Capítulo 2 - Teia Mundial de recursos para o ensino da Física e da Química
2.1 O ensino e as novas tecnologias de informação e comunicação
Estamos a viver uma época de rápido
desenvolvimento das tecnologias informáticas, com o acesso
a redes globais de computadores, ao correio electrónico,
a bases de dados, a bibliotecas virtuais, a CD-ROMs, a uma enorme
oferta de software, etc. Esse progresso está a provocar
mudanças enormes na organização da nossa
vida e do nosso trabalho. Como afirma R. C. Heterick [21]: "This
is the time to separate confusions and self-deceptions from the
truths, and to effect the real information technology revolution.
The new technology is not in itself a revolution; the revolution
is the diference that technology makes in how we organize, structure,
and empower our lives and work places
".
Se pensarmos nestas mudanças e nas implicações
que podem ter nos processos ensino/aprendizagem ficamos confrontados
com uma série de dúvidas mas também adquirimos
algumas certezas. Uma é que o aproveitamento optimizado
destas novas tecnologias implica uma mudança drástica
das nossas formas de ensinar e aprender. O uso de textos, vídeos
e sons (talvez até o aproveitamento de outros sentidos)
pode revolucionar os processos de ensino/aprendizagem. A palavra
base deste tipo de ensino é "interactividade".
Trata-se da mudança de um ensino onde é limitado
o papel do aluno na busca de informação e em que
ele se tenta adaptar à informação existente
(alunos em sítios do interior onde não existem boas
bibliotecas e livrarias têm de se conformar a essa situação)
para um ensino em que a informação se adapta ao
aluno, onde quer que este se encontre. Como afirma R. C. Heterick
[21]: "We have been used to a Ptolomaic version of the world
in which the technology was at the center and the user of that
technology adjusted to the characteristics of the technology
Now people talk of finding a technology that tries to make itself
useful, adapt itself to the owner; taking a Copernican view, where
the user is at the center, and the technology is used to assist
the user".
No actual modelo de ensino, o professor ocupa o papel
central, determinando, na maior parte das vezes, o ritmo de aprendizagem.
Aproveitando melhor as novas tecnologias nas escolas, o papel
do aluno será mais relevante, sendo possível uma
aprendizagem mais pessoal, mais rica, mais rápida e com
menos custos. O professor terá sempre um papel importante
(insubstituível!) na ajuda ao aluno, por exemplo, para
o ajudar a seleccionar a informação relevante para
um dado propósito. Processos selectivos desse tipo continuarão
a ocorrer pela vida fora e é bom que os alunos se familiarizem
com eles. Trata-se, sem dúvida, de uma mudança drástica.
Como afirma Barbara Kantrowitz [25]: "Under the current
model in most developed nations, students are "products"
to be processed, similar to a car or a refrigerator. Schools are
factories. The finished product is an educated and socially useful
citizen. But in the information age, learning will be a lifelong
process. The goal should be to train people to be discriminating
consumers of the oceans of data that will be available along the
Information Highway, whatever form it takes".
Quando se tentam concretizar certas mudanças
convém conhecer as resistências que se podem encontrar,
para melhor as contrariar. Num artigo de Yvonne Marie Andres [2],
as principais resistências detectadas, quando se pensa em
concretizar formas de ensino que façam uso das mais modernas
tecnologias, situam-se, por um lado, a nível de atitudes
e, por outro, a nível da existência, aplicação
e partilha de conhecimentos. Como afirma a referida autora, "the
electronic frontier is not something that education has embraced
with opens arms".
Por questões de atitude entenda-se a tendência
natural para desconfiar e rejeitar tudo o que é novo numa
dada actividade. É mais simples fazer as coisas como sempre
se fez, como se aprendeu, do que aprender novas técnicas
para o fazer: "Most of these people (educators) held the
belief that the textbook should be focal point of instruction
and the primary learning tool". Existe também
uma resistência natural de alguns educadores a tudo o que
ainda não está provado pedagogicamente: "They
wanted 'proof' and lots os statistics to prove that instructional
telecomputing is 'worth the time and money necessary to implement
it' ". Há ainda a questão do cumprimento
dos programas, que leva alguns professores a não usarem
nada que saia do âmbito curricular, por muitas vantagens
que eles reconheçam nesses "desvios". É
claro, finalmente, que existem muitas pessoas que têm simplesmente
um receio pré-concebido em relação à
própria tecnologia: temem as máquinas, em particular
porque pensam que estas podem tomar o lugar dos seres humanos.
Um outro factor de resistência ao processo
de inovação baseado no computador é a falta
de conhecimentos dos educadores sobre as novas tecnologias e as
suas capacidades.
A aplicação prática dos conhecimentos
tecnológicos pode também ser um factor de resistência.
O professor pode ter os conhecimentos mas não saber como
os pode e deve aplicar em situações concretas na
sala de aula, por exemplo. O problema da falta de recursos para
a aplicação prática é óbvio.
Podemos ter educadores com os conhecimentos, e com as ideias sobre
a sua aplicação, mas se não existirem as
máquinas e o software adequado pouco ou nada se
pode fazer.
Finalmente, o outro factor de resistência que
foi detectado, no artigo em cima mencionado, reside na partilha
de conhecimentos entre os vários agentes educativos. Muitos
educadores acabam por não comunicar aos colegas as experiências
que realizam na sala de aula.
Outras questões se levantam quando se tenta
imaginar a concretização, em particular no nosso
país, de um ensino em larga escala que faça uso
das tecnologias mais modernas: Qual é a sensibilidade do
governo para introduzir estas mudanças nas escolas? Como
é que os professores se vão adaptar? De que forma
as novas tecnologias se adaptam à realidade das nossas
escolas? A relação custo/proveito será favorável?
Em Portugal ouve-se falar, com frequência,
dos benefícios do uso de computadores nas escolas: como
auxiliares dos docentes na preparação das aulas,
como ajuda a um estudo individualizado (permitindo a compreensão
dos conteúdos ao ritmo que é próprio de cada
aluno) e, mais recentemente, como fonte de acesso a bases de dados
e bibliotecas virtuais. Enquanto tudo isto parece fantástico
na teoria, a frustação e o desânimo são,
de facto, sentimentos que se verificam na generalidade das escolas
portuguesas a propósito da utilização de
meios computacionais.
Existem algumas razões para tal frustação
e desânimo. Por um lado, as escolas não estão,
na sua grande maioria, dotadas do material necessário,
por não se terem verificado até à data financiamentos
suficientemente avultados para esse efeito. Por outro lado, os
departamentos governamentais têm-se preocupado mais em colocar
material nas escolas, e menos com uma componente essencial do
processo que é a sensibilização e a formação
dos professores. Ainda recentemente, na Escola EB123 Gualdim Pais
de Pombal, onde trabalho, uma professora pedia "desesperadamente"
uma máquina de escrever a uma das funcionárias para
poder dactilografar uma certa ficha de trabalho. Quando lhe disse
que existiam seis computadores livres na sala onde nos encontrávamos,
ela respondeu que não se sentia à vontade com os
computadores. Um outro professor presente acrescentou que, com
o computador, se demorava mais do que de outra maneira, referindo
que tinha demorado um serão a escrever quatro páginas
de uma acta. Quem trabalha nas nossas escolas sabe que algum do
material que lá existe não é utilizado, porque
os professores não o sabem usar. A falta de informação
é tal que chega a existir material informático que
não se sabe sequer para que serve. Os casos referidos revelam
bem uma falta de preparação dos professores para
o uso de tecnologias diferentes daquelas em que foram educados.
Este problema é comum a vários países. Como
confirma Barbara Kantrowitz [25]: "Inadequate teacher training
has also been a huge obstacle. Too often, computers gather dust
because teachers don´t know what do with them".
São apenas alguns, poucos, professores, que por meio da
partilha dos seus conhecimentos e experiências, vão
lentamente concretizando algumas mudanças nas suas formas
de ensinar.
Nos cursos de formação educacional
nas universidades, existem já certas disciplinas onde se
ensinam os alunos a programar e a trabalhar com as novas tecnologias
(por exemplo, os alunos de Física do ramo educacional,
na Universidade de Coimbra, têm no seu currículo
uma cadeira de "Uso dos Computadores no Ensino" e os
alunos do Mestrado em Ensino da Física, da mesma Universidade,
têm uma unidade sobre esse tópico). E os outros professores,
os que já estão no sistema e que nunca tiveram oportunidade
de aprender a trabalhar com computadores? Para todos estes, o
Ministério da Educação julga que resolve
rapidamente o problema disponibilizando alguns computadores. Quem
vive de perto os problemas de uma escola sabe que tal solução
não resolve nada. Não é com uma mão
cheia de computadores e alguns programas que se altera toda uma
situação de falta de prática. Há que
ensinar os professores a manejar minimamente os computadores e
a trabalhar utilmente com eles. Tem, concerteza, de se fornecer
equipamento adequado às escolas, mas não se deve
esquecer essa componente não menos importante para a mudança
pretendida que é a formação dos professores.
Citando um velho ditado chinês: não basta dar o "peixe",
há também que ensinar a "pescar".
Sem essa formação adicional para lidar
com as novas tecnologias, os professores acabam por "arrumar"
os computadores numa sala. Esta sala é designada por "sala
de computadores", enfatizando assim o isolamento entre o
cenário da máquina e o da verdadeira aprendizagem,
que só ocorrerá nas salas comuns. Os computadores
passam então a ser vistos mais como um meio de ajuda no
processamento de um texto, na elaboração de um cartaz
ou apenas como um simples passatempo. Ainda há muito a
fazer para que o computador seja integrado na sala de aula como
uma ferramenta, tal como a caneta, o papel, o quadro ou o vídeo
[25].
Compete aos vários intervenientes do processo
educativo mudar esta situação. Aqueles que têm
mais facilidade em lidar com os computadores podem e devem transmitir
os seus conhecimentos aos colegas, mostrando-lhes as potencialidades
das máquinas nas salas de aula, bibliotecas, salas de estudo,
etc. Competirá ao Ministério da Educação
(ou ao Ministério da Ciência e Tecnologia?) promover
ou apoiar acções de formação sobre
as novas tecnologias computacionais nas escolas. Essas novas tecnologias
reúnem todas as condições (aplicações
multidisciplinares, rapidez de informação, etc.)
e criaram elas próprias condições na sociedade
(referência constante nos orgãos de comunicação,
uso doméstico bastante divulgado, etc.) para que as acções
de formação deste tipo obtenham a adesão
dos professores e permitam realizar mudanças no ensino.
Quanto à relação custo/benefícios,
embora ela seja difícil de quantificar, os indicadores
são positivos nos países que estão a realizar
tais mudanças. Como refere R. C. Heterick [21]: "Estimates
now tells us that we´re looking at a 15 to 25 % improvement
in cost/performance annually
we´re going to continue
to see same kinds of price/performance improvements. This may
be an offset to systematic financing problems in education."
Uma questão sempre presente, pelo menos a
nível do subconsciente dos docentes, é a seguinte:
será que os computadores vão tornar os professores
dispensáveis? Claro que a resposta é não.
Os bons professores nunca serão substituídos pelas
máquinas. A tecnologia nunca há-de substituir a
relação humana entre o professor e o aluno. Mas
as máquinas podem ajudar os professores e os alunos tanto
na sala de aula como fora dela. Em particular, os computadores
ajudam como ferramentas auxiliares na sala de aula para ensinar
e aprender. Como afirma Barbara Kantrowitz [25], "computers
expand the classroom walls - and a student´s horizons".
Quais serão os reais proveitos de um ensino
que se serve dos computadores e de outras tecnologias associadas?
Desde que se assegure a motivação e
a formação dos professores haverá muito a
ganhar. Com o uso de computadores nas salas de aula, bibliotecas
e salas de estudo, o aluno ocupará um papel mais central
no processo de ensino/aprendizagem, sendo o seu ritmo mais respeitado
e desenvolvendo-se uma aprendizagem mais eficaz e sólida.
Segundo R. C. Heterick [21]: "Information technologies have
extraordinary potential for changing the way people learn, and
changing it in such a way that they learn more, and learn more
quickly, and interestingly enough, that they do it at less real
cost". Por outro lado, o ensino será mais moderno
e dinâmico com o recurso por exemplo às potencialidades
dos meios multimédia.
Com as redes de computadores e as novas tecnologias
de comunicação, os estudantes aprendem a pensar
como cidadãos da "aldeia global", vendo o mundo,
e o seu lugar nesse mundo, de uma forma bastante diferente da
dos seus pais. A informação circula agora livremente
ultrapassando fronteiras de vários tipos (sem intermediários
que decidem o que é notícia, o que é importante,
o que é bom para nós, o que é arte ou o que
é diversão), percorrendo todo o mundo directamente
de onde aconteceu o facto até onde estiver alguém
que dele queira ter conhecimento. Em muitas circunstâncias,
a informação que não é filtrada, seleccionada,
comentada ou interpretada torna-se mais pessoal e, consequentemente,
mais real. E podemos realizar experiências pessoais muito
enriquecedoras: conversar com professores e alunos da Austrália,
dialogar com cientistas do CERN ou da NASA, visitar museus e institutos
dos Estados Unidos ou do Japão, etc.
Uma vantagem também óbvia é
a diminuição das desigualdades entre os alunos do
interior e os dos grandes centros, para não falar das diferenças
entre países. Com a possibilidade de acesso à Internet,
com todos os serviços que ela disponibiliza, e também
com o uso de CD-ROMs, todos os alunos podem ter acesso a informação
muito mais variada.
Estas mudanças vão necessariamente
ocorrer, mais cedo ou mais tarde, sob o risco, se tal não
acontecer, da escola se afastar perigosamente da sociedade, ficando
mesmo à margem dela.
Com professores sensibilizados para o uso das novas
tecnologias, as mudanças serão necessariamente mais
rápidas. As estratégias de ensino e aprendizagem
irão evoluir mais rapidamente. Os estudantes, ao comunicarem
com pessoas em locais mais ou menos distantes, começam
a compreender, a apreciar e respeitar as semelhanças e
diferenças entre línguas, culturas e políticas.
Interiorizam que não interessa a raça, o aspecto
físico e o nível social, mas sim a troca de ideias
e conhecimentos e o valor de algumas dessas ideias e conhecimentos.
A visão do mundo e do lugar que nele ocupam vai-se forçosamente
alterar. Os estudantes serão levados naturalmente a pensar
em assuntos de interesse global. Al Rogers [40], acerca da troca
de vivências entre estudantes de vários pontos do
globo, escreve:
Os alunos de uma certa escola podem utilizar os computadores
para escrever histórias reais ou imaginadas, aplicar ou
reforçar determinados conceitos com o recurso a software
adequado, e complementar na biblioteca um dado assunto abordado
nas aulas servindo-se de um CD-ROM, aconselhado pelo professor,
contendo textos, imagens e sons. Mas a possibilidade de os alunos
trocarem experiências com outros, de diferentes escolas
do mesmo país ou de diferentes países, reforça
a necessidade de se saberem exprimir bem por escrito, assim como
de aprenderem línguas e culturas diferentes.
Num estudo realizado por Cohen and Riel [11] concluiu-se
que, quando os alunos escrevem para uma audiência distante
e desconhecida:
No mesmo artigo são referidos testemunhos
de professores que participaram nesse tipo de projectos, e onde
notaram que:
É para todos um novo mundo que se abre para
lá dos muros da escola.
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