Gradiva - Colecção Ciência Aberta


Título: POEIRAS DE ESTRELAS

Autor: Hubert Reeves

Colecção: Ciência Aberta - 73


Índice

Prefácios
2
I. O espectáculo do mundo
4
II. A geografia celeste
16
III. No reino das galáxias
29
IV. A gravidade gera as estrelas
47
V. Retrato de uma estrela que nos é querida
59
VI. Nos restos das estrelas
69
VII. Construir planetas
81
VIII. O fogo dos planetas
96
IX. A vida nasce no mar
105
X. O casino da vida
115
XI. Uma intenção na natureza?
134
Bibliografia
143

Prefácios

Foi no princípio dos anos setenta que comecei a interessar-me activamente pela vulgarização científica. Nessa ocasião fazia estadias familiares em estâncias de férias. Íamos regularmente «às Cigales», em Carry-le-Rouet, perto de Marselha. Bastava-me mencionar a minha profissão de astrofísico para me ser sugerida imediatamente uma palestra, à noite, à luz das estrelas. Ficava estupefacto pelo interesse, mesmo paixão, que estas questões astronómicas suscitavam. Pessoas sem quaisquer conhecimentos científicos, sem qualquer familiarização com a Astronomia, faziam-me perguntas até altas horas da noite.

Concebi, então, o projecto de escrever um livro. Imaginei um álbum muito belo, que incluisse algumas das imagens mais espectaculares do céu. Fotografias tiradas por observatórios astronómicos e pelas sondas espaciais da NASA. Um texto apropriado responderia às múltiplas interrogações dos meus auditores; uma narrativa coerente contaria a história do universo desde o caos inicial até ao ser humano.

Esse foi o Um pouco mais de azul. A iconografia não está totalmente ausente dele. Umas quarenta fotografias a preto e branco, agrupadas no fim do livro, apresentam alguns dos espectáculos do universo. É desnecessário dizer que estas ilustrações, de formato reduzido, não fazem justiça à riqueza dos documentos visuais que a Astronomia nos fornece.

Graças à editora, posso hoje retomar o sonho inicial e apresentar ao público o florilégio de belas imagens cósmicas.

Não obstante os meus esforços, parece que Um pouco mais de azul é, para muitos, de leitura difícil. É certo que o texto pressupõe uma certa familiarização com as noções da Física. Mas a correspondência abundante recebida depois da saida do livro demonstra que estas questões astronómicas interessam ao grande público. Este livro é portanto uma nova tentativa para corresponder a esta expectativa. O tema é o mesmo, mas aqui, ao contrário de Um pouco mais de azul, predominam as imagens e quis que o texto que as acompanha fosse mais simples, mais acessível a todos aqueles a quem as coisas do céu (e da terra) apaixonam, quaisquer que sejam os seus conhecimentos e sensibilidades.

Aproveitei para desenvolver alguns pontos tratados resumidamente em Um pouco mais de azul, para avançar com alguns pontos de vista pessoais em resposta às cartas que recebi, às suas perguntas e às reflexões que me inspiraram. Graças a esta correspondência, tive a oportunidade de reencontrar vários dos meus leitores, de falar com eles, de entrar em contacto com a sua visão do mundo, com a sua vivência e experiência. Esses reencontros revelaram-se muito frutuosos. Quis mencioná-los e agradecer aos que foram para mim fonte de enriquecimento.

Setembro 1984

I. O espectáculo do mundo

Foi Galileu quem, primeiro, olhou o céu com uma luneta astronómica. Em poucas noites, descobre, uma a uma, as montanhas da Lua, os satélites de Júpiter e as estrelas da Via Láctea. Isto passa-se em 1609. Há menos de quatro séculos. Depois, graças à melhoria dos instrumentos de observação, os astrónomos descobriram um grande número de astros novos como as nebulosas, as galáxias e, mais recentemente, os pulsares, os quasares. A humanidade deve à Astronomia uma vasta panóplia de imagens celestes, tal como deve à Biologia o espectáculo da vida microscópica. O homem de há quatro séculos ignorava tudo sobre galáxias e micróbios. Foi graças à tecnologia que estas realidades entraram no seu campo de conhecimento.

1.«O pôr-do-sol veste os campos de jacinto e ouro. O mundo adormece numa luz quente» (Baudelaire).

Por detrás desta imagem familiar esconde-se, para o físico, uma realidade deveras espantosa. O Sol é um gigantesco laboratório de Física nuclear. Contida pela força da sua própria gravitação, a sua matéria é levada a dezasseis milhões de graus. A estas temperaturas desencadeiam-se reacções nucleares. Elas soldam as partículas em núcleos atómicos. O Sol transforma o hidrogénio em hélio. Desta fusão emerge a sua luz.

Para sermos gerados, foram necessários cadinhos cuja temperatura ultrapassava o milhar de milhões de graus, explosões estelares e ejecções de matéria incandescente.

Paul Éluard escrevia: «O poeta é o que "dá a ver".» Neste mesmo sentido, pode-se dizer que a Astronomia "dá a ver". Uma das finalidades deste livro é levar o leitor a partilhar os sentimentos de admiração e de exaltação que o astrónomo experimenta diante da beleza destas paisagens novas.

Estas imagens celestes, do mesmo modo que as imagens de natureza terrestre, enriquecem a imaginação. Neste aspecto, podem desempenhar um papel no desenvolvimento da personalidade, na eclosão da criatividade. Mas, reconheçâmo-lo, a beleza do universo não está à nossa medida. O que nos fere é a excentricidade do que nos rodeia. Primeiro, as dimensões. As estrelas que olhamos à noite, a olho nu, estão a centenas de biliões de kilómetros. Algumas das galáxias que observamos nos nossos telescópios estão um milhar de milhão de vezes mais longe ainda A este nível, certamente, os números já nada dizem à nossa imaginação.

O mesmo se pode dizer da violência dos acontecimentos que se sucedem no universo. A explosão de uma estrela maciça liberta mais energia do que um bilião de bombas H. E alguns núcleos de galáxias (por exemplo, os quasares) emitem, por segundo, um milhão de vezes mais energia. O nosso Sol é uma estrela modesta. Contudo, quando morrer, dentro de cinco mil milhões de anos, volatilizar-nos-á com a desenvoltura e a inconsciência de um elefante que avança sobre uma aranha.

Protegidos pela nossa atmosfera, na superfície temperada e doce do nosso planeta, vivemos num espaço protegido. Em qualquer outra parte seria impossível a vida humana. O menor sobressalto estelar aniquilar-nos-ia inexoravelmente

«Assusta-me o silêncio eterno dos espaços infinitos», dizia Pascal. Ignorava que estes espaços palpitam com explosões monstruosas, com cataclismos crónicos. Teria ele a intuição destes acontecimentos invulgares, dos quais eco algum vinha perturbar-lhe o descanso?

Assim, ao sentimento de admiração que nos causam os espectáculos do céu, junta-se um sentimento de inquietação, mesmo de terror. Lá em cima, nada nos diz respeito, tudo nos é estranho, tudo nos ultrapassa, tudo nos ameaça.

Contudo, a Ciência moderna apresenta-nos, ao mesmo tempo, uma outra visão do mundo. Nada disto nos é indiferente. Devemos a nossa existência a esta imensidão do céu. Para sermos gerados, foram precisos cadinhos cuja temperatura ultrapassava o milhar de milhões de graus, explosões estelares e ejecções de matéria incandescente a velocidades próximas da velocidade da luz.

O universo tem agora cerca de quize mil milhões de anos. Desenvolve-se ao longo de mais de quinze mil milhões de anos-luz (isto é, mais de cem mil milhões de biliões de kilómetros). Estas dimensões, inimagináveis, não têm nada de excessivo. Não era preciso menos para nos trazer ao mundo.

A história da matéria que se organiza

Começamos a compreender a longa odisseia do nosso aparecimento no universo. Conseguimos reconstituir, é certo que com maior ou menor sucesso, os principais capítulos que o compõem. Nalguns casos, graças a documentos fotográficos, podemos observar directamente os lugares onde se produziram os acontecimentos cruciais.

O meu objectivo, ao escrever este livro, é apresentar e comentar estes documentos históricos, aos quais se poderia chamar os «altos lugares da fertilidade cósmica». Eles assinalam os pontos fortes do nosso passado. Por isso nos interessam sobremaneira. Mas antes de abordar esta narrativa ilustrada, gostaria de apresentar uma versão resumida e simplificada. Isso ajudar-nos-á, mais tarde, a não perder o fio (da história).

A história do universo é a história da matéria em organização. Quando o universo «aparece» (há cerca de quinze mil milhões de anos), é a desordem, o caos completo. Por um lado, não há nenhum organismo vivo, nenhuma molécula, nenhum átomo, nenhum núcleo; por outro lado, nenhum planeta, nenhuma estrela, nenhuma galáxia. É um grande puré em que nadam o que os físicos designam de «partículas elementares». Podemos representá-las como «berlindes» microscópicos, sem estrutura, sem arquitectura, sem genealogia. Com o decorrer dos tempos, estas partículas vão associar-se para formar sistemas complexos. Estas novas unidades vão, também elas, associar-se para criar sistemas ainda mais evoluídos. Ora, quanto mais evoluído é um sistema, mais capaz é de actuar sobre o que o rodeia e mais «realizador» é. O sistema mais evoluído que conhecemos é o ser humano. Quando fechamos os olhos e tomamos consciência da própria existência, realizamos a maior façanha jamais conseguida.

Os nossos corpos são constituídos por milhares e milhares de triliões de partículas elementares (não há como a Astronomia para depararmos com números extravagantes). Todas estas partículas fazem parte de uma organização com uma complexidade espantosa. Para poder dizer "eu" é necessário que milhares de moléculas de oxigénio, provenientes da atmosfera, sejam bombeadas nos meus pulmões, veiculadas pelos glóbulos vermelhos do meu sangue até ao cérebro e de lá distribuidos por milhares de neurónios que se carregam e descarregam várias vezes por segundo. É necessário também que, em ciclos bioquímicos altamente elaborados, os meus alimentos sejam tratados, transformados e assimilados por cada uma das dezenas de milhares de milhões de células que compõem o meu corpo. Seriam precisas bibliotecas inteiras para descrever o que sabemos hoje sobre as reacções químicas essenciais à vida. E apenas aflorámos o assunto.

2. A nebulosa do Caranguejo. Uma estrela explodiu numa girândola cataclísmica. A sua luz viajou seis mil anos até atingir o nosso planeta. Na manhã de 4 de Julho de 1054 iluminou o céu. Torrentes de matéria estelar espalharam-se pelo espaço. A nebulosa estende-se ao longo de vários meses-luz. Nestes filamentos vermelhos e amarelos estão encerrados os frutos da produção estelar. Tal como os nossos aceleradores terrestres, os remanescentes das supernovæ projectam partículas atómicas a velocidades próximas da velocidade da luz. Estas partículas emitem uma luminosidade azul, visível na figura 7 do capítulo VI.

Em seguida, escapam-se do remanescente e propagam-se no interior da nossa Galáxia. As explosões das supernovæ constituem uma das maiores fontes de radiação cósmica.

Estas centenas de biliões de partículas já existiam no caos inicial do universo. Conhecemos a sua natureza. Primeiro, são os electrões, esses mesmos que circulam nos condutores eléctricos. Depois, os quarkes, uma espécie que apenas conhecemos há poucos anos. Para o físico contemporâneo, estas partículas, e algumas mais, são as unidades fundamentais da matéria.

Que contraste entre o estado inicial destas partículas e o seu estado actual! No princípio, isoladas e independentes, erravam num magma caótico. Hoje, num ser humano por exemplo, estão integradas num sistema extraordinariamente complexo e soberbamente organizado.

Como emergiu a ordem do caos?

Os laboratórios cósmicos da vida

Numa sucessão de laboratórios cósmicos, as forças entraram em acção para associar as partículas. Ao visitar estes laboratórios, notamos a gestação da complexidade cósmica.

Os físicos enumeram quatro forças. Em primeiro lugar, há a gravidade, que faz as maçãs cair e mantém a Terra em órbita à volta do Sol. Em seguida, há a força electromagnética, responsável por todos os fenómenos eléctricos e magnéticos. É ela que controla as reacções químicas, incluindo as da nossa fisiologia interna. Provoca também a emissão da luz. No âmbito da nossa descrição, poderíamos muito bem chamar-lhe a força química. E depois, há duas outras forças que vamos referir em conjunto: a força nuclear dita forte, e a força nuclear dita fraca. Elas são responsáveis pela explosão das bombas termonucleares e pelo funcionamento dos reactores. Graças a elas, os núcleos dos átomos obtêm a sua coesão e estabilidade. É por isso que elas nos interessam aqui.

3. A superfície do Sol é fonte de fenómenos de grande violência. Torrentes de gases inflamados desabam sobre o disco. Em certos momentos, escapam-se línguas incandescentes para o espaço e desenham arcos majestosos. Estas perturbações da actividade aceleram as partículas atómicas para velocidades próximas da velocidade da luz. O Sol é uma das fontes da radiação cósmica. Uma radiação indispensável às funções múltiplas e cruciais na elaboração da complexidade cósmica.

O primeiro laboratório da Natureza ocupa o universo inteiro. Ele faz intervir a força nuclear. Cerca de um milésimo de segundo após o início do universo, os quarkes combinam-se três a três para dar protões e neutrões (isto é, os nucleões). É o primeiro capítulo da organização da matéria nosso conhecido. A partir desta síntese dos quarkes, os nucleões são sistemas organizados.

Um milhão de anos mais tarde, a força da gravidade entra em acção. Desta vez, o universo torna-se um laboratório de gravidade. O puré universal cinde-se e fragmenta-se. Aqui e ali formam-se espécies de grumos. São as galáxias. Nestes grumos juntam-se imensas massas de matéria, que se condensam e dão origem às estrelas.

A condensação desta matéria provoca um aumento rápido da sua temperatura. Por sua vez, as estrelas tornam-se laboratórios, mas desta vez de Física nuclear Aqui, protões e neutrões combinam-se para dar núcleos atómicos. Os núcleos formarão mais tarde o coração de todos os átomos familiares: o carbono, o azoto, o oxigénio, o ferro, o cobre, o chumbo, o ouro, etc. Há uma centena de elementos, devidamente identificados em todos os livros de Física e de Química. No coração das estrelas a temperatura atinge milhões e mesmo milhares de milhões de graus. Estas temperaturas são necessárias à formação dos núcleos e estes são necessários à existência das moléculas do nosso corpo. Eis porque nos interessam as estrelas e as suas propriedades extravagantes. Todos os núcleos dos átomos que nos constituem foram gerados no centro de estrelas mortas, há vários milhares de milhões de anos, muito antes da formação do Sol. De algum modo, somos filhos dessas estrelas.

Neste sentido, a história das estrelas torna-se prodigiosamente interessante. Começamos a conhecê-la bastante bem. E acima de tudo, no que toca ao seu desenvolvimento, possuímos uma colecção rica de documentos fotográficos. Os nascimentos, assim como as agonias estelares, dão lugar a espectáculos de um esplendor grandioso. Estão bem representados nas páginas deste livro. Não só porque são belos, como ainda pelo que significam na nossa história.

4. O solo árido da Lua não se presta aos jogos fecundos das combinações moleculares. Por isso permaneceu cinzento e estéril.

Resumamos: os quarkes associam-se três a três para gerar os nucleões no grande puré inicial do universo. Vastos lençóis de matéria reunem-se para formar galáxias e estrelas. Combinam-se dezenas de protões e de neutrões para formar núcleos atómicos no interior do braseiro estelar. A história vai prosseguir nos grandes frios estelares para onde é projectada a matéria da estrela após a sua morte. Este espaço torna-se um laboratório gigantesco, governado pela força electromagnética (a que também chamámos a força química).

Desenvolve-se aí uma actividade febril. Os núcleos captam electrões para se transformarem em átomos, os átomos associam.-se entre si para se transformarem em moléculas. Há o caso particular da água (hidrogénio e oxigénio), que terá papel importante na elaboração da vida animal e vegetal. Outras moléculas agrupam-se até 10 a 12 átomos. Encontramos aí também o álcool etílico dos nossos vinhos. Este álcool é composto de 2 átomos de carbono, 1 átomo de oxigénio e 6 átomos de hidrogénio (ou seja, 46 nucleões), isto é, 184 partículas elementares (quarkes e electrões). Eis um belo exemplo de um sistema relativamente complexo, gerado no espaço, a partir de núcleos formados no interior das forjas estelares. Graças à sua complexidade, esta molécula possui várias propriedades químicas muito interessantes que os humanos aliás não tardaram a descobrir e a explorar (algumas vezes abusivamente).

Faço uma pausa para saudar de passagem o aparecimento desta molécula. De certo modo é a estrutura mais complexa gerada pelos espaços galácticos. Importa assinalar que as moléculas interestelares estão profusamente dispersas no nosso universo. Identificámo-las, não só nas grandes nuvens de matéria que deslizam ao longo da Via Láctea, como também no seio das galáxias vizinhas. Temos razões para acreditar que se encontram em todas as galáxias. Estas observações terão particular significado quando abordarmos o problema da vida no universo.

Ao mesmo tempo que aparecem as moléculas interestelares, aparecem também os primeiros grãos de poeira nos fragmentos de matéria ejectada das estrelas mortas. São pequenos corpos sólidos de dimensões microscópicas. Estes grãos de poeira, aos milhares, espalham-se no espaço e obscurecem vastas regiões do céu. Mais tarde, quando do nascimento de uma nova estrela, vão associar-se para formar planetas rochosos como a Terra.

É na superfície desses planetas que se desenrolará a fase seguinte da organização da matéria. A existência de lençóis oceânicos vai desempenhar um papel primordial. A água criará condições altamente favoráveis aos jogos de combinações atómicas e moleculares. No oceano primitivo da Terra, ver-se-ão aparecer, devido a inúmeras reacções químicas, moléculas mais ou menos complexas. Algumas vão reagrupar centenas de milhares ou mesmo milhões de átomos. Com estes sistemas aparecerão novas propriedades, até então desconhecidas no universo. Algumas moléculas poderão «alimentar-se», outras dividir-se para se multiplicar, outras ainda armazenar informações complexas.

A Natureza utiliza mais uma vez a sua receita favorita: a associação dos sistemas. Moléculas «especializadas» vão reagrupar-se para gerar células. São os primeiros «seres vivos» do oceano primitivo. Movem-se, alimentam-se, multiplicam-se e transmitem aos filhos os seus caracteres hereditários.

Esta receita será de novo utilizada ao nível das células para dar seres «pluricelulares». As medusas são um primeiro resultado. No decorrer dos tempos, a vida terrestre vai ramificar-se em plantas e animais. Desenvolver-se-ão diferentes espécies, adquirindo novas propriedades, aumentando a sua capacidade de interagir com o ambiente. Até ao dia, muito recente ainda, em que emerge a consciência humana: o olhar de observador sobre este universo que o gerou.

A vida é universal

O que é a vida? Até ao século passado, distinguia-se cuidadosamnete matéria «viva» e matéria «inerte». Onde situar a fronteira? As minhas unhas, o esmalte dos meus dentes são vivos? À luz dos conhecimentos científicos de hoje, é-se tentado a redefinir a vida como certa tendência misteriosa e universal da matéria para se associar, organizar, tornar complexa. A vida animal e vegetal são, ao que sabemos, as fases mais evoluídas. A sua existência é consequência das fases anteriores, nucleares, atómicas, moleculares, atrás descritas. Esta tendência para se organizar existe desde o início do universo. Exprime-se através dessas «forças» que se exercem entre todas as partículas elementares.

No princípio do universo, estas forças estavam, de certo modo, em letargia. As temperaturas muito altas de então interditavam qualquer actividade organizadora. Era o caos. Depois, pouco a pouco e ao seu ritmo, estas forças entraram em acção.

Em sucessivas etapas construiram o que se poderia chamar «a infraestrutura da consciência». Os protões e os neutrões, bem como os núcleos, são obra das forças nucleares (da forte e da fraca). Os átomos e as moléculas são obra das forças electromagnéticas. As estrelas e as galáxias são obra da força da gravidade, tal como, de resto, o nosso sistema solar.

Sabemos hoje que estas forças existem em todo o universo e que têm, em qualquer ponto, a mesma intensidade. Tão longe quanto os nossos olhos alcançam, a presença aí de galáxias e estrelas ensina-nos que a gravidade existe. A análise da luz emitida pelos quasares para o outro extremo do universo certifica-nos que, lá como cá, os átomos são construidos pelo mesmo jogo da força nuclear (para o núcleo) e da força electromagnética (para o cortejo dos electrões). Encontram-se na superfície das estrelas todos os nossos elementos químicos e nunca se detectou no universo uma só variedade de átomo que não exista nos laboratórios.

Por outras palavras, a tendência da matéria para se organizar e se tornar complexa é universal. Detectamos os seus resultados sempre que os nossos meios de observação no-lo permitem.

Existe vida noutros planetas? Noutras galáxias? Até agora, as antenas rádio não receberam qualquer mensagem reveladora. Não obstante, muitos astrofísicos acreditam que a resposta é afirmativa. Da leitura dos parágrafos precedentes, ter-se-á compreendido porquê É a universalidade das forças da natureza, a omnipresença desta tendência para a organização que fundamentam esta crença. Se, por todo o lado, os quarkes estão associados em protões e neutrões; se, em todas as estrelas, protões e neutrões se fundem em núcleos atómicos e se, em todos os pedaços de matéria estelar, moléculas e grãos de poeira evoluem no espaço, como admitir que a sequência pára aí? As estrelas mais próximas estão demasiado longe para nos permitir ver os seus planetas hipotéticos. Pode-se supor, todavia, que as poeiras interestelares se associam por todo o universo para dar origem aos planetas. Que alguns destes planetas têm oceanos. Que nalguns destes oceanos um conjunto de reacções determina o desenvolvimento da evolução bioquímica e biológica.

É nesta argumentação (cujo valor cada um apreciará à sua maneira) que se apoia a ideia de civilizações mais ou menos semelhantes à nossa, entre as galáxias que os telescópios revelam. A prova definitiva só poderá vir, certamente, da observação directa.

Quanto tempo será necessário para gerar um ser inteligente? Primeiro, é preciso criar as estrelas a partir do puré ou magma inicial. Depois, é preciso que essas estrelas vivam a sua vida e lancem uma porção de átomos no espaço. Em seguida, é preciso que estes átomos se combinem em moléculas e poeiras. Que estes grãos de poeiras se agreguem em planetas rochosos quando nasce uma nova estrela. Finalmente, é preciso garantir o curso da evolução química e biológica à superfície destes planetas. Conhecemos, mais ou menos bem, a duração de cada uma destas operações. Somando tudo, chega-se a um mínimo de vários milhares de milhões de anos. Causa-nos espanto o facto de o universo ter já quinze milhões de anos? Não é necessário menos para gerar um ser dotado de inteligência, a quem se possa perguntar a idade

5. A Terra primitiva apresentava paisagens semelhantes às da Lua. A vida transformou-as profundamente.

6. À semelhança das células do mar primitivo, o embrião desenvolve-se na água do ventre materno. Pela ordem determinada pelas mensagens do ADN, o corpo alonga-se, o cérebro desenvolve-se, os membros crescem e os olhos preparam-se para ver. O universo apresta-se para tomar consciência de si próprio.

A «matéria» é maravilhosa

Sob esta nova óptica àcerca da vida, retomemos o debate dos mecanicistas e dos vitalistas do fim do século passado. Para os vitalistas há uma diferença essencial entre a matéria viva e a matéria inerte. Há uma espécie de «princípio de vida» (insuflado talvez do exterior por uma instância superior, uma divina providência). A vida não aparece espontâneamente na matéria. Marcam pontos também quando Pasteur demonstra, através de uma série de experiências minuciosas, que a geração espontânea é um mito. Por detrás das convicções dos vitalistas há pouco mais ou menos isto: a «vida» é maravilhosa, miraculosa. A matéria inerte é apenas uma mecânica cega. Como pode uma nascer da outra?

Para os mecanicistas não há princípio de vida. O «milagre» é uma ilusão. Quando a Ciência tiver progredido o suficiente, saberemos que a vida, tal como a matéria inerte, se reduz a uma mecânica.. Mais, que a demonstração de Pasteur nada prova. A geração espontânea já não existe, mas pôde existir no passado, quando as condições eram muito diferentes.

Hoje em dia, diríamos aos vitalistas: têm razão em insistir no aspecto maravilhoso da vida. Mas é necessário alargá-lo a toda a matéria. Aos mecanicistas diremos: têm razão em insistir na continuidade entre a matéria e o ser vivo, mas nem um nem outro se reduzem a uma mecânica cega. Se a geração espontânea pôde ocorrer no oceano primitivo é porque, desde o princípio, a matéria estava dotada das propriedades exigidas para lhe assegurar a existência.

Reconheçamos que aqui fomos conduzidos a uma visão espantosa do mundo. Bastou-nos justapor os ensinamentos das Ciências. A Biologia ensina-nos que o homem é o produto de uma longa evolução animal a partir da célula. A Bioquímica torna muito verosímil a ideia que a célula é o resultado de uma cadeia de reacções químicas a partir de algumas moléculas simples. A Astrofísica demonstra-nos como se formaram estas moléculas no espaço, a partir de núcleos atómicos gerados nos cadinhos estelares. Traz-nos também a imagem de uma explosão incial à escala de todo o universo, em que os quarkes estão combinados em protões e neutrões, e reunidos depois em núcleos no coração das estrelas. Pascal é quem ficaria admirado ao saber a que ponto lhe diriam respeito «estes espaços infinitos»! À frase de Claude Levi-Strauss prefiro a do físico Freeman Dyson: «o universo sabia que, algures, o homem ia aparecer».

Apologia da investigação fundamental

Nos períodos de crise económica é-se tentado a reduzir os orçamentos da investigação, a concentrá-los nos projectos de rentabilidade imediata. Convidado recentemente pela Universidade de Montréal para defender os objectivos da investigação fundamental, escolhi evocar a angústia pascaliana face ao silêncio dos espaços siderais. Três séculos separam-nos de Pascal. Milhares de investigadores, humildes ou célebres, em laboratórios espalhados pela superfície do globo, prescrutaram os mistérios dos átomos e das galáxias.

Graças aos seus trabalhos, sabemos que o céu não nos é estranho. Devemos-lhe a existência. Com esta tese está de acordo a maioria dos cientistas. Trata-se de um triunfo à escala da humanidade. O seu valor ultrapassa, parece-me, o domínio puramente intelectual. Em diferentes ocasiões, testemunhos epistolares fizeram-me sentir a sua influência positiva no plano psicológico. Parafraseando o Evangelho: «Nem só de pão vive o homem» Pode a investigação fundamental encontrar melhor justificação?