evoluções, decido remar até à ponte. A meio do percurso ouço o repicar dum sino e, logo após, um belíssimo cântico religioso, com algo de celestial. Olho para encosta de pinhal e varro-o com o olhar de leste a oeste, mas não consigo vislumbrar a origem de tão harmoniosas vibrações. Será que tive uma alucinação? Se quereis que vos diga, filhas, ainda hoje não sei bem o que seria aquilo. " Talvez que em algum recôncavo do serra houvesse alguma aldeia em que estivessem a celebrar alguma missa..." - direis. "ÀQUELA HORA?" Só se fossem maluquinhos.
Amanhece. O sol já se anuncia. Duas hippies saem duma canadiana a meio do talude. Vêm em fato de banho. Mal chegam à beirinha da água ei-las que dão um belíssimo mergulho! "CHIÇA! É PRECISO SEREM XONÉS DE TODO!" Como é que elas não sentem frio!... Começam bem o dia, não haja dúvida!
Encorajado por esta visão lá me resolvo a ir ao toyota buscar a "negra". Passo a menos duma dezena de metros dos hippies mas não há azar. Eu estava pálido de morte, mas olha que eles também não estavam melhor. Rapazes e raparigas, tudo estava amarelo com mil diabos! E pensei: "O RELENTO É LIXADO!" Os olhos das gajas tinham algo de profundamente melancólico e os rostos estavam macerados pela vigília. Um hippie escrevia um poema num bloco notas, enquanto o sol despontava no horizonte. Lembrei-me então do "clube dos poetas mortos". Por volta das 8 horas, ainda mal refeitos do pesadelo da noite, desmontámos as tendas e ala que se faz tarde. Não tínhamos ganho para o susto, filhas.
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EM BOAS COMPANHIAS…
Estimado amigo, acabei de chegar com a família dumas curtas férias em Montegordo (Algarve). Pouco depois, cerca das 21 horas, a minha cunhada Escolástica, que me guarda o correio nas minhas ausências, entrega-me a tua carta. Foi uma agradável surpresa. Olho para a data proposta para o treino na Albufeira de Castelo de Bode (20 e 21 de Julho) e perante a exiguidade do tempo que me resta o primeiro impulso é agarrar na esferográfica e folhas de papel e começar a escrever, não vá acontecer a eventualidade de receberes a minha resposta atrasada o que seria - passe o plebeísmo da expressão - uma grande chatice.
Amanhã, dia 18, vou pôr esta carta no correio e espero que a recebas em tempo útil. É claro que tratando-se de aventura - e a descida dum rio é por excelência a aventura das aventuras - eu não podia nem por sombras dizer que não ou alegar desculpa alguma. A minha resposta é, como não podia deixar de ser, só uma: PRA FRENTEX! Digo isto com a maior serenidade, sem falso alarde ou triunfalismo saloio, mas perfeitamente cônscio dos riscos que a aventura vai implicar. E os riscos, para ser franco, vão ser mínimos porque eu vou fazer tudo para que a nossa aventura decorra sem sobressaltos. A descida que iremos fazer desde Monção até Caminha (cerca de 45 km) é o que poderei chamar uma descida em versão "soft". Não quer isto dizer que esteja totalmente isenta de perigos, mas é perfeitamente viável desde que os intervenientes na aventura conheçam as manobras básicas da canoagem. Vai ser esse o objectivo do treino em Castelo de Bode: dar-te a conhecer as técnicas que permitem controlar e manter o rumo do kayak. Depois é uma questão de fazermos uns bons quilómetros até adquirires a "pedalada" necessária. O primeiro quilómetro vai ser um pouco inseguro, espero, mas com a continuação vais dar contigo de súbito a sulcar as águas à velocidade de "cruzeiro", deixando para trás girândolas de espuma, o que espevita o entusiasmo. A minha experiência neste domínio é já longa e cheia de peripécias. Sinto-me pois perfeitamente à vontade porque sei o terreno que piso. Contudo, o excesso de confiança pode ser perigoso. Por isso não descuidaremos as normas elementares de segurança que passa obrigatoriamente pelo uso de coles de salvação... não vá o diabo tecê-las.
Após a recruta em castelo de Bode estão criadas as condições - LUZ VERDE - para a aventura sempre emocionante que é descer o Minho. É uma experiência inolvidável que não tem paralelo no mundo dos desportos. O Minho é uma tentação! Vai ser uma aventura "soft" porque no percurso referido o rio corre, salvo raras excepções, com uma grande placidez. Vamos encontrar alguns rápidos mas que não envolvem perigo especial. São de natureza benigna e passam-se bastante bem. Depois é o encantamento, a frescura da paisagem, o sol, os reflexos cintilantes da água, o deslizar suave das canoas rio abaixo, divagando de meandro em meandro rumo ao mar. É uma experiência "baril", meu. A descida do rio em versão "hard" já a tentei e devo dizer-te que saí de lá em pânico. Refiro-me ao percurso do rio que vai de Bouça, Chaviães, Melgaço até Monção. Ia lá ficando. A canoa virou-se por duas vezes no tumulto ensurdecedor das águas revoltas, salvando-me por milagre. Escapei por uma unha negra a um pavoroso redemoinho, porque me consegui agarrar a uma rocha na margem espanhola, no último instante. A uns escassos metros mais abaixo estava a armadilha mortal. Senti calafrios na espinha quando lá do alto da penedia íngreme contemplei as águas redemoinhantes lá em baixo. Safa! Aí eu nunca te ia meter. Era um homicídio.
Se um dia me chatear com a vida talvez volte a tentar a versão "hard". Vai ser um suicídio de luxo. Mas o que me levou a fazer descida tão perigosa? O gosto pela aventura e pelo risco? Penso que a verdadeira resposta a esta pergunta não é assim tão simples e linear. Penso que radica em razões mais profundas que terão alguma coisa a ver com o "id" - o inconsciente em linguagem freudiana. Não vou agora abalançar-me numa área da Psicologia tão polémica e controvertida, por descabido e fora de propósito. Deixo isso aos académicos. Mas não posso deixar de trazer para aqui, um pouco a talhe de foice, uma interessante experiência de Heinz R. Pagels que no seu "CÓDIGO CÓSMICO" escreve a páginas tantas: " Eu costumava escalar altas montanhas, com neve e gelo, apoiado lateralmente em grandes rochas. Quando estava a descrever uma das minhas aventuras a um amigo mais velho, este perguntou-me: "PORQUE É QUE TE QUERES MATAR?" Eu protestei; disse-lhe que as recompensas que queria eram a vista, o prazer e sentir que usava o meu corpo e a minha habilidade contra a natureza. O meu amigo replicou: "QUANDO TIVERES A MINHA IDADE, VERÁS QUE ESTAVAS A QUERER MATAR-TE".
Muitas vezes sonho com quedas. Esses sonhos são comuns para os ambiciosos e para os alpinistas. Há pouco tempo sonhei que me agarrava a uma rocha que subitamente se desprendeu. Tentei agarrar-me a um arbusto, mas ele cedeu e, num terror gelado, caí no abismo. De repente apercebi-me de que a minha queda era apenas relativa; não havia fim para ela. Encheu-me uma sensação de prazer. Compreendi que aquilo que eu representava, o princípio da vida, não pode ser destruído. Está inscrito no código cósmico, na ordem do universo. À medida que continuei a cair no vazio, ABRACEI A ABÓBODA CELESTE, CANTEI A BELEZA DAS ESTRELAS e reconciliei-me com a escuridão". Belíssima forma de acabar um livro! Quanto à nossa aventura, está tranquilo, vai ser uma espécie de "CHALLENGER TROPHY" uma modalidade de aventura que está a recrutar muitos adeptos nos nossos meios empresariais. Executivos de empresas fartos do conforto, do ar condicionado e do stress citadino, decidiram largar tudo para se embrenharem no seio da natureza selvagem (a serra da Lousã) onde irão praticar sob o signo da aventura, uma série de provas desportivas com riscos minimizados: percursos de jipe (com tracção às quatro rodas, claro), transposição de precipícios com cordas, alpinismo e... a descida parcial dum rio em canoa. Nada de original no fim de contas. Eu já faço o meu "challenger" há uma data de anos! Há apenas uma pequena diferença. Eles, no caso de fazerem algum dói-dói, contam com tudo: apoio logístico máximo, helicópteros de apoio, viaturas terrestres, comida à discrição, material, assistência médica... eu sei lá que mais. Eu tenho contado apenas com coragem - um pouco musculada - e alguma sorte. Excepção feita à descida do Douro, em que contei com o apoio "logístico" de minha mulher, que acompanhou por terra ao volante dum velho toyota, o meu percurso fluvial. No que respeita ao meu interesse pela astronomia já estou como o Pagels diz: "QUERO ABRAÇAR A ABÓBODA CELESTE, CANTAR A BELEZA DAS ESTRELAS E RECONCILIAR-ME COM A ESCURIDÃO". É poético e é verdade. Mas até lá terei que ter paciência. A cúpula do observatório que estou a construir é um bocado complicada e altamente dispendiosa. Em 4 de Julho do corrente ano visitei o Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, com cujo Director conversei. Mas isso é assunto para conversarmos mais tarde.
Nas minhas férias no Algarve aproveitei para rever conceitos matemáticos já esquecidos. Entretive-me, um pouco masoquisticamente, a integrar funções transcendentes e outras coisas do género, a fim de passar o tempo já que a praia, o ar salino e o sol escaldante não são lá muito do meu agrado. Quando passava os olhos pelas progressões aritméticas, veio-me à memória uma interessante história de Gauss, considerado o príncipe dos matemáticos. Andava ele na primária quando o professor que se encontrava indisposto, decidiu "massacrar" os alunos com uma actividade entediante: nada mais nada menos do que mandar somar todos os números de um a cem. "Quando tiverem acabado - enfatizava o professor com ar enfadado e sonolento - digam terminei". Todos os alunos se entregaram com frenesim ao cumprimento da tarefa. Não tinham passado mais do que alguns segundos quando o "puto" do Gauss disse: "terminei!" O professor ao ouvir aquilo pensou que fosse "bluff", encarando o puto com olhar incrédulo convencido de que tinha a resposta errada. Imagina o espanto do "gajo" quando verificou que o fedelho tinha o resultado correcto! Com a idade de nove anos Gauss tinha descoberto a equação que permite resolver este tipo de problemas e que é a seguinte: S = n / 2 ( a + z ) em que a é o primeiro termo e z o último termo da progressão. Extraordinário esse Gauss! Por hoje é tudo. No sábado de manhã cá te espero. Adeus.
- Não é preciso avançar mais, estamos bem aqui - disse o meu amigo.
Tinha razão. De qualquer modo também já não era possível andar fosse o que fosse. O declive não o permitia. Um pouco mais acima havia uma espécie de patamar coberto de restolho que eu achei azado para montar a tenda apesar de possuir alguma inclinação. O meu amigo ainda falou do perigo de escorregarmos por ali abaixo quando estivéssemos a dormir, mas eu tranquilizei-o afiançando-lhe que não iria haver azar. Ao desdobrarmos a tenda verificamos que estava bolorenta e que tinha um cheiro terrível a mofo. Isso deu azo a que nos ríssemos a bom rir. Ficamos na esperança de que o sol e o arejamento do outeiro acabassem mais cedo ou mais tarde por erradicar dali tão indesejável "fragrância". Montada a tenda não perdemos mais tempo. Tirámos as canoas do tejadilho do carro, vestimos uns calções, envergámos os coletes salva-vidas e ala que se faz tarde. Ensinei ao Eng.º Armando o ABC da canoagem desde o como meter-se e tirar-se do cockpit até às manobras mais básicas. Guiado pela minha experiência e pelas minhas instruções rapidamente aprendeu a impulsionar a canoa sem perder o equilíbrio. Claro que cometeu muitas asneiras no princípio mas isso era natural e próprio da sua condição de debutante. Quando passada a atrapalhação dos primeiros momentos verifiquei que o meu amigo já manobrava razoavelmente o kayak gritei-lhe:
- EH LÁ! POR ESTE ANDAR NÃO TARDA QUE TU SEJAS O NEWTON E EU O BARROW...
Ao ouvir este "piropo" o "mon ami" estremeceu numa grande gargalhada. Ele bem sabia o que eu queria dizer na minha. Sabia da História da Matemática que Barrow havia sido professor de Newton em Cambridge e que este, como grande génio que era, rapidamente superara o Mestre, ao ponto de Barrow renunciar à cátedra e oferecê-la ao discípulo de mão beijada ( isto foi no séc. XVII, filhas, porque agora outro galo canta!).
- São ladrões, vão-nos matar...
- Calma aí, não me cheira. Quem quer que seja está ali para fornicar e nada mais...
- Como assim?
- Elementar, meu caro. Se fossem ladrões já nos tinham atacado há muito! (Sherlock dixit)
O dia seguinte amanheceu esplendoroso. O sol veio dissipar de vez todos os meus terrores nocturnos. Quase que já nem me lembrava do cagaço da véspera. Já o Sol ia alto quando decidimos fazer-nos "ao mar", desta vez com um programa mais ambicioso. Já não se tratava de coscuvilhar os "fiords" das vizinhanças, mas de ir muito mais longe, nada mais nada menos que subir o rio para montante até à ilha do Lombo, a uma boas milhas de Cabeça Gorda, que era o sítio onde nos encontrávamos. Tudo decorreu normalmente nos primeiros quilómetros. O pior foi quando o sol, a fome e a fraqueza começaram a apertar. Estou a falar do "mon ami", claro está, já que sendo eu um veterano de musculatura afeita aos "raids" mais duros, não sentia senão um ligeiro cansaço. A bem dizer aquilo para mim não passava dum alegre passeio. Mais ou menos a meio do percurso o "mon ami" começa a "dar raia", isto é, começa a dar sinais inequívocos de estafamento. Em consequência disso pede-me que façamos uma pausa. Acedo de bom grado atendendo a que se trata dum "caloiro" e por uma questão de humanidade.
- ISTO EXIGE MUITA "ENDURANCE"! - comentou.
Eu rio-me, talvez já esquecido das figuras tristes dos meus tempos de "periquito", quando fazia igual ou pior ainda. O "mon ami" surpreendido com a facilidade com que eu impulsionava o kayak, deve ter pensado lá para si que o segredo da desenvoltura com que eu galgava as ondas devia ter uma explicação "física". Com certeza que a diferença de velocidades devia ter algo a ver com as "hidrodinâmicas" dos cascos. Propôs, deste modo , a troca dos kayaks. Eu passei para o "slalom" e ele para o meu "Down River" de casco mais esguio. Avisei-o, contudo, que tivesse cuidado dado o meu barco ser muito mais instável e sujeito ao "viranço".
- A SENHORA PENSA QUE LÁ POR EU ESTAR VESTIDO DE FATO-MACACO NÃO MEREÇO SER TRATADO COMO OS DOUTORES? TIRE-ME JÁ DAQUI ESTA SOLA DE SAPATEIRO E TRAGA-ME UM BIFE COMO DEVE SER!...
- REPITA LÁ ISSO OUTRA VEZ! - gritou-lhe com uma gana capaz do comer.
Uns puxavam-lhe a camisola, outros tiravam-lhe o barrete e todos o feriam com graçolas pesadas, achincalhando-o com alcunhas e risos destemperados. O Albino ia sofrendo em silêncio e às vezes, que remédio!, chegava mesmo a emprestar aos lábios um sorriso dolorosamente pregueado. Mas no interior, lá por dentro, era uma chaga viva, um cancro que, sem tréguas, o vinha roendo: Malvados! Se lhes pudesse ser bom... Mas não podia. Enfim, uma desgraça: ele, ali no navio, era o fantoche, o bombo onde todos malhavam, o escarradoiro para onde, sem cerimónia, os outros cuspiam! Mas tantas lhe faziam que um dia... ora, ora, um dia... nada, sempre nada! Estava sozinho, não tinha ninguém por ele: como um bicho desprezível e feio... Feio! Todos lho chamavam. E cabeçudo, e torto, e marreco... Feio: de tudo, seria talvez o que mais o fazia sofrer!
Por duas vezes já, em acessos de raiva, calcara a pés juntos o espelhinho de algibeira. Ah, mas eles não sabiam ainda quem era o Albino! E daí talvez tivessem razão: em muitas horas, quase sempre!, sentia-se manso e receoso como um boi capado. Até que um dia, só até um dia!... Que se acautelassem, pois uma vez o palonça, o pobre diabo, podia perder a cabeça e... Um mar de gargalhadas apagava sempre as suas ameaças: Como os odiava, nestas alturas! E passava as noites a remoer planos de vingança, arrepios de terror e lágrimas de abandono. Então ele, Albino, não seria um homem como os outros?! Tinha que o provar, tinha que lhes mostrar do que era capaz. Era um homem, ele era um homem!
Mas os dois piores, os mais verdugos, seriam o cozinheiro Ricoca e o seu ajudante, o Mazzorro: Ganhara-lhes medo, só de vê-los ficava com febre! Ainda ontem o Ricoca, à saída da cozinha, lhe passara uma rasteira de tal jeito, que ele fora estatelar-se no convés, no preciso momento em que uma grande onda galgava a amurada: Ficara todo encharcado, da cabeça aos pés. Em redor, os outros apertavam o ventre, de tanto rirem...
Ná, não podia continuar assim: perdera o gosto pela vida e sentia-se como um espantalho de eira, como uma vela esfarrapada ao vento. Os outros faziam-lhe tudo quanto queriam e ele nem reagia, sempre se ficava quedo e mudo: Verdade, verdadinha, ao cabo e ao resto, não passava dum reles cobarde. Só de pensar na mulher e no filho, sentia a cara arder de vergonha e o corpo alagado em suores frios: Rico chefe de família, não haja dúvida! Ah, mas aquele Ricoca!... A raiva que lhe tinha! E o outro, esse Mazorro do diabo, não era melhor... Pudesse ele! Tinha que poder: ou arranjava coragem para tirar vingança daqueles dois, ou deitava-se ao mar. E, noite após noite, foi acumulando projectos, imaginando torturas... Mas vinha a manhã e era como se o vento marítimo lhe apagasse o lume das veias: cada dia mais amarfanhado, mais triste. Uma miséria, uma vergonha! Aquilo tinha que acabar: ou ele, ou os outros dois! Daquela noite não passaria. Mas como? Sòzinho, apenas com as suas próprias forças, não podia: estava mais que visto.
E, contra o seu costume, naquela tarde, logo ao jantar, bebeu fartamente. E depois continuou... até sentir fósforos de lume acenderem-se-lhe na cabeça. Os da companha, admirados, riam e davam-lhe palmadas nas costas. Então, veio o Ricoca: "EH, ALBINO! EH, ALGARVIO!, ATÃO O QUE É ISSO, HOME? QUERES AFOGAR AS MÁGOAS?... CALEM-SE PRAÍ, RAPAZES: NA SABEM QUE ELE INDA NA RECEBEU CARTAS DA FAMÍLIA? SÃO COISAS QU´ACONTECEM A CALQUER MORTAL: SE CALHAR A MULHER..."
E os risos chocarreiros apertaram-no, como um círculo de chumbo a ferver. Um pouco cambaleante, o Albino conseguiu erguer-se à altura do cozinheiro: olhos nos olhos do inimigo, as mãos contraídas nos bolsos, os dentes arreganhados como os dum lobo, o "algarvio", por momentos e em silêncio, bafejou com o seu hálito azul espesso a cara surpreendida do Ricoca; depois, de súbito, soltou uma gargalhada impressionante, estridente e sacudida como um soluço e, sem palavra, afastou-se precipitadamente dali. Desta vez os pescadores não chicanaram: antes ficaram calados, inquietos, num vago pressentimento de perigo.
E realmente foi nessa mesma noite (quantos, passados já mais de quinze anos, ainda a recordam angustiados!) que o Albino, mais conhecido no mar pelo "algarvio", esfaqueou barbaramente, enquanto dormiam nos beliches, o cozinheiro Ricoca e o seu ajudante Mazorro: Cego de fúria, bêbado de vinho e de sangue, deu facadas à toa, no peito, no pescoço... por onde achou carne penetrável! Quando, enfim, conseguiram arrancar-lhe a lâmina das mãos, o Albino mostrava a face tinta de vermelho e, em uivos lamentosos, chorando e rindo convulsivamente, repetia baixinho: "Ai a minha mulher... ai, o mê filhinho... estão desgraçados, estão desgraçados!..."
E o "algarvio" foi logo amarrado ao mastro do meio, com guarda permanente. Toda a noite ondeou, em volta do assassino, uma vaga crepitante de archotes. O vigia recebera ordem para disparar contra quem quer que tocasse no preso: Só por isso, o Albino não foi estrangulado naquele anel de lume, movediço e feroz. Quando a madrugada veio, o Albino, esfarrapado, sujo de sangue, estava roxo de frio e de terror! A cada ameaça, a cada impropério, a cada escarro que lhe lançavam os da companha, o homem só gemia: "AI, O MÊ FILHINHO... AI, O MÊ FILHINHO!..." Mais não dizia. E, nem a neve que incessantemente caía, nem as ondas do mar que mais duma vez o cobriram, puderam limpá-lo daquele sangue.
Depois levaram-no para o "Gil Eanes". Aí, mais compreensivos, deixavam-no andar à solta pelo navio. Mas ele nunca mais quis falar. E mal comia. De noite, ouviam-no chorar. O comandante, condoído, tentava animá-lo: o Albino sorria tristemente, abanava a cabeça e, sem palavra, punha os olhos no chão. Assim sempre. Foi ainda com este mesmo sorriso triste, sem ódio nem fúria, que, naquela manhã de procela, o Albino galgou a amurada do Gil Eanes para se lançar ao mar revolto. Houve quem o tivesse visto, neste preciso momento: e todos afirmam que ele cumpriu o acto serenamente, sem a costumeira precipitação desesperada, sem a mínima atitude ritual, nada disso...simples , naturalmente, com o tal sorriso triste e infantil a chorar-lhe nos lábios. Lá ficou. Não foi possível salvá-lo."
- JÁ ESTOU A FICAR COM OS AZEITES...
- SE VOCÊ ESTÁ A FICAR COM OS AZEITES EU ESTOU A FICAR COM AS AZEITONAS! - regougou a velha com uma gana capaz de a comer.
- MAS ESSE DENTISTA É UM CARNICEIRO! - comentou a minha interlocutora que pelos vistos já lhe conhecia o vedonho.
Mas também se fodeu. Passados alguns anos deu-lhe uma trombose ou lá o que é que foi, que o sacana ficou maluquinho de todo. Não era senhor de sair à rua que não envergonhasse a mulher com cenas tristes. Uma ocasião cruzei-me com o tipo na rua. Tinha um aspecto acabado e uns olhos alucinados de alguém que acaba de fugir do manicómio. Vendo um copo de iogurte no chão, não sei o que lhe passou pela cabeça, o fulano estacou de repente e ajeitando a bengala como se estivesse num campo de golf, amanda uma valente tacada no copo! A mulher morta de vergonha puxava-o pelo braço, ante o sorriso condescendente dos transeuntes. Eu pensei para comigo e para com Deus: "CÁ SE FAZEM, CÁ SE PAGAM!"
- SE VOCÊ ENTRAR NUMA CASERNA DE SOLDADOS E ESTES COMEÇAREM AOS PEIDOS DE QUEM É QUE É A CULPA?
- DÁ-ME LICENÇA MEU TENENTE? - pergunto com voz firme e determinada, ao mesmo tempo que me perfilo em sentido e bato a pala.
- SIM, O QUE HÁ?
- VENHO NOTIFICÁ-LO DE QUE VOU APRESENTAR QUEIXA CONTRA O SENHOR...
Ao ouvir isto as trombas do tenente até mudaram de cor, filhas. Era óbvio que não estava nada à espera duma tão rica "prenda", muito menos que eu ousasse enfrentá-lo no seu próprio terreno. O feitiço estava agora contra o feiticeiro e, a avaliar pela minha determinação e pelos meus conhecimentos do RDM, não lhe iria ser fácil descalçar a bota, não. Eu sabia que tinha por mim não a razão da força, mas a força da razão. Por ela estava disposto a bater-me até às últimas consequências, disposto a enfrentar tudo e todos. Queria que se fizesse justiça e provar que a probidade moral dum homem não se mede pelos galões que ostenta em cima dos ombros, mas pelo espírito de rectidão e pela equidade nos juízos, atributos estes que definem só por si um verdadeiro carácter. Ora tais atributos era coisa que o tenente não tinha de modo algum.
- ANTES DE SE CALÇAR VEJA PRIMEIRO COM QUE SAPATOS É QUE SE CALÇA!
E logo a seguir num gesto brusco:
- A SUA GRAVATA NÃO É DA ORDEM!
Era mais que evidente que o gajo estava à rasca, de modo que tudo lhe servia para me encostar à parede, até o estupor duma gravata que ao que parece tinha o nó um pouco maior do que o tamanho definido pelos regulamentos. Acrescentou que ia participar de mim por eu lhe faltar ao respeito e mais não sei o quê. Eu? Faltar-lhe ao respeito, eu? O tipo devia estar a sonhar, porque essa não levo eu aos pés do meu confessor - porque pode haver no mundo gente tão respeitadora como eu, mas mais não. O que ele disse foi um "aleivo", filhas, podeis crer.
- OLHE QUE EU SOU CAVALO RUIM DE ASSOAR! VÁ, QUEIXE-SE... QUEIXE-SE...
Suspendo aqui a narração da história porque a descrição de todos os posteriores desenvolvimentos daria por si só para um verdadeiro romance, o que não se insere nos objectivos deste livro. Eu costumo dizer que o ódio é como a peste: propaga-se com a virulência duma verdadeira epidemia. É...é... como uma reacção em cadeia. Dentro de pouco tempo em vez duma queixa e uma participação já havia...QUATRO! O conflito que me opunha ao cabo e ao tenente rapidamente alastrou como um fogo, trazendo para o campo de batalha uma "hiena" do piorio. O capitão Mateus, meu comandante de companhia, tomara sem que eu soubesse o partido do tenente, (de quem era amigo) e há muito que me vigiava como um abutre, à espera duma oportunidade para me quilhar a vida. (Como sabeis, filhas, os lobos protegem-se uns aos outros). É dos livros. DAT VENIAM CORVIS, VEXAT CENSURA COLUMBAS! Portanto era de esperar o alastrar da guerra a outros beligerantes atraídos à causa do tenente Martins por razões de ordem sócio-profissional e corporativa. O cap. Mateus era uma figura apagada e cinzenta no meio militar, um daqueles tipos com necessidade permanente de se pôr em bicos dos pés, mas sem saber como. Sofria dum visível complexo de inferioridade que tentava compensar sempre que podia. Ora se ele conseguisse "dar uma porrada" no "professor" com uma cajadada matava vários coelhos. Em primeiro lugar subiria de "status" no "milieu", e toda a gente ficaria a saber que ele não era a mosca morta que muita gente pensava; em segundo lugar iria de encontro aos desejos de muitos dos meus inimigos que ansiavam por me ver caído em desgraça; em terceiro lugar era um grande favor que prestava ao seu camarada tenente, aparecendo no palco como um anjo vingador. Quer-se dizer: eram só dividendos. O único a perder era eu. Como estais a ver, filhas, havia muita gentinha a lucrar com a minha perda, daí que um "golpe" que me derrubasse seria para muito bandalho ouro sobre azul. Só que eu não tenho vocação para vítima e quando senti os primeiros ataques, vendo que me queriam perder, decidi jogar tudo numa cartada, passando a responder taco a taco. Um filho da puta desmanchava-me a cama todas as vezes que eu ia fim de semana. Quem seria o sacana? Hum...deve ser o furriel André, um tipo de maus fígados e com quem eu andava há muito tempo de candeias às avessas. Odiento e vingativo como ele era, não podia ser outro. O "modus operandi" tinha sem dúvida a sua assinatura. Pois bem, não irá esperar muito tempo por uma resposta. Na primeira oportunidade faço-lhe uma judiaria que se quilha. E assim aconteceu. O tipo tinha vindo da carreira de tiro com as botas todas cagadas de lama e tinha-as junto à cama. Era chegado o momento de actuar e de pôr em prática "o olho por olho e o dente por dente". Tinha era que actuar depressa e com a maior discrição porque se alguém me visse era um homem morto, tão certo como dois e dois serem quatro.
- Manuel, não estais arrependido do que fizestes ao furriel André?
- Não. Ainda que tenha de padecer nas chamas do fogo eterno, não estou arrependido.
- Então porquê, meu filho?
- Porque não sou como o teu Filho unigénito Jesus Cristo, cujo masoquismo era tanto ou tão pouco que até rogou o perdão para aqueles que o pregaram na cruz. A mim se me derem uma solha numa face, não vou a oferecer a outra para levar uma segunda dose. Dou é logo o troco e a dobrar!
- Fazes mal, meu filho, em falares assim, porque agora vais pagá-las ...
- Pai, se é possível passe de mim esse cálice...
- Eu já te digo o cálice... vais bebê-lo ate às fezes!
- Faça-se o que Tu quiseres, e não o que eu quero, mas antes de me mandares para o fogo eterno, atende ao menos ao último desejo dum pobre condenado...
- O que desejais?
- Que me digas o que é feito do furriel André, o meu verdugo lá na Terra…
- Esse está no Paraíso, na companhia dos anjos e serafins...
- Porquê, Pai? Porquê?
- Porque apesar de ser um grande pecador, teve a lata de se arrepender à hora da morte...
- E então esse minuto de arrependimento pode redimir toda uma vida de pecado?
- É o que ensina a minha Santa Madre Igreja...
- Hum... agora compreendo porque existe tanto lodo e tanta podridão lá na Terra. Estão à espera do último minuto, os sacanas...
Sem que eu o soubesse, o capitão Mateus há muito que me trazia debaixo de olho, pronto a dar o bote. O casus belli existia, agora só faltava o pretexto para o ataque. E esse acabou por surgir mais cedo do que ele pensava. Havia na unidade o hábito costumeiro dos graduados se vestirem à civil, um pouco antes das 17 horas e 30 minutos, hora a que soava o chamado toque da ordem. A partir do referido toque quem não estivesse de serviço podia sair para a cidade. Os meus camaradas, mais espertos do que eu, quando estavam com mais pressa, vestiam a farpela civil aí quinze ou vinte minutos mais cedo e às dezassete e trinta em ponto, os gajos estavam a passar a Porta de Armas todos galifões. Toda a gente fazia isso há muito tempo desde sargentos a oficiais, sem que daí viesse algum mal ao mundo. A tal ponto o costume era tolerado que muitos faziam isso às claras na mais perfeita tranquilidade, indo até para o meio da parada em pequenos grupos, à espera do toque da corneta. Tantas vezes assisti à cena que me convenci que podia fazer o mesmo. Não fazê-lo era para mim sinal de que eu não passava dum tipo bisonho e um tanto ou quanto palerma. Assim certo dia, quando bem me pareceu, decidi imitar o costume dos meus camaradas. Vesti-me à civil e, vendo que faltavam apenas alguns minutos para o toque, eis que vou para junto da Porta de Armas para sair à hora em ponto, coisa que nunca houvera feito em toda a minha vida de tropa. Pois é, tive azar. Acontece que o cap. Mateus andava à coca e viu-me lá do alto duma janela. Sabeis o que é que ele fez? O sacana, que estava de Oficial de Dia, mandou imediatamente tocar a alarme para me apanhar em falta e poder aplicar-me a porrada tão ambicionada. E não se pense que era uma "porrada soft" o que o gajo tinha em mente, como dar-me uma "piçada" ou dois ou três dias de detenção, por exemplo. O que o gajo pretendia era coisa mais grossa, nada mais nada menos que despromover-me, o que além de me atingir na patente, implicava um verdadeiro desfalque no meu "cacau" mensal, que passaria de mais de oito contos, para uns míseros noventa escudos por ... mês, que era o ordenado dum cabo na época (um professor primário efectivo e sem diuturnidades "abichava" apenas cinco contos e tal... a trabalhar no duro! Eu ali não fazia, pode-se dizer, a ponta dum corno e abichava mais de oito dele, filhas).
- Leia isto, se faz favor.
- Não tenho nada que ler! - grunhiu.
- O problema é seu.
- E a participação? - pergunto-lhe.
- QUAL PARTICIPAÇÃO? NÃO HÁ PARTICIPAÇÃO NENHUMA...
- Bem, sendo assim já não sigo em frente.
Caí das nuvens. Ainda na véspera afirmara na presença de testemunhas que me ia arrancar as divisas e agora aparecia-me ali feito cordeirinho dizendo que não tinha participação alguma contra mim, quando eu sabia de fonte segura que ela existia. Grande trafulha! Era óbvio que pelo andar da carruagem o tiro lhe ia sair pela culatra e ele, claro, como não era parvo de todo compreendera isso melhor do que ninguém Ele sabia que em democracia ou há moralidade ou então comem todos! Após este acordo de "cavalheiros" até respirei mais aliviado. Uff? Safei-me de boa. Vim depois a saber que tanto o capitão como o tenente tinham andado a vasculhar todo o meu passado militar à procura de "lixo", na ânsia de me arranjarem um "caldinho", mas é claro que não encontraram nada, porque eu em matéria disciplinar tinha a caderneta tão imaculada como o lençol duma virgem (antes de perder os três). Quando o volúvel capitão me disse que estava tudo okay fiquei mais tranquilo. Farto de problemas estava eu, de modo que não tive qualquer dificuldade em fazer marcha-atrás e perdoar-lhe. O homenzinho humilhara-se e eu devia-lhe, em troca da sua submissão, uma contrapartida. Desisti pois de levar o processo por diante até às últimas consequências. De facto não havia razão para teimas.
- DERAM-ME... DERAM-ME... DERAM-ME...DERAM-ME...
- UM SOCO, CATANO! - gritou o dono do café num cúmulo de impaciência.
Seguiu-se um verdadeiro dilúvio de gargalhadas. Como diz o Albino Forjaz de Sampaio nas suas "Palavras cínicas": "Algumas vezes a tragédia é caricata, é pândega, dá vontade de rir. Mas nunca ninguém riu da que consigo arrasta." É uma grande verdade. "Em toda a parte vi medrar o mal e escarnecer o bem; subir o forte e o fraco ser pisado". Mais verdade ainda.
- GRANDE CABRÃO! - apeteceu-me exclamar. - O QUE TU PRECISAVAS SEI EU...
Acabou por apanhar uma porrada maior - penso que quinze anos de prisão - o que vem confirmar o dito popular que diz que "cá se fazem, cá se pagam!".
Após este longo parênteses (durante o qual andei um bocado à deriva, trazendo à tona "recuerdos" um tanto ou quanto "ionizados" deixai, ó filhas, que eu retome o fio da conversa. Se bem me lembro nós tínhamos acabado de chegar à península de Cabeça Gorda, quando me lembrei de sugerir ao meu companheiro que prosseguíssemos a viagem para o sul até à barragem hidroeléctrica de Castelo do Bode, a poucas milhas de distância, onde poderíamos almoçar à beira-rio numa estalagem com vistas deslumbrantes. O Engº. Armando, coitado, ainda objectou que estava estafado e que estava com uma fome de lobo, mas eu teimoso como um asno, retruquei-lhe que a estalagem não ficava longe e que valia bem a pena ir até lá tratar da mandioca. Para não me contrariar o "mon ami" concordou, embora com alguma relutância. Via-se que estava a fazer das tripas coração. Umas centenas de metros mais adiante, porém, pára e diz-me num grande desalento:
- Peço desculpa, mas vou voltar para trás... Já não aguento mais...
- MULHER DE AMIGO PARA MIM É MACHO! - costumava dizer o malogrado capitão Salgueiro Maia, o herói abrilino que fez triunfar no terreno a revolução dos cravos.
- HABIEMOS VERGOÑA! - responderam em uníssono, olhando para os maridos que assistiam à cena do outro lado da margem.
- BAMOS EN LAS BARCAS... - sugerem.
- ADIÓS...
- MUTCHAS GRÁCIAS - responderam risonhamente.
- Só por isto valeu a pena a viagem! - digo para o meu companheiro.
- Concordo, também é essa a minha opinião.
- Isto é uma grande estupidez...vamos para aqui a esfalfar-nos quando existem motores... blá, blá, blá...
- EH LÁ, COMPADRE! ATÃO... BLÁ, BLÁ, BLÁ...
Mil terras tenho corrido,
Muito cão me tem ladrado,
Mas nenhum me tem mordido.
- Não gosto das trombas daqueles tipos. Aqueles olhos...
- Não te preocupes. Isso é impressão tua.
- Já ouviste falar na paranóia? - pergunto-lhe. - O paranóico é alguém que sofre do delírio da perseguição, que tem a cisma de estar sempre a ser observado. É um síndroma característico de certos tipos de esquizofrenia...
- Estás a chamar-me maluco?
- Não, claro que não. A paranóia, ao contrário do que muita gente pensa, está longe de ser um exclusivo dos doidos...
- Desculpa lá, mas essa canoa é mais rápida do que a minha. Deixa-me experimentá-la...
- VAMOS FUMAR UM CHARRO...
- Há quanto tempo não vês os teus pais? - perguntaram a uma rapariga do grupo que naquele momento aspirava o fumo da erva.
- Sei lá... já nem sei... já lá vai tanto tempo...
- Porque fugiste de casa? - perguntou uma voz curiosa.
- Eh pá, chatices... chatices, meu. Andavam sempre a discutir e à zaragata... A certa altura chateei-me e dei o fora... já não dava para aguentar mais aquilo, tás a ver. O ambiente não dava, topas? Além disso havia outros problemas, meu. Na escola as coisas corriam mal, os professores eram uns grandes chatos, as aulas uma grande seca... não dava mais para aguentar...
A voz da moça era magoada e dolorida. Tinha um não sei quê de fatalismo e de resignação. Desencantada com a família e a sociedade, o grupo era para ela um refúgio, uma espécie de porto de abrigo onde podia, enfim, encontrar o afecto que lhe era negado entre os seus. Ali, entre os marginalizados do sistema, tinha praticamente tudo o que era imprescindível para ser minimamente feliz: compreensão, carinho, aventura, "lots of love" e... sexo à discrição. Isto para já não falar da erva, claro, que lhe fornecia o passaporte para a evasão e o sonho. A vida de todos os dias era demasiado insípida e prosaica para se ter de gramar indefinidamente. Ali ao menos os dias não eram sempre iguais. Havia a atracção da aventura, o sabor do imprevisto e do aleatório.
- De tempos a tempos meto-me numa cabine e telefono-lhes: " ESTÁ? DAQUI FALA A INÊS. OLHE É PARA LHES DIZER QUE AINDA NÃO MORRI... - e desligo.
Os outros riem. No fundo, no fundo, a história deles não deve diferir muito disto, mais coisa, menos coisa. Em todas as histórias existe um mesmo denominador comum: um enorme tédio pela vida, uma profunda saturação por um quotidiano chato e sempre igual e uma indisfarçável aversão pelo estilo de vida burguesa e convencional.
- Uma vez roubei setenta contos à minha avó...
- Ah, ah, ah, ah... - desataram todos à gargalhada. -
- Ficou tão fodida comigo que... até hoje.
- E ainda não lhe deu o badagaio? - inquiriu um morto de riso.
- Qual badagaio, qual carapuça! O raio da velha tem o fôlego de sete gatos, nem o caruncho quer nada com ela...
Nova onda de gargalhadas. A conversa prossegue sem quebra de ritmo até que toma novos rumos.
- Dizem que o "pó" tira o tesão...
- Uma treta, uma treta, meu. Dizem isso para desestabilizar a malta, topas? No fundo o que eles têm é inveja. Para falar verdade eu até acho que o pó dá outro "élan" ao sexo.
- Também concordo - regougou uma voz máscula. - Para mim não há como uma boa foda a meio duma pedrada. É uma coisa muito baril, meu, podes crer...
Mais gargalhadas. Sentado na relva, frente à minha tenda, os meus lábios entreabrem-se num sorriso malicioso. Lá no alto as estrelas refulgiam na escuridão num fulgor inigualável. Estava uma noite linda, de sonho.
- Eu cá gramo curtir sexo numa praia deserta, ao pôr-do-sol, é muito romântico...
- E no mar, e no mar? Já alguma de vocês curtiu sexo debaixo de água? É de subir ao sétimo céu, meu.
- Ainda hei-de experimentar - comentou uma voz feminina. - Deve ser giro...
- Já leram aquele livro da Clara Pinto Correia que se chama.... que se chama... bolas! não me lembra agora o nome do raio do livro... - regougou o Führer.
- É recente ou antigo?
- Eh pá, acho que foi o primeiro livro que a gaja escreveu, ainda ela andava na faculdade...
- Então só se for o "ANDA UMA MÃE A CRIAR AS FILHAS PARA ISTO..."
- É esse mesmo! A gaja e mais algumas colegas quiseram fazer uma recolha sobre o "modus vivendi" do Zé Povinho, principalmente no que toca à área sexual, e daí sabeis o que é que fizeram? Foram trabalhar para uma vindima, em Tremez, lá para as bandas de Santarém e, enquanto iam colhendo os cachos, um gravador ia registando os testemunhos de homens e mulheres. Resultado: fizeram um livro maravilhoso, que conta coisas muito engraçadas...
- Como por exemplo?
- Sei lá ... tantas coisas, meu. Talvez a mais curiosa seja aquela que diz que "até já por aí houve quem em cima dum burro fizesse o serviço!"
- Ah, ah, ah, ah, ah ...
- Mas isso ainda não é nada! - exclamou a Rosária . - Numa praia do Algarve vi uma vez uma tipo a montar uma gaja em cima duma prancha de surf, enquanto a prancha galgava as ondas a toda a velocidade...
- E estavam nus?
- Nuzinhos! Tal como Deus os botou ao mundo...
- Ena pá, essa é mesmo radical!
- Mais radical do que tudo isso que estais para aí a dizer - interrompeu a Ruth - é a bestialidade. Vocês já imaginaram, por exemplo, o que é fazer amor com um cavalo? Quem diz cavalo, diz burro, cão, porco ou outro animal qualquer…
-Tem lá paciência, ó Ruth, mas isso já pertence ao domínio da tara, da psicopatologia…
- Não sei se pertence, se não, o que sei é que tais práticas existem - e com muito mais frequência do que muita boa gente supõe!
- Como sabes tu isso?
- Como é que eu sei? Ó pá, basta ligares-te à Internet e procurar os sites apropriados para imediatamente teres acesso a imagens incríveis. Ou então ires ao clube de vídeo mais próximo…
- Pois é… não sei que filósofo é que disse que " o homem é a medida de todas as coisas". Pelos vistos o gajo tinha razão. De facto o homem pode ser tudo o que nós quisermos: ange ou bête, santo ou demónio, herói ou cobarde, sublime ou perverso, misericordioso ou cruel, heterosexual ou paneleiro…
- E zoófilo! - acrescentou a Ruth num sorriso cheio de malícia.
- Sim, até isso…
- Ai que nojo, credo! - clamou a Rosária, num esgar de náusea. - Haver gente capaz de fazer amor com bichos…
- É tudo uma questão de gosto, meu. Cá por mim podem chamar-me tarada, maluquinha, zoófila, nevropata, ou seja lá o que for, desde que não me chamem nem puta nem ladra… tudo bem. De resto faça eu boa letra…
- Também não é assim - retrucou a Rosária. - Acho que a Moral e a Religião têm uma palavra a dizer...
- A Moral e a Religião? Eu quero que a Religião e a Moral se fodam! Foi em nome da Religião e da Moral que a Inquisição amandou para a fogueira a Joana d´Arc, o Savonarola, o João Huss e mais não sei quantos milhares de heréticos, cujos únicos crimes eram o de pensarem de forma diferente, o não estarem em sintonia com os dogmas imbecis da Santa Madre Igreja...
- Disseste imbecis? - perguntou incrédula, a Inês. - Não estou a ver...
- Imbecis sim! Vários dogmas, tidos como verdades sacrossantas, constituem um verdadeiro atentado à inteligência, não passam de lixo metafísico. Veja-se, por exemplo, o dogma da Imaculada Conceição...
- Queres dizer o dogma da virgindade de Maria?
- Claro. Cabe na cabeça de alguém, com um mínimo de bom-senso, que ela tenha sido fecundada por obra e graça do Espírito Santo? Que tenha concebido e dado à luz o Menino Jesus e no fim tenha ficado intacta? Por favor, não gozem comigo! Posso ser parva... mas não tanto! Qual Espírito Santo, qual carapuça! Maria foi fecundada da mesma forma que qualquer outra mulher o é: através do coito normal. Segundo a Sagrada Escritura, parece que José, seu marido, não foi ouvido nem achado no processo... Bem, a ser verdade, só tenho a lamentá-lo, coitado, porque duma coisa eu tenho a certeza: se não foi ele, foi outro - tenham lá paciência! Pelo espírito Santo é que não foi, essa vos garanto!
Outro dogma que também não tem ponta por onde se lhe pegue é o da Santíssima Trindade, segundo o qual Deus é simultaneamente Pai, Filho e Espírito Santo. Ora isto é um perfeito disparate! Como é óbvio, nenhum ser pode ser pai e filho de si mesmo... é um contra-senso, só admissível num demente ou em alguém com mentalidade dogmática. Por outro lado, dizer-se que Deus é ao mesmo tempo uno e trino equivale a dizer que um é igual a três e que três é igual a um, o que é um completo absurdo do ponto de vista matemático. Para além destes dogmas há ainda o da infalibilidade pontifícia, que esse então é do mais ridículo e cretino que se pode conceber...
- Ai, hoje esta Ruth está herética de todo, credo! - interrompeu a Inês. - Isso dá-te muitas vezes? Se o Torquemada te ouvisse até se levantava do túmulo para te assar no churrasco...
- Ah, ah, ah, ah, ah...
- Não me falem nesse filho da puta - vociferou o Führer - que só de ouvir o seu nome dá-me vontade de vomitar! Tantos e tantos inocentes condenados às chamas por causa desse monstro... desse cabrão de saias... Se eu o cá apanhasse à mão quem o fodia era eu!...
- Ah, ah, ah, ah, ah...
- Mandava-o grelhar em lume brando até ficar bem tostadinho e depois dava-o a comer aos cães!
- Eh lá, faz lá isso mais barato... - comentou a Susana, impressionada com a ferocidade do Führer.
- Bem aos cães, talvez não o deitasse, mas aos tubarões já não digo nada...
- Ah, ah, ah, ah, ah...
- Ainda voltando ao que disse a Ruth a respeito dos dogmas... acho que ela tem razão. Pertencem ao domínio do irracional e do absurdo, em suma, não têm ponta por onde se lhes pegue. Isto não quer dizer, obviamente, que o Cristianismo, o Judaísmo e outras religiões afins, não tenham uma parcela de verdade ou algo de aproveitável. Também não sou tão fundamentalista a esse ponto. Creio que a grande ilação que se pode tirar das imensas religiões e seitas que pululam por esse mundo fora, é a ideia dum Ser Supremo, causa primeira de tudo quanto existe, incluindo as leis que regem o mundo físico. Este era o Deus de Einstein e é também o meu, se quiserem. Um deus criador dum universo em "autogestão", com leis específicas e cognoscível pelo homem até certo ponto. Se esse mesmo Deus joga ou não aos dados , se é puro espírito ou algo de antropomorfo ou outra coisa qualquer, é questão que está para além da religião e da ciência. Penso que o homem nunca conseguirá desvendar tão grande mistério.
Mesmo a questão, aparentemente simples, de saber se esse Deus nos protege ou não, ou se de algum modo se preocupa connosco e o nosso destino, é algo que nos transcende por completo. Einstein, por exemplo, acreditava na existência de Deus, mas já duvidava que Ele se interessasse directamente por nós, ao ponto de nos resguardar dos perigos e das ciladas deste mundo. Muitos filósofos e em particular Schopenhauer, pensam de igual forma, isto é, pensam num Deus alheio às súplicas humanas, num Deus que se está marimbando para as desgraças e iniquidades que se praticam por esse mundo fora. Se o Tipo se interessasse - um mínimo que fosse - não teria permitido o afundamento do Titanic, o holocausto do povo judeu na Segunda Guerra Mundial, com os seus fuzilamentos em massa, as câmaras de gás e outros horrores. Não permitiria os terramotos, as grandes inundações, as epidemias, o massacre dos inocentes, o triunfo do forte sobre o fraco, as atrocidades servo-croatas, as chacinas étnicas e tribais em África, nem tão pouco admitiria a razia provocada pelo vírus da sida ou outras doenças do género. Se Deus é Pai e Amor não parece demonstrá-lo. Quantas vezes vemos o justo sofrer horrores, enquanto tanto patife leva uma vida regalada e cheia de prazeres como se gozasse de total imunidade perante a desgraça. Daí a inutilidade de tentar compreender as leis que regem este mundo cão; daí o ser tarefa vã tentar vislumbrar a mão de Deus nos destinos humanos. Tudo parece obedecer à lei do acaso, do puramente aleatório. Os padres são os primeiros a reconhecê-lo senão não punham pára-raios nas cúpulas dos templos e das catedrais! Com Deus nunca fiando.. Muitos pregadores confessam a sua perplexidade apregoando do alto dos púlpitos que "OS DESÍGNIOS DE DEUS SÃO INSONDÁVEIS!" Não, não hão-de ser... com tanto justo a comer por tabela... e tanto filho da puta a singrar na vida de vento em popa.
- Hoje está-te a dar para a metafísica! - exclamou a Susana. - Isso dá-te muitas vezes ou é só quando estás com a pedra?
- É o meu modo de ser. De vez em quando gosto de reflectir sobre a vida, tentar perceber um pouco os absurdos do quotidiano, coisas em que a maioria das pessoas nem sequer repara, tão ávidas andam em gozar a vida... Às vezes é bom parar, recolhermo-nos à sombra duma árvore e pensar um pouco...
- Foi assim que o Newton descobriu a lei da atracção universal - disse a Ruth.
- Mas foi preciso cair-lhe uma maçã em cima da pinha...
- Ah, ah, ah, ah, ah...
- Se em vez duma maçã, tivesse sido uma abóbora, hoje não conheceríamos a mais importante lei que rege o universo.
- Porquê?
- Porque o homenzinho teria rachado o caco, e talvez até nem sobrevivesse ao choque...
- Ora aí está um pequeno pormenor em que nunca tinha pensado - confessou a Inês.
- Como este, muitos outros há, que por serem pequeninos, ninguém repara neles. Por exemplo, já repararam na grande hipocrisia em que assenta a cultura judaico-cristã?
- Não estou a topar... - observou a Inês.
- Terem a lata de chamar Pai a Deus...
- Onde é que está a hipocrisia? Não me vais dizer que não há crentes sinceros e bem intencionados...
- Contam-se pelos dedos duma mão, filha. A esmagadora maioria diz que ama Deus, por pura conveniência, porque fareja que Deus sempre lhes pode dar uma ajudazinha nos seus egoísmos pessoais. Já pensaram porque é que Fátima atrai multidões? Para lá convergem todas as desgraças e misérias deste país, o coxo e o marreco, o doentinho e o comerciante arruínado, a majestade e o sodomita, tudo ali vai desaguar como num imenso esgoto, tudo ali vai parar, mas para pedir... favores ao Céu...
- Acho que estás a ser hipercrítico demais. Acaso existe algum mal em pedir ajuda a Deus ou seja a quem for, quando estamos à rasca? - atalhou a Rosária.
- Não, se o nosso pedido for coerente e não assentar numa hipocrisia...
- Lá vens tu outra vez com a hipocrisia. Mas que hipocrisia?
- A hipocrisia dum gajo dizer que Deus é Pai e Amor, que o ama sobre todas as coisas e outras tretas, quando na prática, tenta evitá-lo a todo o custo.
- Evitá-lo? Como? Não estou a perceber...
- Não dizem os cristãos que a morte é o encontro com o Pai? Se é (e se as pessoas não são fingidas), então porque temem tanto o encontro com o Pai? Porque têm tanto medo de ir desta para melhor? Acaso deverá o filho ter receio de encontrar o Pai que tanto diz amar?
- Porque a morte é um grande mistério e ninguém sabe ao certo o que está do lado de lá, (se é que existe o lado de lá...) - comentou a Susana.
- Não, filhas, não é nada disso. A verdade é que as pessoas, no fundo , no fundo, não estão seguras nas suas crenças, não acreditam verdadeiramente no que dizem os padres, porque se acreditassem, a morte deixaria de ser encarada como uma tragédia, passaria a ser uma coisa natural...
- Natural? Chamas natural a um gajo esticar ignobilmente o pernil, para depois ir para debaixo dos torrões fazer tijolo "per omnia saecula saeculorum"? Até se transformar em pó? Tem juízo, meu.
- Bem, natural, natural, confesso que não será... mas o que queres que eu te faça? Fui eu que fiz a morte tão feia e tão repulsiva?
- Talvez esteja aí o dedo do Criador. Se a morte fosse perfumada, bela e rodeada de prazer, como é por exemplo a sexualidade, quem é que suportava esta merda de vida e não se tinha já matado? Toda a gente quereria dar o peido mestre para gozar no Além as bem-aventuranças, na companhia do Pai...- disse a Inês.
- Ah, ah, ah, ah, ah...
- O homem é tão egoísta e tão fodido - continuou o Führer -, que Deus não confiou nele para assegurar a continuidade da espécie. Ele sabia que se o acto procriador exigisse um poucochinho de sacrifício, a criação estava condenada a desaparecer mais cedo ou mais tarde. Para evitar isso, rodeou o acto sexual do mais intenso e incomparável dos prazeres...
- Nesse ponto estamos todas de acordo. - disse a Ruth. - Não há neste mundo prazer mais baril do que aquele que advém duma boa foda... Falo por mim...
- Ah, ah, ah, ah, ah, ah...
- Mas até no sexo o homem achou maneira de contrariar os desígnios de Deus, (ou da Natureza, se quiserem...). Veja-se o caso dos chamados tarados sexuais: dos paneleiros, das lésbicas, dos que praticam a bestialidade e por aí fora... Tirando o prazer, não se descortina um fim útil que justifiquem tais actos em si mesmos. Talvez seja por isso que são considerados pela religião como actos "contra-natura" e, como tal, abomináveis aos olhos de Deus, porquanto não se enquadram no seu Plano, que é, em última análise, o de assegurar a continuidade da Vida. S. Tomás de Aquino considerava a bestialidade como o mais grave dos pecados que se podia cometer contra a natureza. Tão grave que ainda hoje não está na mão dos padres perdoá-lo; apenas o Papa o pode perdoar, de acordo com o que estipula o Direito Canónico. A lei mosaica era ainda mais implacável: "O que tiver comércio com animal, seja morto e mate-se também o animal" (Êxodo, XXII, 19, e Levítico, XX) Actualmente o Direito Criminal é muito mais indulgente, por considerar a zoofilia como uma tara, consequência de certas nevropatias, embora entenda que em muitos casos pode resultar de puro vício ou perversão. Em qualquer dos casos, o Código Penal Português não prevê qualquer tipo de sanção para os zoófilos, a não ser que dêem muito nas vistas e provoquem escândalo público. Sendo assim, podem apanhar com o artigo 390.º do Código Penal...
- E o que é que diz o artigo 390.º ? - quis saber a Ruth.
- Não me digas que já estás à rasca?
- Nem pó, meu, nem pó... apenas tenho curiosidade...
- Diz que quem cometer ultraje público ao pudor "será punido com prisão até seis meses e multa até um mês." Por outras palavras: pode apanhar com seis meses de choça…
- Ouviste bem, Ruth? - sorriu a Rosária. - É o que te pode acontecer. Não te cuides, não te cuides...
- Anda vai chatear o padre da Azoia...
- Ah, ah, ah, ah, ah...
Retomando a palavra, o Führer continuou:
- Também nesta matéria a Igreja foi duma intolerância e duma crueldade a toda a prova, ao condenar à morte os que incorriam em tais ilícitos.
- Mas isso foi na Idade Média ou então nos tempos bíblicos.
- É verdade que a Igreja já não possui a crueldade dos outros tempos, porque, entretanto, os costumes evoluíram muito, mas a intolerância continua a mesma, podeis crer! A propósito já ouviram falar na "LA MAJA DESNUDA"? Pois fiquem sabendo que Goya foi processado pela Inquisição como autor do quadro, o que lhe trouxe um monte de problemas, meu. Ora o quadro data dos princípios do séc. XIX...e não tem nada de mal; é apenas um nu.
- Nos tempos que correm tal tipo de repressão não seria admissível! - afiançou a Susana, logo secundada pela Rosária e mais a Inês.
- Estais enganadas, filhas, muito enganadas .- E se eu vos disser que "LA VENUS DEL ESPEJO" de Vélazquez, considerado o mais belo nu da pintura espanhola, foi danificado a golpes de machado, em 1914?
- E por quem? Por quem? Por algum padre maluco? - perguntaram as raparigas.
- Não, filhas, por acaso não. O crime foi perpetrado por uma mulher...
- Uma mulher?!
- Sim, uma mulher! Chamava-se Mary Richardson e agrediu a tela em protesto contra os vexames que sofria o movimento feminista da época. Como vêem, a intolerância é de todos os tempos e vem muitas vezes donde menos se espera...
- E quanto à tela, sempre a conseguiram recuperar?
- Sim, quem quiser admirá-la que vá ao National Gallery de Londres...
Após curta pausa, o Führer continuou:
- A Arte é muitas vezes uma sublimação de instintos muito primitivos. A bestialidade, por exemplo, está largamente representada tanto na iconografia antiga, como na mais recente. Estou-me a lembrar duma pintura mural que vi uma vez no Museu Nacional de Nápoles, e que data do ano 190 a.C.. Se a memória não me falha acho que representa uma cena de sátiros muito curiosa. No Louvre então é o que se queira. Não sei se sabem, nas métopas do lado sul do Partenão de Atenas há um baixo relevo representando os Centauros à porrada com os Lapitas. Nas referidas métopas trabalharam vários discípulos de Fídias. Imaginem o meu espanto quando, duma vez que visitava o Louvre, dei de trombas com a métopa 30… Eh pá foi cá uma emoção! Na minha vadiagem pelo museu chamaram-me a curiosidade várias telas. Uma mostra "O belo Centauro Velho" com as mãos atadas atrás das costas, atormentado por Eros, o Amor, que lhe pulou para a garupa; outra, de Rubens, mostra a "Diana e as ninfas surpreendidas pelos faunos". É maravilhosa! Diana caçava com as suas ninfas numa floresta, quando de repente aparecem quatro faunos entesoados para as foderem. Outra de que também gostei muito foi "Pan und Syrinx" de Jakob Jordaens, para já não falar da "Allegorie der Fruchtbarkeit", ou seja, a "Alegoria da Fecundidade" que considero uma verdadeira obra prima. A "Afrodite e Pã", existente no Museu Nacional de Atenas também é muito sugestiva. Nela, a beleza do corpo nu de Afrodite contrasta com o aspecto bestial do monstro com cornos e patas de cabra. O olhar provocador de Afrodite e a presença folgazã do pequeno Eros contradizem o gesto de ameaça da deusa, que empunha uma sandália como se quisesse castigar o atrevido... Estou-me ainda a lembrar de ter visto num livro sobre arte simbolista, uma gravura muito interessante. Representa uma mulher nua numa cama, com dois garanhões aos pés, disputando a primazia do "horsefuck".
- E como se chama a gravura? - quis saber a Ruth.
- "The stallions and the Eunuchs "…
- Porquê "eunuchs"? Não estou a ver…
- Porque à cabeceira da cama estão dois ou três eunucos mortos de inveja…
- Ah, ah, ah, ah, ah…
- A intenção é óbvia. Com a sua inspirada gravura, o autor quis representar a antítese entre a impotência e o cúmulo da pujança sexual. E não há dúvida de que conseguiu o seu objectivo de forma admirável. A alegoria dos garanhões e dos eunucos não podia ter sido melhor escolhida, convenhamos.
- E quem é que assina esse insólito trabalho?
- Jacek Malczewski.
- Isso soa a polaco - comentou a Ruth, a mais poliglota do grupo.
- Afirmativo. Trata-se na verdade dum artista polaco.
- E onde é que pode ser admirada essa gravura que dizes?
- No museu Narodowe de Varsóvia, filha.
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A noite ia já muito adiantada e a conversa começava já a cansar. É então a altura das violas entrarem de novo em cena. Soam no ar alguns acordes melodiosos, mas dá para notar que os executantes são um bocado "naifs", estando muito longe do "virtuosismo" dos verdadeiros profissionais. De qualquer modo o som duma viola é por si só tão apelativo e agradável que resolvo aguardar pelo desfecho da actuação. Ensaiam diversos tipos de música, como que a apalpar o terreno, acabando por se fixarem nos ritmos africanos. Achei especial piada, quando o führer começou a cantar à preto, com uma voz rouca e com forte acento gutural. O que eu me ri, filhas! O gajo tinha um jeitão a imitar os pretos que não vos digo nada... parecia um "turra" dos verdadeiros a cantar no dialecto lá deles... Ao princípio, ainda cheguei a pensar que o tipo tivesse estado em África e que tivesse aprendido por lá o linguajar da pretalhada, mas, pouco depois era ele próprio que deitava por terra a minha tese ao confessar que tinha estado a cantar de improviso. Quer-se dizer: tinha-me enganado, o sacana!
Terminado o sarau, voltam à conversa, mas eu é que já não estava para ouvir mais paleio, por mais interessante que ele pudesse ser. Resolvemos, pois, recolher às tendas. O Idalécio e a Susana, também recolhem à pequena canadiana, junto à nossa, enquanto os outros continuam à volta da fogueira no mais animado convívio. Antes de adormecer, oiço os dois pombinhos a "arrulhar" entre eles. Não foi preciso afinar o ouvido para captar a "emissão" do gajo e mais da gaja. As palavras chegavam até nós com uma clareza impressionante. Podíamos ouvir tudo! Fumam primeiro uma "passa" , após o que começam a rir em completo descontrolo. "Muito riso, pouco siso" - pensava cá para os meus botões. Pelo teor das risadinhas concluo que estão maradinhos de todo. Será da droga?"
- Chega-te para cá, querido.
- Não me chateies... quero dormir...
- Que se passa contigo, amor?
- Amor? Que queres dizer com isso? Que me amas?
- Sim, muito.
- Não sejas hipócrita! Não há coisa que eu mais odeie que a mentira e o fingimento.
- Calma, tem calma, meu...
- Como posso ter calma se estás a gozar comigo indecentemente?
- A gozar? Porquê?
- Porque o teu amor é uma treta... porque tu nunca me amaste!
- Desculpa se te ofendi, mas acho que estás a ser muito injusto...e... e cruel!
- Cruel eu? Ah, ah, ah! Deixa-me rir...
- Porque não acreditas no meu amor? - perguntou a rapariga de mansinho, não fosse o gajo explodir de novo.
- Porque as mulheres são todas à uma. Dizem que amam, que amam, que amam... e, às tantas por três, põem-nos os cornos cá com uma pinta! Desavergonhadas!
- Não há regra sem excepção...
- Que queres tu dizer com isso? Não vais com certeza dizer-me que tu é que és a excepção...
- Claro que não. Eu sou como as demais, sem tirar nem pôr. Posso ter dormido já com muitos homens, mas só amo um de cada vez... não...não... não me considero promíscua...
- Ah, assim já gosto de te ouvir falar! A sinceridade acima de tudo...
E depois duma curta pausa, o rapaz remata a conversa, dizendo:
- Queres então foder, não é verdade? Assim como assim, vamos lá embora!
E desataram a mocar como gente grande, num estardalhaço dos diabos. A cópula não teria demorado mais que dois ou três minutos, porque, entretanto, o rapaz deixou-se vir num urro de prazer que ecoou por todo o acampamento. Aquilo foi a despachar, porque o que o gajo tinha acima de tudo era...sono!
(Coitada da Susana...os homens são uns egoístas).
Depois do que ouvi, também a mim me apeteceu "dar uma trancada", mas acabei por não a dar por duas ordens de razões: A primeira e, talvez a mais importante, era que eu não tinha a intimidade necessária para fazer fosse o que fosse, visto que a minha Anita estava ao nosso lado a dormir; a segunda, tinha a ver com o facto de ter a tenda da Fofinha mesmo ao pé da minha. "E o que é que isso tem?" - perguntareis. O problema, filhas, é que eu não consigo mocar pela calada! Sempre que pratico o coito, faço um chinfrim levado da breca. Em tantos anos de prática ainda não consegui aquela disciplina, aquela contenção, que permite a um gajo sufocar o estertor do orgasmo. Nisso sou como o drogado, meu vizinho. Tenho de fazer lambança, ou então nada feito. No que respeita a discrição, o Mandindo sabe-a toda. Em todo o tempo em que estivemos no Norte, jamais lhe ouvi um suspiro ou fosse o que fosse. Quanto à Fofinha idem. Discrição absoluta! "Talvez fizessem continência!" - direis. Nem pensar, filhas, nem pensar! Porquê? Porque a Fofinha não deixava o Mandinho tocar em cebola crua à noite! Ora o Mandinho é um doido por cebola... "Olhem que... olhem que até lhe chegou a dizer-lhe certa vez: "Se comeres cebola já sabes, esta noite não há nada para ninguém!"
Perante a força dum tal ultimato, o Mandinho não teve outro remédio senão renunciar à cebola, coitado. A Fofinha valia bem todo os sacrifícios. Só não compreendo, palavra de honra, é como é que ele conseguia fazer a "coisa" sem dar notim... é... é algo que ainda hoje me faz uma grande confusão. (Será que ela lhe punha uma mordaça na boca antes de fazer amor?). MISTÉRIOS INSONDÁVEIS …
Por volta das duas, três horas da madrugada sou acordado aos safanões, pela minha mulher. Acordo assarapantado, sem saber bem onde estou. Ainda não tinha entrado em mim quando ouço a minha mulher dizer-me num sussurro de pânico:
- Estamos perdidos, ó homem.
- Que se passa?
- Ouve a conversa...
Lá fora, do pé da fogueira, chegavam-nos as palavras dos drogados, que àquela hora tão matutina, pareciam estar em estranho conciliábulo. Agucei o ouvido e pus-me à escuta a ver o que diziam.
- E daquela vez que eu disse para a dona da tasca, depois de ter enchido a mula...
- O que é que tu disseste, meu?
- "A senhora não se importa que eu lhe pague, pois não?" Quando ela me disse que não, que não se importava, virei-lhe as costas e disse-lhe: "Então se não se importa, adeus!" - e dei o fora, enquanto ela barafustava que eu sei lá...
- Ah, ah, ah, ah, ah...
Embora a conversa não fosse propriamente de cavalheiros, eu achava que não havia motivo para alarme, pelo que disse à minha mulher:
- Foi por causa disto que tu me acordáste?
- Não fales alto que eles podem ouvir-te!
- Está bem, eu falo baixinho, mas por favor responde à minha pergunta.
- Ouve o resto da conversa, se queres ver...
Fiquei de novo à escuta...
- E daquela vez na pensão? Alimpámos os quartos todos, ainda fizemos uma boa maquia...
"EH LÁ!" - pensei para comigo e para com Deus. - "QUE RICAS COMPANHIAS É QUE NÓS ARRANJÁMOS..."
E um pouco mais adiante:
- Sabias que saíste na primeira página do Jornal do Crime, meu?
- E com a tua foto e tudo!
- Dizem que...
- Eu não quero saber o que dizem! Eu só quero é saber é como estavam as minhas trombas. Estavam ao menos apresentáveis, não?
- Porque te preocupa tanto esse pormenor?
- Por causa das miúdas, meu, por causa das miúdas....
- Olha que te culpam de coisa feia, hein! Se a bófia te apanha, apanhas por tabela...ficas de cana por uma porrada de anos!
- Quero lá saber, meu. Perdido por dez, perdido por mil!
- Acusam-te do assalto às bombas de gasolina de Cabeceiras de Basto e de teres morto um homem...
- Por acaso, desta vez até fui eu, mas, enfim, têm-me acusado de tanta falsidade, que eu já nem faço caso; é apenas mais um crime para o meu currículo.
- E aquele gajo que nós enterrámos no pinhal? Passado um mês já tinha uma perna de fora, devorada pelos cães. Tivemos que o enterrar mais fundo...
- Cheirava mal como a puta que o pariu...
A conversa continua neste tom por muito tempo, com os gajos a vangloriarem-se das suas façanhas criminosas. Já não se tratava de simples roubos, mas de crimes de sangue... com mortos à mistura. Como é natural ficámos muito preocupados, mas o pior ainda estava para vir quando ouvimos o grupo a maquinar um assalto contra... nós!
- Vamos abafar estes tipos. Tu e tu dominais os gajos, enquanto que eu e mais aqui o "Tranca Longa" tratamos das gajas...
Ao ouvir isto o meu coração ameaça saltar-me do peito. Pressinto que tenho de agir imediatamente, que tenho de tentar sair dali o mais rapidamente possível para pedir socorro, antes que aconteça uma desgraça. E envergando o meu colete salva-vidas, digo para a minha mulher:
- Vou sair da tenda e ...
Não chego a acabar a frase. A minha mulher abraça-se a mim, completamente descontrolada dos nervos e pede-me que a não deixe ali sozinha e mais a menina...
- Tem calma, porra! - digo-lhe em voz baixa. - Tenho que sair daqui, enquanto é tempo. Se nos apanham todos juntos estamos perdidos!
Por sorte as canoas estavam mesmo à entrada da tenda, e a água não estava a mais de dois metros de nós. Se eu conseguisse fugir numa canoa estávamos salvos. Eles, com certeza que não eram tão parvos que fossem atacar, estando eu ao largo, pronto a dar o alarme. Seria demasiado estúpido! Havia, contudo, um pequeno problema. A nossa tenda ficava situada no cimo dum pequeno "planalto" com mais dum metro de desnível em relação à água, o que impedia que eu pudesse embarcar ali mesmo ao pé. Para a execução do meu plano, eu teria de ir ao longo da margem umas dezenas de metros até encontrar o sítio adequado para o embarque. Isto implicava que teria de passar a curta distância dos drogados, o que era um risco dos diabos. Mesmo sendo de noite, era quase impossível não ser descoberto, por causa da maldita fogueira, cujas chamas rasgavam as trevas. De qualquer modo, e apesar do perigo, eu tinha de agir sem demora. Não podia consentir que nos apanhassem como coelhos numa toca... Com isto em mente exponho à mulher o plano:
- Vou sair e, logo que esteja lá fora, arrasto a canoa ao longo da margem até ao "cais" e ponho-me ao largo...
- Não! Não nos vais deixar aqui sozinhas! - diz-me ela a chorar. - Além disso, mal saias da tenda eles atacam-te e ainda é pior...
- Se eles vierem para me atacar, atiro-me imediatamente à água e tento nadar para longe, ao mesmo tempo que grito por socorro.
- E quem é que te vai ouvir?
- Aqui perto há algumas tendas montadas, espero chamar-lhes a atenção...
- Não sejas doido, fica mas é aqui ao pé de nós! Juntos sempre estamos mais seguros...
- Estás enganada, se eles nos apontarem uma "naifa" ou uma pistola, o que é que podemos fazer? Nada! Nada, a não ser deixar-nos fazer o que eles quiserem.
- O pior é a menina...
- E a Ana? Essa é a primeira a ser violada!
- Coitada da Ana...
- Se ao menos tivesse aqui a minha pistola…
- Onde é que a guardaste?
- No porta-bagagens do carro.
- Ainda bem que a não tens aqui...
- Porquê?
- Porque os tipos ficavam furiosos e então é que nos matavam mesmo! Assim talvez só nos roubem...
- Estás doida ou quê! Deixa pelo menos dez, senão os gajos não vão acreditar que temos só esse dinheiro e vão exigir-nos o resto...
- Avisa ao menos o Armando e a Ana - sussurra a minha mulher numa voz cheia de angústia.
Abro o fecho da canadiana sem fazer barulho e acordo-os.
- Eh! parece que vamos ter problemas...
- O que se passa? - pergunta a Ana cheia de medo.
- Acho que os drogados estão a tramar alguma...
O Armando, que tem um sono pesado, parecia não se ralar com nada. Queria era dormir! Se bem me recordo, a Ana teve de o abanar várias vezes para que ele tomasse consciência do que se estava a passar. Depois de me ouvir, disse-me que estivesse descansado, que eles não iriam atacar-nos, que havia outros campistas em redor, etc., etc. E dizendo isto volta a passar pelas brasas…
Eu não tenho mais nada. Agarro no "slalom" e avanço silenciosamente ao longo da margem, num "suspense" indescritível. Os gajos continuavam entretidos na conversa, e talvez por isso, não deram por mim. Pude assim chegar "à praia" e embarcar para o largo, onde a escuridão era completa. "Que alívio, meu Deus! " A partir de então achei que não havia mais razões para pânicos. E serenei. Se os tipos tivessem a veleidade de fazer fosse o que fosse, eu imediatamente daria o alarme. O pior era se os gajos tinham alguma pistola e me fodiam com um tiro! No alto da ravina, junto à estrada estava o meu toyota. Se eu pudesse chegar ao porta-bagagens tinha a situação controlada. O pior é que perto do carreiro que conduzia à estrada estava outra fogueira de hippies, companheiros daqueles que nos queriam tramar. Pertenciam à mesma confraria, só que estavam num grupo diferente. Não podia pois fazer fosse o que fosse. A única coisa que tinha a fazer era ficar ali no escuro até o sol raiar, a ver no que paravam as modas... Ao fim de algum tempo de estar em "stand by", sinto-me a arrefecer. Tinha apenas uns calções e o colete salva-vidas como agasalho. E a maresia da noite a fazer-me bater os queixos! Deste modo, para minorar o frio, começo a remar ao longo da "costa" num vaivém interminável. De permeio, para quebrar a monotonia da trajectória, faço alguns círculos, elipses, etc.. O importante era manter-me em movimento para não enregelar. Era verão, bem sei, mas à noite toda a gente sabe que a temperatura desce bastante. O estardalhaço da canoa a rasgar a água acaba por chamar a atenção dos hippies. Vejo-os a olhar para o escuro, com um ar muito surpreendidos. Devem pensar que sou algum maluco excêntrico, para andar para ali de braços nus a remar nas trevas. Passado o espanto, voltam à conversa ou simplesmente ao mutismo contemplativo." COMO É QUE CONSEGUEM AGUENTAR-SE EM VIGÍLIA TODA A SANTA NOITE? SERÁ QUE ÀQUELES FILHOS DA PUTA NÂO LHES DÁ O SONO?" As horas passam lentas e viscosas e não há meio de chegar o dia. Para amenizar um pouco a seca, decido fazer um pequeno "raid" até à ponte, cuja estrada segue para Vieira do Minho. Quando me estava a aproximar sinto uma enorme algazarra. Um bando de noctívagos fazia um charivari de alto lá com ele. Ele eram berros, ele era motas para um lado e para o outro...eu sei lá. Quem quer que estivesse acampado por aquelas bandas jamais poderia dormir com uma barulheira daquelas. Não sei se era do álcool, se da droga, o certo é que os tipos não se calaram toda a noite. "NUNCA VI NADA DE SEMELHANTE A ISTO! - lembro-me de ter pensado. Era para passar debaixo da ponte, mas depois do que ouvi achei que era mais sensato voltar ao vaivém, aos círculos e por aí fora...
Estava nisto quando, de repente, sou alertado por uma espécie de tiroteio. Olho para a estrada, à minha frente, e vejo as luzes duma viatura a relampejar por entre os pinheiros e fazendo um cagaçal dos diabos. "HUM...DEVE SER UMA AMBULÂNCIA..." - penso para com os meus botões. "O QUE VIRÁ ELA PARA AQUI FAZER A ESTAS HORAS MORTAS?" Deve ter havido azar entre a rapaziada. E lembro-me da algazarra na ponte. Provavelmente vinha recolher os feridos ou os mortos de alguma rixa. Quanto aos tiros deduzi que deviam vir do tubo de escape da ambulância, ou do motor...não sei.
- Foi o Manel que deu os tiros? - perguntou-me.
- Quais tiros?
- A meio da noite, não ouviu tiros?