RECENSÃO DO LIVRO "O Grande Circo da Física"


Jean Walker mostra-nos, em «O Grande Circo da Física», que a ciência pode ser tão espectacular como o circo e tão surpreendente como o mundo

Jean Walker é uma instituição dentro de uma outra instituição. Mantém desde há longos anos uma coluna no «Scientific American», a melhor revista de divulgação científica do mundo, onde apresenta e descreve as mais variadas habilidades de laboratório. Jean Walker é um professor de física que, não contente com a grande curiosidade que tem, gosta de transmitir a sua curiosidade aos outros.

No livro O Grande Circo da Física, agora publicado pela Gradiva com o apoio do Instituto de Inovação Educacional, Walker oferece-nos uma série impressionante de questões e respostas não só sobre o funcionamento das coisas do mundo de todos os dias como também de algumas coisas que não se vêem todos os dias. O livro, que aparece numa boa tradução de Jorge Valadares (conhecido pedagogo e autor de várias obras para o ensino secundário), mostra-nos como a ciência, neste caso a Física, pode ser tão espectacular como espectacular é o circo e tão surpreendente como surpreendente é o mundo. Ensina-nos como a Física pode ser aprendida na vida e incentiva-nos a ligar a escola à vida corrente.

Um dos problemas que o ensino e a divulgação da ciência em geral têm de confrontar é a imagem, que existe formada no público comum, de que o domínio da ciência se encontra desligado da realidade. O cientista aparece representado em caricatura como um personagem distraído, perdido ou mesmo maluco - alguém que não é deste mundo nem se preocupa com coisas deste mundo. O Professor Tournesol anda um bocadinho desatento, e o Professor Pardal tem uma grande pancada. Os professores que se dedicam à ciência seriam um pouco Tournesol e um pouco Pardal.

Pese embora o extraordinário impacte da ciência e da tecnologia na organização e funcionamento da sociedade moderna, julga-se ainda que a ciência é feita por sujeitos que ignoram, absortos no seu pasmo metafísico, as coisas comezinhas do mundo e que pairam confortáveis, em nuvens brancas e fofas, por cima da dura realidade terrena. A ciência seria algo de inacessível ao comum dos mortais, uma actividade praticada por indivíduos que se dedicam a esoterismos inúteis e desperdiçam o dinheiro dos contribuintes em telescópios e aceleradores.

Contudo, a ciência não é mais do que o conhecimento do mundo, sendo por isso necessário não só observações empenhadas e atentas como raciocínios inteligentes e manipulações engenhosas - são indispensáveis a curiosidade e o método científico. Um cientista não pode andar distraído nem fazer o que lhe der na gana. Antes de construirem os grandes telescópios e os modernos aceleradores, houve primeiro que entender, com a ajuda da observação e da metodologia científica, porque é que os navios flutuam, as pedras caem, os planetas giram, a luz se propaga, os ímanes atraem, a electricidade dá choque e o calor aquece. Para saber porque é que tudo isto é assim, olha-se simplesmente para os fenómenos multifacetados em que a natureza é pródiga, formulam-se hipóteses razoáveis e usam-se instrumentos, mais ou menos sofisticados, com os quais se replicam esses fenómenos ou se propiciam outros para averiguar da justeza das hipóteses. Compreende-se deste modo que uma coisa é assim porque uma outra é assado. Existem leis da Física, e a profissão do físico é encontrá-las.

A escola é evidentemente o sítio onde tem de começar a familiarização com a ciência. É aí que a observação tem de debutar, tanto em relação às grandes coisas, que entram pelos olhos dentro, como os pormenores, que parecem à primeira vista insignificantes mas que de facto o não são. O professor, embora tenha de falar dos telescópios e dos aceleradores que permitem a ciência de ponta, tem de começar pela ciência antiga (o físico Richard Feynman diz até que nada há de mais moderno do que as antigas leis da Física, como a lei da gravitação universal). A velha Física trata do mundo macroscópico, visível à vista desarmada, e foi feita sem invocar a existência de átomos e partículas. As experiências a realizar nas salas de aula e nos laboratórios escolares, para ver como a física funciona, não têm de ser enormes e dispendiosas. Podem até recorrer a utensílios de cozinha ou ao ferro-velho de uma garagem. É assim que se pode conseguir a ponte, por vezes difícil, entre o ensinar e o aprender. Tudo passa pelo despertar da imaginação a partir de casos concretos e pelo aguçar da criatividade na procura das razões para o que acontece.

Se o professor «dá» a lei da alavanca escrevendo apenas uma fórmula no quadro, é natural que o aluno não perceba que essa fórmula tem a ver com o deslocamento de pedras bem pesadas, com o partir de nozes e com o martelar de pregos. Quem tiver pelas suas próprias forças e com os seus próprios braços de mover um calhau, abrir uma noz ou espetar um prego nem se dá conta que está a exemplificar essa coisa abstracta, que um dia aprendeu, que é a fórmula matemática onde entram as forças e os braços das forças. Aprendeu num dia e esqueceu no dia seguinte. Não aprendeu, portanto.

O professor «dá»... O verbo «dar», usado no contexto do ensino e da aprendizagem, é bastante esclarecedor sobre o «status quo» existente: supõe-se simplesmente que o professor «dá» (é generoso) e que o aluno «recebe» (se não recebe, é burro). O professor é um bom apóstolo, e o aluno não passa de um gentio que se atreve a recusar não só a conversão como a missanga matemática que lhe é ofertada. Em vez de «dar» matéria e depois continuar a «dar» mais e mais matéria, mesmo quando já não há ninguém a receber, o papel do docente devia ser comunicar a informação que está aquém e além da matéria «dada». Há que não só passar o aluno mas também fazer passar uma mensagem útil para a vida.

Não é preciso ter aprendido a teoria cibernética nem entender de psicologia cognitiva para concordar que no acto de comunicação tem de existir um emissor, um receptor, uma mensagem e uma retro-alimentação (que serve para averiguar se a mensagem chegou inetira). Na educação em ciência, a mensagem, mais do que esta ou aquela lei avulsa, é a de que há um mundo para descobrir e um método de descoberta.

Quando se trata de comunicar que a ciência é o conhecimento do mundo e que o método científico é a viagem que conduz a esse objectivo, todos os truques são bons. A observação directa das coisas do mundo real, a conjectura dirigida e a experimentação consequente, tal como o livro de Walker sugere, são dos truques que melhor funcionam. Outro truque que dá resultado, e que por isso Walker utiliza, é o da exploração dos aspectos lúdicos que as coisas sempre têm.

O Professor Walker da Universidade de Cleveland, no Ohio, não é nada distraído. O Grande Circo da Física é um manancial de exemplos da relação da ciência com a vida de todos os dias. Mostra como é poderosa a física em acção e, ao mesmo tempo, como é divertida. Existem entre nós vários livros de divulgação da Física moderna, que estão já a subverter o ensino nas nossas escolas (mesmo à margem dos programas oficiais). Mas faltava um livro sobre a Física clássica, que nos levasse não muito acima dos céus mas bem abaixo deles, à Terra onde nós estamos. Fala-se hoje muito de reforma do ensino mas, mais do que as pias intenções, são os livros como este que fazem, na prática, a reforma do ensino.

Se um estudante perguntar porque é que o céu é azul, pode o professor saber a teoria da luz e as equações do electromagnetismo, mas fica provavelmente um bocadinho atrapalhado para dar a resposta. Ninguém lhe ensinou isso na universidade. Mas havia um professor alemão que não passava ninguém no exame de doutoramento que não fosse capaz de explicar, com todos os pormenores, porque é que o céu é azul! Walker indica a resposta, para quem tenha curiosidade em a saber, mesmo que não ande a doutorar-se. A ciência consiste, por exemplo, em saber porque é que o céu da Terra é azul (e, já agora, qual é a cor do céu em Marte).

Walker dá, além desta, outras respostas, algumas bem curiosas: porque é que o «soutien» de uma hospedeira de bordo pode aumentar inesperadamente de tamanho, porque é que de noite se ouvem muito mais facilmente as emissões de rádio ou porque é que as pachorrentas vacas são vítimas frequentes das trovoadas. Se o leitor está curioso em saber tudo isto e muito mais, abra o livro de Walker que ele explica-lhe.

O Grande Circo da Física fornece problemas (e respostas!) para um sem-número de ocasiões, normais e anormais, tanto em tempo de paz como em tempo de guerra. Por exemplo, o seguinte problema é de guerra: será que os chineses estão de posse de uma arma geofísica terrível de que nem eles próprios sabem a existência? Se o leitor quiser saber se o terramoto desencadeado pelo salto de todos os chineses ao mesmo tempo da altura de uma cadeira seria ou não suficiente para destruir a costa oeste dos Estados Unidos é convidado a entrar na tenda do grande circo de Walker.

Este tipo de problemas pode motivar o leitor para outros, mais ou menos imaginativos, como o de saber despoletar as minas magnéticas que estão artilhadas nas águas do Golfo (é ou não possível fazer passar corrente num circuito gigantesco à volta do Golfo que altere naquela zona o campo magnético e engane as minas?) ou o de criar miragens no deserto árabe (é ou não possível criar miragens e enganar o inimigo , fazendo-o atacar onde não está ninguém?). A estas questões bem actuais, Walker não responde (não podia responder a tudo!), pelo que ficam como exercício para o leitor cuja imaginação seja desperta pela leitura do livro. Tratam-se de exercícios que, embora de brincadeira, podem servir, nos tempos de hoje, para motivar o estudo do campo magnético ou do fenómeno óptico da refracção. Estes e outros problemas situam-se na fronteira, por vezes baça e mal definida, entre a ciência e a ficção científica.

A ficção científica pode levar algumas pessoas a pensar que a ciência tudo pode. Nenhuma ideia é, porém, tão errada como esta. A ciência trata de possibilidades e de impossibilidades. Existem bastantes confusões sobre as relações da ciência com outras actividades humanas, como por exemplo a escrita de histórias fantásticas e a redacção de horóscopos. Nas livrarias encontram-se os livros de ciência ao lado dos livros sobre lobisomens e sobre a astrologia (editoras: ainda está para aparecer um bom volume sobre os gambozinos!).

É talvez mais fácil acreditar na telepatia ou na dobragem de colheres do que na viagem à Lua ou na levitação conseguida com a supercondutividade. Mas a transmissão de pensamento e o torcer das colheres nada têm a ver com a ciência, que é bem conhecedora dos seus limites. Os problemas da célula psicoeléctrica ou da força da mente sobre os talheres não são tratados por Walker e ficam, por isso, como exercício para o leitor mais crédulo (exercício inútil, de resto, porque não leva a lado nenhum). Muita gente deseja saber se uma pulseira magnética dá realmente a felicidade e se serve para tranquilizar os nervos. Aí vai a resposta que Walker também se esqueceu de dar (o livro não podia ser muito grande): a pulseira dá a felicidade aos vendedores - tal como as moedas do lago da fortuna fazem a fortuna de quem as apanha - e é muito boa para os nervos de quem acredita.

Walker ensina Física usando questões avulsas que se podem levantar nas mais diversas circunstâncias, domésticas ou públicas (como funciona o forno de micro-ondas, como se escutam segredos numa igreja, etc.). O professor, uma vez lido este livro, pode interrogar o aluno, e o aluno, desde que tenha lido, pode desafiar o professor. Se acaso o aluno perguntar se os vedores conseguem detectar água subterrânea com a ajuda de uma vara, o professor, que eventualmente chamou um vedor para marcar o poço no seu quintal lá da terra, pode sentir-se um pouco aflito. Fica, com efeito, atrapalhado se não tiver lido o livro de Walker, que fornece as conclusões da ciência até à data (nada prova que o vedor consiga «ver» a água!).

Um subtítulo apropriado para o O Grande Circo da Física poderia ser: «Tudo Aquilo Que Você Sempre Quis Saber Sobre o Mundo e Nunca Se Atreveu a Perguntar». Trata-se de um livro curioso para gente curiosa.

Já houve alguém que definiu a ciência como um «modo de satisfazer a curiosidade individual à custa do erário público». Embora esta ideia possa ser uma das duas ou três suficientes para se chegar a secretário de Estado, ela só pode existir na mente de alguém que ainda não percebeu qual é o motivo e quais são as possibilidades da ciência. A curiosidade individual está no início da ciência e da técnica. Com a satisfação de algumas curiosidades individuais, o erário público só engrossa, já que sem a curiosidade humana nem a ciência começa, nem a industria labora, nem o orçamento se faz. O livro de Walker fornece algumas respostas para a curiosidade individual a que todos temos direito.

Chegou O Grande Circo da Física à aldeia e à cidade. Este circo é um desfile de cenas curiosas do novo mundo destinadas a seduzir os potenciais espectadores que somos todos. «É entrar, senhoras e cavalheiros, meninas e meninos, é entrar!»

Jean Walker, O Grande Circo da Física, tradução de Jorge valadares, Gradiva.

CARLOS FIOLHAIS