RECENSÃO DO LIVRO "As Aventuras do Sr. Tompkins"


O Sr. Tompkins é um empregado bancário que adormece a ouvir conferências de um professor de física. Enquanto dorme tem os sonhos mais delirantes. Imagina-se em universos diferentes, onde as constantes da física têm outros valores que não aqueles que conhecemos no nosso mundo e acontecem-lhe por isso as coisas mais incríveis. Acaba por casar com a filha do professor, continuando a dormir e a sonhar.

Este é o resumo das "Aventuras do Sr Tompkins", da autoria do físico norte-americano de origem soviética George Gamow, que a Gradiva agora republicou em português (havia uma edição dos anos cinquenta, traduzida por Rómulo de Carvalho, "O Sr. Tompkins explora o átomo", que corresponde à segunda parte do livro agora publicado). Trata-se de um clássico da divulgação científica que conserva toda a frescura e irreverência iniciais. A Gradiva fez, portanto, uma edição oportuna com este número dois da colecção "Aprender/fazer ciência".

O conteúdo dos sonhos do Sr. Tompkins é uma mistura da física de Einstein e Bohr com psicologia de Freud e Jung. A ficção do físico Gamow é um pouco do género de "Alice no País das Maravilhas" do matemático Lewis Carrol. Conforme o autor adverte no prefácio, trata-se de literatura fantástica do que de literatura de ficção científica. Já se sabe que há cientistas que se aventuram na ficção científica, mas Gamow, com o personagem Tompkins, aventura-se nos reinos oníricos do fantástico. No fundo, a prosa de divulgação de Gamow serve para ilustrar as situações fantásticas - apesar de reais, parecem surreais - que a física moderna encontra e descreve.

Gamow era um brincalhão. Emigrou para os Estados Unidos mas dizia que "estava à trinta anos a passar férias no Ocidente". Descobriu a teoria da radioactividade alfa - onde intervém o chamado efeito túnel - e imagina nas "Aventuras do Sr. Tompkins" um carro a atravessar a parede de uma garagem. Trabalhou na teoria da radioactividade beta - segundo a qual os electrões podem ser emitidos por núcleos atómicos - e põe o Sr. Tompkins, em sonhos, a explorar o átomo, disfarçado de electrão. Não trabalhou na radioactividade gama mas o livro do Tompkins é bem um exemplo de actividade de Gamow - uma vida de ciência em que a ciência se prolonga pela divulgação.

Gamow é um dos autores da teoria da grande explosão inicial, vulgo "Big Bang". Num artigo publicado a 1 de Abril de 1948, escrito de colaboração com R. Alpher (o nome não tem nada a ver com a radioactividade alfa...), apresentou as suas ideias sobre o início do universo. Como os nomes dos autores eram Alpher e Gamow, portanto bem parecidos com as primeiras letras do alfabeto grego, Gamow achou que faltava um beta. Acontece que havia (e há, o homem está velho mas felizmente ainda vive) um físico chamado H. Bethe (o nome nada tem a ver com a radioactividade beta!). Vai daí Gamow resolveu colocar o nome de Bethe entre o Alpher e o dele, apesar de o Prof. Bethe não ter contribuido coisíssima nenhuma para o mencionado artigo. Ficou, sem querer, coautor da teoria do "Big-Bang"...

O estilo divertido de Gamow é ilustrado por várias metáforas que ficaram famosas: uma é a do gato de Gamow. Para descrever o facto de, em mecânica quântica, a observação alterar o comportamento dos objectos, Gamow descreve que não se pode acariciar um gato quântico sem, ao mesmo tempo lhe torcer o pescoço...No fim do livro, respondendo à pergunta de Tompkins sobre se "o desenvolvimento da ciência não deveria servir para fins práticos?", o sogro diz: "Claro que sim, mas isso é apenas um objectivo secundário. Por acaso pensa que o propósito fundamental da música é ensinar os corneteiros a acordar os soldados ao amanhecer, chamá-los para as refeições e a ordenar-lhes que vão combater?"

Uma nota única e pequena sobre a edição portuguesa: os tradutores exageraram nas notas! O seu grande número e o seu grande tamanho prejudica a leitura do texto. Por vezes, em vez de uma nota pé de página ao texto quase que há um texto de cimo de página à nota. As notas teriam ficado melhor, juntas, no fim. Contudo, as notas históricas afiguram-se bastante pertinentes. As notas que pretendem esclarecer o conteúdo de algumas das afirmações de Gamow não o são tanto. Não fica demasiado claro o que mudou na física desde o tempo de Gamow, isto e aquilo que o professor do livro, o sogro do Sr. Tompkins, ainda não sabia...

E já agora um conselho ao Sr. Fonseca, empregado bancário e apreciador de boa divulgação científica: leia o livro do Gamow, porque os clássicos nunca envelhecem. De certeza que não vai adormecer a ler as aventuras do seu colega Tompkins!

George Gamow, As Aventuras do Sr. Tompkins, tradução de A. Nunes dos Santos e C. Aureta, Gradiva.

CARLOS FIOLHAIS