RECENSÃO DO LIVRO "SUBTIL É O SENHOR"


Um técnico anónimo transformou-se no grande génio deste século. Um percurso fantástico relatado em livro.

O predicado de génio é relativo. Podem mesmo classificar-se os génios de acordo com a geografia do seu reconhecimento: há-os, muitos, paroquiais, e outros, muito poucos, cuja fama não escapará a hipotéticos extraterrestres. Assim, um Cartoonista no hesitou em identificar o planeta Terra, na imensidão do universo polvilhada de astros, com a placa: «Aqui viveu Einstein».

Faltava aos habitantes deste planeta uma biografia completa e autorizada sobre o físico que de técnico de terceira classe, numa obscura repartição de patentes em Berna, se transformou numa figura mítica, de cabeleira branca e esparsa, olhos encovados, bigode frondoso, camisola de lã e sandálias. O livro foi escrito por Abraham Pais, que soma ao conhecimento da física deste século o convívio pessoal com Albert Einstein.

Não é uma biografia qualquer, mas a biografia definitiva de Einstein. A conclusão, cuidadosa mas categórica, vem logo no início: «Nem sequer sei o que é uma caracterização geral e completa do que é um génio, excepto que é mais do que uma forma extrema de talento e que os critérios para definir um génio não são objectivos. Noto, com alívio, que o caso de Einstein causa menos celeuma do que o de Picasso e muito menos do que o de Woody Allen; deste modo, declaro que, em minha opinião, Einstein era um génio.»

Está lá tudo o que o leitor, curioso sobre o fenómeno da genialidade, sempre quis saber sobre Einstein e nunca se atreveu a perguntar. São quase setecentas páginas densas, documentadas, aqui e ali matemáticas, mas humanas e apaixonantes. Que se abstenham os que esperam obter informações sobre a superioridade científica da sua primeira mulher, objecto de recente boato, ou pormenores picantes sobre eventuais contactos do cientista com Marilyn Monroe.

O livro (em tradução portuguesa, excelente, dos físicos portugueses Fernando Parente e Viriato Esteves) centra-se na obra e não tanto no indivíduo. São, porém, bem-vindos os que pretendam compreender a enigmática frase do título -- Subtil é o Senhor. Ficaria melhor --Deus é Subtil--, início de uma famosa tirada de Einstein sobre a eventualidade de uma experiência contrariar a teoria da relatividade-«Deus é subtil mas não malicioso»--, frase que foi explicitada pelo autor--«A Natureza não esconde os seus segredos por malícia, mas sim devido à sua imensidão». Deus aparece como metáfora da Natureza e Einstein, apesar de incrédulo num Deus pessoal, surge-nos, na prodigiosa teia redigida por Pais, como um descobridor dos «ínvios caminhos» da Natureza.

A teoria da relatividade, na versão restrita publicada em 1905, diz que os fenómenos físicos decorrem da mesma maneira num dado sistema de referência, por exemplo a Terra, e num outro com velocidade constante relativamente ao primeiro, por exemplo uma nave espacial. A relatividade generalizada, de 1916, afirma por seu lado que uma nave acelerada por um foguete é equivalente a uma nave em queda livre para um planeta. Várias experiências, uma das quais realizadas na ilha do Príncipe, confirmaram o que Einstein previa.

Einstein passou o resto da sua vida a cogitar na mecânica quântica, a doutrina que descreve o estranho comportamento dos átomos. Nunca se entendeu com a comunidade de jovens, inspirados pelo dinamarquês Niels Bohr, que nos finais dos anos vinte revolucionaram a Física. Nesse sentido, Einstein terá sido o último génio do século passado, ao passo que Bohr, com quem Einstein sustentou uma polémica insistente, fecunda e impregnada de uma admiração recíproca, será um génio deste século. Para Einstein, a Lua existe objectivamente, mesmo que ninguém olhe para ela (seria malícia divina a ausência da Lua quando estivesse anónima), enquanto para Bohr alguns objectos só existem mediante a observação. Foi Bohr dos poucos a lembrar Einstein que não devia ele, Einstein, ensinar Deus a comportar-se.

Apesar do desacordo, confidenciou Einstein sobre Bohr. «É verdadeiramente um homem de génio». Sem medo das palavras, confidenciou a secretária de Einstein a Pais: «(Os dois) amaram-se afectuosa e carinhosamente.»

Abraham Pais publicou recentemente uma biografia de Bohr. É outro volume enorme e meticuloso, que se entrelaça com o de Einstein. É lá que se encontram as confidências de Bohr, que teremos um dia o prazer de ler em português se a Gradiva, atenta como é costume, publicar.

Abraham Pais, "Subtil é o Senhor. Vida e Pensamento de Albert Einstein", Gradiva, 1993.

Tradução de Fernando Parente e Viriato Esteves.

CARLOS FIOLHAIS