Apêndice
II - A recepção da Internet em Portugal
O uso da Internet em Portugal está
ainda reservado a um grupo reduzido embora não desprezável
de pessoas, que se sentiram motivadas para tal por razões
profissionais ou pelo simples fascínio pela informática
e pelos intercâmbios que ela permite. Para esta "élite"
o uso da Internet tem vantagens óbvias. Existe,
no entanto, uma parte da população, bastante mais
numerosa do que a anterior, que só tem conhecimento da
Internet e dos seus avanços através dos órgãos
de comunicação social. O espaço de divulgação
nos media tem sido extremamente proveitoso. Os jornais
portugueses, nomeadamente o Público (suplemento
"Computadores") e Expresso (suplemento "Século
XXI") têm acompanhado bastante bem os desenvolvimentos
da Internet em Portugal, à semelhança de
jornais e revistas internacionais (New York Times, Time, Newsweek,
nos EUA, por exemplo). Neste apêndice faz-se referência
a alguns artigos que apareceram em jornais e revistas de informação
geral, que abordam as vantagens do uso da Internet e, mais
em particular, as suas implicações nos processos
de ensino/aprendizagem. Com esta análise breve pretendemos
obter respostas para as seguintes questões: Que noção
de Internet é dada ao leitor comum? Até que
ponto existirá uma sensibilização da opinião
pública para as potencialidades da Internet, em
particular no ensino? Que significado poderá ter para os
portugueses, em particular os professores, a decisão do
Ministério da Ciência e Tecnologia de que irá
dotar todas as escolas do ensino básico e secundário
de ligações à Internet já em
Maio de 1997?
- Numa entrevista ao semanário "Expresso"
(22/Janeiro/1994) o deputado José Magalhães, na
altura o único deputado ligado à rede, defendia
o uso generalizado da Internet pelos cidadãos. A
principal razão apontada assenta na quantidade de informação
disponível. Este deputado escreveu um livro, "Roteiro
Prático da Internet" (Quetzal Editores, Lisboa,
1995), dirigido principalmente para o cidadão comum e de
que já saiu uma segunda edição. Segundo o
autor, "A Internet prenuncia sociedades em que seremos
cada vez mais teletrabalhadores, tele-estudantes, teleconsumidores,
telecompradores, teledoentes, tele-apaixonados. Adivinha-se também
que não deixaremos de ser cada vez mais televigiados e
tele-influenciados".
- Num artigo de Filipa Melo e Vasco Colares Pereira
("Visão", 30/Março/1995) é feita
uma abordagem clara e rigorosa do conceito de Internet.
Além do software necessário para navegar,
o tipo de informação que se pode encontrar e os
cuidados a ter na rede, o leitor fica também a conhecer
algumas opiniões sobre esta tecnologia, desde as mais cépticas
às mais entusiastas. Artigos deste tipo multiplicaram-se
por vários jornais e revistas.
- Numa das edições da revista "Visão"
(7/Setembro/1995) aparece uma entrevista com Nicholas Negroponte
(fundador e director do Media Lab do Instituto de Tecnologia de
Massachusetts, EUA). Quando questionado sobre a implicação
do desenvolvimento das auto-estradas da informação
na vida quotidiana das pessoas responde: "Uma das diferenças
fundamentais é que não se distinguirá mais
a casa do local de trabalho ou da escola, tal como hoje o fazemos.
As diferentes facetas das nossas vidas serão integradas".
Nicholas Negroponte esteve recentemente em Portugal.
- Um artigo de Rita Pimenta no jornal "Público"
(21/Outubro/1995) com o título "Internet para
quem?" começa assim: "Que é possível
comunicar com todo o mundo, através dos computadores, já
se sabe. Que é a rede Internet que o possibilita, não
é novidade. Mas, afinal, para que serve tudo isto num país
iliterato? E, sobretudo, para quem?
Fará sentido
investir em material e conhecimentos técnicos para aceder
à rede Internet, quando a maior parte da população
portuguesa entre os 15 e os 64 anos não consegue interpretar
o que lê?". Estas foram algumas das questões
de um encontro, realizado no Convento da Arrábida, sobre
as redes de informação e tecnologias multimédia
e às quais tem de se reconhecer alguma pertinência.
- Um artigo de Guilherme de Oliveira Martins no
jornal "Diário de Notícias" (4/ Janeiro/1996)
reflecte sobre a necessidade de educar o cidadão para uma
melhor utilização das novas tecnologias. Para o
autor as escolas podem e devem desempenhar um papel importante
neste domínio. Guilherme de Oliveira Martins é actualmente
Secretário de Estado no Ministério da Educação,
e dele se espera a transposição para a prática
do discurso teórico.
- Num artigo de Joaquim Sá Couto ("Diário
de Notícias", 19/Maio/1996), o autor indica o que
acha necessário fazer para que exista uma maior intimidade
entre a escola e a sociedade, referindo em particular a necessidade
de uma maior flexibilidade dos programas curriculares: "
esta
flexibilidade é fundamental porque permite adaptações
rápidas às exigências do mercado de trabalho,
que nenhum governo pode sequer prever. Quem poderia há
três anos antecipar o crescimento, que se conhece, da Internet".
Por outro lado, Sá Couto manifesta a sua satisfação
com a intenção do Ministério da Ciência
e Tecnologia de dotar todas as escolas do ensino básico
e secundário com computadores multimédia directamente
ligados à Internet. Esta medida irá aumentar
o número de utilizadores e diminuir as desigualdades de
oportunidades entre jovens de classes sociais diferentes. "Parece-me
a iniciativa mais importante que este governo divulgou desde que
tomou posse e o seu impacte na população estudantil,
pela quantidade de informação que torna acessível
e pela possibilidade de interacção com outros estudantes
em qualquer parte do globo, só pode conduzir a uma verdadeira
revolução cultural".
- Num artigo de João Ramos e Rui Trindade
no semanário "Expresso" (29/Junho/1996) é
referido um encontro, na Penha Longa, de várias personalidades
para iniciar a elaboração do Livro Verde para a
Sociedade de Informação. Um dos tópicos do
debate era precisamente a escola informada. Além das dificuldades
de ordem tecnológica e financeira são referidos
os bloqueios que radicam em atrasos culturais e organizacionais.
Os autores referem-se à necessidade de sensibilizar os
diversos actores para as mudanças que a sociedade de informação
traz consigo.
- Num artigo recente do jornal "Público"
(12/Março/1997) era divulgado um estudo estatístico,
da responsabilidade da Marktest, sobre a utilização
da Internet no nosso país. As conclusões
apresentadas nesse estudo são as seguintes:
- Existe cerca de meio milhão de pessoas,
com idade superior a quinze anos, com acesso à Internet
(duzentos e setenta mil das quais são utilizadores frequentes).
- Os utilizadores vivem principalmente nos grandes
centros (52 %), a Grande Lisboa e Grande Porto, e pertencem às
classes sociais mais altas (50,3 %).
- Daqueles que usam a Internet, 40 % fazem-no
no local de trabalho. Este meio de acesso é o que vem em
primeiro lugar, seguido das universidades (34 %) e do acesso doméstico
(15 %).
- Segundo este estudo o "internauta-tipo"
é um jovem do sexo masculino, com vinte e poucos anos,
que vive nos grandes centros e pertence às classes sociais
mais desafogadas.
Daquilo que fui lendo nos órgãos de
comunicação social, de que estes artigos são
apenas uma pequena amostra, e das conversas que tenho tido com
colegas, fiquei com a impressão que para a maioria das
pessoas a ideia de Internet é ainda muita vaga.
Esta tecnologia é por vezes vista apenas como um entretenimento,
um "hobby", para aqueles que gostam de computadores.
Penso que é uma ilusão pensar-se em
utilizar a Internet nas escolas sem haver uma certa mobilização
da opinião pública. Lembro-me que quando foi divulgada
a decisão do Ministério da Ciência e Tecnologia
para ter computadores ligados à Internet em todas
as escolas até Maio de 1997 gerou-se uma discussão
entre professores na escola onde me encontrava a leccionar. A
maioria dos professores era contra a medida apresentada, sendo
a principal razão para essa discordância a falta
real de outros materiais de ensino. Compreende-se que num país
como o nosso, onde há lacunas de vária ordem, surjam
resistências e desconfianças aos meios novos. A acção
do projecto MINERVA, do Ministério da Educação,
não foi suficiente para as dissipar. Mas a verdade é
que não podemos ficar alheios à evolução
tecnológica, e aos bons resultados que a utilização
destas novas tecnologias têm trazido à educação
em todo o mundo e que tem sido amplamente documentada nos media.
Da acção "Internet nas Escolas"
do Ministério da Ciência e Tecnologia, para fornecimento
de hardware e software básico, e do programa
"Nónio" do Ministério da Educação,
para apoio à integração das tecnologias de
informação e comunicação nas escolas,
esperam-se os melhores resultados.
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