SUSTOS AVULSO
 
Narração de alguns breves episódios que ocorreram na descida do Zêzere, do Douro, do Tejo e do Guadiana.

NOTA PRÉVIA

Depois de ter falado do Zêzere e do Minho com tanto pormenor, penso que seria da mais elementar justiça "repetir a dose" para os restantes rios que fazem parte do meu álbum de recordações. Estão neste caso o Douro, que desci de Barca de Alva até ao Porto; o Tejo, que desci desde Abrantes até à Ponte 25 de Abril, (Lisboa) e, finalmente, o Guadiana, que desci desde Mértola até Vila Real de Santo António.

As vivências, todas reunidas, daríam para grosso volume, mas a verdade, filhas, é que o Zêzere e o Minho chegaram e sobraram para mim. Sinto-me demasiado exausto para me abalançar em novas aventuras descritivas, pelo que apenas trarei à colação alguns "flashes" mais impressivos e ainda assim ao de leve. Palavra que sinto muita pena, visto que qualquer dos rios excluídos mereceria só por si pormenorizada crónica. Paciência. Pode ser que um dia arranje pedalada para voltar ao assunto, mas cheira-me que tal projecto jamais virá a concretizar-se. Neste momento outros vectores me puxam, empurrando-me para outras áreas, nomeadamente para a filosofia, a qual exerce em mim uma grande sedução, principalmente a filosofia schopenhauereana.

 


ALGUNS CAGAÇOS AVULSO

 

O DOURO

A minha mulher, ao volante do toyota, partira de Barca de Alva rumo à Barragem do Pocinho onde, de acordo com o combinado, devia aguardar a nossa chegada. Quando eu e o meu irmão já nos encontrávamos no barco, prontos para a descida gloriosa, verificámos que a chave do cadeado que bloqueava o motor de 25 cavalos, não estava connosco. Tinha ido no carro com a minha mulher. "AI QUE NERVOS, FILHAS!... Sem motor e com um barco pesadão de 4,30 m de comprimento o que é que podíamos fazer? Remar, claro. Mas os remos mal davam para fazer mexer o estupor do barco, quanto mais para navegar uma porrada de quilómetros!

Depois de alguns nomes feios e de ver que os "nervos" não resolviam nada, decidi utilizar a cabeça. Olhando para a canoa que ía junto à proa, tive uma ideia e disse para o meu irmão:

- Só há uma maneira de descalçar a bota. Eu vou de kaiak até à barragem do Pocinho. Uma vez na posse da chave volto pelo mesmo caminho ao teu encontro, okay? Tu, entretanto, para não ficares para aqui a secar, podes ir remando rio abaixo nas calmas...

Meu dito, meu feito. Sem mais delongas pus-me a puxar pelos bofes, na ânsia de galgar os cerca de 30 km que me separavam da barragem. Pois é. Não sei porquê, os trinta acabaram por me parecer trezentos! Foi cá uma estopada, filhas, nem quero que ma lembre! Quando, finalmente, cheguei, lá estava a minha mulher à espera, raladíssima com a nossa demora. A estafa tinha sido tanta que nem por sombras pus a hipótese de voltar de kayak pelo sentido inverso. Amarrada a embarcação no tejadilho do carro, pus-me ao volante e ala que se faz tarde! Volto com a minha mulher a Barca de Alva. Uma vez aí, meto-me no kayak, rio abaixo, convencido de que alcançaria o meu irmão dentro de dez a quinze minutos. Uma ova! Farto-me de remar... remar... e do barco nem sinal. Como é que uma "zorra" daquelas, pouco mais rápida que um caracol, podia ter andado tanto? MISTÉRIOS INSONDÁVEIS... Será que tivesse havido azar? Mas como, se o barco era superseguro? Mesmo que sofresse um rombo do tamanho duma bola de futebol, ele estava desenhado para continuar à tona, devido às suas quatro câmaras pneumáticas independentes, que o tornavam praticamente inafundável. A não ser que chocasse a toda a mecha contra um icebergue, como aconteceu com o Titanic… hipótese nada verosímel, atendendo a que por aquelas latitudes não havia icebergues, nem coisa que se parecesse. Então porque diabo é que o barco não aparecia?. Teria sido sugado por um redemoinho? Um barcão daquele tamanho? Não me lixem! Só...só...só se tivesse havido uma explosão a bordo! E comecei a pensar nos quase cem litros de gasolina que íam dentro de três jerricães, como combustível de reserva.

Meu Deus! E se tivesse havido realmente uma explosão? Uma angústia, cada vez mais aguda, começa a ganhar vulto dentro de mim. A perspectiva de ter ocorrido uma tragédia faz com que eu me "passe", fazendo-me acelerar o ritmo das remadas para além das minhas forças. Curva após curva o rio vai desfazendo todas as minhas esperanças. Nem vivalma! A serra de Moncorvo que acompanha o Douro até ao Pocinho, nem sonha o que me vai na alma. Para cúmulo do meu desespero, avisto em determinado momento, uma coluna de fumo lá ao longe, a elevar-se dum cabeço sobranceiro ao rio. "AI QUE NERVOS, FILHAS, AI QUE NERVOS!" Fazendo um esforço sobre-humano, puxo pelos bícepes, na ânsia de chegar lá. Algum tempo depois avisto a origem do fumo. Era um pastor que andava a fazer uma queimada na encosta dum monte. Que alívio! Ainda bem que não era aquilo que eu pensava, senão nem sei... Prossigo o meu "sprint" por entre os montes. Mais abaixo, ao dobrar uma curva, avisto uma pequena praia fluvial com pouco mais de meia dúzia de veraneantes, entre rapazes e raparigas. Cruzo-me com um sujeito em cima dum barquito de borracha e pergunto-lhe se viu passar por ali um barco com um tipo a remar. Responde-me que não. O meu medo volta ao de cima. Poderá lá ser ou quê! Uma zorra daquelas ter andado tanto?! Continuo a remar rio abaixo num crescendo de ansiedade. Mais umas curvas e depara-se uma recta a perder de vista. Ao longe, na margem esquerda, parece-me vislumbrar uma protuberância a indiciar a presença de algo. Será o barco? Deus queira! Continuo a remar, indiferente ao vento e à forte ondulação que a qualquer momento ameaça virar-me de pantanas. Agora somente uma coisa me interessa: saber o que é aquela protuberância escura que, à medida que me aproximo, vai ganhando em tamanho e nitidez. Mais umas centenas de metros e eis que me encho de alegria. Junto à foz do Côa, estava o meu barquinho, com o meu irmão sentado na margem a descansar. Estava completamente arrebentado, coitado. Parara ali, porque havia ali ao pé um apeadeiro ferroviário. Era óbvio que se as coisas corressem para o torto, sempre tinha a hipótese de apanhar o comboio para Barca de Alva. Quando cheguei à fala com ele, a primeira coisa que lhe perguntei foi como é que conseguira percorrer uma tão longa distância na zorra. Respondeu-me que fora apanhado por uma corrente favorável. Alguém na barragem abrira as goelas às condutas de descarga e daí a corrente na albufeira. Estava explicado o mistério. Uma vez no barco e com a chavinha na mão, ah patas do diabo! Aquilo é que o barco voava, ó filhas...

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Um pouco a juzante do Tua, logo a seguir à ponte da Ferradora, entramos numa espécie de desfiladeiro, ladeado de ambos os lados por duas ciclópicas escarpas. À minha esquerda vejo uma inscrição na rocha que reza mais ou menos assim:
 

IMPERANDO D. MARIA PRIMEIRA (…)
SE DEMOLIU O FAMOZO ROCHEDO
QUE FAZENDO AQUI
HUM CACHAM INACCESSIVEL
IMPOSSIBILITAVA A NAVEGAÇÃO
DESDE O PRINCIPIO DOS SECULOS
DUROU A OBRA
DESDE 1780 ATE 1791
PATRIAM AM AVIFILIOSQUE DILEX

O texto anterior não passa duma réplica dum outro mais antigo que é o verdadeiro original. Só que este se encontra habitualmente submerso, donde derivou a necessidade de gravar-se uma cópia um pouco mais acima, onde a água não chega. A escassas dezenas de metros damos de trombas com a Barragem da Valeira, uma poderosa barragem hidroeléctrica que sozinha produz mais energia do que três ou quatro das outras suas congéneres. Lembro-me de Camilo e do seu romance "A Queda dum Anjo", no qual o escritor narra a tragédia do Barão de Forrester que, ali naquele mesmo lugar, morreu afogado, quando o barco Rabelo onde viajava, soçobrou de encontro ao cachão da Valeira, de tão sinistra memória. Conta a lenda que o Barão foi sorvido pelo abismo porque levava os bolsos carregados de libras de oiro. Quanto à D. Antónia Ferreira - a anfitriã e a mais abastada proprietária vitivinicultora da região do Douro – essa safou-se, porque a sua grande saia rodada a manteve à tona, até que um dos criados a salvou. (Ver nota biográfica no fim do livro)

Foi ainda ali que um vento súbito atirou com a bóina do meu irmão à água. Ainda andei à roda com o barco a ver se a apanhava, mas acabou por se sumir nas profundezas sem apelo nem agravo. Por cima da barragem passa uma estrada. Amarrei o barco na margem direita e fui dar uma vista de olhos ao curso inferior do rio. Do fundo do vale um barulho sinistro chega aos meus ouvidos. Era um cachão de meter medo! A corrente é ali tão forte que os barcos que sobem o rio têm muitas vezes de ser puxados com grossos cabos de aço. Um dos funcionários da barragem explicou-me que ainda não há muito ia acontecendo ali uma tragédia. Um barco transportador de minério estava a ser puxado por dois cabos, quando de súbito, um deles partiu. Ia sendo o fim do mundo, filhas. Estavam a ver que o barco se virava. O que valeu foi o segundo cabo ter aguentado, senão podia ter acontecido uma desgraça.

Depois de ter ouvido isto, pus de parte a ideia de passar o referido cachão, mesmo a descer. Há quem o faça - eu sei - mas não é o filho do Duarte e da Albertina que se se arrisca a passar por lá. Era já noite escura quando avistamos os faróis dum carro a descer o pinhal. Era a minha mulher no toyota, com o atrelado do barco. Perguntamos-lhe o motivo do atraso. Disse que se tinha perdido na serra, que apanhara um grande cagaço, que ao parar para pedir uma informação, um homem tentara forçar a entrada no carro, que o que lhe valera fora arrancar de imediato de prego a fundo. Tudo isto acontecera porque se desviara da estrada principal, a fim de se dirigir para Alqueidão, onde tínhamos combinado encontrar-nos, por acreditarmos que a dita terriola ficava à beira-rio. Só que o mapa de que dispúnhamos era tão bera que nos induziu em erro. A dita terriola ficava num recôncavo da serra, perdida no meio dos montes. Quando a minha mulher perguntou a uma mulher do povo pelo caminho de acesso ao rio, ela riu-se, dizendo que não havia nenhum, que a estrada terminava ali.

Também na barragem da Valeira não havia cais ou caminho que conduzisse à estrada. Só trepando pelo acidentado do terreno, o que era absolutamente inviável atendendo ao peso do barco. Para não ficarmos para ali encurralados, tivemos de voltar para trás à procura dum sítio que além de acessível tivesse simultaneamente ligação à estrada principal, o que acabamos por encontrar. Lembro-me que o "cais" ficava na margem esquerda do rio, que era um sítio ermo, que a noite tornava ainda mais pavoroso. Depois duma estopada dos diabos, lá conseguimos pôr o barco no atrelado e desandar em direcção ao Pinhão, uns 15 km a jusante da barragem da Valeira. Chegamos era já noite avançada.

Depois de umas voltas lá conseguimos chegar à borda do rio, onde resolvemos passar a noite. Eu e o meu irmão dormimos nos sacos camas, ao relento, enquanto que a minha mulher, mais medrosa, fez questão de dormir com a Anita dentro do carro. O susto que apanhara na serra tivera sem dúvida as suas consequências. Devia ser perto duma da manhã quando oiço uma algazarra dos diabos. Pego na walter 6.5 e tomo posição para o que der e vier. À distância de cem a duzentos metros avisto, à luz dos candeeiros, um grupo de rapazolas a sair duma casa. Seria um bar, uma discoteca? Não sei. O que sei é que os tipos desapareceram na noite sem se darem conta da nossa presença. Sumiram-se sem nos causarem "encheco". Já mais tranquilo decido voltar ao saco e tentar adormecer. Isso sim! Qualquer pequeno barulho era o que bastava para ficar de orelhas arrebitadas e pegar na pistola. O meu irmão também não conseguia conciliar o sono.

- O PIOR É SE APARECE PARA AÍ O JACK…

Ao dizer isto começamos todos a rir a bandeiras despregadas. O meu irmão - e eu em especial - desatamos num riso incontrolável que jamais parece ter fim. A ideia de aparecer por ali o "Estripador" é tão maluca que explica até certo ponto o nosso "ataque" de hilaridade. Digo até certo ponto, porque o resto da "variância" era devida aos nervos...

Aos primeiros alvores da manhã, temos a grata surpresa de vermos o belo rio, com dois ou três barcos rabelos junto à margem direita. O cenário é tão belo que julgamos estar a sonhar. Horas mais tarde, já com o comércio aberto, damos uma voltinha pelas ruas da simpática povoação, ao mesmo tempo que aproveitamos para nos abastecermos de géneros alimentícios.

Era para prosseguirmos viagem rio abaixo, mas o simples facto de ter deixado o troço Valeira-Pião por explorar, era para mim uma espécie de pedra no sapato que não me largava. Para acabar com os meus fornicoques, achei que a única coisa que tinha a fazer era subir o rio até à mítica Valeira. Por informações colhidas "in loco", eu sabia que o percurso estava cheio de ratoeiras. Os penedos submersos eram um verdadeiro perigo. Nesta viagem a minha mulher também quis ir e mais a Anita, de modo que agora éramos quatro. A paisagem, tanto dum lado como do outro era lindíssima. As vinhas em socalcos, cobriam as encostas dum verde muito pitoresco. Aqui e ali erguiam-se palacetes dos Senhores do Vinho, tendo alguns capela privativa e tudo! Vem-me à memória o "slogan" do tempo do salazarismo: "BEBER VINHO É DAR DE COMER A UM MILHÃO DE PORTUGUESES!". Ora, ora, uma história! Como em tudo na vida, "uns comem os figos, a outros rebenta-lhes a boca". Os donos dos opulentos palacetes pertencem, claro, ao género daqueles que comem os figos. Vem-me à memória uma canção dos meus tempos de menino e moço:

 

Ó meu rio "Doiro",
Do vinho famoso,
Ó rio doirado,
Não sejas vaidoso...
 

À medida que vamos subindo o rio, o vale vais-se tornando cada vez mais estreito e ameaçador. A pouco e pouco a vinha vai cedendo o lugar à penedia, as encostas verdejantes dando o lugar a precipícios de meter medo. Parecem terras do demo, Nosso Senhor me perdoe. Pelo sim, pelo não, amarramos a Anita a uma câmara de ar. Todos levam colete salva-vidas, menos eu. Acho que se alguém tem de ir ao fundo, esse alguém devo ser eu. Não sou eu o "comandante do navio"? Mais uns quilómetros e eis que se nos depara à nossa frente a sinistra barragem. A corrente é forte e começo já a sentir o barco a querer fugir-me do controlo. A minha mulher, à vista de tal colosso, e vendo as águas turbilhonantes a aproximarem-se cada vez mais, começa a gritar como uma histérica, implorando que faça meia volta e fuja dali. Mas eu, teimoso como um burro, continuo a avançar em direcção ao perigo. Estávamos para aí a uns cem metros do cachão, quando avistamos um homem a meio da encosta agitando os braços dum modo frenético. Quereria ele alertar-nos para algum perigo? Pressionado pelos gritos de minha mulher, eu não hesito. Dou meia volta e afasto-me o mais rápido que posso. Não tínhamos andado mais do que alguns metros quando ouvimos uma terrível explosão. Acto contínuo, uma chuva de pedregulhos desata a cair na água com barulho sinistro. Santo Deus! Mais um pouco e estávamos feitos! Só então me lembrei que andavam a dinamitar as margens, tendo em vista o alargamento do talvegue do rio, por forma a torná-lo mais navegável. Fora para isso, aliás, que fora criado no Porto, o "Gabinete de Navegabilidade do rio Douro" um organismo de recente criação. Dando graças a Deus por termos saído ilesos, regressamos ao Pião, onde desembarcamos.

Depois de termos comido qualquer coisa e já refeitos do susto, digo a minha mulher para se pôr a caminho da Régua, onde nos deverá esperar à beira-rio. Logo a seguir ponho o "fora de bordo" a trabalhar e o barco arranca a toda a brida para mais uma aventura. Na Régua aproveitamos para reencher os jerricães de gasolina, pois uma boa parte dela já tinha ido à vida. Aproveitámos ainda para "tratar da mandioca" em não sei que restaurante e comprar mais géneros. Assegurado o "apoio logístico" ala que se faz tarde. Lembro-me que houve um rapaz que me pediu boleia no barco, mas eu mandei-o à fava. Sabia lá quem é que ele era…

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Chegamos à barragem do Carrapatelo ao cair da tarde. Desembarcamos na margem esquerda, no términus dum caminho íngreme que conduzia à estrada principal. Rente à água havia um pedaço de terreno plano, almofadado de restolho, com um silvado atrás. Estendemos uma manta e aproveitámos para comer alguma coisa. Enquanto não chegava a hora da "deita" decidimos ver como era o rio para lá da barragem. Eh pá! Aquilo era de meter medo! A água, mistura caótica de verde escuro e espuma, agitava-se em turbilhões sinistros, numa visão de abismo.

- Como é que os barcos conseguem ali passar? - pergunto ao funcionário da barragem.- E trago à colação os pneumáticos que acompanharam o Dr. Mário Soares na descida do Douro.

- Sem problemas - responde.

Quando lhe falo na hipótese de passar por ali, pergunta-me se tenho carta de marinheiro.

- Nem de moço de convés, quanto mais de marinheiro!

Regressamos ao sítio onde temos o barco. A noite convida-nos ao descanso. Tiramos os sacos-camas e os cobertores dos alforges e toca a fazer ó-ó...

Deviam ser umas seis da manhã, quando, de súbito, sinto uma cotovelada no meu flanco esquerdo. Acordo e vejo ali mesmo ao pé um vulto com um pau na mão. Discretamente puxo da pistola e aguardo a ver no que param as modas...

- Vocês não têm medo das cobras? - pergunta o vulto.

- Não, elas não fazem mal...

O lusco-fusco não me permite que lhe distinga com nitidez as trombas, mas dá para perceber que se trata dum homem já de certa idade. O que é que o traria ali, àquela hora tão matutina? Coisa boa, não era com certeza. Não se acorda uma família inteira, a horas mortas, para pedir uma esmolinha... O bandalho devia trazê-la fisgada...

Com a pistola pronta a fazer fogo, espero que o gajo se defina, que diga ao que vem... Qual não é o meu espanto quando o aventesma me pede dinheiro para...PAGAR A RENDA DA CASA! Só me saem duques, com uma pôssara. Quere-se dizer: o gajo não era daqueles que se contentasse com meia dúzia de tostões...

Ao topar-lhe o vedonho - e porque o sacana tinha um cacete na mão - decidi que o melhor era não puxar da carteira, não fosse ela aguçar-lhe o instinto de rapina, levando-o a atacar. Disse-lhe, portanto, que não tinha ali dinheiro nenhum, que tinha deixado a carteira no porta-luvas do carro, ao cimo da ladeira, que me esperasse lá, que eu não demoraria, etc. e tal.

Ele fez o que eu disse. Subiu a ladeira e ficou de sentinela ao carro, do qual já não arredou pé. Logo que o sol começou a raiar, levanto-me, confio o grosso do "pilim" à minha mulher, deixando na carteira apenas uns míseros trocos. A seguir embrulho-a numa toalha e avanço para a estrada. Uma vez lá entro no carro e finjo tirar a carteira do porta-luvas. A seguir dou-lhe a "miséria" de cem ou duzentos escudos, já não me lembro bem. Nem imaginais, ó filhas, o meu alívio quando me vi livre do velhote! Safa! Se o meu irmão não me dá a cotovelada e se eu não rapo da pistola, onde é que nós estávamos a estas horas...

Ainda hoje ninguém me tira da ideia que o gajo vinha para nos fazer mal. O plano dele era apanhar-nos a dormir e arrumar-nos à cacetada. Depois era o saque. E olhem que não ficava mal servido não senhor. Cerca de cem contos em dinheiro, a somar ao valor do barco e mais do motor, para já não falar do carro..., tudo somadinho era uma boa maquia! Dava-lhe para pagar a "renda da casa" para o resto da vida! O pior foi quando, perdido o efeito da surpresa, topou uma pistola mal disfarçada a apontar-lhe para o focinho. Aí decidiu baixar a parada, contentando-se com o suficiente para pagar a renda da casa... (imaginem se a renda fosse de 20 ou 30 contos!). Bandido!

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Na foz do Tâmega, em Entre-os-Rios, comemos um lauto banquete regado a vinho verde. No fim do repasto voltamos ao cais. Já dentro do barco e com o motor a trabalhar o meu irmão diz:

- OS BARQUEIROS ESTÃO BÊBADOS!

O que eu me fartei de rir, filhas. Lembro-me das cheias do Zêzere e dos barqueiros de Silvares, os quais antes de se atreverem a passar o rio para o Ourondo, apanhavam primeiro uma borracheira para...ganharem coragem! Borrachos, borrachos não estávamos, mas que estávamos alegres, lá isso estávamos…

............................................................……………………………………………………… Depois de termos chegado ao Porto, procuramos à beira-rio um sítio adequado para passar a noite. Em vão. Seguiu-se Vila Nova de Gaia. Debalde. Aquilo parecia-nos demasiado perigoso. Decidimos deste modo encontrar um poiso mais seguro. Regressamos à Barragem de Crestuma, uns quinze quilómetros a montante, aonde chegámos por volta das duas, três da manhã. Páro o carro à beira da estrada e avanço sozinho por um carreiro que conduz ao rio, logo a seguir à barragem. Ia eu mais ou menos a meio da ladeira, por entre o matagal, quando vejo sair duma barraca à borda do rio, um cão! Rápido como uma seta, ei-lo que corre contra mim, a ladrar forte e feio. AH PATAS DO DIABO! Aquilo é que eu dei corda aos sapatos! Ao chegar ao carro ainda tinha os cabelos em pé e a pele toda arrepiada, tal o cagaço!...

Depois disto decidi que o melhor era pôr-me a milhas dali e regressar ao lar doce lar. Ao fim de algumas tentativas lá acabámos por atinar com uma estrada que nos conduziu a S. João da Madeira, S. Pedro do Sul, Viseu, Nelas, Seia e por aí a fora. A certa altura eu ia tão estafado e tão cheio de sono que já nem via a estrada nem nada. Por mais que uma vez estivemos à beira do despiste. Antes que acontecesse o inevitável pedi à minha mulher que tomasse conta do volante. Chegámos ao cume da Serra da Estrela ao nascer do sol. Junto à Torre parámos. Estendemos uma manta e toca a dormir até às quinhentas... O nosso mal era sono…

 


UM CAGAÇO NA ALBUFEIRA DE CASTELO DO BODE

 

A pouco mais de um quilómetro a montante da Ilha do Lombo, fica uma ínsua de altos eucaliptos e grosso matagal, onde frequentemente gostava de arribar nas minhas viagens. Sentia-me ali na maior. A serenidade do lugar constituía para mim uma espécie de antídoto para a minha vida de stress e cheia de problemas. Ali na paz do Senhor, nem ouvia nem dizia. Só ouvia o chilrear da passarada e, de quando em quando, um ou outro peixe a saltar na água do rio.

Certa vez levei comigo um gato, para amenizar um pouco a minha solidão. Não calculais, ó filhas, a trabalheira que tive para o meter na canoa. O gajo, à vista de tanta água, entrou em pânico, e não sei se vos diga, se vos conte... tive que embarcá-lo à viva força, fechando no "porão" do "navio". Feita a travessia, tiro-o do seu habitáculo e ponho-o na ilha. Mal se viu em liberdade, ah patas do diabo!... embrenhou-se no matagal completamente aterrorizado. Eu bem o chamei, mas o gajo está-te quieto! Nem tugia nem mugia. Pensei: Quando lhe der a fominha, há-de vir aqui ao "beija-mão". Isso sim! O tempo passou e do gajo nem pó! Era eu a chamá-lo "Bichinha! Bichinha!" e ele sem dar sinal. Ainda tentei avançar por entre o matagal, mas tive que desistir. Os espinhos picavam que nem arame farpado! Deitei na orla da mata bocadinhos de frango na esperança de que o tipo atraído pelo cheiro lá se resolvesse a vir. Qual quê! Rente à noite, já preocupado com o bichano, patrulhei toda a ilha à procura dele, ao mesmo tempo que o chamava pelo nome. Nem assim. Recolho à tenda para dormir. Ouço então, no silêncio da noite, um miar muito débil e resignado, como se estivesse a agonizar. Foi o seu canto do cisne, coitado. Desde então nunca mais deu sinal. Com certeza que morreu, morto por alguma cobra ou outro bicho qualquer. Dois dias depois, antes de deixar o ilhéu, volto novamente a procurá-lo por tudo quanto é sítio, mas em vão. O gajo tinha mesmo levado sumiço. Regressei a casa cheio de remorso, a pensar no gatinho. No fim de semana seguinte volto novamente à ilha na esperança de ainda o encontrar vivo. Pois sim! Nem vivo, nem morto. Percorri vezes sem conta todo o "território da ilha", chamando-o insistentemente, mas... nada. Só o silêncio.

Nessa tarde de sexta-feira, estava eu a descansar debaixo dum enorme eucalipto, quando vejo vir da margem direita uma barca artesanal com um pescador e um garoto a bordo. Antes de desembarcarem na ilhota, vejo o homem a apanhar no anzol uma enorme truta. "EH LÁ! NUNCA PENSEI QUE OS PEIXES AQUI FOSSEM TÃO GRAÚDOS!" - lembro-me de ter pensado. Acto contínuo, o tipo aproxima-se de mim e dá-me os bons dias.

O gajo, se querem que vos diga, era forte que se fartava! Entroncado, espadaúdo e de pescoço taurino, o tipo parecia um pegador de toiros! E feio? Tinha um olhar estranho e uma expressão de bandido. A boca era irregular, os dentes desproporcionados. Quando falava, um incisivo maior do que os outros, dava-lhe um aspecto sinistro.

- O tempo parece que vai ficar mau - disse..

- Também acho. Por este andar a chuva não tarda aí...

De facto o céu estava a ficar cada vez mais escuro, o que tornava o ilhéu num lugar sombrio e ameaçador.

- Está para aqui a passar férias por muito tempo?

- Não, daqui a bocadinho vou-me embora.

Estava a mentir. Apesar da previsão meteorológica ser má, eu estava decidido a ficar até domingo, abalando só lá para o fim da tarde, como de costume. Menti para me ver livre do gajo e por achar a sua pergunta mais que suspeita. Se dissesse que ficava ali o fim de semana ou mais tempo, ele deduziria imediatamente que eu devia ter bastante dinheiro comigo, pelo que poderia planear um assalto e atacar-me a meio da noite.

Fez ainda alguns comentários sobre o tempo, após o que voltou a meter-se na barca e... andor! Desapareceu com o puto não sei para onde. Eu é que já não descansei! Julgava que me encontrava num sítio seguro, afinal estava mais vulnerável do que pensava. Bastava um sacana e um barquito para me alimparem o sebo. E eu a pensar que a água à minha volta constituía um fosso intransponível! A perspectiva de me ir embora era-me muito pouco simpática. Tinha feito uma viagem de mais de 80 km para estar ali na paz do Senhor; trouxera tenda, colchão , saco-cama e comida. E agora que estava a gozar na plenitude o resultado de tanto trabalho... ia-me embora! Não podia ser. Acontecesse o que acontecesse, chovesse ou trovejasse, eu dali não arredaria pé. Quanto ao pescador, talvez o tipo tivesse acreditado em mim. Nesse caso nada tinha a temer em princípio. Era evidente que ele não iria assaltar um ilhéu, se acreditasse que ele estava realmente deserto e sem ninguém. Fora, aliás, este raciocínio que me levou a enfiar-lhe o barrete. Será que iria resultar? A ver vamos, como diz o cego.

A noite de sexta para sábado decorreu um bocado agitada. A perspectiva de ser assaltado durante a noite causava-me uma insegurança levada da breca. O que eu lamentei por não ter trazido a pistola! Se o tipo resolvesse atacar, estava ali totalmente à sua mercê. Podia matar-me, pôr-me uma pedra ao pescoço e atirar comigo para o fundo do abismo, que ninguém daria por nada. Seria o crime perfeito! Quem é que iria desconfiar dum pobre pescador?

O vento soprava em uivos agoirentos aumentando ainda mais o meu temor. A única coisa verdadeiramente agradável era a chuva a cair no toldo. Não sei explicar, mas a sensação é maravilhosa. Senti-la a bater mesmo por cima de mim, sem poder atingir-me no meu conforto, é qualquer coisa que me dá uma sensação de bem estar.

No dia seguinte, ao abrir a tenda, vejo que continua tudo "sapado". O céu está encoberto e triste. Em vista disso, tomo o meu "breakfast" e volto ao quentinho do saco-cama, para mais uma soneca. Só acordo lá para o meio-dia. Levanto-me, lavo as trombas e aproveito para dar umas voltas por toda a ilha. Embrenho-me no interior do arvoredo, chamando não sei quantas vezes pelo gato. Mas só o silêncio me responde. Volto à tenda. A seguir pego na canoa e faço um "raid" de não sei quantos quilómetros para montante, só regressando ao fim da tarde. Alcançado o ilhéu, aproveito para explorá-lo mais uma vez à procura do gato. De novo a pesquisa resulta em nada. Em face disso, sento-me aos pés dum eucalipto a meditar, ao mesmo tempo que observo a ondulação.. Estava nisto quando vejo passar um barco a motor com dois tipos a bordo. O que ia ao motor viu-me e fez sinal ao outro. Ao virar o focinho reconheço nele o pescador da véspera. Disse para comigo: "TENHO QUE SAIR DAQUI QUANTO ANTES! AGORA QUE SABE QUE EU LHE MENTI, O GAJO VAI MESMO PENSAR QUE EU TENTEI DESPISTÁ-LO..."

O barco desaparece no horizonte e eu a cismar: "O perigo não é imediato. Se eles atacarem é de noite, pelo que ainda posso estar aqui mais um pouco sem problemas." Ao fim de mais ou menos uma hora de contemplação, decido que se está a fazer tarde e trato de começar a aprontar as coisas para dar o fora. Começo por desmanchar a tenda e metê-la no saco. A seguir mais uma banhoca. Acto contínuo agarro no saco da tenda e no colchão e amarro-os com elásticos na traseira do kayak. Tudo arrumadinho, estou agora pronto para zarpar a qualquer momento. Mas antes disso, dou mais uma volta pela ilha gritando pelo nome do gato. Debalde. O bichano mais vez não me responde. Convenço-me então de que não pode estar vivo, que algum bicho o devorou. De malas feitas, meto-me finalmente no kayak pronto para abandonar a ilha. Não sei porquê, mas faço-o com pena. Antes de remar para o sul em direcção à ilha do Lombo, em cujas proximidades tenho o meu Renault 21, decido primeiro circundar a ilha, em jeito de quem se despede de uma amante. Ao alcançar o braço direito da albufeira dou de caras com um "fiord" que nunca tinha explorado. A curiosidade faz com que eu reme para lá, na esperança de descobrir algum recanto idílico, onde pudesse, quem sabe, acampar um dia. Chegado ao seu extremo, e não vendo nada de especial, dou meia volta e começo a remar em direcção à ilha do Lombo. Ainda não tinha saído do "fiord" quando, olhando para o pinhal à minha direita, vejo um gajo a descer dum pinheiro e outro a esconder-se atrás dum arbusto. Quer-se dizer: estava a ser espiado! Ao tomar consciência do facto, o medo apodera-se de mim. Começo a remar com quanta força tenho, a fim de fugir o mais depressa possível dali. A canoa, com o esforço da carga, até rangia, filhas. Dava a impressão de que também ela compartilhava do meu medo. Uns duzentos ou trezentos metros mais abaixo, navegando sempre o mais afastado possível da "costa", vejo os dois bandalhos em cima duma mota a correr a toda a brida ao longo da vertente, por um caminho que vai dar a uma península densamente arborizada , onde as pessoas costumam fazer piqueniques.

Penso para comigo: " Ides à procura do meu carro, ou então ides preparar-me uma emboscada...". E dou graças a Deus por não ter lá o meu Renault 21. Se o lá tivesse estava feito! A prudência fizera com que eu o deixasse mais para baixo, junto à estalagem, defronte da ilha do Lombo. Dobrei o "Cabo das Tormentas" com os gajos ocultos no arvoredo à espera de me fazerem a pavana... mas eu, navegando sempre ao largo, troquei-lhes as voltas. Quando, finalmente, cheguei ao meu carrinho até suspirei de alívio. Tinha escapado de boa, filhas.

 

 


O TEJO

 

Iniciei a minha aventura em Abrantes, a 150 km da foz. A descida decorreu de forma maravilhosa, comigo a cantar numa boa parte do percurso. Na1guns troços, onde o rio é mais espraiado e a fundura menor, podia ver com nitidez a areia fina e doirada do fundo, o que muito me encantava. Em Constância parei junto a uma tasca junto ao rio, onde aproveitei para comer e beber alguma coisa. Tive o azar do homem ser um ganancioso e um refinado gatuno. Então não é que por uma sandes de chouriço, uma cerveja e uma garrafa de água "fastio" me levou quase mil escudos? Vá lá roubar para uma estrada! Junto à tasca havia um pequeno parque de campismo, pertença do aldrabão, e foi lá que passei a noite na minha tenda. Durante a minha curta permanência em Constância, aproveitei para passear pelas ruas da vila, para visitar as ruínas da casa onde teria vivido Camões, para ver os pescadores na sua faina, etc. Contudo, o que calou mais fundo em mim, foi a cena dum barqueiro transportando no seu barco pessoas entre as duas margens. Lembrei-me logo das "Palavras Cínicas" de Albino Forjaz de Sampaio, de quando ele diz:" Fui mendigo em Espanha, barqueiro na Grécia, pirata na Calábria, Romeu em Veneza...", etc., etc.." Era já lusco-fusco quando decido explorar o curso terminal do Zêzere. Junto à foz cruzo-me com velhos pescadores que me disseram que tivesse cuidado, que a corrente era forte e um bocado traiçoeira. Um deles contou que certa vez ia ficando enredado debaixo dos salgueiros, que o motor de 7,5 cavalos se revelou impotente na luta contra a correnteza, que o que lhe valeu foi ter posto a funcionar um segundo motor, que senão nem sabia o que podia ter acontecido... Contaram-me ainda que receiam mais o Zêzere do que o Tejo, porque as águas deste último rio, correndo num leito mais espraiado, não têm o ímpeto e a força das águas do afluente. De facto, a corrente do Zêzere é mesmo forte, principalmente por ocasião das descargas da barragem de Castelo do Bode, ali bem perto. Nessas alturas rio torna-se bastante perigoso, pelo que a atitude mais sensata é saír da água enquanto é tempo. Ainda não há muitos anos uma rapariga perdeu ali a vida de forma um bocado estúpida. Andava a tomar banho e mais outras colegas, quando de súbito é apanhada pelas vagas duma descarga. As outras parece que ainda tiveram tempo de se safar, mas ela, coitada, não teve tanta sorte. Foi tragada pela fúria das águas. De tudo isto eu me lembrava enquanto ia remando rio acima. Mais adiante, já noite escura, oiço um barulho que parecia o de um comboio a aproximar-se. Deduzi que devia ser um rápido ou uma queda de água. Como a corrente fosse cada vez mais forte, acabei por claudicar e deixar-me arrastar rio abaixo, de volta ao parque. À noitinha, fui dar uma volta até à Praia do Ribatejo, ali perto. Acabei por me demorar mais do que previa, pelo que quando cheguei ao parque o portão estava fechado. Tive que trepar através dum poste de iluminação pública, para saltar a vedação e chegar à tenda. Senti uma certa dificuldade em adormecer devido ao barulho da fábrica de celulose, do outro lado da margem. Toda a santa noite o barulho não despegou. Nem sei como é que as pessoas de Constança aguentam aquilo.

Na manhã seguinte retomo a viagem para Lisboa. Umas centenas de metros mais abaixo, na margem esquerda, um esgoto da referida fábrica polui a água com os seus efluentes tóxicos e mal-cheirosos, enquanto as chaminés cagam fumo para o céu, envenenando o ar. Mais uma vez me lembram "As Palavras Cínicas" : "E as altas chaminés das fábricas atiram para os astros o seu fumo apodrecido e gasto, como um hálito maldito e desolador".

Em Tancos faço nova paragem. A beleza do casario, com a sua bela igreja a destacar-se no céu azul, fazem com que eu encoste à margem esquerda e dê uma saltada à airosa povoação. Entro numa tasca e aproveito para encher o bornal de víveres, principalmente latas de sumo e cervejas. Visitada a igreja e calcorreadas as principais ruas, regresso ao rio. Muito mais para baixo avisto uma grande ponte. Ao vê-la encho-me de entusiasmo pensando tratar-se da Ponte de Vila Franca de Xira, mas o entusiasmo dura pouco. Mais uma centena de metros e verifico tratar-se da ponte da Chamusca, o que significava que ainda tinha muito que suar... Continuo a remar. Mais uma porrada de quilómetros e Santarém à vista. A meio do rio cruzo-me com barcos de recreio e com banhistas refrescando-se na água cintilante de sol. Algumas "tágides"deleitavam-se com a frescura das águas, conferindo ao cenário um não sei quê de poesia. No alto do morro, as muralhas multi-seculares do castelo completavam o quadro. Avisto lá no alto as Portas do Sol, miradouro deslumbrante, onde eu tantas vezes - nos meus tempos de tropa - me quedava a contemplar o rio, descendo remansoso a lezíria rumo ao oceano. Com estes pensamentos no espírito, desembarco na margem direita, num pitoresco relvado, junto aos salgueiros. Enquanto descanso um pouco, aproveito para assistir às evoluções de alguns motonautas nas suas "brutas" máquinas, mas o que realmente me atrai a atenção não são as motos aquáticas, mas antes as gajas que se banham no rio. Fico a contemplá-las meio hipnotizado, admirando-lhes os cabelos compridos e a pele alvadia, num sonho das mil e uma noites.

Ao fim de algum tempo de hipnose decido pôr-me a andar. Duzentos a trezentos metros mais abaixo, olho para trás e vejo dois jovens de kayak no meu encalço. O que me quereriam? Fico em "stand by" a meio do rio à espera. Quando chegam ao pé de mim saúdam-me e fazem-me mil perguntas perguntas. Quem era, donde vinha, para onde ia e coisas assim. Lá lhes saciei a curiosidade, após o que chegou a minha vez de também fazer o meu interrogatório. Disseram-me que pertenciam ao clube de canoagem de Santarém e que já tinham descido a maioria dos rios portugueses. Perguntei-lhes se tinham experiência em águas bravas. Que sim, que já tinham descido o Tâmega e o Tua que, neste particular, era o que havia de melhor no país para quem gosta de emoções radicais. Inquiri ainda como era o Tejo entre Vila Velha de Ródão e Abrantes, tendo-me respondido que nada tinha de especial; apenas a seguir à Barragem de Belver havia alguns rápidos, mas que não ofereciam perigo de maior, passando-se até bastante bem. Terminado o conciliábulo fluvial e satisfeita a curiosidade de ambas as partes, despedimo-nos num longo aceno.

Retomo a descida rumo ao mar. No caminho cruzo-me com pescadores em plena faina mas nada de conversas. A minha preocupação em chegar a Lisboa, a juntar ao meu feitio introvertido, fazem com que eu passe sem abrir a boca. Lá mais para diante, avisto na margem direita, uma moça a fazer-me sinal com a mão para ir ter com ela. Achei a esmola demasiado grande para ser verdade. O meu primeiro pensamento foi fodê-la, saltar-lhe para riba como um toiro das lezírias, mas a minha timidez com as mulheres mais uma vez me atraiçou, filhas. Acabei por seguir em frente sem chegar à fala com a gaja. Ela com certeza que devia ter ficado indignada, mas eu também não me sentia bem. Autoculpabilizei-me pela minha atitude, senti-me quase que um miserável. Achei em meu foro íntimo que devia ter ido junto da donzela, falar com ela e satisfazer a sua curiosidade. Em vez disso prossigo a viagem levando-a no meu pensamento. A partir de Valada do Ribatejo começa já a sentir-se o efeito das marés oceânicas. Lá mais para diante levanta-se um vento impertinente, o que faz encrespar a superfície das águas. À medida que o rio vai alargando, a ondulação vai sendo cada vez mais forte. A canoa baloiça nas águas agitadas do rio, varrida de vez em quando por uma onda mais alterosa. Mais um pouco e Vila Franca de Xira à vista. Na margem direita avisto as barracas dos pescadores, cuja miséria me dói. Não sei porquê, fazem-me lembrar os "boat-people" da Indochina, que vivem em condições semelhantes. É praticamente noite. Debaixo da ponte desembarco a fim de procurar um sítio azado onde dormir. Procuro um lugar abrigado e confortável mas debalde. Acho aquilo demasiado sombrio e húmido para além de perigoso. Um velho barco jaz na borda do rio. Espreito o porão e noto indícios de estar habitado. Uma enxerga e alguns cobertores dizem-me que algum miserável faz daquele infecto buraco a sua casa. Pensando nisso acho que o melhor que tenho a fazer é fugir dali quanto antes, antes que venha de lá o pobre diabo e me retalhe aos bocados, à facada. Sei lá quem é o gajo que ali vive! Nada me garante que não seja um assassino ou um ladrão. Pelo sim, pelo não, toca a desandar enquanto é tempo. Metendo por uma bouça tento atingir a linha do caminho de ferro, com o objectivo de chegar à estação da CP. Rompo por entre os arbustos e avanço mais duma centena de metros ao longo da ponte, até que um ribeiro mal cheiroso me barra o caminho. Tento atravessá-lo mas em vão. Um pé atola-se-me no lodo negro, tendo sido uma carga de trabalhos para sair dali. Isto, a acrescentar ao espesso canavial que se erguia à minha frente, faz com que eu retroceda para a borda do rio. Decidido a abandonar definitivamente o lugar, meto-me na canoa e avanço rio abaixo durante umas centenas de metros. A escuridão, mitigada pelas luzes da cidade, permitem-me uma certa visibilidade. À minha direita, junto ao cais, vendo duas mulheres a passear no parque, grito-lhes em voz alta:

- POR FAVOR, DIZIAM-ME ONDE FICA A ESTAÇÃO DOS CAMINHOS DE FERRO?

À minha interpelação as mulheres estremeceram, mas logo se recompuseram do susto. E foi com a maior amabilidade que me indicaram o local. Acto contínuo desembarco no cais após o que alombo com a canoa aos ombros pelo emaranhado das ruas. Mais uma pergunta a um transeunte e lá acabo, ao fim de algumas voltas, por atinar com a malfadada estação dos caminhos de ferro. Uma vez ali vou ter com o Chefe de Estação, a quem peço que me guarde a canoa no armazém a esse fim destinado. Que não, que os regulamentos não o permitiam, blá, blá, blá. Face à recusa, tento chamar-lhe a atenção para o facto do barquito ocupar um espaço diminuto e ser de fácil arrumo. Ao fim de muita conversa fiada lá consigo dar-lhe a volta. Depois, já noutra onda:

- Donde é que você vem?

- De Abrantes.

- De Abrantes? Mas isso fica a mais de cem quilómetros! – ( e dizendo isto baixa-se para examinar de perto o kayak ) – Mas… mas…onde é que está o motor?

Ao ouvir um tal dislate apetece-me escangalhar a rir, mas fazendo um grande esforço, lá me consigo controlar, ficando-me por um sorriso condescendente.

- Pois não, nem precisa! Sendo uma coisa leve basta a força dum remo para a fazer andar. Com um bocado de prática e bons músculos podem-se galgar centenas de quilómetros em poucos dias, contanto que as correntes estejam de feição e não se reme contra a maré.

- Compreendo, mas porque é que você está a descer o rio? Alguma instituição lhe paga para isso ou...

Nada disso. Estou a descê-lo porque gosto de aventura e pelo prazer que me dá. É só.

- Bem... podia ser porque uma instituição científica lhe pagasse para estudar o rio, o ecosistema, a poluição, a biologia fluvial...

Estávamos nesta, quando o comboio vindo de Lisboa entrou na gare com um ruído ensurdecedor. Despeço-me do Chefe e entro no comboio com destino a Abrantes, a fim de ir buscar o meu toyota que eu deixara estacionado numa urbanização, perto do rio. Quando chego ao pé do carro devia ser já perto de meia-noite. Com uma satisfação enorme por não mo terem roubado, ligo a ignição e arranco em direcção à Chamusca, passando depois por Alpiarça, Almeirim e por aí fora. Já quase em Salvaterra de Magos, vejo na estrada uma placa indicando a presença dum parque de campismo próximo. Seguindo a direcção apontada pela seta, saio da estrada principal e meto por um caminho, pinhal adentro, numa escuridão de meter medo. Chego ao parque devia passar já da uma. Àquela hora o portão estava fechado, mas mesmo assim não resisti ao impulso de tocar à campainha. Como era de esperar ninguém veio atender. Sendo assim tirei a tenda do porta-bagagens e toca de montá-la mesmo em frente, à beira do caminho.

Depois de tudo pronto, estendo o saco-cama e tento adormecer. Estava tão moído que caí logo no sono. Dormi que nem um anjinho! De manhã quando acordo estava o sol a raiar em toda a sua magnificência. Levanto-me para admirar o espectáculo. É de facto das coisas mais belas que a Natureza tem para nos oferecer. Não admira, portanto, que os antigos o adorassem como deus. Com estes pensamentos em mente, desmonto a tenda e arrumo tudo no porta-bagagens. Feito isto, arranco a caminho de Vila Franca de Xira para reaver a canoa e continuar a viagem. Por volta das nove horas, depois de ter tomado o "breakfast", já estava novamente no rio, desta vez a caminho da capital. São trinta quilómetros chatos pois já sei que vou ter de remar contra a maré, o que para um canoísta é pior que cuspir na sopa. No rio, frente ao cais, vêem-se grandes cargueiros cheios de mercadorias e matérias-primas. Um bote com não sei quantos fuzileiros, navega no rio à força de remos, nas proximidades dum navio de guerra da Armada Portuguesa.. "Devem andar em instrução" - penso. Uma centena de metros mais abaixo, cruzo-me com pescadores em plena faina e pergunto:

- Quando é que a maré começou a encher?

- Há coisa dum quarto de hora - responde um.

Pois é, estou bem lixado. Como a maré dura seis horas, lá tenho que a gramar até ao fim. Hoje não estou nos meus dias, o meu horóscopo deve estar uma desgraça... Continuando a remar, passo em frente de Alhandra, com as suas fábricas de cimento a laborar a todo o vapor. Um fumo cinzento e feio ergue-se no ar envenenando o ambiente. Mais uma vez ecoam no meu espírito as palavras de Albino Forjaz de Sampaio: "E as altas chaminés das fábricas atiram para os astros o seu fumo apodrecido e gasto, como um hálito maldito e desolador." Nem mais. Continuo a avançar rio abaixo junto à margem direita, a fim de minimizar a força da maré, pois é sabido que esta é menor nas margens e mais forte no meio. Um pouco mais adiante vejo lá vir um rebocador, fazendo uma ondulação dos diabos. Uma onda de tamanho invulgar avança ameaçadoramente na minha direcção. Antevendo a possibilidade dum banho forçado, viro-me de proa para a onda e remo contra a "gaja" com quanta força tenho, tentando pôr em prática a divisa de Napoleão que dizia que a melhor estratégia era o ataque. Pouco depois dava-se o embate. Por uns momentos foi a confusão, mas lá acabei por aguentar a panada. Fiquei foi todo encharcado, ao ponto de ter que acostar a uma ínsua para esvaziar a canoa. Depois lá continuei a minha rota, sempre com o coração em credo, receoso doutro mau encontro e a pensar que se a tipa me apanha de bombordo lá me teria derrubado sem apelo nem agravo. Não seria nenhuma tragédia, é claro, mas que era chato, era.

A pouco e pouco o rio vai-se agigantando cada vez mais. Frente a Sacavém o rio atinge a sua máxima largura, cerca de 13 km. É obra! Dou uma olhadela à margem oposta, mas o mais que consigo enxergar é uma linha muito ténue, que quase se confunde com o cinzento do céu. À medida que me vou aproximando da grande urbe o tráfego fluvial vai aumentando de intensidade. Grandes cargueiros sulcam o rio, precedidos de barcos mais pequenos, cuja único objectivo é assinalar-lhes a rota, de modo a não saírem dos canais de navegação apropriados. Sem a ajuda dos barcos auxiliares, os grandes navios correriam o grave risco de ficarem presos num baixio, o que seria o cabo dos trabalhos. À minha direita já se avista a cúpula da igreja de Santa Engrácia. Um grande navio sobe o rio, originando uma ondulação fora do comum. Antes que seja atingido pela onda de choque, apresso-me a procurar refúgio na doca mais próxima.- a doca do Terreiro do Trigo. Já livre do perigo, entro "em altos estudos" para saber o que fazer. O medo de ser abalroado por um grande navio é uma obsessão que não me sai da cabeça. Com a confusão do tráfego tudo era possível e o meu terror era apanhar de frente com um colosso de ferro e aço que me cortasse em dois. Posta a questão nestes termos, qual a melhor atitude a tomar? Demandar a Gare de Santa Apolónia, ali perto, ou - como diz o Pessoa - "largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo...para a distância abstracta?" Fodido dilema este! Sinto "o chão do meu psiquismo a tremer, a estoirarem em espuma as minhas ânsias, a chamarem por mim as águas..." Lembro-me dos "estupores dos tísicos, dos neurasténicos, dos linfáticos", da "galinha presa por uma perna" e, sem pensar mais, decido atirar-me para a frente, acudindo ao "clamoroso chamamento" das águas. Que seja o que Deus quiser. Das bandas do mar sopra um vento inoportuno que enruga a superfície das águas, originando uma ondulação temível. O kayak baloiça nas ondas como um brinquedo insignificante, sob um céu cinzento e ameaçador. Frente à Doca da Marinha, uns tipos lançam-me gritos de incentivo, gesticulando com os braços no sentido de que puxe mais pelos bofes. Isso sim! Mal sabiam eles que eu ia a dar o litro! Segue-se o Cais das Colunas. Dou uma rápida olhadela ao Terreiro do Paço e continuo a avançar pela crista das ondas, cheio de medo. Por mais que uma vez me vejo obrigado a fugir aos cacilheiros que enxameiam o rio frente ao Cais do Sodré. À minha frente a Ponte de 25 de Abril surge em toda a sua imponência. Acho que é uma meta digna da minha aventura. Não é pois de estranhar que seja lá que desejo dar por finda a viagem. Continuo a avançar com redobrado esforço na ânsia de chegar ao meu objectivo, mas por incrível que pareça, o diabo da ponte dá-me a impressão de estar a fugir-me. Será alguma partida do Cristo Rei? Lá do alto do seu pedestal, o sacana parece rir-se dos meus nervos e da minha ansiedade. Se tivesse uma pedra à mão nem sei... Finalmente, ao fim de muita luta e de alguns sustos, lá consigo chegar à malfadada ponte. Não muito longe avisto o Monumento das Descobertas e a Torre de Belém. Por um momento ainda chego a ponderar a hipótese de fazer mais um pequeno sacrifício e ir até lá, mas o meu cansaço já é tanto que acabo por rejeitar liminarmente tal ideia. No estado em que estou eu quero é que a Torre de Belém se foda. Preciso é de pôr o pé em terra firme e de matar a fome e a sede, que a fraqueza já é muita e a saturação então...nem se fala! Logo que ultrapasso a ponte, obliquo em direcção à margem direita para o desembarque. Quando estava quase a tocar em terra, vem de lá uma onda que atira comigo para o areal, como um náufrago que dá à costa. Fiquei encharcadinho de todo, filhas. Mais uma vez penso se não foi o Cristo Rei que me pregou mais uma. Mas não. Olhando lá para o alto do morro, o tipo continuava imóvel e impassível, completamente indiferente às minhas desventuras. Uma vez em segurança, tiro o farnel dentro do cockpit da canoa e amando-me às sandes de chouriço e de fiambre que é um vê se te avias. Tudo regado a cerveja, claro, para melhor empurrar o conduto pelas goelas abaixo. Nunca um manjar me soube tão bem, filhas.

 

 

O GUADIANA

 

Desci este rio desde Mértola até à foz. O que dele retenho de mais impressivo é o sol e os pequenos montes arredondados que o acompanham numa boa parte do seu percurso. Não se pense que descê-lo é uma pêra doce, principalmente se tiveres o azar de esbarrares com marés contrárias, como foi o meu caso. Por incrível que pareça estas chegam a Mértola, a 75 km da foz! Em Pomarão, na confluência do Guadiana com o Chança, a força da maré já se faz sentir com bastante intensidade. Do recontro das águas dos dois rios resulta uma turbulência capaz de virar uma canoa num ápice. Em Alcoutim, quando a maré está a encher, a água apresenta um aspecto lamacento, correndo para montante com uma velocidade insuspeitada. Em Guerreiros do Rio, o rio mostra-se turbulento com uma ondulação de meter medo. Apanhado pela agitação das águas, tive de fugir do meio do rio e de navegar junto à margem direita, pois estava a ver que me virava. Quando cheguei a Vila Real de Santo António era quase meia-noite. No cais estava a minha mulher à espera num estado de nervos que eu sei lá. A minha tardança foi de tal monta que chegou a encarar a hipótese de alertar os bombeiros. Na sua ansiedade chegou a pensar que eu tivesse "lerpado", que me tivesse acontecido alguma coisa de muito ruim. Felizmente, apesar do martírio da sede e do pesadelo das marés, lá consegui chegar são e salvo ao meu destino. Vinha era completamente arrebentado, como é de prever. Antes de atingir o cais, um Guarda-Fiscal pergunta-me em alta voz, apontando-me uma lanterna:

- Quem é você? Donde é que vem?

Eu vinha tão estafado e tão moído que nem sabia de que terra era, quanto mais saber a minha proveniência. Lembro-me que fiz um esforço dos diabos para me lembrar, mas em vão. O nome da terra não me ocorria de modo nenhum. O esgotamento tinha varrido tudo do meu cérebro, era como se fosse uma folha em branco. Perante o meu silêncio, o guarda tornou-se agressivo e intimou de novo:

- Quem é você? Donde vem?

- Não me lembro - respondi num suspiro.

- Vem de Mértola?

- Sim, acho que é isso...

Entretanto a minha mulher entra em conversa com o homem e lá acaba por explicar-lhe o porquê da minha presença ali, tão fora de horas. O guarda compreende e lá sossega. O tipo estava convencido que eu era um contrabandista. Do lado de lá, na outra margem do rio, viam-se as luzes multicores de Ayamonte, com os "ferrys" cruzando o rio num vaivém fantasmafórico. E foi tendo por fundo este cenário, que regressámos ao parque de campismo de Monte Gordo, passava já da meia-noite.
 
 
 




 TEXTOS VÁRIOS
 

 
PASSEIO FLUVIAL NO ZÊZERE
 
 

Certa vez ia eu de kayak, rio Zêzere acima, com o intuito de explorar minuciosamente todas as anfractuosidades que se encontram a montante da ilha do Lombo. "Fractais" caprichosos de deslumbrante beleza apareciam-me a cada passo em toda a sua serenidade idílica. Com a alma em êxtase ouvia os melódicos gorjeios dos passarinhos semi-ocultos no arvoredo, enquanto o kayak deslizava docemente pela água azul levemente ondulada. "Que maravilha!" - pensava. "Isto é um verdadeiro paraíso."

Os alegres trinados da passarada chegavam até mim como um todo sincrético de sons e timbres diversos, sem que eu fosse capaz de identificar um único pássaro. "Que paspalhão eu sou!" Sei o que é uma linha recta. E uma linha curva. E que forma tem a Terra. Mas não sei o ABC da Natureza! "És um analfabeto funcional" - como dizem os americanos, referindo-se àqueles cientistas ferozmente especializados numa matéria específica, mas ignorantes em cultura geral e em tudo mais.

E vem-me à memória o tempo em que eu era puto e perguntava: "Pai, que pássaro é aquele que além está a cantar?" O meu pai sorria e dizia: "É um taralhão." " - E aquele outro que se ouve lá mais ao longe?" " - É uma noitibó." A seguir choviam perguntas atrás de perguntas àcerca do "modus vivendi" de todos aqueles exóticos bicharocos a que o meu pai respondia com a sabedoria dum velho naturalista. E eu ouvia-o fascinado a falar, a falar... sobre ovos, processos de nidificação, aves migratórias, eu sei lá... "Pai, é verdade que não se devem ensinar os ninhos à luz da candeia?" - "É... dizem que sim... que no outro dia vai lá a cobra e come tudo. Quando a gente lá vai só vê formigas". Ao ouvir isto a minha imaginação exaltava-se e todo eu tremia de terror.

............................................................………………………………………………………. Sob o impulso do remo o kayak continuava a avançar preguiçosamente rio acima, completamente indiferente aos meus devaneios. Mais adiante depara-se-me uma pequena "enseada" donde irradiavam pequenos "fiords" que se perdiam nos recôncavos dos outeiros. Decidi alterar o rumo e explorá-los "comme il faut" um a um. Ao dobrar um alcantil avisto uma carrinha num pequeno talude à beira da água e de portas completamente abertas de par em par. Nos estofos dianteiros enxergo dois corpos enlaçados numa posição que se me afigurou estática demais, o que achei bastante estranho. Em circunstâncias similares, o macho costuma agitar-se num vaivém frenético, em movimentos cheios de pujança e ritmo que acabam quase sempre num violento orgasmo de espasmos e convulsões, de suspiros e estertores...

Continuo a remar em frente mas tendo o cuidado de passar ao largo tanto quanto me era possível, a fim de não passar por indiscreto e... desmancha-prazeres, o que seria um bocado chato e impróprio de cavalheiros, convenhamos. O kayak continua a avançar e à medida que se aproxima, a cena torna-se cada vez mais nítida. A minha primeira impressão confirma-se sem margem para dúvidas. O gajo "repousa" em cima da gaja sem um movimento, como se estivesse no choco. "FODA-SE! O GAJO É MOLE COMO A TRAMPA!" - pensei para com os meus botões. Mais umas pagaiadas e embrenho-me por um "fiord" adentro e remo, remo... até que chego ao seu extremo. É a altura de dar meia-volta e explorar o resto. Passados cerca de dez minutos tinha visto tudo o que havia a ver por ali e dispus-me a encetar o caminho do regresso. Volto a passar ao largo do referido talude e verifico olhando de soslaio que o gajo continua no choco... "CHIÇA! É PRECISO TER NERVOS DE MERDA!" - suspiro. "AH, SE FOSSE EU... DÁ DEUS AS NOZES A QUEM NÃO TEM DENTES..." Afasto-me pensativo a cismar naquela quadra do Quim Barreiros e no quão judicioso ele é quando canta como só ele sabe cantar:
 

 

Nem mais. Detesto empata-fodas! Cada vez que penso neste tipo de gente sobe-me cá um nervoso miúdinho que nem sei... Lembra-me logo o Sr. António Rosa, o empreiteiro que trabalhou na construção do meu observatório astronómico. Nunca vi coisa mais mole, ó meu. O trabalho morria-lhe nas mãos - como se diz na minha terra. Por causa dessas e doutras "levou-me o couro e o cabelo", o sacana.

Nos meus tempos de juventude, quando eu era um "garanhão" fogoso e pujante, aconteceu-me um dia ir às putas lá para as bandas do Intendente. Quando vi a gaja toda nua ali à minha frente, estendida no leito à espera... não me contive. Saltei-lhe para riba como um touro que já não vê uma vaca há não sei quanto anos... e casquei-lhe com tanta pujança que a breve trecho senti o aproximar inexorável do clímax, o que no meu entender achei um bocado prematuro. "ALTO LÁ PÁRA O BAILE!" - pensei. "CALMA AÍ!" Meu dito, meu feito. Pus-me no choco... Mas a puta é que não foi na conversa. "DESPACHA-TE CABRÃO! DO QUE É QUE ESTÁS À ESPERA?" Ameaçou dar por findo o acto, indo ao ponto de se querer levantar da cama. Aí eu implorei-lhe que me deixasse acabar, que estava quase no fim. Embora um bocado reticente, lá acabou por concordar para meu grande alívio. E não tive outro remédio senão deixar-me vir...

 

Moral da história: Não se deve empatar o serviço qualquer que ele seja ou, para utilizar uma linguagem mais castiça: "QUEM PODE, PODE, QUEM NÃO PODE SAI DE CIMA!" - como diz o Quim...

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No último fim de semana fui com a família até à ilha do Lombo, na albufeira de Castelo do Bode, um lugar verdadeiramente paradisíaco. Enquanto a família ficava na esplanada da estalagem, eu meti-me no meu caiaque e ala... que se faz tarde! Deslizei "trés doucement" ao longo das viçosas margens, explorando e admirando todos os belos recantos que se me iam oferecendo ao meu olhar deslumbrado. Ao dobrar uma curva depara-se-me uma bela praia fluvial que regurgitava de gente. O dia estava magnífico, o céu absolutamente azul e a paisagem inundada de luz doirada. Um "gentleman" de caiaque cruza-se comigo e mete conversa. Pergunta-me que tipo de caiaque é o meu. Como eu hesitasse em responder ele apressou-se a dizer numa voz sorridente: "É um SLALOM." chamou-lhe especialmente a atenção a armação em alumínio na popa do meu caiaque, tendo perguntado para que servia. "Para a bagagem" - respondi. Num aceno de simpatia despedimo-nos e segui viagem.

De passagem fui admirando, com olhos de ver, as belas e roliças "muchachas" que me entravam na retina. Mais adiante, num sítio discreto, um casalinho de namorados marmelava cheio de entusiasmo. Continuei a remar se me deter porque afinal a cena nada tinha de inédito. Achei-a até banalíssima pelo que prossegui com uma enfastiante sensação de "déjà" vu.

As horas iam passando, o sol declinava já por detrás dos montes e eu a remar, a remar por entre "fractais" caprichosos, pitorescas enseadas recortadas numa paisagem pródiga de beleza natural. O caiaque continuava a deslizar sobre a água azul, sem pressas, e eu a cismar sabe-se lá em quê... De súbito, na berma do caminho, vejo um carro estacionado com uma grande agitação lá dentro. Afino o olhar e verifico tratar-se dum casalinho a fazer do bom e do bonito. A cena em si não me surpreendeu, pois já não é a primeira vez que vejo cenas daquele teor, em semelhantes paragens. O que me deixou de boca aberta foi o ritmo incrivelmente frenético com que o gajo dava à bomba. Chiça! Palavra que nunca tinha visto coisa igual! Nem nos mais ousados pornofilmes. O gajo cascou-lhe como é dado! Ela acusava as estocadas com suspiros e "arrancos de crucificada". Diz a Sagrada Escritura que ter inveja é um grande pecado. Ai, como eu sou pecador! "AGNUS DEI QUI TOLLIS PÉCATA MUNDI MISÉRE NOBIS! Pelo ritmo das bombadas calculei a potência sexual do gajo em cerca de um quarto de cavalo!...

 

 


NAS MARGENS DA CANIÇADA

 

Na minha última estada no Gerês, no verão passado, assisti a uma tertúlia de café que me deixou verdadeiramente fascinado. O estabelecimento, no rés-do-chão duma casa de granito nu, tinha um aspecto rústico muito agradável, trazendo-me à memória velhas nostalgias. Encontrava-se situado na encosta da serra, rodeado de luxuriante vegetação, tendo a seus pés um pequeno parque de campismo e a bela albufeira da Caniçada. Foi neste idílico cenário, tão bucólico e tão repousante, que à luz cintilante das estrelas, ouvi encantado três jovens a discutir física, química, mecânica quântica, cosmologia, tudo numa perspectiva filosófica e epistemológica.

Um deles, depois de emborcar uma garrafa de litro de cerveja, começou a discorrer, numa loquacidade surpreendente, sobre a equação de Schrödinger, equações diferenciais de 2.ª ordem às derivadas parciais, caos, fractais, pulsares, quasares, buracos negros... eu sei lá! Falava com tal fluência (estaria nas suas horas de maior fluxo?) e com um à vontade que fiquei com a sensação de que o gajo devia pela certa ser professor universitário.

As suas afirmações eram, por vezes, tão desconcertantes e paradoxais que a rapariga do grupo - menos abalizada na matéria - contra-argumentava com interrogações imbuídas de perplexidade e cepticismo. Como tivesse manifesta dificuldade em "digerir" e aceitar toda aquela "mixórdia de disparates sem nexo", deitou as mãos à cabeça e começou a bradar. "TIREM-ME DAQUI! TIREM-ME DAQUI! TIREM-ME DAQUI!..." Eu, interiormente, como espectador de todo aquele "show", ria, ria, ria, ria ... que eu sei lá! Não longe dali, um magote de gente desvairada assistia com frenesim a um desafio de futebol transmitido pela televisão. Os gritos, as pragas, as ovações delirantes, quando não as obscenidades, chegavam até ao grupo, sem que este aparentasse o menor incómodo ou desagrado, por todo aquele cacofónico charivari. A tertúlia prosseguia sem quebra de ritmo, num crescendo de excitação emocional, à medida que o nível da cerveja ia descendo nas garrafas.

A moça, voluntariosa e vivaça, continuava a resistir, a objectar, à medida que o líder do grupo ia debitando torrencialmente o seu "palavreado chocho". Seria para o provocar? Seria pelo puro prazer da contradição? Não sei. O que sei é que o rapaz, com uma paciência de Job, fazia malabarismos de imaginação para tentar explicar à companheira o teor das suas asserções. Por vezes ouvia-o a exclamar:" MAS Ó ANA, NÃO ME LIXES! ISTO É CLARO COMO A ÁGUA, PERCEBES?" E ela: "TIREM-ME DAQUI! TIREM-ME DAQUI! TIREM-ME DAQUI!..."

Havia um terceiro interlocutor que também ajudava à conversa, mas era mais sóbrio, mais pacato. Não tinha a "verve", a exuberância dos outros dois.

Era quase uma hora da manhã. O "garçon" vem levantar as mesas e a tertúlia chega ao fim, com muita pena minha. Eu sentia uma espécie de encantamento por tudo aquilo, feliz por ter encontrado almas gémeas à minha. Lancei um último olhar à rapariga - que por sinal até era bem gira - e... "a minha alma imponderabilizou-se de posse, o meu não esquecer-me, oco de Ser, estilizou-se no vácuo dos seus olhos... Reúno-me todo na dispersão que roça pela minha alma em prata dourada só para que o meu Eu possa ser teu (dela)..."

E fui para a tenda de campismo com as ideias meio baralhadas, a arrotar a cerveja. No dia seguinte levantei-me todo partido, como se tivesse andado uma semana na ceifa. Maldita cerveja! Dirigi-me aos sanitários para a "toilette" matinal e é então que vejo o trio da véspera, junto de duas "brutas" motos de grande cilindrada, em preparativos para dar o fora, rumo à aventura...

E disse no meu coração: "Ai quem me dera ser como aqueles jovens, agarrar numa "ZUZUKI" de 1200 cm³ e correr mundo, de rabo de cavalo na cabeça e brinquinho na orelha, com uma "bruta" gaja atrás, vestida de jeans, assim à maneira..."

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Está visto! Não consigo libertar-me da lembrança, desta lembrança que me obsidia a mona... da senhora do telebip. É superior às minhas forças. A gaja deu-me a volta ao texto, gaita. Eu bem tento esconjurá-la do meu espírito, mas reconheço que a luta é quixotesca e desigual. Uma vez por outra ensaio uma bravata e imagino-me a gritar: "CONTRA AS TENTAÇÕES MARCHAR, MARCHAR!" E grito, e volto a gritar numa voz tonitruante, pavarróttica... Pois sim! Mal me descuido... cá está ela outra vez. Desisto.

Na minha mente parece-me ouvir, como num eco distante, uma voz espectral, de além-túmulo: "TODA A CARNE TEM CEGUEIRAS DE DESEJOS A QUE NINGUÉM PODE RESISTIR!" E logo a seguir uma gargalhada satânica de pôr os cabelos em pé, vem atestar para os devidos efeitos o carácter demoníaco das tentações. "Estou feito!" - penso. "Não vou conseguir libertar-me da teia, do labirinto da minha lascívia, pela simples razão de que o labirinto... sou eu!"

Senhora do telebip ( desculpa evocar-te por uma perífrase), como te chamas? Susana? Raquel? Tamar? Gina? Ruth?... Não! Por favor, diz-me que não te chamas Ruth... porque Ruth era o nome por que era conhecido no Maputo, o EUSÉBIO - esse grande craque do chuto na bola, com aspecto de símio... Não, diz-me que não... porque cada vez que alguém diz "Ruth" lembra-me logo aquele filho do Maputo! Feio, feio, feio... até dizer chega!