RECENSÃO DO LIVRO "OS PRÓXIMOS 100 ANOS"


Não foi por acaso que o livro "O Planeta Terra" do jornalista Jonathan Weiner, foi premiado pela União Geofisica Americana. Trata-se de um belo livro que serviu para acompanhar as imagens de um belo programa televisivo com o mesmo título sobre a "bola" em cuja superfície vivemos. E serve ainda hoje, mesmo sozinho, para regalar qualquer terrestre interessado pela Terra.

Weiner volta a atacar agora com "Os próximos 100 anos", onde os 00 da capa da edição portuguesa representam a Terra. O planeta Terra concita hoje todas as atenções. É como se tivessemos vivido sempre na mesma casa e só agora começássemos a olhar para o telhado, as paredes e o chão. O efeito de estufa que se manifesta no aumento gradual da temperatura atmosférica, preocupa cientistas, políticos e cidadãos. O buraco de ozono sobre a Antárctica e quiçá outros sítios suscita a discussão de técnicos, jornalistas e leitores. Os problemas do clima à escala global e os efeitos da actividade humana sobre o ambiente, incluindo as questões da poluição industrial, da radioactividade artificial e da destruição de grandes ecossistemas naturais inquietam justamente os habitantes do planeta.

Os cientistas (fisicos, químicos, geólogos, biólogos, meteorologistas, etc.) discutem uns com os outros enquanto continuam a recolher registos dos seus instrumentos. Os economistas receiam o futuro. Os ministros reúnem e os presidentes hesitam. Os cidadãos, que têm do passado razões para desconfiar dos cientistas e dos políticos, não sabem muito bem em quem ou em que acreditar.

As manchetes dos orgãos de comunicação são, amiude, sensacionais e os conteúdos perdem-se, também amiude, em percentagens de produtos químicos e em terminologia que desincentiva qualquer leitor ( quem é que gosta de palavras como "clorofluorcarbonetos"?).

É fácil sentir-se perdido no meio da informação e contra-informação avulsa que circula. Vêem-se químicos e fisicos da atmosferas com os cabelos em pé. Vêem-se políticos que de tão ignorantes fazem pena. O resultado da discussão, servido a quente pelos media, pode fazer com que o interesse inicial dos cidadãos cedo dê lugar a indiferença.

Neste contexto, a boa divulgação cientifica sobre o tema do estado actual e futuro do planeta pode ser extraordinariamente útil. Pode contribuir, a frio, para sistematizar argumentos, efectuar uma revisão das ideias e dos factos e moldar consciências criticas. Pode ajudar a explicar as tarefas dos cientistas e tecnólogos. Pode, finalmente, servir para desacreditar a verborreia de alguns demagogos.

"Os próximos cem anos", saído originalmente na Bantam em 1989 e portanto relativamente actualizado, será lido com prazer por quem se sinta perdido. Depois da descrição do planeta que ensaiou em "Planeta Terra", Weiner fez, com indiscutível competência literária e uma competência cientifica que é assegurada pela mão cheia de opiniões abalizadas que recolheu, um esbojo em pinceladas sugestivas do estado de saúde do nosso planeta. O diagnóstico não é animador: o efeito de estufa é real, o buraco de ozono mete-nos debaixo de radiações solares perigosas, o clima em grande escala está a ser modificado, os clorofluorcarbonetos que parecem tão inofensivos nas latas de "spray" têm um efeito tão horripilante quanto o seu nome. Só não há a certeza sobre a extensão quantitativa dos fenómenos. Falta afinal saber de que tamanho exacto é o "buraco ambiental" (não apenas de ozono) em que estamos metidos e o modo exacto como ele vai evoluir. Tarefa difícil uma vez que os sistemas em causa são não lineares e mostram um comportamento complexo.

Em português, existem poucos livros sobre estes assuntos. Mas convém referir, até porque Weiner se confessa um tanto entusiasmado pelas ideias desse autor, dois livros de James Lovelock: "Gaia, um novo olhar sobre a Terra", nas Edições 70 (existe uma edição pirata do mesmo livro de uma tal "Via Optima"), e "As eras de Gaia", na Europa América. Lovelock, inventor e cientista inglês um pouco excêntrico, defende a estranha doutrina da" geofisiologia", isto é, a tese de que a Terra pode literalmente ser considerada um organismo vivo, um organismo que sofre e eventualmente pode ser curado (ainda não traduzido entre nós saiu já na Inglaterra um novo volume de Lovelock ricamente ilustrado sobre "Gaia e a medicina planetária!"). As ideias de Lovelock serviram até de base a um jogo de computador bastante popular, o "Simearth", onde o jogador visualiza interactivamente alguns padecimentos da Terra e faz de "médico global". Destaquem-se ainda "O buraco no Céu - a ameaça do homem à camada de ozono", de John Gribbin, na Europa-América (que se especializou em editar Gribbin gralhado), "O efeito estufa", de Pearce, nas Edições 70, e "Relatório Terra - a luta pelo nosso ambiente", no Círculo de Leitores, que contém textos de vários autores incluindo Lovelock.

A publicação de "Os próximos 100 anos" de Weiner é extremamente oportuna - foi este ano que se realizou a mega conferência sobre ecologia no Rio de Janeiro, que tanta tinta fez correr - e quem quiser saber mais sobre o futuro da Terra, só terá de consultar algumas das numerosas referências que Weiner juntou no final. Fica habilitado para uma discussão, na aula ou no café, sobre esse tema inesgotável que é o futuro e que vai, certamente, fazer correr ainda mais tinta.

Um reparo sobre o tom e as conclusões da obra em apreço: Weiner não nos fornece muitos sinais de esperança para os próximos 100 anos. Será que o "fim do planeta" está mesmo próximo e só temos que nos arrepender do nosso passado destruidor? A história das ciências e tecnologias tem mostrado que o homem tem de reserva saberes (e, segundo Bacon, poderes) imensos que, quando, devidamente geridos e orientados, podem resolver questões que pareciam antes insolúveis. Neste caso, trata-se do problema, vital para todos, da sobrevivência planetária. Pesem embora todos as confusões e hesitações, os cientistas, os políticos e os cidadãos começam, em conjunto, a ganhar consciência da importância do problema. Esforços de diagnóstico e profilaxia estão a ser desenvolvidos. São visíveis alguns sinais de arrependimento sobre as acções que provocaram a doença. Os cidadãos, que afinal pagam tanto os investigadores como os govenantes, têm, no mínimo, o direito de continuar vivos e assegurar a vida aos seus descendentes, nos cem anos que se seguem e para além disso. Por virtude do arrependimento atempado pode ser que o fim não esteja próximo.

Jonathan Weiner, "OS PRÓXIMOS 100 ANOS", Gradiva.

(tradução de Maria Goes)

CARLOS FIOLHAIS