RECENSÃO DO LIVRO "Os Buracos Negros e o Universo"


O LUGAR ONDE A FÍSICA ACABA

Buracos negros são as estrelas que, de tão grandes, têm uma morte que é a "mãe de todas as mortes": o colapso gravitacional irreversível e derradeiro.

A história do buraco negro remonta a Pierre Laplace, no século das luzes. Um buraco negro é um corpo celeste onde a velocidade de escape tem um valor que excede a velocidade da luz. Portanto, nada de lá escapa. Nem a luz. Tudo para lá vai e nada de lá vem.

No início deste século, a teoria da gravitação de Einstein (vulgo teoria da relatividade geral) permitiu descrever melhor essas singularidades do espaço-tempo, onde o espaço, num sorvedouro, acaba, e o tempo, como não pode sobreviver ao espaço, termina. Com o moderno advento da astrofísica e a classificação das estrelas, verificou-se que os protagonistas dessa morte no espaço eram estrelas de grande massa que já tinham atingido a terceira idade. As estrelas nascem, vivem e morrem, cada uma à sua maneira. O nosso Sol vai a meio da vida e chegará velhinho a anã branca. As estrelas maiores (com massas dez ou mais vezes superiores à do Sol) são buracos negros quando morrem. É lá que o espaço-tempo acaba e - uma vez que sem esse cenário, nada há conhecido - o desconhecido começa. É lá que a física acaba.

Nos dias de hoje, existem alguns candidatos a buracos negros. Contudo, não se sabe bem se os candidatos merecem, de facto, essa designação. Como o buraco é negro, não pode ser visto directamente num telescópio mas apenas quando, por acaso, é parceiro numa estrela dupla e arrasta matéria da sua companheira, com abundante produção de raios X. Os raios X captados em satélite fazem o retrato do buraco negro mas nem sempre esse instantâneo permite uma identificação rigorosa.

Se a densidade de massa do universo ultrapassar um certo valor crítico, então todo o universo será um gingantesco buraco negro, que acabará por colapsar num prodigioso "GnaB gib" (o "Big Bang" ao contrário!). Não se sabe com toda certeza se esse valor crítico é ou não ultrapassado. As observações experimentais têm uma margem de erro que impossibilita saber para que lado da balança irá o nosso universo: se a expansão actual continua "ad aeternum" ou se a expansão pára, a contracção começa e o universa acaba por convergir num ponto.

O astrofísico soviético Igor Novikov apresenta em "Os Buracos Negros", da Editora Fragmentos, uma descrição simples e actualizada dos buracos negros e do universo. Em metade do livro, são discutidos os buracos negros. Na outra metade é todo o universo, do nascimento à morte, que é objecto de atenção. O livro vem recheado de engraçadíssimos cartoons. (Quem será o artista? Será o próprio autor da prosa?).

Novikov não entra naqueles "delirium tremens"que a alguns causa o fim local do universo (por exemplo, um livro do astrofísico J. Taylor, "Os Buracos Negros e o Fim do Universo", foi estranhamente incluído numa colecção de astrologia da Europa-América e o livro do astrofísico P. Kohler, "Os Abismos do Cosmos" aparece na "Biblioteca do Irracional e dos Grandes Mistérios" da editora Ulisseia). Novikov é um astrofísico sério que tem um editor sério. Pode-se até, a nível da escrita, cotejar sem desfavor o ignoto Novikov com o famoso Hawking, o milagreiro da divulgação científica (com a multiplicação aos milhares e milhares de "A Breve História do Tempo"). É certo que o trabalho científico original de Hawking ajudou a fazer luz sobre os buracos negros (esta metáfora pode ter interpretação literal já que Hawking conseguiu mostrar que os buracos negros não eram tão negros como isso e de lá poderiam por obra e graça da mecânica quântica, escapar partículas). Mas Novikov, representante da famosa escola soviética de astrofísica, não lhe fica atrás como divulgador. Estamos, como alguém já disse, perante a resposta soviética ao astrofísico inglês.

A edição da Fragmentos merece um aceno de simpatia. Então não é que o editor manda traduzir de russo (M. Loureiro), rever com cuidado (C. Ferraz) e apresenta o texto, sem estardalhaço, numa colecção onde não entra parapsicologia e quejandos? Que a Fragmentos continue, pois, na mesma senda. Na sua colecção "Biblioteca Científica", autores como Schroedinger, Selleri e Novikov abriram-nos o apetite para mais.

Igor Novikov, "Os Buracos Negros e o Universo", Fragmentos.
Tradução: Manuel Silva Loureiro

CARLOS FIOLHAIS