RECENSÃO DO LIVRO "OS SONHOS DA RAZÃO"


Heinz Pagels não é um desconhecido. Os dois livros anteriores desse físico norte-americano encontraram o merecido eco um pouco por todo o lado. "O Código Cósmico" e "Simetria Perfeita" (Gradiva, respectivamente de 1986, reeditado em 1990, e de 1990) são do melhor que se tem escrito para divulgar a ciência moderna. Trata-se de uma escrita viva, recheada de metáforas felizes, onde se reconhece a indiscutível competência científica do autor.

"O Código Cósmico" apresenta a física quântica como algoritmo (código) de todo o universo e, mais do que outros livros sensacionalistas sobre a teoria dos quanta‚ é uma boa referência para quem esteja interessado em conhecer as leis que presidem à organização do mundo microscópio. Todas as experiências até hoje efectuadas neste domínio foram concludentes sobre a validade da estranhíssima teoria quântica. A teoria quântica, que nasceu com o século, está bem e recomenda-se.

"Simetria Perfeita" discute a estrutura e evolução do universo. Este assunto tem conhecido nos tempos mais recentes desenvolvimentos espectaculares, nomeadamente com o casamento, que vinha sendo anunciado e foi finalmente consumado, da física de partículas com a cosmologia.Vários dados da observação astronómica têm vindo a abonar a teoria do " Big-Bang". Tem-se assistido a um grande "boom" da teoria do "Grande Bum"!

"Os sonhos da razão" corresponde à conclusão de uma trilogia. Se é certo que as descobertas modernas sobre o átomo e as estrelas (realizadas com a ajuda de modernos aceleradores e telescópios) correspondem a progressos indiscutíveis das ciências físicas, é legítima a interrogação sobre o futuro da física, agora que os limites da observação com esses instrumentos se afiguram cada vez mais próximos. Vários autores têm avançado a afirmação de que já dispomos do instrumento que vai possibilitar as evoluções e revoluções futuras: o computador. Com a sua ajuda, podem-se realizar simulações, que recriam uma natureza polimorfa e caprichosa, e estudar a miríade de situações intermédias entre ordem e caos que se encontram por todo o lado. Com as novas possibilidades abertas pelas "máquinas do silício", a ciência em geral e a física em particular ganham perspectivas cujo fecho não se descortina tão cedo. Esse novo instrumento veio abrir uma ciência que parecia estar a fechar-se.

O livro "Os sonhos da razão" é de certo modo premonitório desses "amanhãs que computam". Tem afinidades com outras obras que agora aparecem, como por exemplo "Caos" de J. Gleick (Gradiva, 1989), a louvar as possibilidades dos computadores. Tanto "Os sonhos da razão" como "Caos" mostram como é a ciência hoje, com os meios computacionais que já tem à sua disposição, e o que ela poderá vir a ser no futuro, com os meios ainda mais sofisticados que se anunciam.

Depois de uma "memória introdutória" cuja especificidade na organização do livro é bem evidente ( o autor narra uma sua passagem pela Califórnia nos anos sessenta, quando os "hippies" e as seitas proliferavam, deixando no leitor a impressão de que há algo de estranho nessa região do Extremo Ocidente, que outrora distribuía drogas e utopia e que hoje inunda o mundo de tecnologia), Pagels fala das "ciências da complexidade", uma designação, que embora possa ser provisória, serve bem à nova síntese que o computador veio permitir. Dão-se exemplos de caos na matemática, na física, na meteorologia, na biologia, etc. O caos está em todo o lado e cuida de nós.

Na terceira parte do livro, "Filosofia e antifilosofia" , Pagels discute algumas das ideias que atravessam a filosofia da ciência hoje (o autor, na sua qualidade de Presidente Executivo da Academia das Ciências de Nova Iorque, teve multiplas ocasiões de contacto com as diferentes correntes do pensamento contemporâneo). Os físicos profissionais, como é o caso de Pagels, têm normalmente uma posição céptica sobre a discussão filosófica. Alguns deles só no crepúsculo da vida se permitem especulações para além da sua ciência quotidiana. Pagels, embora na altura um físico em pleno exercício, discorre neste livro sobre vários temas da epistemologia (os problemas mente-corpo, conceito-realidade, lógica-paradoxo), motivado pela perspectiva das ciências da complexidade. Não se trata de nenhum tratado (a bibliografia, por exemplo, é bastante parcelar e fragmentada) mas de um registo, por vezes incompleto e disperso, do pensamento de alguém atento às vozes cruzadas deste fim de século. É por isso um livro cuja leitura se recomenda tanto a cientistas como a filósofos, tanto ao público das ciências como ao público das letras, a todos que legitimamente se interrogam sobre as novas possibilidades e limites do saber humano na era da informação que é seguramente a nossa.

Um pouco como Feynman, Pagels é um anti-filósofo que fala de filosofia e faz filosofia. Também como Feynman, Pagels morreu no ano, fatídico para a fisica, de 1988. Embora o segundo não tenha nem a aura científica nem o génio indiscutível do primeiro, há algo de semelhante entre eles: uma infinita curiosidade, a paixão em comunicar, o sonho assente na razão.

Escreveu Pagels nas últimas linhas de "Os Sonhos da Razão": "estamos seguramente no limiar de uma grande aventura do espírito humano, de uma nova síntese do conhecimento, da integração parcial da arte e da ciência..." Um acidente de montanha impediu-o de ver confirmado o seu vaticínio, de ver triunfar o sonho da sua razão.

H. Pangels, "Os Sonhos da Razão", Gradiva, 1990.

(traduçaõ de José Luis Lima, revisão científica de Carlos Fiolhais).

CARLOS FIOLHAIS