RECENSÃO DO LIVRO "Quanta, Grãos e Campos"


Mecânica de Automóveis

Toda a gente sabe qual é a mais velha profissão do mundo. Já não é tão certo o que se deve entender por "novas profissões". Talvez ferrador e mecânico de automóveis sejam velhas profissões e programador de computadores e mecânico quântico sejam novas profissões. Contudo, esta cronologia das profissões engana, pois os mecânicos quânticos, isto é os físicos que utilizam a mecânica quântica para compreender o mundo dos átomos e das partículas, são quase tão antigos como os mecânicos de automóveis... A mecânica quântica surge, ainda tímida, no primeiro ano do século com uma proposta do físico alemão Max Planck e chega à maturidade nos finais dos anos vinte, ainda os automóveis não povoavam o mundo como hoje o fazem...

Vem isto a propósito de um livro publicado pelo Instituto das Novas Profissões sobre mecânica quântica. O livro saiu há pouco mais de um ano mas, como foi editado pelo referido Instituto numa obscura colecção "Estudo Geral", ninguém deve ter dado por ele. Intitula-se "Quantas, grãos e campos" e são seus autores o português Andrade e Silva e o francês Lochak. O livro é a tradução do original francês que veio a lume em 1979. Está-se mais a ver um instituto de profissões a editar um livro de mecânica de automóveis do que um livro de electrões. Mas às vezes existem surpresas como esta.

João Andrade e Silva trabalhou com Louis de Broglie, o famoso físico francês (de sangue azul!) que ajudou a criar a mecânica quântica nos anos vinte. A teoria quântica teve desde o início implicações filosóficas. Broglie foi adepto de uma filosofia realista ao contrário da maioria dos outros físicos quânticos. O físico dinamarqês Niels Bohr foi o líder da maioria: no seu processo de descoberta do átomo e do electrão desde cedo achou necessário abandonar as ideias realistas a que estamos habituados no mundo macroscópico. Realismo significa aqui o reconhecimento da existência dos objectos do mundo independentemente da presença ou acção de um sujeito que observa e conhece.

O livro de Andrade da Silva e Lochak é uma exposição das ideias fundamentais da mecânica impregnada do espírito de Broglie. Um seguidor de Bohr escreveria evidentemente um livro diferente. A controvérsia sobre o significado da mecânica quântica foi e é uma das maiores disputas científicas do nosso século. O cidadão "educado", embora sem grande bagagem de física ou de ciência, pode com proveito tomar conhecimento do abalo que representou a mecânica quântica no cenário das ideias do século passado e o impacto cultural que teve e tem a sua discussão. O livro de Andrade da Silva e Lochak é acessível a um leigo (não tem a assustadora matemática), está bem escrito (a começar pelo primeiro capitulo sobre a história da física) e apresenta ilustrações cativantes que afastam qualquer enfado). Tem de se chamr a atenção para o facto de os autores representarem uma escola "minoritária" da teoria quântica mas a maioria, se de facto vence no terreno atendendo à sua superioridade numérica, ainda não convenceu todos os espiritos. Max Plank disse um dia que o triunfo das novas ideias não se devia ao convencimento dos adversários mas ao facto de estes falecerem e de as novas gerações serem educadas nas novas ideias. Ora bem: já passou uma geração de adversários na questão do sentido da mecânica quântica e o debate, embora um pouco lateral, continua aceso... Existe pois um problema de interpretação sobre o qual não se chegou ainda a um consenso.

Note-se que a disputa envolve apenas o sentido e não o conteúdo básico, as aplicações e a utilidade da teoria. A mecânica quântica é hoje útil em várias "novas profissões". Aplica-se, por exemplo, nos circuitos dos computadores e nos metais supercondutores. Embora muitos engenheiros electrotécnicos não tenham encontrado a mecânica quântica nos "curricula", encontra-la-ão mais tarde ou mais cedo na prática pois as componentes electrónicas se estão a miniaturizar a tal ponto que delicados efeitos quânticos têm de ser considerados. Um electrão é um objecto quântico, um minúsculo grão que obedece a doutrina quântica, e a tecnologia humana, já hoje e ainda mais no futuro, usa electrões nos mais diversos utensílios e aparelhos.

A disputa que permanece sobre o sentido da mecânica quântica serve para ilustrar o facto de que a criação e a difusão das ideias científicas tem traços de semelhança e comunica de forma fecunda com a criação e difusão das ideias filosóficas, estéticas, sociais, etc. Em física também se debate, afinal, a interpretação e o sentido. A palavra "cultura" associa-se normalmente e apenas à obra de filósofos, artistas, sociólogos, uma obra marcada por diálogos e contradições, e não à obra de cientistas e técnicos, supostamente exacta e definitiva. Esquece-se nessa associação que a ciência é um empreendimento humano que tem processos de parto e de crescimento parecidos com os de outros empreendimentos humanos. Esquece-se ainda que são frágeis e artificiais as fronteiras que se possam delinear em torno do saber próprio ou alheio. A teoria quântica, apesar de ignorada pela cultura dominante, é um dos bens culturais mais preciosos deste nosso século.

O livro de Andrade da Silva e Lochak vem contribuir para a divulgação da mecânica quântica entre nós e para salutar a discussão. Os leitores a quem se destina não são apenas os físicos e engenheiros, que têm com a mecânica quântica relações profissionais, mas os membros de várias profissões, novas ou velhas, que alimentem algumas preocupações de ordem cultural (quer dizer, aqueles para quem a mecânica quântica não seja apenas a dos automóveis!). Nem todas as recensões têm de ir atrás das últimas novidades dos editores do costume. É de mais livros destes - livros sobre temas de ciência e escritos por cientistas portugueses - que a cultura científica necessita, em Portugal, para ganhar de vez um estatuto que alguns ainda lhe não reconhecem.

J. Andrade e Silva e G. LochaK, "Quanta, Grãos e Campos", Colecção Estudo Geral, Instituto das Novas Profissões, Lisboa, 1988.
Tradução: M. Pina

CARLOS FIOLHAIS