Carlos Fiolhais*
*Professor de Física da Universidade de Coimbra
Nos últimos anos foram publicadas em português excelentes obras de divulgação científica para os mais novos. Pretendo aqui recomendar vivamente alguns desses títulos, oferecendo uma selecção centrada nos álbuns ilustrados que enchem o olho e que podem encher a cabeça dos leitores juvenis. São boas prendas de Natal ou de Ano Novo! Escolhi livros sobre Física, Química, Biologia, Geologia e Tecnologias destinados a leitores entre os 6 e os 16 anos (a Matemática é um mundo por si só).
Embora ainda tenha de mudar mais para se aproximar de países civilizados o país mudou, de facto, ao longo dos últimos anos. Um dos sintomas dessa mudança é a disponibilidade de uma grande variedade de obras ilustradas sobre ciência para infantes e adolescentes. Faziam falta... Tenho inveja dos jovens de hoje que têm ao seu alcance livros de ciência interessantes, atraentes e divertidos, mas, para sublimar esse sentimento, posso bem comprá-los e lê-los com um contentamento infantil mal disfarçado.
A "revolução" recente na oferta de livros juvenis de ciência deve-se, por um lado, à existência de um mercado receptivo para esse tipo de consumo cultural e, por outro, à clarividência de alguns editores, que têm regido as suas escolhas por critérios de qualidade. Merecem destaque entre as editoras a Verbo, a Civilização, as Selecções do Reader's Digest, etc., que editam entre nós os livros da Dorling Kindersley (editora inglesa com forte presença nos EUA), e a Gradiva, que no seu ramo "júnior" edita, entre outros, os livros da Kids Can Press (Canadá) e da Freeman (EUA).
Os livros da Dorling obedecem a uma organização ditada pelo "design" e pelas imagens. Diz-se que são livros para a geração electrónica, dominada pelo vídeo, computadores e CD-ROMs e que supostamente só se deixa prender por "clips" de três minutos. A prosa aparece em pequenos nacos, nunca é demasiado substancial, e complementa as ilustrações, em geral bastante apelativas. Há quem ache que tais livros têm um pequeno valor didáctico pois são mais colecções de imagens do que livros tradicionais. Penso, pelo contrário, que livros didácticos são aqueles, como os da Dorling, que conseguem sair do interior das capas para captar a atenção e a imaginação dos leitores. Alguns desses livros são tão bem feitos que tanto podem interessar a um petiz de palmo e meio como a um doutorado em Física de meia idade. Ajudam até a vender jornais ao fim de semana, como é o caso recente do PÚBLICO, que distribui em fascículos "O Corpo Humano e Outras Grandes Máquinas".
Por sua vez, os livros da Kids Can Press e da Freeman têm aspecto menos deslumbrante sendo, portanto, mais baratos. Centram-se na realização de actividades experimentais pelo jovem leitor e vêm salpicados de humor. Trazem, por vezes, "gadgets", como balões, cassetes, etc. O jovem é fortemente encorajado a fazer com as suas mãos, a observar com os seus olhos e a concluir com a sua cabeça. Tratam-se de obras que possibilitam processos de auto-aprendizagem (afinal, a única forma de aprendizagem!), que podem ser facilitados pelo acompanhamento de pais e professores. Ofereça-os aos seus filhos (ou sobrinhos ou afilhados), porque as vocações ficam dormentes se não dispuserem de livros para primeiro despertarem e depois se manterem activas. Aprenda ciência com os seus filhos se mantém com a ciência um distanciamento traumático provocado talvez pela ausência de livros motivadores na infância...
A existência na sociedade - nas livrarias, hipermercados e feiras do livro - de obras vivas e alegres, que fazem a verdadeira reforma do ensino, contrasta com certos estados de apatia instalados nas escolas. A reforma do ensino está nas estantes das livrarias e hipermercados: é preciso metê-la no cesto e trazê-la para casa! Com efeito, os livros que estamos a falar assentam na sedução pelo mundo à nossa volta, no fascinante exercício da interrogação que esse mundo nos suscita, e no prazer de procurar explicações que encaixem umas nas outras. Promovem uma aprendizagem activa das ciências, por meio da experimentação e da interpretação dos resultados. Alguns livros são eles próprios pequenos museus de ciência, interactivos e tudo (ver, por exemplo, a recém anunciada versão portuguesa de "The Most Amazing Pop Up Book of Science", no Círculo de Leitores).
Há quem diga que os livros estão condenados a prazo. Que os novos "media" electrónicos (vídeos, CDROMs, Internet, etc.) ao substituir os livros "enrasquecem" as gerações contemporâneas. Não estão demonstradas essas teses. De facto, as livrarias modernas têm software nas estantes mas não deixaram por isso de ter livros, com papel e duas capas, que continuam a ser lidos pelos jovens. Os livros são eternos e continuam a interessar as novas gerações.
Mas, para que os bons livros sejam lidos, não basta que existam. O papel da escola, escolhendo os melhores e disponibilizando-os na sua biblioteca, é insubstituível. Se falta, falta tudo. Por outro lado, o papel da família, por meio do incitamento à leitura e à realização de actividades dirigidas pela leitura não é menos indispensável. Se falta, continua a faltar tudo. É nossa obrigação reclamar os melhores livros, para que nada falte às nossas crianças. Em particular, para que não lhes falte o gosto pela ciência.
LISTA DE RECOMENDAÇÕES:
(Segue-se a ordem alfabética dos editores e dentro de cada editor a ordem alfabética dos autores. Fornece-se uma indicação sobre a idade dos destinatários, uma vez que os editores raramente o fazem.)
A colecção "Fazer Para Aprender" infelizmente está esgotada (pode, porém, apanhar-se em feiras do livro de ocasião). Os livros desta série são bons instrumentos para actividades escolares ou domésticas. O presente volume é uma introdução prática à fotografia. Na mesma colecção e do mesmo autor italiano, existem também: "O Que as Estrelas Contam", "Observemos o Universo" e "Dínamo e Motor Eléctrico", etc.
Relato simples, divertido e ilustrado de algumas invenções famosas e outras que nem tanto... Entre as primeiras, encontram-se a luz eléctrica e o foguetão. Entre as segundas estão a pastilha elástica e a mini-saia.
Edição cuidada e bem traduzida (a qualidade é assegurada por Galopim de Carvalho, director do Museu Nacional de História Natural e responsável pelo grande êxito das exposições de dinossauros). Destina-se aos jovens mais velhos, podendo ser lido com proveito por adultos. Fornece informação detalhada a quantos se interessam pelos simpáticos bichos, agora tão em moda.
Um guia do universo correcto, actualizado, ilustrado, em grande formato (o original é da Dorling Kindersley), da autoria de dois conhecidos astrónomos. Devia existir em todos os lares e estar ao alcance de todas as crianças! A quantidade de informações que fornece é astronómica. Na mesma colecção há ainda um "Atlas do Mundo", um "Atlas da Terra" e um "Atlas dos Oceanos", entre outros, com qualidade similar. Este último recebeu o apoio da Expo 98.
Uma obra ilustrada de grande formato, repleta de actividades fáceis e seguras sobre electricidade, e destinada especialmente aos mais novos (é mais um original da Dorling Kindersley). Na mesma colecção, ver também "O Meu Primeiro Livro de Ciências - Um Guia de Experiências Simples", de Angela Wilkes, e "O Meu Primeiro Livro de Música", de Helen Drew. Baseado no primeiro existe um vídeo da Dorling traduzido em português pela "Costa do Castelo Filmes".
Livro da famosa zoóloga especialista em macacos. O livro recebeu o Primeiro Prémio Internacional de Livros para Crianças, da Unicef, em 1989. As fotografias são notáveis. Existe em português um vídeo sobre Jane Goodall e os simpáticos macacos, com a chancela da "National Geographic".
VanCleave, educadora norte-americana laureada, é autora de uma série de ciência para jovens que inclui a astronomia, a física, a biologia, etc. Trata-se de uma recolha de actividades útil e motivadora. A qualidade do texto da edição portuguesa é assegurada pela revisão de Nunes dos Santos, professor de história das ciências na Universidade Nova de Lisboa. Contudo, o aspecto gráfico do original é pobre.
Não é propriamente um livro de divulgação científica mas baseia-se numa ideia com algo científica: aproveitar lixos em actividades de trabalhos manuais para fazer obras que estão entre a arte e a ciência... A adaptação é de Maria Alberta Meneres, conhecida escritora de livros infantis.
Biografia breve do grande cientista italiano, escrita especialmente para jovens. Na mesma colecção há biografias de Charles Darwin, Isaac Newton, Madame Curie, etc. A tradução (não assinada!) deixa a desejar, nomeadamente o glossário. Uma outra biografia de Galileu para jovens merece uma referência: Yves Chéraqui, "Galileu", nas Edições Asa.
A Gradiva Júnior é o filho mais novo da Gradiva. Depois de ter estabelecido a sua reputação editando os livros da colecção "Ciência Aberta", a Gradiva tentou em 1991 atingir um público mais jovem. Sob o lema "é preciso começar mais cedo!", a Gradiva Júnior editou já cerca de 40 títulos. Esses livros caracterizam-se pela sua originalidade e interactividade. O mais vendido foi "Ciência com Balões", que incluía balões do PÚBLICO. Tiveram também bastante saída dois volumezinhos sobre biologia, "A Guerra das Células" e "Supercélulas", que eram na Feira do Livro de 1992 acompanhados de uma T-Shirt mas que entretanto se esgotaram. Vários livros da Gradiva baseiam-se em experiências do Centro de Ciência de Ontário, no Canadá, tendo sido editados pela Kids Can Press e pela mais poderosa Addison Wesley. Formam uma colecção que bem poderia ser baptizada "Ciência é Comigo!".
Tradução de um livro da nova série infantil da Freeman, a editora dos livros da "Scientific American". O lançamento no Verão desta obra de grande qualidade passou infelizmente despercebido. Livro rigoroso, cuja ideia básica consiste em descobrir os pormenores fascinantes de um pequeno quadrado de terra no quintal. A atenção pelos pormenores é precisamente um dos princípios da ciência... Está anunciado "Um Quadradinho à Beira Mar", que esperamos ansiosamente.
Conjunto de actividades, jogos e factos curiosos sobre os alimentos, tudo acompanhado de bastantes figuras. Constitui um bom guia da alimentação. Na mesma editora e no mesmo género encontram-se: de Deborah Seed, "O Maravilhoso Livro da Água", com tudo aquilo que um adolescente pode saber sobre a água, e de Carol Gold , "Viagem pela Ciência- Um Livro de Experiências", com uma série interessantíssima de experiências simples (Gold recebeu um prémio de divulgação científica em 1993 do Royal Canadian Institute).
A autora é uma professora canadiana, já conhecida de "Ciência com Balões", o primeiro livro da Gradiva Júnior. Livro com actividades e curiosidades sobre sons e música. O livro inclui uma cassete produzida por António Manuel Baptista, professor de física na Academia Militar e divulgador científico, com o relato "ao vivo" de algumas experiências com sons. O conteúdo da cassette é um pouco desajustado do nível etário dos prováveis leitores do livro, mas os professores e educadores podem ouvi-la com proveito.
Magnífica introdução à astronomia para jovens, com um texto informativo e ilustrações simples mas cativantes. O original foi publicado por uma editora da Califórnia cujos livros se baseiam em experiências concretas de professores que pretendem estimular o gosto pela ciência nos jovens. A tradução do incansável divulgador de astronomia Máximo Ferreira é de confiança (Ferreira é o autor das crónicas no PÚBLICO sobre astronomia). Este livro pode ajudar alunos, professores e pais que encontram nos novos programas de Física do 8.o ano algumas noções básicas de astronomia. Contém um disco que permite saber o peso do leitor em qualquer planeta...
Um livro informativo e atraente que ensina os princípios práticos da ecologia aos mais jovens. Está adaptado à realidade portuguesa, contendo endereços úteis para quem pretenda mais informação (a edição foi patrocinada pelo Instituto Nacional do Ambiente, Instituto Nacional de Defesa do Consumidor e Serviço Nacional de Parques). Sobre o mesmo tema, ver também na Gradiva, de Fred Pearce e Ian Winton, "O Meu Primeiro Livro de Ambiente", que recebeu o prémio Sir Peter Kent 1991 para o melhor livro infantil sobre educação ambiental e o prémio do "The Times Educational Supplement" para o melhor livro infantil de divulgação de 1991. No entanto, a teoria de Gaia, que serve de base aos autores, é controversa.
"Experimenta!" é uma boa colecção de iniciação prática às actividades científicas, cujo título não podia ser mais sugestivo. Engloba uma série de livros que, mais do que para serem lidos, são para serem postos em prática, podendo servir de guia a experiências em casa ou na escola. O presente volume oferece uma boa iniciação para futuros engenheiros. A mesma colecção inclui ainda "O Som", "As Plantas", "A Electricidade", etc. Os autores indicados são-no apenas da concepção gráfica: o autor do texto é David Glover, ajudado por um consultor científico.
Livro sobre ciências da vida com primorosa apresentação gráfica (como todos os livros da Dorling) e ênfase em actividades experimentais. Ganhou o "Science Book Prize", prémio britânico para o melhor livro juvenil de ciência em 1992. As experiências aparecem claramente descritas, permitindo a realização de trabalhos individuais ou de grupo. A edição portuguesa é cuidada, havendo preocupação com a qualidade da tradução. Também saíram nas Selecções "Como Funciona a Ciência" e "Como Funciona a Terra", de aspecto semelhante. Todas elas deveriam existir em todas as nossas escolas. E bem fariam as Selecções se nos inundassem a caixa do correio com propaganda à excelência destes livros em vez de propagandearem os prémios dos sorteios...
Uma história das ciências e das tecnologias, que consiste na apresentação ilustrada de episódios significativos. Uma das poucas obras francesas no meio desta montra anglo-saxónica...
É a editora mais forte nesta área, com centenas de títulos. Tem créditos firmados, que resultam principalmente da sua colaboração com a Dorling Kindersley. Esta casa foi fundada em 1974 por Christopher Dorling e Peter Kindersley mas só em 1982 publicou as suas primeiras edições. Conheceu um êxito que tem vindo a alastrar, estendendo-se recentemente à área do multimédia. Para compreender o seu espírito, o melhor é dar a palavra a Peter Kindersley: "A informação é melhor comunicada, numa primeira fase, por meio de imagens. A maior parte das pessoas acreditou até agora que a palavra deve vir primeiro, e apenas fornecia algumas figuras se pensava que tal era necessário. Nos nossos livros pode-se percorrer uma quantidade enorme de informação de forma rápida por meio de figuras... Acreditamos que mil palavras valem mil imagens. Não estamos a tentar suplantar a palavra. Estamos a tentar mudar o equilíbrio, considerando tudo o que se passa no mundo(...) Estamos a tentar alargar as possibilidades do livro". A Verbo, ao publicar estes livros, presta um contributo valioso à modernização da nossa cultura editorial.
Experiências sobre equilíbrio, algumas delas usando o próprio corpo, de um original da Dorling Kindersley destinado aos mais pequenos e escrito por conceituados pedagogos. Na mesma série: "Vai Mudar?", "O Meu Corpo", etc.
Enciclopédia para jovens (e não só!) ricamente ilustrada, ainda da Dorling Kindersley. A informação factual está, em geral, correcta cientificamente. Repare-se que esta enciclopédia não tem um autor pois é obra de uma vasta equipa, onde avultam os "designers". Existem três outros volumes sobre "Física", "Terra e Espaço" e "A Vida". Os CD-ROMs da Dorling contêm informação enciclopédica sobre ciência: é pena não estarem traduzidos nem facilmente acessíveis no nosso mercado.
Sexto volume da colecção "Visual Ciência" traduzida da colecção "Eyewitness Science", também com a marca inconfundível da Dorling Kindersley. As ilustrações, ocupando mais espaço do que o texto, oferecem uma informação visual riquíssima. A colecção distingue-se facilmente pelas suas capas prateadas, que fazem lembrar espelhos. O presente volume mereceu o "Science Book Prize" em 1994. A mesma colecção inclui ainda, entre outros: "Força e Movimento", "Electricidade" e "A Luz".
Realizado em colaboração com o famoso Museu de Ciência de Londres. Na mesma espectacular colecção existem mais de duas dezenas de títulos, incluindo "Dinossauros", "O Tempo", "Máquinas Voadoras", etc. Alguns, como é o caso de "Dinossauros", têm versões em vídeo traduzidas em português (pela "Costa do Castelo Filmes"). Não se deve confundir a "Enciclopédia Visual" com os "Dicionários Visuais", também da Verbo, que têm maior formato, apesar de por vezes tratarem os mesmos temas. Os fascículos dominicais do PÚBLICO são alguns dos "Dicionários Visuais".