RECENSÃO DO LIVRO "Aventuras Matemáticas"


Aventuras Matemáticas

Há quem pense que Portugal é um país civilizado. Apontam-se para isso os mais variados motivos: ou é porque existem no país casas com água quente e água fria, ou é porque existem antenas parabólicas nos telhados ou é por outro motivo qualquer.

Mas, para que Portugal alcançasse o estatuto de país civilizado, faltava-lhe ainda uma colecção de livros com jogos matemáticos. Saiu agora, na Gradiva, o primeiro livro dessa colecção. A série intitula-se "O prazer da matemática" e começa com as "Aventuras Matemáticas", da autoria do espanhol Miguel Guzmán.

Para que o nosso país, dentro dos países civilizados, não tenha apenas um papel apagado e precário, faltam-lhe ainda, evidentemente, os livros com jogos de matemática escritos por matemáticos portugueses. Mas lá chegaremos. Não há que temer o facto de estes jogos matemáticos virem de Espanha, pois já o nosso maior matemático, Pedro Nunes, andou a estudar em Salamanca. Por agora, já é consolador saber que milhares de jovens que descofiam da matemática e com muitas boas razões para isso, atendendo às aulas que lhes são dadas e aos livros que lhes são recitados, podem divertir-se, dentro ou fora das escolas com estas "Aventuras Matemáticas". Há por aí muitos cérebros que precisam apenas de motivação e estimulo para serem exercitados.

Todos os anos a Sociedade Portuguesa de Matemática organiza Olimpíadas Nacionais de Matemática, que servem para as crianças e jovens das escolas exercitares as suas cabecinhas. Desta vez os melhores foram enviados a Pequim, Républica Popular da China, a fim de participar nas Olímpiadas Internacionais, com os espertos jovens chineses, russos e americanos, para não falar já nos espertíssimos jovens húngaros. Os húngaros são tão fortes em matemática que um cientista, quando lhe perguntaram se acreditava nos extraterrestres, respondeu: "Sim. São os Húngaros". O livro de Guzmán não chegou a tempo para a preparação da equipa portuguesa. Mas, para o próximo ano, já não há desculpas para Portugal ficar num dos últimos lugares, como desta fez ficou: já há uma colecção de livros com jogos matemáticos. E não há-de estar longe o dia que os espanhois se vejam obrigados a traduzir as aventuras matemáticas que os portugueses de hoje venham a escrever quando crescerem.

É claro que os jovens não são os únicos destinatários deste livro. Apesar dos problemas políticos não serem em geral, de natureza matemática, aconselha-se o livro a alguns políticos em férias, para eles treinarem estratégias de resolução de problemas. Aconselha-se não só aos licenciados em direito mas a todos os que fogem da matemática como o diabo da cruz, porque não lhe viam interesse nenhum, nem encontravam prazer no seu estudo. Guzmán fornece receitas fáceis para o êxito na disciplina em que é especialista. Uma é: "Começar pelo fácil torna fácil o difícil!".

Vivemos num país onde se vai para direito porque não se gosta de matemática (ninguém vai para matemática por não gostar de direito!). Miguel de Guzmán refere o contraexemplo do grande matemático francês Pierre de Fermat, que era formado em direito e que foi membro do parlamento da sua cidade. Diz Guzmán ainda que ele próprio tinha um aluno brilhante que chegou a juiz do Tribunal de Contas espanhol. Era, pelos vistos, fortíssimo em contas...

O "Público" é um jornal civilizado porque traz às quintas-feiras uma secção de jogos matemáticos. É muito melhor resolver aquelas inteligentes charadas do que fazer estúpidas palavras-cruzadas. Mesmo quando não se resolvem, sabe bem saber que existem ali, todas as semanas, novos quebra-cabeças para dar que fazer aos miolos. Os jornais raramente trazem a matemática nas suas páginas: apareceu recentemente a história de um japonês que julgou ter demonstrado o famoso teorema de Fermat (afinal não demonstrou!), apareceu há alguns anos a história de um português (António Rêgo, da Universidade do Porto) que julgou ter demostrado a famosa conjectura de Poincaré (afinal não demonstrou!). Quer o teorema de Fermat quer a conjectura de Poincaré são muito difíceis e têm resistido a sucessivas investidas de matemáticos amadores. Mas a matemática a sério começa com jogos a brincar. Que bom é saber que a solução das charadas matemáticas vem na quinta-feira seguinte...

O livro de Guzmán foi traduzido por João Queirós, um jovem matemático da Universidade de Coimbra, ex-xadrezista e actual algebrista. A sua preocupação pelo rigor matemático garante a qualidade da edição. Ele diz que escaparam uma meia duzia de gralhas, mas não são fáceis de caçar. Espera-se que se esgote raidamenete a primeira edição, para que a segunda saia matematicamente perfeita. Se o leitor é forte em contas, divirta-se a encontrar as gralhas.

A seguir ao espanhol Guzmán, a colecção "O Prazer da Matemática" vai-nos trazer o papá dos jogos matemáticos. É norte-americano, chama-se Martin Gardner e está agora reformado, depois de ter alimentado durante anos a fio uma coluna mensal na "Scientific American" (editoras civilizadas como a Freeman e a Penguin reeditaram essa impressionante produção). Apesar da sua formação de filósofo, Gardner é muito considerado pelos matemáticos profissionais, que lhe chegam a enviar alguns problemas que eles próprios não conseguem resolver!

Só agora, com um atraso de décadas vai chegar a Portugal. Num país em que, apesar de tudo, existe a tradição de Pedro Nunes, Anastácio da Cunha e Sebastião e Silva, esse atraso não tem qualquer justificação. Mas, lá diz o rifão bem português (esse provérbio não deve existir em castelhano, pois no país vizinho Gardner é um velho conhecido), mais vale tarde do que nunca...

Miguel Guzmán, "Aventuras Matemáticas", Gradiva, 1990.
Tradução: João Queirós

CARLOS FIOLHAIS