RECENSÃO DO LIVRO "BREVE HISTÓRIA DO TEMPO"


É sabido que o primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos desde sempre é ocupado, com grande avanço, pela Bíblia. A recente "Breve história do tempo" de Stephen Hawking, embora tal como a Bíblia, fale muito de Deus, ainda não conseguiu vender tanto. Mas vende-se bastante, um pouco por todo o planeta. Porque é que se tornou um "best-seller"?

Estamos em presença de uma campanha publicitária bem concebida e bem paga, que inclui até a capa da "Newsweek" (com a estrela Hawking em primeiro plano e as outras estrelas em segundo plano). O livro já estava vendido antes de ter aparecido escrito. Parece claro que faz parte dessa campanha uma exploração, um tanto ou quanto miserabilista, da doença que imobiliza o autor numa cadeira de rodas e o impede até de falar.

Entendamo-nos. O homem é um bom, um excelente cientista e deve ser uma boa, excelente pessoa. Se calhar, não tem culpa absolutamente nenhuma da exploração que fazem à volta dele (pode ter alguma, mas está ilibado, pois cada um tem o supremo direito de fazer propaganda de si próprio). Mas daí a ser considerado o "génio do século", um herdeiro privilegiado de Galieu, Newton e Einstein, uma vítima da malvada Academia Nobel que lhe não dá o prémio, vão anos-luz de distância.

É sabido que o fenómeno da publicidade organizada faz milagres. Toda a gente que entra numa livraria ou é sócia de um clube do livro já comprou (se o leitor por acaso não comprou, convença-se que é uma excepção), embora a maior parte desses compradores não tenha lido e portanto permaneça ignorante do "plano de Deus" (sic) para o universo... É perfeitamente desejável (não concordo com os que se queixam de uma "overdose" de literatura de ciência), que se vendam muitos livros de divulgação científica. O que pode ser mau é que o êxito comercial do livro se deva a razões próprias do "Jornal do Incrível" ("cientista só com miolos e sem corpo descobre todos os segredos do universo") ou que a repetida alusão do nome de Deus se preste às mais variadas confusões. O próprio Hawking, que deve ser uma excelente pessoa, numa entrevista ao "Der Spiegel" (republicada no "Diário de Notícias" de 11/Jan/1988) afirmava lamentar que o êxito do livro se devesse possivelmente à sua deficiência física, mais do que à sua ciência física, e que não acreditava, tal como de resto Einstein, num"Deus pessoal", que é aquele em quem as pessoas, em geral, acreditam.

Confesso-me devorador voraz de literatura de divulgação científica. Mas, como o chamado "leitor atento" de certeza já percebeu, não fiquei entusiasmado com esta "história do tempo".

Talvez porque a expectativa era demasiada e as precríticas eram excessivamente encomiásticas. O estilo parece-me que oscila entre um humor, mais ou menos fácil, e um esoterismo, mais ou menos difícil, tudo bem entremeado, mas com mais esoterismo especializado do que humor avulso.

Os editores devem ter mexido na prosa, para meter aqui e ali uma pitada de sensacionalismo: custa-me a acreditar, por exemplo, que o Hawking tenha escrito aquela coisa da sua "identificação com Galileu, por ter nascido no aniversário da morte de Galileu (já agora o Paul Verlaine também morreu a oito de Janeiro; será por isso que Hawking se poderá sentir poeta?).

Os conselheiros editoriais podiam e deviam ter mexido melhor, por exemplo, nos três últimos capítulos, os de leitura mais difícil para o leigo. Mesmo para um físico: do tempo imaginário tira-se, como por um golpe de um ilusionismo, um universo sem fim, e daí, com uma lógica aparentemente inatacável, a dispensabilidade de um Criador. "Os Primeiros Três Minutos" de S. Wienberg, também saído na Gradiva, afigura-se-me mais seguro e honesto.

Há sempre a tendência quando não se gosta da parte de embirrar com o todo. Seria, no caso, injusto. A teoria da relatividade é sumária mas elegantemente exposta. A exposição sobre os buracos negros é medianamente clara (a propósito, John Wheeler, o autor da expressão "buraco negro", já merece há muito o prémio Nobel da Física).

É reconfortante saber que um livro com algumas boas páginas anda abudantemente por aí. Algumas palavras sobre a edição portuguesa. Para ser rigoroso, devia começar por dizer que falta um artigo indefinido no título: "A brief history of time" devia dar "Uma breve história do tempo" em vez de "Breve história do tempo" (a edição brasileira da Rocco, tem o título bem, embora do ponto de vista da terminologia técnica, esteja muito pior que a portuguesa). O "uma" não é aqui redundante pois Hawking conta-nos a sua história que é "uma" das histórias possíveis.

Ao contrário do que a tradução do título faz antever, o texto da edição portuguesa peca por ser demasiado literal, com os adjectivos antes dos substantivos e os "eventually" e "college" traduzidos da maneira que já nos habituámos a encontrar nas versões nacionais de livros anglo-saxónicos.

O mais importante é talvez dizer que a sintaxe é muitas vezes retorcida, causando amíude reflexos condicionados de desaprovação. Talvez os prazos não tenham permitido melhor. O revisor, esse, parece que abusou um pouco das prerrogativas e anotou onde a anotação não era imperiosa (há anotações a mais e já ouvi comentários malévolos, recomendando que fosse dada uma oportunidade ao revisor de publicar a sua própria prosa...). A Gradiva, ao chegar primeiro a este livro que já era badalado há algum tempo, mostrou que continua atenta e interessada na divulgação da ciência.

E pronto. Se o universo não acabar tão cedo, ver-se-á daqui a uns tempos o que ficou do livro. Há um princípio da complementaridade que diz que nem sempre um "best-seller" é uma obra prima: sabia o leitor que a obra de ficção mais vendida de sempre (tirando a Bíblia que é tanto ficção como não-ficção) é um obscuro "Vale das Bonecas" de Jacqueline Susan, curiosamente da mesma editora, a Bantam, que agora lançou a "breve história" em apreço?

Render-me-ei, se a opinião que prevalecer for diferente da minha. Deixemos pois o tempo ajuizar.

S.Hawking, "Breve história do tempo. Do Big Bang aos buracos negros", Gradiva, Lisboa 1988.

Carlos Fiolhais