Divulgação Científica em Portugal
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Carlos Fiolhais*
*Professor de Física da Universidade de Coimbra
Têm sido numerosos os livros de divulgação científica que têm sido publicados entre nós nos últimos anos. De entre esses livros assumem particular destaque os que abordam os grandes temas da física e da química deste século.
Pretende-se ajudar professores e estudantes de física e química na escolha de livros de divulgação científica.
A fim de delimitar o objecto da bibliografia, escolheram-se os seguintes domínios da física moderna:
- Física Relativista
- Física Quântica
- Física Nuclear e de Partículas
- Astrofísica e Cosmologia
- Física dos Fenómenos Irreversíveis
Se o primeiro tema é objecto tradicional da literatura de divulgação científica, os temas 2, 3 e 4 têm conhecido nos últimos anos uma expansão notável. Quanto ao último, presumimos que no futuro venha a ter uma relevância maior, uma vez que a física de sistemas complexos (caos, fractais, catástrofes, aplicações à ecologia e à biologia) está a despertar uma atenção crescente na comunidade de físicos.
A repartição das obras pelos temas enunciados é, em alguns casos, artificial. Hoje em dia, torna-se difícil estabelecer uma fronteira nítida entre, por exemplo, a física das partículas e a cosmologia.
Agradecem-se aos leitores desta "lista" quaisquer correcções ou manifestações de opinião.
Física Relativista
- F. Balibar, "Einstein: Uma leitura de Galileu e Newton. Espaço e relatividade", Edições 70, Col. O Saber da Filosofia, Lisboa, 1988 (tradução de A. Castanho do original francês "Galilée, Newton, lus par Einstein", PUF, 1984), 127 pp.
Um roteiro interessante dos caminhos que conduziram à teoria da relatividade. O livro centra-se no entanto na relatividade clássica. São muito úteis do ponto de vista pedagógico as traduções de Galileu que se encontram no livro. Nota: em relação ao original inverteu-se o lugar do nome de Einstein, num golpe publicitário que pode iludir os leitores.
- P. Couderc e F. Perrin, "A relatividade", Edições 70, Lisboa (1984), tradução de Manuel Duarte; original francês "La Relativité", P.U.F., Paris.
Reedição de um livro publicado em edição de bolso pela Arcádia em 1967 e que é a tradução de um original francês da famosa coleção «Que Sais-Je?» das PUF. A actualização científica foi efectuada por F. Perrin (não confundir com J. Perrin, Prémio Nobel da Física de 1926) e a revisão científica da tradução portuguesa é de A. A. Costa, do I.S.T., um dos poucos astrofísicos portugueses. Livro de introdução às ideias da relatividade (a relatividade geral limita-se ao Cap. V).
- A. Einstein, "Reflexões, encontros e diálogos", Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, introdução, selecção e tradução de A. M. Nunes dos Santos, 1988, 83 pp.
Trata-se do primeiro de um conjunto de quatro livrinhos da responsabilidade de António Nunes dos Santos, da Universidade Nova de Lisboa. São edições cuidadas, com bonitas capas, traduções criteriosas e anotações oportunas. Todos juntos dariam um belo volume mas assim, dispersos, fica um conjunto de simpáticos livrinhos. Este primeiro livrinho inclui textos dispersos de Einstein, textos sobre Einstein de de Broglie, Oppenheimer e Heisenberg e uma interessantíssima entrevista a Einstein feita pelo historiador de ciência I. B. Cohen e publicada em 1955 no "Scientific American".
- A. Einstein, "Reflexões e testemunhos científicos", Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, introdução, selecção e edição de A. M. Nunes dos Santos, 1989, 74 pp.
Inclui textos de Einstein, textos sobre Einstein de de Broglie e Born e uma bibliografia dos anos de ouro do grande físico alemão.
- "Homenagem a Albert Einstein, Testemunhos e Controvérsia" , Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, apresentação e coordenação de A. M. Nunes dos Santos e M. A. Bento, 1989, 96 pp.
Inclui textos sobre Einstein de Sommerfeld e Bohr (este muito importante, uma vez que a maior polémica científica do século XX foi precisamente entre Einstein e Bohr, a propósito do significado e alcance da mecânica quântica) e uma bibliografia compreendendo os trabalhos de Einstein desde a relatividade geral até à sua morte.
- A. Einstein, "Física e realidade", Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, introdução e nota biográfica de A. M. Nunes dos Santos, 1990, 66 pp.
Um texto de Einstein sobre o método científico, a relatividade e a teoria quântica.
- A. Brotas, "O essencial sobre a teoria da relatividade", Imprensa Nacional, Lisboa, 1988, 61 pp.
Num estilo muito próprio, António Brotas, professor do Instituto Superior Técnico, transmite num espaço muito curto "o essencial" das ideias da relatividade. O leitor deve comprar sem falta porque é barato, cabe no bolso e é útil. V. a recensão que foi publicada na revista CTS, nº 6, Set./Dez 1988, p. 55 e na "Gazeta de Física" 11 (1986) 160.
- C. Will, "Einstein tinha razão? Testando a teoria da relatividade geral", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1989 (tradução de J. C. Fernandes do original inglês "Was Einstein right?", 1986, revisão e notas de D. Lopes Gagean), 306 pp.
A resposta ao título é "Sim. Tinha". Hoje, setenta anos depois de introduzida a relatividade geral, todo um conjunto de avanços tecnológicos permite confirmar essa teoria. Não se conhece um único desvio, embora se esteja ainda à espera da confirmação absoluta de fenómenos como os buracos negros ou as ondas gravitacionais. O autor, físico experimental especialista em relatividade, fornece-nos numerosos exemplos de concordância entre teoria e experiência, num livro que tem de ser recomendado (desiludam-se, no entanto, os que vão à procura dos factos mais conhecidos da relatividade restrita, como o E=mc^2). Nota: o subtítulo "Testando..." parece brasileiro!
- J. P. Petit, "Einstein e a Teoria da Relatividade", D. Quixote, Lisboa (1982), tradução de I. St. Aubyn, revisão técnica de A. St. Aubyn; original francês, "Les Aventures d´Anselme Lanturlu-Tout est relativ", E. Belin 1980; 69 pp.
A série de banda desenhada, na qual este livro se integra («As aventuras de Anselmo Curioso»), mostra como a banda desenhada pode ser educativa e servir mesmo de suporte pedagógico para o ensino da física. Humor e pedagogia são afinal bem compatíveis, pelo menos para este astrofísico francês. No entanto, desiludam-se aqueles que, aliciados pelos «bonecos», julgam que a compreensão das ideias expostas é sempre fácil. A revisão científica foi efectuada por A. St. Aubyn, professor de matemática no I.S.A, Lisboa, o mesmo acontecendo nos volumes seguintes.
- J. P. Petit, "Einstein e o Buraco Negro", D. Quixote, Lisboa (1982), tradução de I. St. Aubyn; original francês, "Les Aventures d´Anselme Lanturlu-Le Trout Noir", E. Belin, 1980; 69 pp.
Último volume publicado entre nós da série do Anselmo, concebida para ensinar ciência a leitores sem grande formação científica. O personagem Anselmo embrenha-se aqui nas singularidades que surgem na relatividade geral, servindo-se de algumas noções geométricas relevantes, como a de curvatura do espaço.
- J. P. Petit, "Os Mistérios da Geometria", D. Quixote, Lisboa (1982), tradução de L. Pignatelli; original francês, "Les Aventures d´Anselme Lanturlu-Le Geometricon, E. Belin, 1980; 69 pp.
O título pode induzir em erro, pois mais do que fazer uma introdução à geometria convencional, o autor fala do conteúdo físico das geometrias, nomeadamente das geometrias não euclideanas, de grande importância para a teoria da relatividade geral. Essa conexão é revelada pelo último «cartoon», onde aparece Einstein.
- B. Russel, "ABC da Relatividade", Europa-América, Mem Martins (1982), tradução de A. P. Fernandes; original inglês, "ABC of Relativity", Allen & Unwin; 189 pp.
Um volume de bolso do grande matemático e filósofo inglês. É um livro cujo principal atractivo é talvez o nome do autor, não se percebendo muito bem porque é que foi reeditado agora (a primeira edição portuguesa tinha saído em 1979). B. Russel tem livros melhores, que aguardam publicação entre nós. De resto esta obra é antiquada, tendo o original sido escrito em 1925 (as teorias da relatividade restrita e geral datam respectivamente de 1905 e de 1916). O último capítulo, intitulado «Consequências filosóficas», termina com a seguinte afirmação bem russelliana: «A conclusão final é que sabemos extremamente pouco, embora seja surpreendente que conheçamos tanto, e ainda mais surpreendente que tão pouco conhecimento nos consiga proporcionar tamanho poder».
- J. Schwartz e M. Mcguiness, "Einstein para principiantes", D. Quixote, Lisboa (s.d.), original inglês, "Einstein for beginners", Writers and Readers Publ. Coop.; 173pp.
Uma banda desenhada deveras cativante, que procura colocar a biografia de Einstein no contexto social, político e científico da época, e, ao mesmo tempo, comunicar alguns rudimentos da teoria da relatividade restrita. Recomenda-se, pese embora a demagogia patente aqui e ali, nomeadamente no final do livro, que termina com uma alusão à bomba atómica.
- V. Silvestrini, "Introdução à Teoria da Relatividade", Notícias, Lisboa (1983), tradução de José d´Encarnação; original italiano, "Guida alla teoria della Rellativita", Riuniti; 138 pp.
Pequeno livro, sem nada de especial a recomendá-lo. As editoras têm razões que a razão desconhece...
- J. Taylor, "Buracos Negros: O Fim do Universo", Europa-América, Mem Martins (1983), tradução de C. Oliveira; original inglês, "Black Holes, the End of the Universe", 1973.
Sob um título demasiado sensacionalista esconde-se a prosa de um conhecido astrofísico do Kings College, de Londres. Os buracos negros prestam-se às mais variadas especulações, que são debatidas neste livro. Estranha-se só que um livro sobre astrofísica surja perdido no meio de uma colecção de astrologia e «ciências» congéneres («Portas para o desconhecido»).
Física Quântica
- J. Andrade e Silva e G. Lochak, "Quanta, grãos e campos", Co1. Estudo Geral, Instituto de Novas Profissões, Col "Estudo Geral", Lisboa, 1988 (tradução de M. Pina do original francês "Quanta, grains et champs", 1969, 175pp.
J. Andrade e Silva, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, é' um dos maiores especialistas portugueses na história das ideias científicas. Foi discípulo de Louis de Broglie e desse contacto veio-lhe naturalmente alguma aversão às interpretações correntes da mecânica quântica. Este livro, traduzido do francês (o que é raro: um livro de um cientista português, publicado primeiro em França!), está bem escrito e tem boas ilustrações.
- C. Bernardini, "O que é uma lei física?", Editorial Notícias, colecção Biblioteca de Conhecimentos Básicos, Lisboa, 1988 (tradução de Franco de Sousa do original italiano "Che cos' e una legge fisica", Riuniti), 157 pp.
Este livro é interessante e recomenda-se, até porque tem algum humor aqui e ali e trata vários domínios da física. Por um daqueles acasos inexplicáveis, surgiu no mercado praticamente ao mesmo tempo que o livro de Feynman que em português tem o mesmo título. Os dois livros têm até algumas semelhanças (o livro de Feynman é anterior). Inclui-se aqui o livro, apesar de dar mais espaço à mecânica clássica, aborda alguns assuntos de mecânica quântica e tinha, de resto, que se incluir nalgum lado. Os "cartoons" são curiosos.
- D. Bohm e F. David Peat, "Ciência, ordem e criatividade", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1989 (tradução de J. Branco do original norte-americano, "Science, order, creativity", Bantam Books, 1987), 366 pp.
David Bohm é um conhecido adversário da "escola de Copenhaga" da mecânica quântica, apesar de ter escrito um livro que constitui uma referência nesse domínio da física. Depois disso tem-se dedicado à divulgação das "ideias holísticas", sendo a sua obra mais conhecida "Wholeness and the implicate order", Routledge & Kegan Paul, 1980. F. D. Peat é co-autor com J. Briggs de um livro também de inspiração holística intitulado "Looking Glass Universe. The emerging science of wholeness" (Simon & Schuster, 1984). O livro de Bohm e Peat é um libelo contra aquilo que os autores chamam falta de criatividade da ciência contemporânea, sendo a mecânica quântica discutida entre outros assuntos. É controverso que a ciência moderna seja pouco criativa. É evidente que não basta uma conversa entre um cientista e um jornalista para que resulte algo de muito criativo... Até porque não se pode ser criativo quando se quer mas sim quando se tem a inspiração para tanto.
- M. Bunge, "Filosofia da Física", Edições 70, Lisboa (1984), tradução de R. Pacheco, com revisão de A. Morão; original publicado na Holanda, "Philosophy of Physics", Reidel; 261 pp.
Mario Bunge, pensador de origem italiana, é um dos filósofos da física actualmente de maior reputação. Este livro é uma obra densa, de leitura nem sempre fácil, nem para físicos, nem para filósofos, muito menos para o público comum. Para além do problema polémico da interpretação da mecânica quântica («A mecânica quântica, provavelmente a mais poderosa de todas as teorias científicas, é também aquela que tem a mais fraca filosofia», p. 97), o livro aborda várias questões epistemológicas relacionadas com a física contemporânea. Tradução por vezes deficiente, no que diz respeito à terminologia técnica.
- F. Capra, "O Tao da Física", Editorial Presença, Lisboa, 1989 (tradução do original inglês "The Tao of physics", Wildwood House, 1975, republicada pela Fontana/Collins).
Este livro não é recomendado. Trata-se de uma boa mistura de física com filosofia oriental. O autor vê analogias por todo o lado, sem apresentar fundamentos suficientes. Uma das páginas em sânscrito aparece ao lado de uma outra com equações de física: não se prova nada com isso (para muita e boa gente as duas páginas são chinês...). Esta mistura de ciência e misticismo esteve e ainda está em moda. Depois do enorme êxito deste livro (há um outro livro do mesmo género sobre física quântica e filosofia oriental, de G. Zusak, intitulado "The Dancing Wu Li Masters", Hutchinson, 1979, felizmente ainda não traduzido em português), Capra publicou em 1982 "The turning point", uma obra que apesar de controversa é um pouco mais séria. Aborda o futuro da sociedade mundial e alcançou êxito em muitos países (existe uma tradução brasileira "O ponto de mutação", Cultrix, S. Paulo, s.d.).
- P.Davies, "Outros mundos", Edições 70, Col. Universo da Ciência, Lisboa, 1987 (tradução de V. Ribeiro do original inglês "Other worlds", Dent and Son, Londres), 197 pp.
Depois de "Deus e a Nova Física", que abriu a colecção "Universo da Ciência", o físico inglês Paul Davies volta à carga. Nada de especialmente interessante, andando à volta das tradicionais especulações sobre a mecânica quântica.
- P. Davies, "Superforça. Em busca de uma teoria unificada da natureza", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1988 (tradução e notas de P. I. Teixeira do original inglês "Superforce", Glenister Gavin, 1984), 359 pp.
Livro banal, que corre o risco de se desactualizar aqui e ali. Aborda a mecânica quântica, a física das altas energias e a cosmologia. Já faz referência à teoria das supercordas, que são o último grito da superforça.
- R. Feynman, "QED. A estranha teoria da luz e da matéria", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1988 (tradução de A. Ovídio Baptista, revista por António M. Baptista, do original norte-americano "QED. The strange theory of light end matter", 1985, prólogo de L. Mautner, prefácio de R. Leighton), 180 pp.
Um livro de Feynman e está tudo dito: trata-se de uma das suas últimas obras antes da sua morte em 1988. O grande físico norte-americano, Prémio Nobel, cuja "auto-biografia" está publicada em dois interessantes volumes da Gradiva ("Está a brincar, Sr. Feynman!" e "Nem tanto a brincar, Sr. Feynman!") tenta trocar por miúdos um dos ramos da física pelo qual o autor mais se interessou: a electrodinâmica quântica, a mais exacta das teorias físicas. Fornece muitos exemplos para tornar a teoria da luz acessível. Nem sempre o consegue, mas a culpa pode não ser dele porque a luz é, de facto, uma coisa estranhíssima.
- R. Feynman, "Está a brincar, Sr. Feynman! Retrato de um físico enquanto homem", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1988 (tradução de I. Neves do original norte-americano "Surely you'are joking, Mr. Feynman",W. Norton, 1985, nota de introdução de O. T. Almeida, prefácio de R. Leighton e introdução de A. Hibbs), 325 pp.
Relato divertidíssimo de episódios da vida de Feynman. Embora não seja um livro de divulgação científica propriamente dito serve para desmitificar os cientistas. Ver crítica de E. Lage na Gazeta da Física 11 (1988) 71.
- R. Feynman, "Nem sempre a brincar, Sr. Feynman! Novos elementos para o retrato de um físico enquanto homem", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1989 (tradução de M. G. Segurado, com revisão científica de J. Branco, do original norte-americano "What do you care what other people think?", W. Norton, 1988), 261 pp.
Continuação do livro anterior. Menos humor e até alguma amargura (daí ser feliz o título escolhido para a edição portuguesa). A segunda parte conta a experiência de Feynman na Comissão para averiguar o desastre do Challenger. Quando a técnica falha, chamam-se os físicos para ver o que é que falhou...
- R. Feynman, "O que é uma lei física", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1989 (tradução e introdução de C. Fiolhais do original norte-americano "The character of the physical law", MIT Press, 1963), 222 pp.
Livro clássico cuja tradução a Portugal chega tarde. Mas mais vale tarde do que nunca. Trata-se de uma sequência de conferências sobre vários domínios da física, proferidas na Universidade de Cornell em 1963 e gravadas pela BBC, que revelam bem o estilo vivo e fresco de Feynman. Recomenda-se a todos os professores pela originalidade da exposição. O capítulo sobre a mecânica quântica, por exemplo, é genial e tem sido referido inúmeras vezes. Na segunda edição foram corrigidas algumas gralhas.
- J. Gribbin, " A procura da dupla hélice --A física quântica e a vida", Editorial Presença, Lisboa, 1989.
Não gosto de Gribbin. Não li nem tenciono ler.
- J. Gribbin, "À procura do gato de Schroedinger. A Física Quântica e a sua influência no mundo actual", Presença, Lisboa (1986), tradução de M. B. Santos; original inglês, "In Search of Schroedinger´s Cat", 1984; 196 pp.
J. Gribbin, astrofísico formado em Cambridge, tem escrito para o «New Scientist», prestigiada revista britânica de informação científica, e é um dos divulgadores de ciência mais lidos na Grã-Bretanha. No entanto este «Gato», apesar de um início prometedor, perde-se depois, nomeadamente quando o autor, no Cap. XI, sacrificando uma desejável independência científica, se afirma partidário da teoria dos universos paralelos, sem fornecer para tal afiliação uma explicação convicente. Além disso, não se pode dizer que o livro esteja isento de incorrecções científicas. Algumas e bem graves lá se encontram. A bibliografia comentada, no final, é no entanto bastante útil para quem queira saber mais. A tradução necessitava de ter sido revista por alguém competente.
- M. Kaku e J. Trainer, "Para além de Einstein -- A investigação cósmica para uma teoria do universo", Publicações Europa América, Col. Forum da Ciência, Mem Martins, 1989 (tradução de G. Correia da Silva do original norte-americano "Beyond Einstein: The cosmic quest for the theory of the universe"), 172 pp.
Este livro é um exemplo de uma coisa que nem sempre funciona bem que é a interacção entre um físico e um jornalista. A tradução não é grande coisa (aparece "supercadeias" em vez de "supercordas", "matéria obscura" em vez de "matéria escura", etc.).
- S. Ortoli e J. P. Pharabod, "Introdução à Física Quântica", D. Quixote, Lisboa (1986), tradução de M. Ruas; original francês, "Le Cantique des Quantiques", La Découverte, Paris, 1984; 140 pp.
O primeiro autor é um físico-jornalista da «Science et Vie», não sendo portanto de admirar que, à maneira desta revista de divulgação científica, este livro apresente ilustrações bastante sugestivas. Quanto ao texto, ele trata alguns problemas relacionados com a interpretação da mecânica quântica, nomeadamente os desenvolvimentos recentes ligados às experiências de A. Aspect, que revelaram uma violação das desigualdades de Bell. Não se abordam pois os aspectos «ortodoxos» e bem estabelecidos da aplicação da mecânica quântica ao mundo físico, mas antes se discutem algumas questões de índole mais ou menos filosófica, ou até religiosa ou ocultista (cf. o Cap 9, «Orientalismo e Parapsicologia»). A tradução do título afigura-se particularmente infeliz pois o livro não constitui uma introdução à física quântica. O título original, bem poético e de inspiração bíblica, dá uma ideia mais apropriada do conteúdo: «O cântico dos quânticos».
- H. Pagels, "O Código Cósmico. A Física Quântica como Linguagem da Natureza", Gradiva, Lisboa (1986), tradução de J. Buescu revista por A. M. Baptista; original norte-americano, "The Cosmic Code", Simon & Schuster, 1982; 416 pp.; (existe uma edição da Penguin).
Excelente livro, não só sobre a física quântica mas sobre (quase) toda a física deste século. Aborda no início a relatividade e, no meio do livro, a física das altas energias, terminando com uma digressão sobre a metodologia das ciências físicas. O seu autor, professor na Universidade de Rockefeller, em Nova Iorque, é um conhecido especialista em física das altas energias, tendo publicado alguns importantes artigos de «revisão» sobre a cromodinâmica quântica (a moderna teoria das interacções fortes). A clareza do seu estilo, aliada ao rigor científico e a uma certa imaginação da escrita (patente, por exemplo, na feira das teorias quânticas, no Cap. 13 da parte I) merecem muitos leitores. O prefácio é de António M. Baptista, que tem sido um dos divulgadores de ciência mais perseverantes no nosso país. Tradução razoável. O único senão do livro é a falta de um índice de assuntos, que facilite uma consulta rápida.
- B. Parker, "O sonho de Einstein", Edições70, Col. Universo da Ciência, Lisboa, 1988 (tradução de C. Pina e Brito do original inglês "Einstein's dreams", 1986), 241 pp.
O "sonho de Einstein" era a unificação das forças. A esse problema e não à relatividade dedicou a maior parte da sua vida. O livro, que fala de relatividade, cosmologia e teoria quântica unificada, não tem nada de especial. Repare-se na quantidade de títulos que envolvem o nome de Einstein e anote-se este apenas como mais um.
- J. C. Polkinghorn, "O mundo dos quanta", Publicações Europa América, Col. Forum da Ciência, Mem Martins, 1988 (tradução de "The quantum world", Longmans, 1984, republicado pela Penguin).
O inglês Polkinghorn tem a particularidade curiosa de, além de físico teórico, ser pastor protestante. Este "pastor" tem jeito para a divulgação e, se divulgar a palavra de Deus como divulga a ciência, as suas prédicas devem ser bem concorridas. É semelhante mas melhor (até porque é mais curto) do que "Outros mundos" de P. Davies. Existe outro livro, em inglês, do mesmo autor: "The particle play", Freeman, 1979.
- K. Popper," A teoria dos quanta e os cisma da física", Vol. III do Pós-Escrito à Lógica da Descoberta Científica, organização de W. Bartley III, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1989 (tradução de N. F. Fonseca do original inglês "Quantum Theory and the Schism of Science", Hutchinson, 1956), 227 pp.
Boa edição esta dos três volumes do "Pós-Escrito à Lógica da Descoberta Científica", apesar de não existir ainda na edição nacional "A Lógica da Descoberta Científica". Popper é um realista, na linha einsteiniana, e portanto um adversário de algumas das ideias da mecânica quântica, tal como elas são professadas pela "escola de Copenhaga". A crítica de Popper, ao contrário de outras, é interessante e merece uma leitura atenta.
- B. Toben e F. A. Wolf, "Espaço-Tempo ou mais além - Para uma explicação do inexplicável", 1986, Via Óptima, Lisboa (tradução não assinada de "Space Time and Beyond", 1975), 196 pp.
Livro delirante, que se recomenda a quem estiver interessado em se rir um bom bocado mas que não se recomenda a quem não esteja para isso. Tiram-se as conclusões mais disparatadas da física moderna. Só deve portanto ser lido por pessoas de sólida formação científica. Ao incauto, que leia aquela sucessão de bonecos com frases cada vez mais loucas e que no fim veja um suposto físico (F. Wolf, autor também de "Taking the quantum leap", Harper & Row, 1981) a fundamentar aquilo tudo, desde a levitação até à reencarnação, e a extensa bibliografia com muitas obras sérias, até pode acontecer que, a partir daí, passe a acreditar em tudo... A editora é desconhecida e deixa o nome do tradutor também no desconhecimento. O livro faz parte de uma série, que com uma ou outra excepção, é também delirante.
Física Nuclear e de Partículas
- V. Chernogorova, "Enigmas do Micromundo", Mir, Moscovo (s.d.); original soviético de 1977.
Pequeno livro, de leitura bastante fácil, onde se conta a história da descoberta das partículas elementares, incluindo o modelo dos quarks. As ilustrações são humorísticas, servindo para captar a atenção do leitor.
- F. Close, " A Cebola Cósmica - Os quarks e a natureza do universo", Edições 70, Col. Universo da Ciência, Lisboa, 1987 (tradução de P. Vitória do original inglês "The Cosmic Onion", Heinemann, 1983), 193 pp.
Livro muito interessante cujo título dá conta das várias escalas do universo físico. Várias "caixas" ajudam à organização do volume e as partículas são explicadas com o auxílio de alguns bonecos. O autor é um prestigiado físico de partículas inglês.
- J. D. Deus, "Ciência, Curiosidade e Maldição", Gradiva, Lisboa (1986); 176 pp.
Colectânea de vários textos, que o autor, investigador do Centro de Física de Matéria Condensada do INIC e actual presidente da Associação de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento, foi publicando ao longo dos anos. O livro dificilmente se pode classificar num certo assunto e optámos um tanto arbitrariamente por o incluir em «física nuclear e de partículas» pela formação do autor e ainda pelos textos sobre as forças da natureza e sobre a guerra nuclear. Esta obra prova que os cientistas portugueses também podem fazer divulgação e da melhor. O livro só peca pela demasiada heterogeneidade dos textos, que na nossa opinião deviam vir acompanhados da data e do lugar onde primeiro vieram a lume. O penúltimo texto, uma glosa à «Ceia dos cardeais», de Júlio Dantas, é brilhante, exibindo uma visão implacável de alguns personagens universitários. O último fornece um retrato crítico, embora optimista, da situação da investigação científica em Portugal. Não perder a leitura deste livro.
- M. Duquesne, "Matéria e Antimatéria", Edições 70, Lisboa (1986), tradução de A. F. Marques; original francês, "Matière et Antimatière", PUF, Paris; 97 pp.
Pequeno livro, sem nada de interessante que o recomende. Mostra-se bastante desactualizado, face aos enormes progressos que nas últimas décadas têm sido realizados no domínio das partículas elementares, nomeadamente os resultados obtidos em experiências de colisão de partículas e antipartículas em grandes aceleradores. Mas para as editoras deve ser mais rentável imprimir uma tradução de um texto qualquer do que «encomendar» um texto original e mais actualizado a um físico português.
- N. G. Fliorov e A. S. Ilhinov, "À procura dos superelementos", Mir, Moscovo (1985), tradução de K. Asryantz; original soviético, 1982; 167 pp.
É conhecida a rivalidade soviético-americana na investigação dos elementos transuranianos (o recorde está agora na posse dos alemães federais do GSI, sediado em Darmstadt, que, em 1983, detectaram o elemento 109) e na até agora infrutífera busca dos superpesados. Este livrito defende as posições soviéticas, chegando aqui e além ao exagero. Por exemplo, ficamos a saber na contracapa que a descoberta da fissão é obra de um dos autores, Fliorov, e não de O. Hahn, cientista alemão galardoado com o Prémio Nobel da Química em 1944 precisamente por essa descoberta. Aliás os soviéticos, como já houve quem afirmasse, reclamam no mínimo a co-autoria de qualquer descoberta científica importante...
- H. Fritzsch, " Quarks - A matéria-prima deste mundo", 1990, Editorial Presença, Lisboa, 1990 (prefácio de H. Schopper, tradução de M. Regina Briz, revista por P. Picciochi, do original alemão "Quarks. Urstoff unserer Welt" , Piper, 1981), 229 pp.
O autor é físico de partículas alemão, da Universidade de Munique, que tem revelado alguma habilidade para a transmissão da ciência ao publico (v. artigo da "Bild der Wissenschaft", cuja tradução em português foi publicada na revista "Omnia", nº 10, Jul./Ago. 1989, p. 76). São tão poucas as obras de autores alemães oferecidas ao publico português de divulgação científica que esta, apesar de atrasada e de a tradução pecar amiúde do ponto de vista técnico, é bem-vinda. A exposição é medianamente clara. O mesmo autor tem um outro livro sobre a origem do universo, publicado pela editora Piper de Munique.
Astrofísica e Cosmologia
- C. Allègre, "Da pedra à estrela", Col. "Ciência Nova", Publicações D. Quixote, Lisboa, 1988.
O autor é geólogo (en português tem ainda publicado pela Gradiva " A Espuma da Terra"). A obra, com bastantes ilustrações, percorre o caminho que vai das ciências geológicas à astrofísica. O conhecimento dos planetas do sistema solar tem aumentado nos últimos tempos com o envio de sondas e o intervalo entre as Ciências da Terra e as Ciências do Espaço está-se a tornar cada vez menor.
- I. Asimov, "Tão longe quanto alcança o olhar humano", Publicações Europa América, Col. Forum da Ciência, Mem Martins, 1989.
I. Asimov, escritor norte-americano de origem russa e formação em bioquímica, é de longe o mais prolixo autor de livros de divulgação científica e de ficção científica: tem mais de duzentos livros publicados! Dá a ideia que sabe de tudo porque escreve sobre tudo. Se calhar sabe mesmo de tudo mas, francamente, gosto mais dele como autor de ficção científica (de livros como, por exemplo, " A Nuvem Negra", publicado na colecção " Argonauta" pela Livros do Brasil).
- I. Asimov, " A Terra e o Cosmos - os horizontes do espaço, do tempo, da matéria e da energia", Publicações Europa América, Col. Forum da Ciência, Mem Martins, 1989.
Outro Asimov.
- I. Asimov, "O universo da ciência 1 - O que é a ciência. O universo, o sistema solar, a terra e a atmosfera", Presença, Lisboa, 1987 (tradução de "The new intelligent man's guide to science"), 327 pp.
Asimov escreve demais. Este volume e os seguintes são uma espécie de enciclopédia asimoviana da ciência. Incluem-se aqui, sob a designação de astrofísica, porque o primeiro volume começa por aí.
- I. Asimov, "O universo da ciência 2 - Os elementos - As partículas - As ondas - A máquina e o reactor", Presença, Lisboa, 1987, 325 pp.
- I. Asimov, "O universo da ciência 3", Presença, Lisboa, 1987.
- I. Asimov, "O universo da ciência 4", Presença, Lisboa, 1987.
- P. W. Atkins, "A Criação", Presença, Lisboa (1985), tradução de A. T. R. Sousa e J. J. Moura Ramos; original norte-americano, "The Creation", Freeman, 1981; 128 pp.
O autor, professor de Química-Física na Universidade de Oxford, defende nesta obra a tese de que o Universo não necessita de uma entidade divina para explicar a sua existência. O «Big Bang» tratar-se-ia, na sua opinião, de um «lançamento livre». Esta especulação ultrapassa obviamente o domínio da física. Parece ainda ser demasiado arrogante a frase do prefácio: «...a ciência... parece estar à beira de explicar tudo» (p. 9). A apresentação gráfica do livro é original, com uma página de texto e outra de comentários e referências. A tradução não se revela muito agradável de ler, uma vez que não prima pela fluência.
- J Barrow e J. Silk, " A mão esquerda da criação. Origem e evolução do universo em expansão", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1989 (tradução de M. A. Gomes da Costa, revista por J. F. Gomes da Costa, do original norte-americano, "The left hand of creation", Basic Books, 1983), 271pp.
Os dois autores são astrofísicos e fazem um relato do que se conhece do Big Bang e dos processos que se lhe sucederam. Actualiza-se assim o contendo de " Os três primeiros minutos" de Weinberg, publicado também pela Gradiva. Recomenda-se, portanto, até porque este livro não conheceu nem na crítica nem no publico a ressonância que merecia. J. Barrow é também autor de dois volumes muito interessantes mas grandes, o primeiro de parceria com Tipler e o segundo a solo: "The anthropic cosmological principle" (Oxford University Press, 1986) e "The world within the world" (idem, 1989).
- R. Clarke, "Do universo ao homem", Edições 70, Col. Universo da Ciência, Lisboa, 1986.
Pequena obra de antropologia com uma pequena introdução sobre a história do universo e da Terra. Figura aqui apenas por causa dessa pequena introdução.
- P. Davies, "Deus e a Nova Física", Edições 70, Lisboa (1986), tradução de V. Ribeiro; original inglês, "God and the New Physics", Dent, Londres, 1983 (existe uma edição da Penguin); 269 pp.
P. Davies, professor de Física Teórica na Universidade de Newcastle, Inglaterra, é um dos autores mais prolixos da actual divulgação científica, tendo publicado dezenas de obras. A sua escrita é geralmente rigorosa, pelo menos no que diz respeito aos conceitos físicos. Nesta obra embrenha-se nos meandros das ligações de física moderna com a teologia, ou melhor, com as várias teologias. O resultado, embora talvez sedutor para um certo tipo de público, tem sido bastante criticado. Com efeito, se é verdade que o autor é um conhecedor profundo da física moderna, o mesmo não se pode dizer a respeito da religião. Algumas afirmações do seu livro foram por isso vivamente contestadas por vários físicos e devem ser encaradas como especulações mais ou menos livres. Nomeadamente a seguinte frase do prefácio é um bom exemplo: «na minha opinião, a ciência oferece um caminho mais certo para Deus do que a religião» (p. 10). A tradução é deficiente (compare-se por exemplo o último parágrafo da pag. 165, da edição portuguesa, com o respectivo original inglês, ou veja-se se não é engraçada a expressão spin «engraçado», da p. 171). É obvia a falta de revisão por um especialista que domine os conceitos e a terminologia científica (na tabela da p. 166, escreve-se por exemplo «electrão-neutrino», em vez de «neutrino electrónico»).
- J. Davies, "O impacto cósmico", Edições 70, Col. Universo da Ciência, Lisboa, 1989 (tradução de T. Pérez do original norte-americano "The cosmic impact", 1986), 187pp.
Livro sobre um tema moderno que é o estudo dos impactos de meteoritos em planetas do sistema solar. O autor é astrónomo (não confundir com P. Davies, de "Deus e a Nova Física"!). É abordado nomeadamente o grande meteorito que, de acordo com os Alvarez, teria extinto os dinossauros. A nossa Terra é portanto objecto de destruições ocasionais, resultado do movimento desordenado de pequenos corpos no espaço. Esta visão contrasta com a do movimento ordenado que existe desde Kepler e Newton.
- Enciclopédia Einaudi, vol. 9, "Matéria-Universo", Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa (1986), tradução do original italiano da Enciclopédia Einaudi, dirigida por R. Romano, sendo Fernando Gil o coordenador responsável pela tradução portuguesa; 485 pp.
Este volume de uma Enciclopédia, que se pretende diferente, em particular pelo seu projecto de interdisciplinaridade, inclui artigos de L. Gratton («Universo», «Matéria» e «Gravitação»), de A. Anile («Espaço-tempo») e de G. Cavallo e A. Messina («Cosmologias» e «Astronomia»), entre outros. Esses artigos pretendem fazer o ponto dos conhecimentos sobre os temas enunciados, conseguindo-o em muitos aspectos. O artigo sobre a «Matéria», por exemplo, resume com bastante eficácia a evolução das ideias sobre a constituição da matéria, só sendo de estranhar a ausência de referências recentes. A tradução não é perfeita, sob o ponto de vista da terminologia técnica, mas este facto é desculpável, se se atender à ausência de léxicos em português que incluam os termos científicos mais recentes. Por exemplo, os físicos falam de «teorias de invariância de padrão» e não «de calibre».
- J. Gribbin, "Génesis - A origem do homem e do universo", Publicações Europa América, Col. Forum da Ciência, Mem Martins, 1988 (tradução de R. Sousa Machado do original inglês "Genesis" 1981), 314 pp.
Livro mau, em que o nome do autor, pelo menos, na primeira edição aparece gralhado (surge Gribbrin quando, na realidade é Gribbin). Um mau começo para a colecção "Forum da Ciência" das Publicações Europa América, que infelizmente se tem especializado em Gribbin. As gralhas no interior são também inúmeras. Só para dar 3 exemplos: Na p. 24, está "expanção" (sic) em vez de "expansão" na p. 47 está "eclipses" em vez de elipses (é bem diferente!), na p. 177, está "exploração" em vez "explosão". E por aí fora (há alguns erros divertidos, como " anais" em de "canais". Nem vale a pena falar deste livro: não vale o preço de capa
- J. Gribbin, " À procura do Big Bang", Editorial Presença, Lisboa, 1988.
Não li, porque são demasiados os livros de Gribbin.
- J. Gribbin, " Os buracos brancos - o princípio e o fim do espaço", Publicações Europa América, Col. Forum da Ciência, Mem Martins, 1988.
Também não li. Tanto Gribbin já chateia.
- S. Hawking, "Breve história do tempo. Do Big Bang aos Buracos Negros", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1988 (tradução de Ribeiro da Fonseca do original inglês " A Brief History of Time", 1988, revisão, adaptação do texto e notas de J. F. Gomes da Costa, prefácio de C. Sagan), 247 pp.
Um verdadeiro êxito de vendas, um pouco por todo o lado do mundo e também em Portugal. As pessoas compram mas não lêem (o leitor não compre se não vai ter tempo para ler). Este livro, bastante anunciado, prometia mais do que veio a revelar. Estou convencido de que o seu êxito resulta de uma gigantesca campanha de promoção que tem a ver com o facto de o autor se encontrar fisicamente inutilizado numa cadeira de rodas. O revisor português fez aquilo que não devia que era corrigir várias vezes o autor. A responsabilidade da edição é do editor, que deixou passar as anotações a esmo do revisor. V. crítica na revista "Omnia", nº 8, Mar./Abr. 1989, p.68.
- F. Hoyle, "O Universo Inteligente. Uma nova perspectiva da criação e da evolução", Presença, Lisboa (1984), tradução de C. Jardim e E. Nogueira, com revisão científica de J. Moura Ramos; original inglês, "The Intelligente Universe", Dorling Kindersley, Londres, 1983; 256 pp.
F. Hoyle, conhecido escritor de ficção científica («A Nuvem Negra», por exemplo) e astrofísico heterodoxo (é coautor da teoria da criação contínua, caída em desgraça depois da descoberta da radiação cósmica de fundo) apresenta nesta obra de excelente apresentação gráfica as suas ideias, nem sempre conformes com a opinião prevalecente na comunidade científica, sobre a evolução do universo, nas suas múltiplas facetas (físicas, químicas, geológicas, biológicas). Boa tradução.
- R. Jastrow, "A Arquitectura do Universo (dos Astros, da Vida, dos Homens)", Edições 70, Lisboa (1977), tradução de V. Ferreira e M. Cabrita, revisão científica de J. Branco; original inglês, "Red Giants and White Dwarfs", Harper & Row, 1967, 2ª ed. 1971; 195 pp.
R. Jastrow, cientista multifacetado, antigo colaborador da NASA, é hoje, como presidente da Fundação Marschall, um dos defensores do projecto da «Guerra das Estrelas». Este livro teve origem numa série de televisão norte-americana de 1964. De então para cá a nossa visão da «arquitectura do universo» evoluiu muito, ou pelo menos consolidaram-se algumas ideias então apenas embrionárias. O livro tem o mérito de fornecer um retrato-síntese do universo visto nos anos sessenta, integrando dados da cosmologia, da astronomia, da geologia e da biologia. O revisor científico, J. Branco, geofísico e investigador do Centro de Cálculo Científico da F. C. Gulbenkian, tem sido um dos maiores impulsionadores da boa literatura de divulgação científica entre nós.
- H. Maia e J. J. Ramos (eds.), "A Evolução Cósmica e a Origem da Vida", Almedina, Coimbra (1985); 277 pp.
Colectânea de textos de um Encontro realizado em Braga, em Julho de 1983, sobre as origens da vida. Entre os autores portugueses destacam-se os textos de Dias de Deus (Cap. II) e de Mariano Gago (Cap III). Entre os estrangeiros, deve ser realçado o nome de C. Ponnamperuma, autor de estudos químicos sobre a origem da vida. O livro é de especial interesse para os biólogos que pretendam saber mais sobre as relações da sua disciplina com a química e a física. Ver também sobre este assunto o número 1 da série «Química e Sociedade», edição da Sociedade Portuguesa de Química.
- H. Pagels, "Simetria perfeita", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1990 (tradução de H. Leitão e P. Ivo Teixeira do original norte-americano "Perfect Symmetry", Simon & Schuster, 1985, reeditado pela Bantam), 455 pp.
Um livro bom e bem traduzido sobre a história do universo e a história da descoberta dessa história. Pagels escreve bem, como já se sabia desde "O Código Cósmico". O seu falecimento em 1988 num acidente de montanhismo constituiu uma grande perda para a ciência e para a literatura da ciência. Deixou-nos ainda "The dreams of reason", Simon & Schuster, 1988, que vai ser publicado em português pela Gradiva, e que trata do impacte do computador na ciência. Mas antes que haja outro Pagels, o leitor pode e deve comprar este.
- D. Raup, "O caso Némesis. História da morte dos dinossauros e dos caminhos da ciência", Col. Forum da Ciência, Publicações Europa América, Mem Martins, 1989 (tradução de R. Sousa Machado, revista por Carvalho dos Santos, do original inglês, "The Nemesis affair"), 189 pp.
Livro na mesma linha de "O impacto cósmico", de J. Davies, mas melhor. Raup é um paleontólogo norte-americano que propôs uma teoria sobre a queda do meteorito que teria eventualmente extinto os dinossauros. Uma estrela companheira do Sol, ainda por descobrir, seria afinal a responsável... Raup consegue ser brilhante ao relatar por dentro os meandros da moderna investigação científica. A comunidade científica reage das mais variadas maneiras quando se propõe alguma tese um pouco mais ousada (como aconteceu com a experiência portuguesa descrita por Sebastião Formosinho, professor da Universidade de Coimbra, em "Os bastidores da ciência", publicado pela Gradiva em 1988). Este é o melhor volume da colecção "Forum da Ciência" da Europa América.
- H. Reeves, "Um pouco mais de azul. A evolução Cósmica", Gradiva (1983), tradução de A. S. Branco, com revisão de J. Branco; original francês, "Patiente dans l´Azur", Seuil, Paris, 1981; 257 pp.
Uma obra-prima da divulgação científica, que mostra como a ciência pode ser atraente, sem perder o seu rigor. Reeves, astrofísico de origem canadiana que trabalha em França no CNRS, é um «poeta» do universo. Sabe escutar os seus «sons» e reparar nas suas «cores» como poucos. Este é um livro destinado a despertar vocações. O título em português retirado de um poema de M. de Sá Carneiro é bastante feliz. A edição americana, publicada pelo MIT, optou por traduzir o título original, baseado num poema de P. Valery, por «Atoms of Silence». Não resistimos a deixar uma citação de Reeves: «Qual é o futuro desta evolução?... Nunca o saberemos provavelmente... Mas estamos investidos de uma missão: favorecer este desabrochamento por todos os meios possíveis, tal como uma mulher grávida cuida de si» (p. 151).
- H. Reeves, "A hora do deslumbramento. Terá o Universo um sentido?", Gradiva, Lisboa (1986), tradução de J. Branco; original francês, "L´heure de s´enivrer", Seuil (1986); 243 pp.
No Natal de 1986 surgiu nas livrarias esta tradução da mais recente obra de Reeves. O tempo decorrido entre o original e tradução foi, ao contrário do que é costume, desta vez muito reduzido. O autor continua na esteira «Um pouco mais de azul», invocando desta vez Baudelaire, a propósito do «deslumbramento» pelo cosmos. Na contracapa, transcreve-se aquela que é talvez a frase-chave do livro: «Sinto-me muito mais um historiador do cosmos do que um cientista que observa uma realidade fixa». Um livro a recomendar tanto aos interessados das ciências humanas como das ciências exactas. A dicotomia entre as duas hoje já não faz sentido.
- S. Rose e L. Appignanesi e outros, "Para uma nova ciência", Gradiva, Ciência Aberta, Lisboa, 1989 (tradução de A. Pires Dias, A. Oliveira, J. Fernandes e L. Carvalho Rodrigues do original inglês "Science and beyond", 1986), 256 pp.
Colectânea desinteressante, que destoa na colecção Ciência Aberta. É a única colectânea de textos avulsos nessa colecção. Os textos são sobre os mais variados temas (até sobre o feminismo!) e têm uma qualidade muito desigual. Desaconselha-se, portanto. No final, aparece um texto do astrofísico inglês J. Taylor sobre os buracos negros e é isso que o livro é aqui recenseado (lembre-se que ele tem um livro traduzido em português sobre esse assunto, "Os buracos negros", Europa América, 1983).
- C. Sagan, " As ligações cósmicas. Uma perspectiva extraterrestre", produção de J. Agel, Bertrand, Venda Nova, 1987, tradução de M. Teresa Lago do original norte-americano "The cosmic connection", 1973), 264 pp.
Sagan é um dos mais ardentes defensores dos programas para procura de inteligência extraterrestre, do qual o mais importante é o projecto SETI ("Search for Extraterrestrial Intelligence"). Apesar de ser um Sagan e de ser publicado por uma editora tão conhecida como a Bertrand, este livro foi pouco referenciado. A tradutora, Teresa Lago, é uma das principais impulsionadoras da astronomia em Portugal, sendo responsável por um Instituto de Astrofísica ligado à Universidade do Porto.
- C. Sagan, "Cosmos", Gradiva, Lisboa (1984), tradução de M. A. Barros, I. P. Santos, A. G. Dinis, G. N. Valente, F. Agarez, M. Alves, J. F. Tavares, M. S. Roque e A. Costa, com revisão de J. Branco; original norte-americano, "Cosmos", 1980; 411 pp.
Um «best-seller» que constituiu o guião para a popular série televisiva com o mesmo nome. Não há dúvida que Sagan, astrofísico da Universidade de Cornell, Nova Iorque, e colaborador da NASA, tem uma aptidão natural para transmitir ciência através dos orgãos de comunicação de massa. Em «Cosmos», tal como noutros seus livros («Os Dragões do Éden», «O Cometa», para só falar de alguns publicados no nosso país), nota-se a sedução da sua escrita. Lamenta-se tão só a indigência gráfica da edição portuguesa, que não mostra a profusão de imagens das edições em língua inglesa e espanhola, por exemplo. De resto, um dos principais méritos de Sagan reside na variada iconografia, que não chegou até nós. Quanto à tradução, fica-se sem se saber quem é o responsável por o quê.
- C. Sagan e I. S. Chklovskii, "A vida inteligente no Universo", Europa-América, Mem Martins, 2ª ed. (1985), tradução de F. O. Faia; original norte-americano, "Intelligent Life in the Universe", Holden-Day (1966); 577 pp.
O conhecidíssimo Sagan, de colaboração desta vez com um astrofísico soviético, explora com a sua habitual capacidade o tema, de grande impacto para o público comum, da existência de inteligência extra-terrestre no universo. Trata-se de uma obra de referência neste domínio. É curioso referir que os dois autores não se encontraram para redigir o livro, tendo Sagan aproveitado o texto do seu colega soviético como base para inserir comentários da sua lavra devidamente sinalizados de resto (assim, em boa verdade, a ordem dos autores devia vir invertida!). O diálogo resultante afigura-se-nos bastante original. Note-se que Sagan não se deve ter sentido muito à vontade para abordar o problema do contacto com extra-terrestres numa perspectiva exclusivamente científica, tendo preferido enveredar pela ficção («Contacto», Gradiva, 1986).
- S. Weinberg, "Os três primeiros minutos do Universo", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1987 (tradução do original norte-americano "The first three minutes", A. Deutch, 1977, republicado depois pela Bantam, entre outras).
Um clássico da astrofísica. Um Prémio Nobel da Física escreveu numa altura crucial um livro sobre a origem do universo, que foi "devorado" não só pelos leigos como pelos próprios cientistas. Com este livro dá-se notícia da união de dois mundos até então separados: o muito pequeno e o muito grande. S. Weinberg, físico do muito pequeno, explica aqui de forma sucinta mas brilhante como é que as partículas se relacionam com a origem do universo. V. crítica de E. Lage publicada na Gazeta de Física 11 (1988) 71.
Fenómenos Irreversíveis (incluindo termodinâmica, biologia, etc)
- M. Barbieri, "Teoria Semântica da evolução", Fragmentos, Col. Biblioteca Científica, Lisboa, 1987, prefácio de R. Thom (tradução de M. L. Pinheiro do original italiano "La teoria semantica dell' evoluzione", Boringhiere), 187 pp.
Barbieri procura uma nova interpretação da evolução (a tese é que " a cooperação é mais importante do que a selecção"). Não tenho a certeza se o consegue, i.e. se a interpretação é nova ou se se trata apenas de um refraseamento e da junção da obra de vários autores. São referidas, por exemplo, as ideias de M. Eigen sobre a origem da vida.
- A. Cairns Smith, "Sete pistas para a origem da vida. Uma história científica contada à maneira de um romance policial", Editorial Presença, Lisboa, 1986 (tradução de J. J. Sousa Ramos e A. Telma dos Reis e Sousa do original inglês, "Seven clues to the origin of life", Cambridge University Press, 1985), 128 pp.
A teoria é exótica. A forma e o estilo do livro são originais. O livro é pequeno. Se outras razões não existissem, estas seriam suficientes para o recomendar.
- F. Crick, "Vida. O mistério da sua origem e natureza", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1988 (tradução e revisão de M. C. Duque Magalhães do original inglês "Life itself", Simon & Schuster, 1981), 193 pp.
Outra teoria exótica, a da "panspermia" (a vida teria vindo do espaço) da autoria de um Prémio Nobel da Química, co-autor do código genético. Alguns cientistas quando ficam velhos têm coisas dessas (recorde-se aqui B. Josephson, Prémio Nobel da Física, que se tem ocupado da parapsicologia). No entanto, a "Vida", descontados os perigos da especulação, é até um livro interessante e motivador, que em Portugal apesar disso não teve grande eco.
- R. Dawkins, "O relojoeiro cego" , Edições 70, Col. Universo da Ciência, Lisboa, 1988 (tradução do original inglês "The blind watchmaker", Longmans, 1986, republicado pela Penguin).
Um livro muito bom, o melhor da colecção "Universo da Ciência" das Edições 70. Não sei porque é que este livro passou despercebido entre nós. O problema deve ser que as ideias de Darwin são ignoradas no nosso país. Dawkins defende inteligentemente o ponto de vista de que a evolução é cega e portanto não é necessário invocar um "criador". São bastante curiosas as experiências computacionais para obter formas de vida (esse software para MacIntosh é comercializado por uma casa inglesa).
- R. Dawkins, "O gene egoísta", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1989 (tradução de A. Paula Oliveira do original inglês "The Selfish gene", Oxford University Press, 1976), 317 pp.
Livro um pouco datado, mas que marcou uma época. O etologista português Bracinha Vieira no prefácio coloca as devidas reservas ao contendo e está no seu direito. No entanto, Dawkins escreve muito bem, muito melhor que a média dos autores de divulgação. O seu último livro "The extended phenotype", Oxford University Press, 1989, também deveria ser traduzido para português.
- M. Eigen e R. Winkler, "O Jogo", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1989 (prefácio e tradução de C. Fiolhais do original alemão "Das Spiel. Naturgesetze steuern den Zufall", Piper, 1975), 455 pp.
Para quem gosta de jogos, esta obra da autoria de um Prémio Nobel da Química e de uma sua colaboradora, apesar de não ser fácil, oferece um sem numero de perspectivas. Receio bem, no entanto, que o leitor compre e acabe por abandonar na estante por achar difícil de seguir. Quando tiver tempo, pode sempre voltar à estante... Ver a crítica no "Expresso-Revista" de 14/10/1989, p. 90.
- J. Gleick, "Caos", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1989 (tradução de J. C. Fernandes e L. Carvalho Rodrigues do original norte-americano "Chaos. Making a new science", Viking Penguin, 1987, prefácio e revisão científica de Jorge Buescu), 420 pp.
Livro excelente. Trata-se de uma obra prima de reportagem da moderna ciência do "caos" realizada por um jornalista científico junto de muitos cientistas (físicos, matemáticos, biólogos, etc.). Indispensável para os jovens que gostam de programar e de usar o computador para criar fractais e atractores estranhos. As figuras têm excelente qualidade e um forte poder de atracção, incluindo a gravura da capa, do alemão Peitgen (a capa é de Peitgen e não de A. Lopes como vem escrito na ficha técnica). Falta o índice de assuntos que vem no original. Ver recensão no "Expresso-Revista" de 17/3/90, p. 57.
- S. R. Gould, "O mundo depois de Darwin. Reflexões sobre história natural", Editora Presença, Col. Limiar do Futuro, 1988 (tradução, revista por P. Pichiochi, de P. Vitória do original norte-americano "Ever since Darwin - reflections on natural history", 1977), 244 pp.
S. R. Gould não precisa de elogios. É um paleontólogo da Universidade de Harvard que tem o dom da comunicação. Tudo o que vem dele é bom, incluindo este conjunto de textos sobre a evolução. Sairá na Gradiva o último livro dele "Wonderful Life", Norton, 1989, onde sublinha o papel do acaso no processo da evolução biológica.
- S. J. Gould, "Quando as galinhas tiverem dentes", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1989 (tradução de J. Palmeiro e J. Minhoto Marques, revista por de C. Marques da Silva, do original norte-americano "Hen's teeth and horse's toes", 1983), 503 pp.
Um bom livro, como todos os de Gould. É uma grande colectânea de textos publicados em vários locais que aparecem, com uma certa unidade, sob um título original. São muito interessantes os capítulos sobre a queda dos meteoritos e as extinções em massa. Dá a ideia que Gould tem uma erudição incomensurável na biologia, como Borges na literatura.
- J. Gribbin, " A trama do tempo", Publicações Europa América, Col. Forum da Ciência, Mem Martins, 1988 (tradução de R. Sousa Machado do original inglês "Timewarps"), 151 pp.
Sem interesse nenhum. Se o leitor não sabe o que é o tempo não é por aqui que vai passar a saber o que é. O título também não é feliz. A palavra "trama" tem conotações na língua portuguesa que não são propriamente as mais recomendáveis.
- F. Jacob, " A lógica da vida", Col. Ciência Nova, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1985, 2ª ed. (tradução de J. Serra e M. Palmeirim, revista por P. V. Dionísio, do original francês "La logique du vivant" das Ed. Gallimard, 1970), 308 pp.
Um clássico da biologia de um Prémio Nobel da Medicina. Tem lugar em qualquer estante.
- I. Kritchewski e I. Petrianov, " O que é a termodinâmica", Mir, Moscovo, 1984 (tradução de A. Kutchumov do original russo da Mir, 1975), 180pp.
Pequeno mas bem fundamentado livro sobre termodinâmica. Há por aí muita confusão sobre o significado de energia e entropia, nomeadamente nalguns livros escolares. Este volume pode ajudar a pôr as ideias em ordem.
- J. E. Lovelock, "Gaia. Um novo olhar sobre a vida na Terra", Ediçoes 70, Lisboa, 1989 (tradução de "Gaia - a new look atlife on earth", Oxford University Press, 1979). Existe uma outra edição (pirata!) do mesmo livro; Via Óptima, Porto, 1987.
A teoria de "Gaia" parece estranha e é-o de facto. Segundo essa teoria, a Terra seria um planeta vivo, i.e. a vida na Terra seria um efeito global decisivo para o processo de evolução planetário. O livro é curioso. A teoria tem um certo atractivo poético e, além disso, é um exemplo de ciência que começa por ser alternativa para passar a ser cada vez mais oficial.
- J. E. Lovelock, "As eras de Gaia - Uma biografia da nossa Terra Viva", Publicações Europa América, Mem Martins, 1990 (tradução de L. Rodrigues do original inglês, 1988, "The ages of Gaia"), 178 pp.
Continuação do livro anterior, acrescentando explicações mais pormenorizadas (por exemplo, a simulação computacional do "Planeta das Margaridas") numa altura em que vários dados parecem abonar a hipótese de Gaia. A controvérsia sobre "Gaia" não está porém terminada. O leitor devia ler para se inteirar do que trata esta " gaia ciência" (Nietzsche que perdoe o trocadilho!). Nota: O subtítulo no interior não corresponde ao da capa: vem "Uma biografia do nosso planeta vivo"...
- L. Margulis e D. Sagan, "Microcosmos - Quatro biliões de anos de evolução biológica", Edições 70, Lisboa, 1990 (tradução de L. Guterres do original norte-americano "Microcosmos", Summit Books, 1986), 259 pp.
L. Margulis é a primeira mulher de C. Sagan e não D. Sagan (há quem possa comprar o livro ao ver o nome Sagan na capa). Bióloga ilustre, amiga de J. Lovelock e da "hipótese de Gaia", Margulis não quis deixar a escrita apenas ao ex-marido, ocupando-se neste livro dos micróbios e da sua história (a propósito do ex-marido, a segunda mulher de C. Sagan, A. Druyan, é co-autora do belo livro ilustrado "Cometa" que saiu na Gradiva).
- J. Monod, "O Acaso e a Necessidade. Ensaio sobre a filosofia natural da ciência moderna", Europa-América, Mem Martins, 2ª ed. (1982), tradução de A. Sampaio; original francês, "Le Hasard et la Nécessité", Seuil, Paris, 1970; 174 pp.
Um ensaio notável de um biólogo eminente, prémio Nobel da Medicina em 1965 (conjuntamente com F. Jacob e A. Lwoff) e ex-director do Instituto Pasteur, sobre os mecanismos da vida. Não se trata propriamente de um livro de física, mas a vida é afinal o mais relevante de todos os fenómenos que constituem o objecto da termodinâmica do não-equilíbrio. O título do livro, que se tornou uma expressão clássica em qualquer discussão sobre a origem da vida, provém de Demócrito: «Tudo o que existe no universo é fruto do acaso e da necessidade».
- I. Prigogine e I. Stengers, "A Nova Aliança. Metamorfose da Ciência", Gradiva, Lisboa (1987), tradução brasileira de M. Faria e M. J. M. Trincheira, revista por J. P. Mendes e J. Branco; original francês, "La nouvelle alliance. Métamorphose de la Science", Gallimard, 1979, 2ª ed. 1986; existe uma tradução em inglês com bastantes modificações e actualizações, especialmente nos capítulos VII a IX, e com um prefácio de A. Toffler, "Order out of Chaos, Man´s New Dialogue with Nature", Bantam Books, 1984; 445 pp.
I. Prigogine, prémio Nobel da Química em 1977, é quase desconhecido dos leitores portugueses (ver no entanto uma sua entrevista, publicada em «O amanhã da vida», de M. Salomon, Bertrand, 1982). Como um dos contribuidores mais relevantes para o avanço do conhecimento dos fenómenos irreversíveis e ao mesmo tempo um dos filósofos da ciência mais originais, este autor bem merece uma ampla divulgação entre nós. Em «A Nova Aliança» é destacado o facto de a física contemporânea estar a chegar a uma nova perspectiva do tempo, perspectiva essa que pode contribuir para a aproximação das «duas culturas» de que fala C. P. Snow, a científica e a literária. Deve notar-se que algumas das conclusões apresentadas não reunem ainda um consenso generalizado dos especialistas da termodinâmica, pelo que não será de todo inesperado o aparecimento de novas sínteses. A tradução brasileira (?!), pese embora o número de revisores, é passível de numerosas objecções. Dos brasileirismos, um curioso é o de «intercurso» por «intercourse» em inglês no original. Quanto à terminologia técnica, devia estar, por exemplo, na p. 286 «ensembles de Gibbs» em vez de «conjuntos de Gibbs» uma vez que o termo «ensemble», na acepção da mecânica estatística faz parte do vocabulário internacional (em inglês e em alemão diz-se e escreve-se «ensemble»). Finalmente, quanto às gralhas, uma que se repete é a substituição da função distribuição ( por p. Devem ainda ser assinalada a falta de um índice por assuntos.
- I. Prigogine e I. Stengers, "Entre o tempo e a eternidade", Gradiva, Lisboa, 1990 (tradução de F. Fernandes e J. C. Fernandes do original francês "Entre le Temps et l'Éternité", Fayard, 1988, prefácio e revisão científica de Jorge Buescu), 267 pp.
Apesar do prefaciador, J. Buescu, alertar para a dificuldade deste livro, ele deve sem dúvida ser recomendado. O Prémio Nobel da Química Prigogine volta aos terrenos já explorados em "A Nova Aliança", publicado pela Gradiva na mesma colecção, aprofundando alguns aspectos (a investigação progride e passaram quase dez anos sobre o primeiro livro). Os autores conseguem convencer sobre a sua tese central: o tempo existe em todo o lado!
- J. Rifkin (colaboração com T. Howard), "Entropia, uma visão nova do mundo", Universidade do Algarve, Faro, s.d. (1987?) (tradução de Henrique de Barros do original norte-americano, "Entropy - a new world view"), 376 pp.
Um livro mau de alguém que montou nos Estados Unidos um "lobby" bem organizado contra a empresa científica (as últimas diatribes de Rifkin dirigem-se contra a biotecnologia). Com a palavra "entropia" e com a "segunda lei da termodinâmica" pretendem-se englobar coisas demais. A crítica que saiu na revista CTS, nº 3, Set./Dez. 1988, p. 79, deu origem a uma curta polémica (Rifkin não vale grandes polémicas...). A tradução é razoável mas a gralha no nome do autor na capa é imperdoável.
- C. Sagan, "O Cérebro de Broca - A aventura da ciência", Gradiva, Col. Ciência Aberta, Lisboa, 1987 (tradução de M. do Rosário Pedreira, revista por A. M. Baptista, do original inglês "Broca's Brain"), 297 pp.
Um dos títulos mais vendidos de Sagan. Prosa escorreita e cativante sobre isto e sobre aquilo.
- E. Schroedinger, "O que é a vida? Espírito e Matéria", Fragmentos, Lisboa, 1989 (tradução de M. Pinheiro do original inglês "What is Life & Mind and Matter", Cambridge University Press, 1944), 160 pp.
O primeiro texto, que dá o título ao volume, é um clássico da biologia, embora desactualizado (impunham-se algumas notas!). O Cap. VI fala de "Ordem, desordem e entropia". O segundo texto já tinha sido publicado em português pelas Publicações Europa América, sob o título de "Vida, Espírito e Matéria". Schroedinger foi um dos autores da mecânica quântica, tendo sido co-responsável pelo nascimento da biologia moderna nos anos cinquenta, com os trabalhos de M. Delbrueck e tantos outros cientistas brilhantes que, em vez de uma carreira na física, fizeram fama na biologia. Nota: O título escolhido engana porque "Espírito e Matéria" não é a resposta à questão "O que é a vida?" Falta um "e" entre as duas coisas.
- R. Shapiro, "Origens. A criação da vida na Terra - um guia para o céptico", Gradiva, Lisboa, 1986 (tradução de J. Buescu do original inglês "Origins. A Skeptics guide to the creation of life on Earth", Summit Books, 1986), 389 pp.
Um bom relato sobre as possíveis teorias da origem da vida. A falta de figuras torna-o porém um pouco maçudo.
- R. Thom, "Parábolas e Catástrofes. Entrevista sobre Matemática, Ciência e Filosofia conduzida por G. Giorello e S. Morini", Dom Quixote, Lisboa (1985), tradução de M. Brito, com revisão de J. H. Perez; original italiano, "Parabole e Catastrofi", Il Saggiatore, Milão, 1980; 205 pp.
O autor da teoria das catástrofes, teoria que nos anos 70 levantou muita polémica nos meios científicos e filosóficos, pronuncia-se nesta entrevista não só sobre a sua obra, mas também sobre várias questões epistemológicas. Em particular, é abordado o velho problema da interpretação da segunda lei da termodinâmica. A tradução é bastante deficiente (traduz-se, por exemplo, «vitelo» do ovo, por «novilho», sic, p. 168). Uma recensão portuguesa, da autoria de J. Tiago de Oliveira, encontra-se no nº 2 (Dez. 1985) da revista «Filosofia», publicada pela Sociedade Portuguesa de Filosofia.
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