RECENSÃO DO LIVRO "MATÉRIA PENSANTE"


O que têm um matemático e um biólogo modernos a dizer um ao outro? Aristóteles tinha tanto de matemático como de biólogo e as suas reflexões devem tanto à constatação da fria lógica dos números como à observação da vida mais irrequieta e imprevisível.

Louis Pasteur e Henri Poincaré, quando a matemática e a biologia já eram disciplinas autónomas, teriam decerto muito que dizer se por acaso se tivessem encontrado. O matemático contemporâneo Ren Thom não receia aventurar-se nessas "terras da raia" que servem de fronteira entre a matemática e a biologia (e até de retornar a Aristóteles, como faz no seu recente "Esquisse d'une Semiophysique", InterEditions, 1988).

Em "A Matéria Pensante", os franceses Alain Connes, matemático premiado com a medalha Fields (conta-se que Alfred Nobel não decidiu honrar a matemática porque a sua esposa o desonrava com um matemático...), e Jean Pierre Changeux, bem conhecido neurobiólogico (autor de "O Homem Neuronal", com edição portuguesa das Publicações Dom Quixote), cruzam as suas ideias tal como os dois personagens da capa. Fazem pontes entre a matemática e a biologia e dizem que elas aí estão suspensas, prontas para serem percorridas.

A forma escolhida foi a do "diálogo", com tradições na filosofia e na ciência já desde o tempo de Platão e Galileu. Estamos perante duas "matérias pensantes" que não receiam pôr em letra de forma o pensamento falado, mesmo se ele for preliminar e incompleto como é próprio da oralidade. De que falam Connes e Changeux? O "leit-motiv" é, como o título indica, a relação entre a matéria viva e o pensamento abstracto. O filósofo e matemático Blaise Pascal falou dos "juncos pensantes", mas hoje sabe-se bem que a matéria dos juncos é feita de células e que a matéria das células é feita de moléculas. Os cérebros têm também células e moléculas como os juncos. O cérebro é um bocado de matéria biológica e, sem cérebro, não existiriam (ou existiriam sem terem sido revelados?), números primos e grupos finitos. Também não existiriam epistemologias e éticas. Mas qual é a distância que vai do cérebro ao conhecimento? Será que o jogo da evolução, que antes de ser animal e vegetal, foi macromolecular, tem continuação a nível dos produtos mentais? As questões levantadas pelos autores são mais do que as respostas que os leitores poderão recolher. É bastante sintomático que muitos capítulos e secções terminem em pontos de interrogação. Mas há perguntas para as quais o esforço de pesquisa vale bem a ausência temporária de resposta. Ao espírito mais divagador do biólogo contrapõe o matemático a concisão dos exemplos. Apanhado entre os dois, o leitor é convidado a percorrer o caminho do neurónio ao pensamento, dando-se conta dos hiatos e das dúvidas.

Changeux e Connes começam por abordar o famoso problema da existência ou não de uma realidade matemática, mesmo antes de ela ser posta a nu pelos matemáticos. Connes, apoiado na sua "experiência matemática" (há um esplêndido livro com este título, "The mathematical experience", Davis e Hersch, Penguin), diz que os objectos matemáticos já existem, são referentes universais e anteriores ao trabalho do matemático. Changeux, assumindo uma perspectiva construccionista própria de um darwinista moderno (que leva o darwinismo ao nível neuronal e que não vê nenhuma razão para aí se deter) defende antes que o mundo matemático se vai fazendo enquanto o matemático trabalha. Partindo desse desacordo sobre a natureza da matemática, a conversa deriva depois para as possíveis contribuições da biologia para a matemática e da matemática para a biologia e de ambas para a filosofia, o estudo do cérebro, as ciências cognitivas, a inteligência artificial, a ética.

Todos esses temas estão afinal ligados, apesar de haver por aí quem não suspeite da ligação. Nos dias de hoje, quando as ciências cognitivas devem tanto à psicologia e à filosofia como à engenharia e ao computador, ainda há governos que resolvem arredar, sumária e discricionalmente, as ciências humanas do rol dos planos de ciência. Leia-se este diálogo de dois cientistas "duros" e pasme-se depois perante as delimitações, que têm tanto de arbitrário como de estulto, nas quais alguns políticos se comprazem.
A tradução portuguesa é exemplar. Bastava dizer que o leitor vai debalde à procura de gralhas (os dedos de uma mão chegam para contar as que encontra, o que é pouco para o esforço desmesurado da busca). Mas pode-se acrescentar: o original francês tem razões para ficar com inveja da edição em apreço e bem faria o editor francês em encomendar um exemplar do presente livro para rever o dele. O matemático Franco de Oliveira, que reviu em português, mostrou que é judicioso e minucioso, merecendo, por isso, a referência na capa.

A capa recorre (e bem!) a uma litografia de Escher ("Fita sem fim", 1956), sem haver (e mal!) para isso referência na ficha técnica. A Escher o que é de Escher, tanto mais que o holandês Maurits Cornelius Escher é um daqueles raros artistas que sem ser matemático consegue colocar no papel ideias matemáticas. A matemática é, para quem a aprendeu e sabe, uma das belas-artes. Com Escher, a matemática (ou melhor, parte importante dela: a geometria, a simetria, o paradoxo) passou a ser uma experiência estética ao alcance de todos.

- J.P. Changeux e A. Connes, "Matéria Pensante", Gradiva, 1991
(tradução de Carlos Lourenço e Ana Paula Oliveira)

CARLOS FIOLHAIS